Bellissima
Nora Roberts
Digitalizao e correo: Ireuda Franco
Colaborao: Rafael Franco

Sinopse:

Depois de ter a casa assaltada no Maine, a dra. Miranda Jones, agora que o pior j passou, est decidida a esquecer o incidente. Surge, ento, a oportunidade de
ir s pressas para a Itlia. Ela dever constatar a autenticidade de um bronze renascentista de uma cortes da famlia
Mdici, conhecido como A Senhora Sombria.
Entretanto, em vez de consolidar sua fama de perita excepcional, o trabalho acabar prejudicando a carreira de Miranda e manchar sua reputao: ela dar um veredicto
questionado.
Vendo-se num beco sem sada, pois o relacionamento com a me est emocionalmente estremecido, o irmo, seu porto seguro, encontra-se mergulhado em problemas e no
tendo com quem contar, Miranda  obrigada a fazer uma aliana indesejada com Ryan Boldari, um sedutor ladro de arte.
Finalmente fica claro que o incidente no Maine no foi um mero assalto e que A Senhora Sombria guarda tantos segredos quanto a bela mulher que lhe deu o nome. Para
Miranda obrigada a confiar em si mesma e num parceiro que lhe oferece no somente algumas suspeitas inquietantes, mas tambm uma paixo avassaladora, o caminho
de volta para casa est repleto de traies, deslealdades e perigos que
ameaam todos.

Traduo Maria Clara Mattos
BERTRAND BRASIL
Copyright(c) 1998 by Nora Roberts Ttulo original: Homeport Capa: Leonardo Carvalho Editorao: DFL
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa
2010
Impresso no Brasil Printed in Brazil
CIP-Brasil. Catalogao na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
R549b Roberts, Nora, 1950-
Bellissima/Nora Roberts; traduo Maria Clara Mattos. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. 546p.
Traduo de: Homeport ISBN 978-85-286-1440-4
1. Romance americano. I. Mattos, Maria Clara. II. Ttulo.
CDD-813
10-2993 CDU - 821.111 (73)-3
Todos os direitos reservados pela:
EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA.
Rua Argentina, 171-2 andar - So Cristvo
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Tel.: (0XX21) 2585-2070 - Fax: (0XX21) 2585-2087
No  permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.
Atendimento e venda direta ao leitor:

Para Marianne e Ky, com amor, esperana e admirao

PARTE UM
Porto Seguro
A beleza  sua prpria desculpa para existir.
EMERSON

Captulo Um

O vento gelado e mido perfurava os ossos at a medula. A neve da tempestade do comeo da semana empilhava-se de maneira irregular nas montanhas ao longo da estrada.
O cu era de um cinza-chumbo, carregado. rvores tristes, de galhos despidos, destacavam-se na paisagem de grama ressecada, balanando seus galhos como punhos cerrados
lutando contra o frio.
Era maro no Maine.
Miranda aumentou a potncia do aquecedor at o mximo, programou o CD player para tocar La Bohme, de Puccini, e acelerou, o som do carro nas alturas.
Estava voltando para casa. Depois de dez dias de palestras, pulando do hotel para o campus da universidade, para o aeroporto e de volta para o hotel, Miranda estava
mais que pronta para voltar para casa.
O alvio que sentia talvez tivesse a ver com o fato de detestar falar em pblico; sofria miseravelmente toda vez que precisava
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encarar aquelas filas de rostos famintos e ansiosos. Mas a timidez e o medo da ribalta no tinham permisso para interferir em seus deveres.
Ela era a dra. Miranda Jones, uma Jones de Jones Point. E no tinha permisso para esquecer isso, nunca.
A cidade fora fundada pelo primeiro Charles Jones, homem que deixara sua marca no Novo Mundo. Os Jones, Miranda sabia, precisavam deixar a sua marca, manter sua
posio de lderes de Point, deviam dar sua contribuio social, comportar-se de acordo com o que se esperava dos Jones de Jones Point, Maine.
Animada com a possibilidade de se distanciar do aeroporto, ela adentrou o litoral e acelerou. Dirigir em alta velocidade era um de seus pequenos prazeres. Gostava
de se mover rapidamente, de ir de um ponto a outro no menor espao de tempo possvel. Uma mulher de quase um metro e oitenta, descala, cabelos da cor de um carro
de bombeiros, raramente passava despercebida. Mesmo quando no estava no comando, dava a impresso de liderana.
E, como se movia com a preciso e o calor de um mssil em movimento, a estrada  sua frente geralmente se abria.
Sua voz j fora comparada por um homem apaixonado a um corte de veludo embrulhado em papel rstico. Compensava a sensualidade, que considerava um acidente do destino,
cultivando uma fala rpida, direta, quase sempre muito precisa.
Funcionava.
Seu corpo poderia ser herana de algum guerreiro celta, mas seu rosto era tpico da Nova Inglaterra. Estreito e suave, o nariz fino e comprido, o queixo levemente
arrebitado e mas do rosto que poderiam cortar gelo. A boca, grande, normalmente aparentava seriedade. Os olhos eram da cor azul da bandeira americana refletindo
os fogos do Quatro de Julho, e, na maioria das vezes, sbrios.
Agora, enquanto se entretinha com a longa e ampla estrada que abraava as montanhas enfeitadas de neve, seus lbios e olhos sorriam. Alm das colinas, o mar estava
revolto e cinza-chumbo. Ela
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adorava seus humores, seu poder de acalmar ou excitar. Enquanto a estrada declinava como um dedo torto, ela podia ouvir o chacoalhar vigoroso da gua batendo nas
pedras, depois recuando como um punho cerrado preparando-se para novo ataque.
A neve refletia a luz suave do sol e o vento lanava punhados dela na estrada. Ao longo da orla, as rvores nuas curvavam-se como homens velhos, retorcidas ano aps
ano de tempestades. Quando era criana, e fantasiosa ao extremo, Miranda imaginava as rvores reclamando umas com as outras enquanto se uniam contra o vento.
Apesar de no se considerar mais to cheia de imaginao, ainda gostava da aparncia delas, retorcidas e cheias de ns, porm alinhadas como velhos soldados a postos.
A estrada ascendia e se estreitava, gua insinuando-se nas laterais. O mar e seu rugido, ambos temperamentais, muitas vezes sbrios, desgastavam o litoral com uma
fome perptua. O pedao irregular de terra irrompia na paisagem, o pico mais alto envergado como uma junta artrtica agraciada pela antiga casa vitoriana que vigiava
o mar do topo. Acima dela, onde o solo novamente descia e encontrava a gua, estava a torre do farol que guardava a costa.
A casa fora seu refgio e sua alegria na infncia, devido  mulher que morava ali. Amlia Jones transgredira a tradio dos Jones e vivera da maneira que escolhera,
dizia o que pensava, e, sempre, sempre guardara um lugar em seu corao para os dois netos.
Miranda a adorava. A nica dor verdadeira que conhecera fora quando Amlia morrera
 sem alarde ou aviso, dormindo, oito anos antes.
Ela deixara a casa, uma carteira de ttulos inteligentemente organizada ao longo dos anos, e sua coleo de arte, para Miranda e o irmo. Para seu filho, o pai de
Miranda, deixara o desejo de que fosse metade do homem que esperava quando voltassem a se encontrar. Para a nora, Elizabeth, deixara um colar de prolas, porque
era a nica coisa que pensava ser de sua total aprovao.
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Isso era a cara dela, Miranda pensava agora. Aqueles comentrios incisivos no testamento. Ficara na enorme casa de pedra por anos, vivendo s, tendo sobrevivido
ao marido por mais de uma dcada.
Miranda pensou na av ao chegar ao final da estrada do litoral, e entrou na rua comprida e sinuosa que levava  propriedade.
A casa ao final do caminho sobrevivera aos anos e aos vendavais, ao frio sem piedade do inverno, ao repentino e chocante calor do alto vero. Agora, Miranda pensava
com uma pontinha de culpa, estava sobrevivendo ao abandono.
Nem ela nem Andrew pareciam encontrar tempo para cuidar da pintura ou do gramado. A casa, que fora um lugar mgico quando ela era criana, agora apresentava desgaste
e cicatrizes. Ainda assim, achava-a adorvel, uma velha mulher sem medo de aparentar a idade. Em vez de desmoronar, mantinha-se firme, ereta, como um soldado, digna
em suas pedras acinzentadas, cume e torreo distintos.
Na lateral, uma prgula oferecia charme e sofisticao. Trepadeiras subiam pelos lados da casa, cobrindo o telhado de flores no vero. Miranda sempre quisera ter
tempo de sentar-se em um dos bancos de mrmore sob aquela rvore e deliciar-se com seu perfume, sua sombra, o silncio. Mas, de alguma maneira, a primavera adentrava
o vero, o vero o outono, e ela nunca se lembrava de sua promessa at que fosse inverno, quando os galhos grossos desnudavam-se.
Talvez uma parte do piso da ampla varanda da frente precisasse de reforma. Certamente os remates e as persianas, passadas de azul a cinza, precisavam de raspagem
e pintura. A trepadeira na prgula certamente precisava de poda e trato, e de todo o resto necessrio nesses casos.
Ela o faria. Mais cedo ou mais tarde.
Mas as janelas cintilavam e os rostos ferozes das grgulas acocoradas nos beirais sorriam. Terraos compridos e varandas estreitas
ofereciam vista em todas as direes.
A chamin liberava fumaa
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quando algum se dava o trabalho de acender a lareira. Grandes carvalhos antigos, altos, e uma densa fileira de pinheiros aparavam o vento ao norte da casa.
Ela e o irmo dividiam o espao de maneira igualitria ou o haviam feito, at que o alcoolismo de Andrew se tornasse habitual. Mas ela no pensaria nisso. Gostava
de t-lo por perto, amava-o, e o fato de trabalhar com ele, de dividir uma casa com ele, era um prazer.
O vento soprou o cabelo em seus olhos assim que saltou do carro. Ligeiramente irritada, ela o colocou de volta no lugar, depois inclinou-se para pegar o laptop e
a pasta. Pendurou os dois no ombro, cantarolando o finalzinho da pera de Puccini, deu a volta at o porta-malas e o abriu.
O cabelo caiu-lhe no rosto novamente, fazendo com que deixasse escapar um suspiro irritado. Suspiro que se transformou em um quase engasgo, visto que seu cabelo
foi agarrado com um puxo e usado como uma corda para trazer sua cabea para trs. Pequenas estrelas brancas brilharam diante de seus olhos, enquanto dor e choque
tomavam conta de seu crnio. E a ponta de uma faca pressionou seu pescoo.
O medo era constante em sua cabea, uma chama primitiva que queimava em suas entranhas e apertava-lhe a garganta. Antes que pudesse gritar, foi virada, empurrada
de encontro ao carro e a pon-tada de dor em seu quadril nublou-lhe a viso, enfraqueceu-lhe as pernas. A mo puxou-a pelo cabelo novamente, sacudindo sua cabea
como se fosse uma boneca.
O rosto dele era hediondo. Branco como cera e marcado por cicatrizes, suas feies eram duras. Foram precisos vrios segundos antes que, aterrorizada, pudesse ver
que ele usava uma mscara com tinta e borracha misturadas e transformadas em deformidade.
Ela no lutou, no poderia. No havia nada de que tivesse mais medo que uma faca afiada, a lmina lisa e mortal. A ponta aguda fazia presso pouco abaixo de seu
maxilar, e cada vez que respirava, sentia um tremor de dor e medo.
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Ele era grande. Um metro e noventa mais ou menos, ela percebeu, esforando-se para prestar ateno aos detalhes enquanto sentia o corao na garganta, onde a lmina
a pressionava. Devia pesar uns cem quilos, os ombros largos, o pescoo curto.
Meu Deus!
Olhos castanhos. Escuros. Foi tudo que pde ver atravs das frestas na mscara de borracha que ele usava. E os olhos eram inexpressivos, frios como os de um tubaro,
e pareciam sem paixo, enquanto ele pressionava a faca, deslizando a lmina em sua garganta, ferindo-lhe a pele delicada.
Sentiu uma pequena ardncia e uma linha fina de sangue escorreu at a gola de seu casaco.
- Por favor! - As palavras saram de sua boca enquanto ela instintivamente atacava o punho da mo que segurava a faca. Todo pensamento racional era apagado
por um medo gelado enquanto ele puxava sua cabea para trs, deixando exposta a linha vulnervel de sua garganta.
Na sua mente, imagens da faca rasgando-lhe a pele uma vez, rpida e silenciosamente, atingindo-lhe a cartida, deixando escapar um jorro de sangue quente. E ela
morreria aos ps dele, abatida como um cordeiro.
- Por favor, no. Eu tenho trezentos e cinqenta dlares em dinheiro.
- Por favor, Deus, permita que seja dinheiro o que ele quer, ela pensou, frentica.
Permita que seja somente dinheiro. Se fosse estupro, rezou para ter coragem de lutar, mesmo sabendo que no venceria.
Se fosse sangue, desejou que fosse rpido.
- Eu te dou o dinheiro - comeou a falar enquanto ele a sacudia como se fosse um pano de cho.
Ela caiu de joelhos, as mos no cho de pedrinhas, a ardncia dos cortes nas palmas. Podia ouvir os prprios gemidos, odiava o desamparo, o medo paralisante que
tornava impossvel fazer mais que olhar para ele, os olhos embaados pelas lgrimas.
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Olhar para a faca que brilhava sob o sol. Mesmo que sua mente gritasse por socorro, para fugir dali, ela se encolhia, paralisada.
Ele pegou sua bolsa, sua pasta e virou a faca de maneira que o sol refletisse um feixe de luz em seus olhos. Depois, ele se inclinou e enfiou a ponta da lmina no
pneu de trs do carro. Deu um passo na direo dela e ela comeou a engatinhar em direo  casa.
Esperou que ele a golpeasse novamente, que rasgasse suas roupas, que enfiasse a faca nas suas costas com a mesma fora descuidada que usara para perfurar o pneu,
mas, mesmo assim, continuou se arrastando na grama ressecada pelo inverno.
Quando alcanou os degraus, olhou para trs com os olhos atordoados e murmrios de pavor escapando-lhe por entre os lbios.
E viu que estava s.
A respirao curta atravessava-lhe a garganta, queimava-lhe os pulmes enquanto ela se arrastava subindo os degraus. Precisava entrar em casa, fugir. Trancar a porta.
Antes que ele voltasse e usasse aquela faca contra ela.
Sua mo escorregou na maaneta uma vez, duas vezes, antes que conseguisse firmar seus dedos nela. Trancada. Claro que estava trancada. No havia ningum em casa.
No havia ningum ali para ajud-la.
Por um momento, simplesmente encolheu-se ali, do lado de fora, tremendo de choque e de frio, o vento rasante nas montanhas.
Mexa-se, ordenou a si mesma. Voc precisa se mexer. Pegue a chave, entre, chame a polcia.
Seus olhos percorreram o ambiente rapidamente, como os de um coelho atento  presena de lobos, e seus dentes comearam a bater. Usando a maaneta para apoiar-se,
levantou-se. Suas pernas ameaaram ceder, o joelho esquerdo doa, mas ela disparou porto afora, passadas trpegas, procurando freneticamente pela bolsa antes de
se lembrar que ele a levara.
Balbuciou palavras, oraes, xingamentos, pedidos de ajuda, enquanto abria a porta do carro e suas mos buscavam algo no
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porta-luvas. Com os dedos apertando o chaveiro reserva na mo, um som a fez girar e olhar em volta desvairadamente, as mos para cima, em posio de autodefesa.
No era nada alm do vento correndo por entre os galhos enegrecidos e nus das rvores, castigando as roseiras repletas de espinhos, a grama ressecada.
Respirando com dificuldade, partiu em direo  sua casa numa corrida desajeitada e manca, enfiou a chave na fechadura com desespero e gemeu de alvio ao entrar.
Entrou aos tropees, bateu a porta, trancou-a. Quando apoiou as costas na madeira slida, as chaves escaparam-lhe pelos dedos, caindo no cho com rudo quase musical.
Sua viso ficou turva, ela fechou os olhos. Tudo estava dormente agora, corpo e mente. Precisava dar o prximo passo, agir, superar, mas no conseguia lembrar o
que fazer.
Os ouvidos zumbiam e sentiu uma onda forte de enjoo. Cerrando os dentes, deu um passo  frente, depois outro, o hall pareceu balanar suavemente de um lado a outro.
Estava perto da base da escadaria quando se deu conta de que no eram seus ouvidos que zumbiam, mas o telefone que tocava. Mecanicamente, cruzou o cmodo at o gabinete,
onde tudo parecia to normal, to familiar, e atendeu o telefone.
- Al? - Sua voz soou distante, fraca como a nota nica de um instrumento de percusso. Inclinando-se ligeiramente, percebeu os raios do sol que atravessavam a janela
e marcavam o cho de tbuas corridas. - Certo. Ok, entendi. Eu vou. Tenho que...
- O qu? Sacudindo a cabea como quem busca as palavras, Miranda tinha dificuldades
em lembrar o que deveria dizer. - Tenho que resolver umas coisas... antes. No, vou assim que puder.
Depois, uma sensao cresceu dentro dela, mas estava muito zonza para reconhecer a prpria histeria. - Minhas malas j esto prontas - disse e riu.
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Ainda ria quando desligou o telefone. Ria quando deixou-se cair numa poltrona, sem perceber que se enroscara em posio fetal, sem perceber que o riso transformava-se
em soluo.
Segurava uma caneca de ch quente com as duas mos,
mas no o bebia. Sabia que a caneca tremia, mas era reconfortante segur-la, sentir o calor nos seus dedos enregelados, acalmando suas palmas cansadas e feridas.
Fora coerente, era imperativo ser coerente, clara e precisa quando fez seu relato  polcia.
Assim que se sentiu capaz de pensar novamente, deu os telefonemas apropriados, falou com os policiais que foram  sua casa. Mas, agora que tudo fora providenciado
e ela estava sozinha outra vez, no parecia conseguir sustentar um s pensamento coerente por mais de dez segundos.
- Miranda! - O grito foi seguido pelo estrondo da porta da frente batendo. Andrew entrou apressado e, preocupado, estudou o rosto da irm. - Jesus. - Correu
at ela, ajoelhou-se a seus ps e passou os longos dedos pelo rosto plido dela. - Ah, minha flor!
- Eu t bem. S uns ferimentos. - Mas o controle que ela se esforara para aparentar no era convincente. - O susto foi pior que a agresso fsica.
Ele viu os rasgos na cala  altura dos joelhos, o sangue seco no tecido. - Filho da me! - Seus olhos, de um azul mais plcido que os da irm, imediatamente se
tornaram sombrios de horror. - Ele... - Suas mos buscaram as dela, de maneira que tambm envolveram a caneca. - Ele estuprou voc?
- No. No. No foi nada disso. Ele s roubou minha bolsa. S queria dinheiro. Desculpa ter pedido  polcia pra te ligar. Eu mesma devia ter feito isso.
- Tudo bem. No se preocupa com isso. - Ele apertou as mos da irm, depois as soltou rapidamente quando ela gemeu. 
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Ah, baby. - Tirou-lhe a caneca das mos, colocou-a de lado, depois levantou as palmas feridas da irm. - Eu sinto tanto. Vem, vou levar voc pro hospital.
- Eu no preciso de hospital. So s uns ferimentos. - Ela respirou fundo, achando tudo mais fcil agora que ele estava ali.
Ele podia enfurec-la, e a desapontara. Mas, em toda a sua vida, fora o nico sempre presente, o nico pronto a estar ao seu lado.
Ele pegou a caneca de ch, colocou-a de volta nas mos da irm.
- Bebe um pouquinho - ordenou, antes de se levantar e andar um pouco para afastar o medo e a raiva.
Tinha o rosto fino, anguloso, que combinava com o corpo esguio. A tonalidade de sua pele era a mesma da irm, apesar de o cabelo ser de um vermelho mais escuro,
quase mogno. O nervoso fazia com que batesse com as mos nas pernas enquanto andava.
- Queria estar aqui. Droga, Miranda! Eu devia estar aqui.
- Voc no pode estar em todos os lugares, Andrew. Ningum podia prever que eu ia ser assaltada no nosso prprio jardim. Eu acho, e a polcia tambm acha,
que ele provavelmente ia invadir a casa, roubar a gente, e como eu apareci, ele mudou os planos.
- Disseram que ele tinha uma faca.
- . - Cautelosamente, ela levou a mo at o discreto corte em sua garganta. - E posso dizer que no superei minha fobia. Bastou eu olhar pra faca e meu crebro
simplesmente parou de funcionar.
Os olhos de Andrew ficaram sombrios, mas ele falou gentilmente enquanto voltava e sentava-se a seu lado. - O que foi que ele fez? Conta.
- Ele simplesmente apareceu do nada. Eu tava tirando minhas coisas da mala do carro. Ele me puxou pelo cabelo, espetou a faca no meu pescoo. Achei que ia
me matar, mas ele me jogou no cho, pegou minha bolsa, minha pasta, furou os pneus e sumiu. - Conseguiu esboar um sorriso frgil. - No era exatamente a recepo
que eu esperava.
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- Eu devia estar aqui - ele disse mais uma vez.
- Para, Andrew. - Ela se recostou nele, fechou os olhos. - Voc est aqui agora. - E isso, aparentemente, era o suficiente para equilibr-la. - A mame ligou.
- O qu? - Ele havia passado o brao em volta dos ombros dela, e agora trazia o tronco  frente para encarar a irm.
- O telefone estava tocando quando eu entrei em casa. Meu Deus, ainda estou zonza - ela reclamou e passou a mo na testa. - Tenho que ir pra Florena amanh.
- Deixa de ser ridcula! Voc acabou de chegar em casa e t machucada, instvel. Caramba, como  que ela pode pedir pra voc entrar num avio logo depois
de ser atacada?
- Eu no contei pra ela. - Ela deu de ombros. - No estava concatenando as idias. De qualquer jeito, o chamado foi em alto e bom som. Tenho que fazer uma
reserva.
- Miranda, voc vai pra cama.
- Claro. - Ela sorriu novamente. - J, j.
- Eu ligo pra ela. - Ele engoliu o ar como um homem faz quando depara com uma tarefa difcil. - Eu explico pra ela.
- Meu heri. - Com amor, Miranda beijou-lhe o rosto. - No, eu vou. Um banho quente, uma aspirina e vou ficar bem. E depois dessa pequena aventura, uma distrao
no vai ser nada mal. Parece que ela quer que eu d uma olhada numa escultura de bronze. - Como o ch havia esfriado, ela o deixou de lado novamente. - Ela no me
chamaria na Standjo se no fosse importante. Quer algum pra datar a pea, e rpido.
- Ela tem gente pra fazer isso na equipe.
- Exatamente. - O sorriso de Miranda foi suave e inteligente. "Standjo" significava Standford-Jones. Elizabeth certificara-se de que no somente seu nome,
mas tudo o mais em sua agenda, viesse em primeiro lugar na operao de Florena. - Ento, se ela t me chamando,  porque a coisa  grande. Quer que fique tudo em
famlia. Elizabeth Standford-Jones, diretora da Standjo em Florena, est
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atrs de um expert em esttuas italianas renascentistas de bronze, e quer um Jones. No pretendo ser motivo de desapontamento pra ela.
Ela no teve a sorte de marcar um voo para o dia seguinte, de manh, e teve que se contentar com um noturno para Roma, com troca de aeronave para Florena.
Quase um dia inteiro de atraso.
Isso seria um problema.
Enquanto tentava se livrar das dores dentro de uma banheira de gua quente, Miranda calculou a diferena de fuso horrio e chegou  concluso de que no fazia sentido
ligar para a me. Elizabeth estaria em casa, provavelmente j na cama.
Nada pode ser feito esta noite, disse para si mesma. De manh, telefonaria para a Standjo. Um dia no faria tanta diferena, mesmo para Elizabeth.
Contrataria um carro para lev-la ao aeroporto, porque, do jeito que seu joelho latejava, dirigir poderia ser um problema, mesmo que conseguisse trocar os pneus
rapidamente. Tudo o que tinha de fazer era...
Sentou-se ereta na banheira, espalhando gua pela borda.
Seu passaporte. O passaporte, a carteira de motorista, os documentos de identificao da empresa. Ele levara sua pasta - levara todos os seus documentos.
- Ai, que inferno! - Foi o que conseguiu exclamar enquanto esfregava as mos no rosto. Isso s melhorava a situao.
Arrancou o tampo da banheira. Estava fervendo agora, o lampejo de raiva fazendo com que ficasse de p, e buscasse a toalha antes que seu joelho dolorido cedesse.
Engolindo um uivo de dor, apoiou uma das mos na parede e sentou-se na borda da banheira, a toalha escorregou e caiu na gua.
As lgrimas queriam saltar de seus olhos, lgrimas de frustrao, de
dor, do medo sbito que voltava a atac-la. Ficou ali sentada,
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nua, tremendo, o ar sendo expelido em pequenos engasgos assovia-dos, at que pudesse controlar-se.
Lgrimas no a ajudariam a recuperar seus documentos, sarar suas feridas, nem fariam com que chegasse a Florena. Engoliu-as e torceu a toalha. Cuidadosamente, usou
as mos para levantar as pernas e tir-las de dentro da banheira, uma de cada vez. Ficou de p, um suor gelado grudava-lhe na pele, fazendo com que lgrimas despontassem
em seus olhos mais uma vez. Mas manteve-se de p, agarrando-se  pia em busca de apoio, conferindo a prpria imagem no espelho de corpo inteiro perto da porta.
Seus braos estavam feridos. Ela no se lembrava de ter sido agarrada por ele ali, mas as marcas eram de um cinza-escuro, portanto, isso obviamente acontecera. O
quadril tinha manchas roxas e estava incrivelmente dolorido. Isso, ela se lembrava, era o resultado de ter sido jogada de encontro ao carro.
Seus joelhos estavam lanhados, o esquerdo, nada atraente, vermelho e inchado. Deve ter sido o mais atingido na hora da queda, talvez tivesse torcido. A parte inferior
das mos ardia devido ao rude encontro com as pedras do cho.
Mas foi o corte longo e pouco profundo na garganta que fez com que sua cabea ficasse area e seu estmago revirasse de nuseas. Fascinada e chocada, levou os dedos
at a ferida. A um milmetro da jugular, pensou. Um milmetro da morte.
Se ele a quisesse morta, ela teria morrido.
E isso era pior que os ferimentos, que as dores. Um estranho tivera sua vida nas mos.
- Nunca mais. - Ela se afastou do espelho e caminhou claudicante at o robe, pendurado num gancho atrs da porta. - No vou deixar acontecer de novo.
Congelando de frio, enrolou-se no robe o mais rpido que pde. Enquanto esforava-se para amarr-lo, uma movimentao do lado de fora da janela fez com que virasse
rapidamente a cabea, o corao aos saltos.
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Ele voltara.
Ela queria correr, esconder-se, gritar por Andrew, enroscar-se atrs da porta trancada. E com os dentes cerrados, esgueirou-se at a janela e olhou para fora.
Era Andrew, pde ver com uma onda de alvio. Vestia seu casaco preferido para cortar lenha ou escalar as montanhas. Acendera as luzes, logo ela conseguiu enxergar
o objeto brilhante que tinha na mo, algo que balanava enquanto ele caminhava pelo jardim.
Intrigada, aproximou o rosto da janela.
Um taco de golfe? O que ele estaria fazendo do lado de fora, cruzando o jardim coberto de neve com um taco de golfe?
Depois compreendeu, e uma onda de amor a inundou, acalmando-a mais que qualquer analgsico.
Ele a estava guardando. As lgrimas voltaram. Uma acabou escapando. Depois, ela o viu parar, tirar algo do bolso e suspender o
E ela o viu dar um gole numa garrafa.
Ah, Andrew, ela pensou, enquanto seus olhos se fechavam e seu corao sucumbia. Que confuso ns somos!
A dor a acordou, o joelho latejando. miranda tateou em busca do interruptor e retirou comprimidos de um frasco que colocara na mesa de cabeceira. Enquanto engolia,
deu-se conta de que devia ter seguido o conselho de Andrew para ir at o hospital, onde algum mdico simptico teria receitado drogas mais potentes.
Olhou na direo do visor iluminado do relgio, viu que j passava das trs. Pelo menos o coquetel de ibuprofeno com aspirina que tomara  meia-noite lhe dera trs
horas de descanso. Mas estava acordada agora, lutando contra a dor. Melhor acabar com isso e encarar as conseqncias.
Com a diferena de fuso horrio, Elizabeth estaria no escritrio. Miranda pegou o telefone e fez a ligao. Gemendo um pouco, ajeitou os travesseiros na cabeceira
de ferro da cama e recostou-se.
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- Miranda, ia deixar um recado no hotel, pra quando voc chegasse amanh.
- Vou ter que adiar a viagem. Eu...
- Adiar? - A palavra soou como a ponta de uma pedra de gelo, fria e aguda.
- Desculpe.
- Eu achei que tinha deixado claro que esse projeto  prioridade. Dei minha palavra ao governo que comearamos os testes hoje.
- Vou mandar o John Carter. Eu...
- No chamei John Carter, chamei voc. Seja qual for o outro trabalho que voc tenha, pode ser passado para outra pessoa. Achei que tinha deixado isso bem
claro tambm.
- , voc deixou. - No, ela pensou, os comprimidos no ajudariam dessa vez. Mas a raiva fria que comeava a revolver em seu interior comeava a afastar a
dor. - Eu tinha toda inteno de estar a, como combinado.
- Ento, por que no est?
- Meu passaporte e meus outros documentos foram roubados ontem. Vou providenciar a segunda via assim que puder e remarcar o voo. Como hoje  sexta-feira,
duvido que consiga ter os documentos antes do meio da semana.
Ela sabia como funcionava a burocracia, Miranda pensou com alguma irritao. Crescera numa.
- Mesmo num lugar calmo como Jones Point,  uma tolice no trancar o carro.
- Os documentos no estavam no carro, estavam comigo. Aviso assim que estiver com tudo pronto e o horrio da viagem. Peo desculpas pelo atraso. O projeto
vai contar com meu tempo integral e toda a minha ateno assim que eu chegar. Tchau, me.
Desligar antes que Elizabeth pudesse dizer mais alguma coisa deu a ela uma perversa satisfao.
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Em seu escritrio espaoso e elegante, a quase cinco
mil quilmetros de distncia, Elizabeth olhava para o telefone num misto de irritao e confuso.
- Aconteceu alguma coisa?
Distrada, Elizabeth desviou o olhar e viu a ex-nora, Elise Warfield, sentada, prancheta no colo, os grandes olhos verdes com uma expresso intrigada, a boca viosa
num ligeiro sorriso.
O casamento de Elise e Andrew no dera certo, o que era frustrante para Elizabeth. Mas seu relacionamento pessoal e profissional com Elise no fora prejudicado pelo
divrcio.
- Aconteceu. Miranda vai se atrasar.
- Atrasar? - Elise levantou as sobrancelhas, de modo que elas desapareceram sob a franja. - A Miranda no  disso.
- Roubaram o passaporte e os outros documentos dela.
- Nossa, que horror! - Elise levantou-se. No chegava a um metro e sessenta. Seu corpo tinha curvas femininas e aparentava delicadeza. Com o cabelo preto
e muito liso, os olhos de clios fartos, a pele de marfim e a boca vermelha, parecia uma fada sensual e eficiente. - Ela foi roubada?
- No sei detalhes. - Os lbios de Elizabeth se comprimiram ligeiramente. - Ela vai tirar a segunda via dos documentos e remarcar o voo. Isso talvez leve
alguns dias.
Elise ia perguntar se Miranda se ferira, mas desistiu. Pelo olhar de Elizabeth, ou ela no sabia ou essa no era sua maior preocupao. - Sei que voc quer comear
os testes hoje. A gente pode resolver isso. Eu coloco algum fazendo meu trabalho e comeo eu mesma a fazer os testes.
Considerando a possibilidade, Elizabeth se levantou e virou-se para a janela. Sempre pensava com mais clareza quando apreciava a vista da cidade. Florena era seu
lar, assim era desde a primeira vez que estivera ali. Tinha dezoito anos, era uma jovem universitria com uma Daixo desesperada pela arte e uma sede secreta de
aventura.
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Apaixonara-se perdidamente pela cidade e por seus telhados vermelhos, suas cpulas majestosas, as ruas sinuosas e as praas agitadas.
E apaixonara-se por um escultor que a levara para a cama com seu charme, cozinhara uma massa para ela e lhe mostrara o que era o amor.
Obviamente, ele no era apropriado. Completamente inapro-priado. Pobre e selvagemente apaixonado. Seus pais a mandaram rapidamente de volta a Boston no momento em
que souberam do affair.
E isso,  claro, foi o fim de tudo.
Ela se restabeleceu, irritada por se ter deixado levar daquela maneira. Fizera as prprias escolhas, e elas eram excelentes.
Agora era a cabea de um dos maiores e mais respeitados estabelecimentos de pesquisa de arte do mundo. A Standjo podia ser um dos braos das organizaes Jones,
mas era dela. Seu nome vinha  frente, e, aqui, ela tambm.
Ficou olhando pela janela, uma mulher ajeitada, atraente aos cinqenta e oito anos. O cabelo de um louro suave, discretamente pintado e mantido em um dos melhores
sales de Florena. Seu gosto impecvel refletia-se no corte perfeito do terno Valentino cor de berinjela, de botes dourados. A cor do sapato de couro combinava
perfeitamente.
A pele clara e o porte altivo, herana da Nova Inglaterra, superavam os traos da idade que se atreviam a dar sinais de vida. Os olhos azuis eram argutos e impiedosamente
inteligentes. A imagem era a de uma mulher tranqila, fashion, profissional e muito bem-sucedida.
Nunca teria se contentado com menos.
No, pensou, nunca se contentaria com nada que no fosse o melhor.
- Vamos esperar por ela - disse e virou-se para Elise. -  a especialidade dela. Vou entrar em contato pessoalmente com o ministro e explicar o pequeno atraso.
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Elise sorriu. - Ningum entende de atraso como os italianos.
-  verdade. Vamos terminar esses relatrios mais tarde, Elise. Quero dar esse telefonema agora.
- Voc  a chefe.
- Sou. Ah, John Carter vai chegar amanh. Ele vai trabalhar na equipe com Miranda. Fique  vontade para passar algum outro trabalho para ele nesse meio-tempo.
No faz sentido ele ficar aqui sem fazer nada.
- O John est vindo? Que bom! Ele sempre pode ser til no laboratrio. Vou providenciar isso.
- Obrigada, Elise.
Quando ficou s, Elizabeth voltou para sua escrivaninha e observou o cofre do outro lado da sala. Pensou no que havia ali dentro.
Miranda encabearia o projeto. Sua deciso fora tomada no momento em que vira a estatueta de bronze. Seria uma operao da Standjo, com uma Jones no comando. Era
esse seu plano, sua expectativa.
E assim seria.
Captulo Dois
Miranda estava cinco dias atrasada, portanto movia-se rapidamente, atravessando as portas medievais da Standjo, Florena, e caminhava de maneira que seus saltos
soavam como tiros rpidos de revlver no piso de mrmore absolutamente branco.
Fixou o crach de identificao que a assistente de Elizabeth providenciara da noite para o dia na lapela do palet enquanto rodeava a excelente reproduo em bronze,
de Cellini, da figura de Perseu segurando a cabea sem vida de Medusa.
Miranda muitas vezes se perguntara o que o tipo de objeto de arte escolhido pela me para o lobby de entrada dizia sobre ela. Derrubaria todos os inimigos, imaginava,
com um s e eficiente golpe.
Parou no balco do lobby, girou o livro de presenas e assinou-o rapidamente, conferindo o horrio no relgio de pulso para anotar junto  assinatura.
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Vestira-se de maneira cuidadosa, at mesmo estratgica, para o dia: terno de seda azul-rei de corte reto, tradicional. Miranda o considerava ao mesmo tempo alinhado
e poderoso.
Quando voc vai encontrar o diretor de um dos mais importantes laboratrios de datao de peas de arte do mundo, sua aparncia  inevitavelmente importante. Mesmo
que esse diretor seja sua me.
Principalmente se o diretor  sua me, Miranda pensou com o mais plido dos sorrisos de escrnio.
Pressionou o boto do elevador e esperou, a impacincia latente. O nervoso dava voltas em seu estmago, subia-lhe pela garganta, fazia zumbir sua cabea. Mas ela
no deixava transparecer.
No minuto em que entrou no elevador, abriu o p compacto e retocou o batom. Um batom seu poderia durar um ano, s vezes at mais. S se preocupava com essas pequenas
coisas quando elas no podiam ser evitadas.
Satisfeita por ter feito seu melhor, guardou a maquiagem e passou a mo no cabelo para conferir o sofisticado coque que levara tempo demais para ser feito. Empurrou
firmemente alguns grampos de volta aos lugares assim que as portas voltaram a se abrir.
Entrou no lobby sofisticado e silencioso do que pensava ser um lugar sagrado. O carpete perolado e as paredes de marfim, as cadeiras antigas de encosto rgido, tudo
combinava com sua me, pensou. Bonito, de bom gosto e desapegado. O console lustroso onde a recepcionista trabalhava com telefones e o computador de ltima gerao
era tambm a cara de Elizabeth. Tudo muito eficiente, gil e absolutamente moderno.
- Buon giorno. - Miranda aproximou-se da recepcionista e apresentou-se brevemente num italiano impecvel. - Sono la Dottoressa Jones. Ho un appuntamento con
la Signora Standford-Jones.
- Si, Dottoressa. Un momento.
Miranda imaginou-se mudando o p de apoio, ajeitando o palet, girando os ombros. s vezes, imaginar-se mudando de posio ajudava a manter o corpo quieto. Acabara
de pensar numa ligeira caminhada quando a recepcionista sorriu e liberou sua entrada.
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Miranda atravessou a porta de vidro dupla  sua esquerda e cruzou o corredor frio e branco que levava  sala da Signora Direttrice.
Bateu  porta. Era sempre preciso bater a qualquer porta de Elizabeth. A resposta, "Entri", foi imediata.
Elizabeth estava  sua mesa, um elegante mvel assinado, de madeira clara, que se adequava perfeitamente ao seu visual aristocrtico da Nova Inglaterra. Emoldurada
pela janela ao fundo, via-se Florena em todo o seu esplendor ensolarado.
Uma de cada lado do cmodo, olharam-se, avaliando-se brevemente.
Elizabeth falou primeiro: - Como foi sua viagem?
- Normal.
- timo.
- Voc t com a cara tima.
- Estou tima. E voc?
- Tudo bem. - Miranda imaginou-se danando sapateado no escritrio perfeitamente decorado, e manteve-se ereta como um cadete sendo inspecionado.
- Voc quer um caf? Uma bebida gelada?
- No, obrigada. - Miranda levantou uma sobrancelha. - Voc no perguntou sobre o Andrew.
Elizabeth indicou a cadeira. - Como vai seu irmo?
Pssimo, pensou Miranda. Bebendo demais. Com raiva, deprimido, amargo. - Tudo bem. Mandou lembranas - mentiu sem pestanejar. - Imagino que voc tenha dito  Elise
que eu vinha.
- Claro que sim. - Como Miranda continuasse de p, Elizabeth levantou-se. - Todos os chefes de departamento, e os membros das equipes, sabem que voc vai
ficar trabalhando aqui temporariamente. O Bronze Fiesole  prioridade. Naturalmente voc ter livre acesso aos laboratrios e aos equipamentos, e contar com a cooperao
e a assistncia de qualquer pessoa da equipe que escolher.
- Falei com John, ontem. Voc ainda no fez nenhum teste.
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- No. Esse atraso j nos custou tempo e espero que voc comece imediatamente.
-  por isso que eu estou aqui.
Elizabeth inclinou a cabea. - O que aconteceu com a sua perna? Voc est mancando um pouco.
- Fui assaltada, lembra?
- Voc disse que tinha sido roubada, no ferida.
- Voc no perguntou.
Elizabeth deixou escapar o que qualquer um que no fosse Miranda teria considerado um suspiro. - Voc devia ter explicado que tinha sido machucada durante o incidente.
- Devia. Mas no fiz. A prioridade era, afinal de contas, a perda dos meus documentos e o atraso que isso causou. - Ela inclinou a cabea, espelhando o gesto
de Elizabeth. - Isso ficou bem claro.
- , acho que sim... - Elizabeth interrompeu o que comeava a dizer, gesticulando com a mo de maneira que parecia demonstrar perturbao ou derrota. - Por
que voc no senta, enquanto eu te relato um pouco da situao?
Ento o assunto seria exposto. Miranda esperara por isso. Sentou-se, cruzando as pernas.
- O homem que descobriu o bronze...
- O encanador.
- Isso. - Pela primeira vez Elizabeth sorriu, um movimento rpido de lbios que parecia mais reconhecimento do absurdo da situao do que sinal de diverso.
- Cario Rinaldi. Aparentemente, no fundo ele  um artista, se no  de fato. Nunca conseguiu viver da pintura, e o pai da mulher tem uma empresa de servios hidrulicos,
ento...
A sobrancelha de Miranda moveu-se rapidamente em sinal de ligeira surpresa. - O currculo dele importa?
- S no caso da ligao dele com a estatueta. Que parece ser
nenhuma! Ele, pelo que se sabe, literalmente tropeou nela. Alega
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que encontrou a pea escondida debaixo de um degrau quebrado no poro da Villa delia Donna Oscura. E isso, at onde se verificou, parece ser verdade.
- Existia alguma dvida quanto a isso? Algum acha que ele inventou a histria, e o bronze?
- Se existia, o ministro est satisfeito com a histria de Rinaldi, agora.
Elizabeth cruzou as mos meticulosamente manicuradas sobre a borda da mesa. Sua coluna, rigidamente ereta como uma rgua. De modo inconsciente, Miranda moveu-se
discretamente, endireitando a postura.
- O fato de ele ter encontrado a pea - continuou Elizabeth - e guardado na caixa de ferramentas, para depois procurar os canais apropriados e relatar o achado,
tudo isso causou uma preocupao no incio.
Confusa, Miranda cruzou as mos para impedir-se de bater com os dedos no joelho. No lhe ocorreu que reproduzia exatamente a pose da me. - H quanto tempo ele t
com a pea?
- Cinco dias.
- No houve nenhum dano? Voc examinou o bronze?
- Examinei. Prefiro no fazer nenhum comentrio antes que voc mesma d uma olhada.
- Ok. - Miranda inclinou a cabea. - Vamos dar uma olhada.
Em resposta, Elizabeth foi at o armrio e abriu a porta, revelando um pequeno cofre de ferro.
- Voc t guardando a pea aqui?
- Minha segurana  mais que adequada. Algumas pessoas tm acesso s coisas de valor nos laboratrios, e eu preferi limitar o acesso nesse caso. E achei que
seria menos arriscado se voc a examinasse aqui.
Com a unha de esmalte coral, Elizabeth pressionou os botes com o cdigo, esperou, depois teclou outra srie de nmeros. Abriu a porta reforada e retirou do cofre
uma caixa de metal.
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Depois de coloc-la sobre a mesa, abriu a tampa e pegou um pequeno volume embrulhado em veludo dobrado.
- Vamos datar o pano tambm, e a madeira do degrau.
- Com certeza. - Apesar de seus dedos coarem, Miranda levantou-se e foi  frente devagar, quando Elizabeth colocou o embrulho sobre seu bloco de notas impecavelmente
branco. - No tem nenhum documento, certo?
- At agora, no. Voc conhece a histria da villa.
- Claro. J foi a casa da prostituta de Lorenzo, o Magnfico, Giulietta Buonadoni, conhecida como a Senhora Sombria. Depois da morte dele, as pessoas achavam
que ela passara a ser acompanhante de outro Mdici. Vrias vezes, expoentes da Renascena de Florena, ou dos arredores, foram vistos e bem-vindos na casa dela.
- Ento voc sabe quais so as possibilidades.
- Eu no lido com possibilidades - Miranda disse secamente.
- Exatamente.  por isso que voc est aqui.
Delicadamente, Miranda passou um dedo sobre o veludo envelhecido que embrulhava o bronze. - ?
- Eu queria o melhor, e estou em posio que me possibilita ter o que quero. Tambm exijo discrio. Se as informaes sobre essa descoberta vazarem, as especulaes
vo fugir do controle. Isso  uma coisa que a Standjo no pode arriscar. O governo no quer nenhuma publicidade, nenhuma especulao pblica, at o bronze ser testado
e datado.
- O encanador provavelmente j contou tudo pros companheiros de copo.
- Acho que no. - Mais uma vez, aquele sorriso plido se formou nos lbios de Elizabeth. - Ele tirou a estatueta de um prdio do governo. Est bem avisado,
a esta altura, de que, se no fizer exatamente o que o mandaram fazer, pode ir preso.
- O medo  uma mordaa eficiente.
- . Mas isso no  da nossa alada. Fomos encarregados de testar a pea e fornecer ao governo todas as informaes cientficas
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que pudermos. Devemos ter uma viso objetiva, acreditar nos fatos, no em histrias de fico.
- No existe lugar pra fico na cincia - Miranda murmurou e desembrulhou cuidadosamente o veludo.
Seu corao deu um pulo dentro do peito quando o bronze apareceu sob o pano. Seus olhos eficientes e experientes reconheceram a excelncia do trabalho da pea, como
era gloriosa. Mas ela franziu o cenho, ocultando instintivamente a admirao sob o ceticismo.
-  muito bem concebida e executada, com certeza o estilo t dentro dos moldes da Renascena. - Retirou os culos da caixa e colocou-os antes de suspender
o bronze. Conferiu o peso, virando a estatueta lentamente.
As propores eram perfeitas, a sensualidade do objeto, bvia. Os mnimos detalhes - unhas dos ps, cada mecha de cabelo, a definio dos msculos da perna - eram
impressionantemente retratados.
Ela era gloriosa, livre, maravilhosamente ciente de seu poder. O longo corpo sinuoso arqueado para trs, os braos para o alto, no em orao ou splica, Miranda
reparou. Em triunfo. O rosto no era delicado, mas impressionante, os olhos semicerrados, em xtase, a boca maliciosamente desenhada pelo prazer.
Ela se equilibrava na ponta dos ps, como uma mulher prestes a mergulhar numa piscina de gua morna e perfumada. Ou nos braos de um amante.
Era desavergonhadamente sensual, e, por um breve instante, Miranda teve a sensao de poder sentir seu calor. Era vida.
A ptina indicava a idade, mas essas coisas podiam enganar, ela sabia. Ptinas podem ser criadas. O estilo do artista era inequvoco. Mas isso era quase impossvel.
Estilos podem ser copiados.
-  a Senhora Sombria - ela disse. - Giulietta Buonadoni. No tenho dvida. J vi esse rosto muitas vezes em pinturas e esculturas da poca. Mas nunca vi
nem ouvi falar do bronze. Vou fazer
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uma pesquisa, mas duvido que essa informao me tenha passado despercebida.
Elizabeth estudou o rosto de Miranda, mais que o da estatueta. J vira aquele lampejo de excitao, de deleite, sentimentos rapidamente controlados. Exatamente como
ela esperava.
- Mas voc concorda que  um bronze de estilo renascentista.
- Concordo. Mas isso no quer dizer necessariamente que seja uma pea perdida do sculo quinze. - Seus olhos estreitaram-se enquanto ela girava lentamente
a estatueta nas mos. - Qualquer estudante de arte com olhar atento j rabiscou e copiou o rosto dela ao longo dos anos. Eu mesma j fiz isso uma vez. - Arranhou
de leve o azul-esverdeado da pintura com o polegar. A superfcie corroda era visivelmente espessa, mas ela precisava de mais, muito mais.
- Vou comear os testes imediatamente.
Vivaldi soava baixinho no laboratrio. as paredes eram de um verde-claro de hospital, o piso de linleo branco, impecvel, sem manchas. Cada compartimento era militarmente
organizado, equipado com microscpios, computadores, frascos, tubos ou sacos de amostras. No havia artigos de uso pessoal, nenhum porta-retratos com fotografia
de famlia, nenhum enfeite ou pea de estimao.
Os homens usavam gravata, as mulheres vestiam saia e, para onde quer que se olhasse, o que se via eram jalecos brancos com a logomarca da Standjo costurada em preto
no bolso superior.
A conversa era sussurrada, nfima, e o equipamento zumbia ininterruptamente.
Elizabeth desejava contar com uma equipe coesa e eficiente, e sua ex-nora sabia como comandar uma.
A casa no Maine, onde Miranda crescera, apresentava precisamente a mesma atmosfera. Era um lar frio, ela pensou ao vislumbrar
o laboratrio, mais um ambiente eficaz de trabalho.
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-J faz um tempo que voc no vem aqui - Elizabeth comentou. - Mas Elise vai refrescar sua memria. Voc tem livre acesso a todas as reas, claro. Estou com seu
carto de segurana e todos os cdigos.
- timo. - Miranda plantou um sorriso educado nos lbios enquanto Elise deixava um microscpio e caminhava na direo delas.
- Miranda, bem-vinda a Florena. - O tom de Elise era suave, baixo, sem chegar a ser um sussurro sensual, mas com a promessa embutida de s-lo, se propriamente
estimulada.
-  bom estar de volta. Como vai voc?
- Bem. Ocupada. - Lanou um sorriso lmpido e segurou a mo de Miranda. - Como vai o Drew?
- No to bem... mas ocupado. - Ela levantou uma sobrancelha quando Elise apertou sua mo.
- Que pena!
- Eu no posso fazer nada.
- Mesmo assim, que pena! - Ela soltou a mo de Miranda e voltou-se para Elizabeth. - Voc vai comandar o tour ou quer que eu faa isso?
- No preciso de um tour - Miranda disse, antes que a me pudesse responder. - Preciso de um jaleco, de um microscpio e de um computador. Quero tirar fotos,
e fazer raios X,  claro.
- Olha voc a. - John Carter andou at elas. O gerente do laboratrio de Miranda tinha uma aparncia amavelmente amarrotada em meio quele estilo de eficincia
impecvel. Sua gravata, com desenhos tolos de vaquinhas pastando felizes, estava ligeiramente torta. Rasgara o bolso do jaleco, de modo que as pontas estavam soltas.
Tinha um machucado no queixo, onde ele se cortara ao barbear-se, um toco de lpis atrs da orelha e manchas nas lentes dos culos.
Miranda sentiu-se acolhida.
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- Voc t bem? - Deu trs tapinhas no brao dela. Depois: - E o seu joelho? Andrew me contou que o cara que te assaltou te jogou no cho.
- Jogou no cho? - Elise virou-se rapidamente. - A gente no sabia que voc tinha se machucado.
- Foi s o susto. Est tudo bem. Estou bem.
- Ele espetou uma faca no pescoo dela - Carter anunciou.
- Uma faca. - Elise levou as mos  prpria garganta. - Isso  terrvel. ...
- Tudo bem - Miranda disse mais uma vez. - Ele s queria dinheiro. - Virou-se e encontrou os olhos da me. - E acho que ele j custou bastante do nosso tempo
precioso.
Por um minuto, Elizabeth no disse nada. Havia desafio no olhar de Miranda, e ela decidiu que o momento para simpatias havia passado.
- Ento. Elise vai organizar tudo para voc. Seu crach e seu carto de segurana esto aqui. - Elizabeth entregou um envelope a Miranda. - Elise deve ser
capaz de cuidar do que voc precisa. Ou voc fala comigo. - Olhou para o relgio de pulso. - Tenho outro encontro agora, ento vou deixar voc comear. Espero um
relatrio preliminar no fim do dia.
- Voc vai ter - Miranda murmurou enquanto a me se afastava.
- Ela no perde tempo. - Com outro sorriso, Elise gesticulou. - Fico muito sentida de voc ter passado por uma experincia to terrvel, mas o trabalho aqui
deve tirar isso da sua cabea. Tem um escritrio montado para voc. O Bronze Fiesole  prioridade total. Voc tem autorizao para escolher qualquer pessoa do time
A para sua equipe.
- Miranda! - Havia uma lufada de prazer na palavra, e ela foi pronunciada com os tons pesados e exticos da Itlia. Miranda pegou-se sorrindo antes de virar-se
e ter as mos seguras e beijadas de maneira extravagante.
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- Giovanni. Voc no muda. - De fato, o qumico era incrivelmente bonito, pelo que Miranda se lembrava. Moreno e esguio, com olhos que pareciam chocolate
derretido, e um sorriso que irradiava charme. Era alguns centmetros mais baixo que ela, e, mesmo assim, fazia com que se sentisse feminina e pequena. Usava o cabelo
brilhoso e negro num rabo de cavalo, algo que Elizabeth apenas permitia porque, alm de ser bonito de olhar, Giovanni Beredonno era um gnio.
- Mas voc muda, bella donna. Est ainda mais adorvel. Mas que histria foi essa de terem machucado voc? - Passou os dedos sobre o rosto dela.
- No  nada, s uma lembrana.
- Quer que eu v partir algum ao meio pra voc? - Beijou-a delicadamente, uma face, depois a outra.
- Posso pensar um pouco e responder depois?
- Giovanni, Miranda tem que trabalhar.
- Claro, claro. - Ele dispensou as palavras duras e desaprovadoras de Elise com um gesto descuidado, mais um motivo para Miranda sorrir. - Eu sei disso.
Um projeto importante, muito sigi-loso. - Mexeu as sobrancelhas expressivas. - Quando a direttrice manda vir uma expert da Amrica, no  pouca coisa no. Portanto,
bellissima, voc precisa de mim?
- Voc  o primeiro da minha lista.
Ele enfiou a mo dela em seu brao, ignorando o aperto de reprovao nos lbios de Elise. - Quando a gente comea?
- Hoje - Miranda disse enquanto Elise apontava na direo do corredor. - Quero testes nas camadas de eroso e de corroso do metal o mais rpido possvel.
- Acho que Richard Hawthorne pode ser til pra voc. - Elise deu um tapinha no ombro de um homem debruado sobre o teclado de um computador.
- Dr. Hawthorne. - Miranda observava enquanto o homem careca piscava como uma coruja atravs dos culos, atrapalhando-se
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para tir-los. Havia algo vagamente familiar nele, mas ela no sabia exatamente o que era.
- Dra. Jones. - Ele lhe lanou um sorriso tmido que acrescentava certo apelo ao seu rosto. O queixo era mido, os olhos de um azul plido e distrado, mas
o sorriso era doce como o de um menino. -  bom te ver novamente. Estamos felizes de ter voc aqui. Li seu artigo sobre o princpio do humanismo florentino. Achei
brilhante.
- Obrigada. - Ah, sim, ela lembrou. Ele trabalhara no instituto alguns anos antes. Depois de ligeira hesitao, que Miranda s percebeu depois de um sinal
indicativo de Elise, ela retomou: - Elise montou um escritrio para mim. Voc poderia vir com a gente um minuto? Queria mostrar o que eu tenho comigo.
- Eu adoraria. - Atrapalhou-se novamente com os culos e apertou vrias teclas do computador para salvar seu trabalho.
- No  muito grande. - Elise comeou a desculpar-se enquanto indicava uma porta a Miranda. - Equipei o escritrio com o que achei que ia precisar. Claro
que voc pode requisitar o que quiser, se precisar de mais alguma coisa.
Miranda deu uma rpida olhada. O computador parecia eficiente. Havia uma grande bancada branca com microscpios, projetor de slides e pequenas ferramentas manuais
necessrias ao seu trabalho. Um gravador fora providenciado para detalhamento de notas. No havia janela, somente uma porta, e, estando os quatro ali dentro, quase
no havia espao para se movimentarem.
Mas havia tambm uma poltrona, um telefone, e os lpis estavam apontados. Era o suficiente, ela pensou.
Colocou sua pasta na bancada, depois a caixa de metal. Cuidadosamente, retirou a estatueta embrulhada. - Queria sua opinio, dr. Hawthorne. Queria que desse uma
olhadinha no bronze.
- Claro. Eu adoraria.
- Esse projeto tem sido o tema mais quente por aqui nos ltimos dias - Giovanni acrescentou enquanto Miranda desdobrava o
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veludo. - Ah. - Ele deixou escapar um suspiro, enquanto ela colocava a estatueta desembrulhada na bancada. - Bella, molto bella.
- Muito bem-feita. - Richard colocou os culos novamente no lugar e apertou os olhos para analisar a estatueta. - Simples. Fluida. Forma e detalhes maravilhosos.
Perspectiva.
- Sensual - Giovanni disse, inclinando-se para olhar de perto.
- A arrogncia e a seduo femininas.
Miranda franziu uma sobrancelha para Giovanni, prestando ateno em Richard. - Voc reconhece?
-  a Senhora Sombria dos Mdici.
- Foi essa a minha opinio, tambm. E o estilo?
- Renascentista, inquestionavelmente. - Richard esticou o dedo na inteno de alcanar a face esquerda do bronze. - No diria que a modelo foi usada para
representar uma figura mtica ou religiosa, mas a si mesma.
- Isso. A senhora no papel de senhora - Miranda concordou.
- O escultor fez um retrato dela, eu acho, exatamente como ela era. Pensando como artista, eu diria que eles se conheciam, intimamente. Preciso fazer uma
pesquisa de documentos. Sua ajuda vai ser inestimvel.
- Fico feliz de poder ajudar. Se isso chegar a ser autenticado como uma obra maior do perodo renascentista, vai ser uma grande conquista pra Standjo. E pra
voc, dra. Jones.
Ela j havia pensado nisso. De fato, pensara. Mas sorriu friamente. - No conto com o ovo dentro da galinha. Se o bronze ficou qualquer perodo de tempo no lugar
onde foi encontrado, e parece que foi isso que aconteceu, a extenso da corroso foi afetada. Quero testes para confirmar essa possibilidade, claro - acrescentou,
dirigindo-se a Giovanni -, mas no posso depender s disso como se fosse uma verdade comprovada.
- Voc vai fazer testes comparativos, testes de termoluminescncia.
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- Vou. - Ela sorriu para Richard novamente. - Tambm vamos testar o pano e a madeira do degrau da escada. Mas a documentao vai ser conclusiva.
Miranda apoiou o quadril na borda da pequena escrivaninha de carvalho. - Ela foi encontrada no poro da Villa delia Donna Oscura, escondida debaixo do ltimo degrau
da escada. Vou entregar um relatrio com os detalhes que a gente tem at agora pra vocs trs. Vocs trs, o Vincente e ningum mais - ela acrescentou. - Segurana
 uma das maiores preocupaes da diretoria. Qualquer pessoa solicitada pra te assistir tem que ter liberdade total, e as informaes que voc vai fornecer tm que
ser mnimas, at a gente ter concludo todos os testes.
- Ento, por enquanto, ela  toda nossa. - Giovanni piscou para ela.
- Minha - Miranda o corrigiu com um sorriso discreto, srio. - Preciso de toda e qualquer informao sobre a villa, sobre a mulher. Quero saber quem ela .
Richard concordou com a cabea. - Vou comear imediatamente.
Miranda se virou para a estatueta. - Vamos ver do que ela  feita - murmurou.
Algumas horas depois, miranda relaxou os ombros e recostou na poltrona. O bronze diante dela, sorrindo dissimulada-mente. No havia sinal de lato ou silicone, nenhum
metal ou material no utilizado na Renascena na lasca de tinta que extrara. O bronze tinha o interior de argila, exatamente como uma pea da poca deveria ter.
Os testes iniciais dos nveis de corroso indicavam o final do sculo quinze.
No seja apressada, ordenou a si mesma. Testes preliminares no eram o suficiente. At agora, estava trabalhando com as negativas.
No havia nada fora do lugar, nenhuma liga que no pertencesse 
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poca, nenhum sinal de manuseio de alguma ferramenta que no se encaixasse na era em questo, mas ela precisava determinar a parte afirmativa, positiva.
A Senhora Sombria era verdadeira ou falsa?
Calmamente, tomou uma xcara de caf com biscoitos que Elise providenciara para ela  hora do almoo. A mudana de fuso horrio a deixara sonolenta, mas ela recusava-se
a se entregar. O caf, forte, puro e potente como somente os italianos eram capazes de torrar, adentrou seu sistema e pareceu uma mscara de cafena para o cansao.
Ela cairia em algum momento, mas no ainda.
Dirigiu-se ao teclado do computador e comeou a preparar o relatrio preliminar para a me. Era to duro e seco quanto uma tia solteirona, at o momento desprovido
de especulaes e com pouqussima personalidade. Deveria pensar no bronze como um quebra-cabea, um mistrio a ser resolvido, mas nem um pedao desse romance entrou
em seu relatrio.
Mandou o texto por e-mail. Salvou-o na memria do computador com a proteo de sua senha, depois levou o bronze consigo para o ltimo teste do dia.
A tcnica do laboratrio falava muito mal o ingls, e se mostrava muito encantada com a filha da direttrice para que Miranda se sentisse confortvel. Ela criou uma
nova tarefa e mandou a moa buscar mais caf. Sozinha, comeou os testes de termoluminescncia.
A radiao ionizada prenderia eltrons em estados elevados de energia no interior de argila da estatueta. Quando aquecidos, os cristais da argila promoveriam pequenas
exploses luminosas. Miranda preparou o equipamento, anotando rapidamente cada passo e os resultados num bloco de papel. Tomou nota das medies das pequenas exploses,
adicionando-as s notas pessoais de referncia. Aumentou a radiao e voltou a aquecer a argila para medir o quanto era suscetvel ao aprisionamento de eltrons.
As medies foram anotadas cuidadosamente, cada uma a seu tempo.
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O prximo passo seria testar os nveis de radiao da localidade onde o bronze fora encontrado. Testou o pedao de pano empoeira-do e a madeira.
Era uma questo matemtica agora. Apesar de a acuidade do mtodo ser dificilmente comprovada na sua totalidade, era mais um elemento a ser adicionado ao todo.
Final do sculo quinze. Ela no tinha dvida quanto a isso.
Savonarola pregava contra a luxria e a arte pag durante esse perodo, Miranda meditou. A pea era um glorioso chute na bunda daquele ponto de vista limitado. Os
Mdici controlavam Florena, com o incompetente Piero, o Desafortunado, assumindo as rdeas por um curto perodo antes de ser expulso da cidade pelo rei Carlos VIII
de Frana.
A Renascena estava deixando sua glria inicial quando o arquiteto Brunelleschi, o escultor Donatello e o pintor Masaccio revolucionaram a concepo e as funes
da arte.
Depois, veio a prxima gerao com o alvorecer do sculo dezesseis - Leonardo, Michelangelo, Rafael, inconformados, em busca da originalidade pura.
Ela conhecia o artista. Conhecia-o de corao, por instinto. No havia nada criado por ele que ela no houvesse estudado to intensa e completamente quanto uma mulher
estuda o rosto de seu amante.
Mas o laboratrio no era lugar para usar o corao, lembrou a si mesma, ou o instinto. Faria todos os testes novamente. E ainda uma terceira vez. Compararia a frmula
conhecida dos bronzes daquela poca e checaria mais de uma vez cada ingrediente e cada liga utilizados na esttua. Pressionaria Richard Hawthorne para que providenciasse
a documentao.
E encontraria as respostas.
Captulo Trs
O nascer do sol sobre os telhados e as cpulas de Florena era um momento magnfico. Pura arte e glria. A mesma luz delicada cintilara sobre a cidade quando homens
conceberam e construram as grandes cpulas e as grandes torres, cobriram-nas com mrmore colhido nas montanhas e as decoraram com imagens de deuses e santos.
As estrelas desapareceram e o cu passou do veludo negro ao cinza perolado. A silhueta dos pinheiros compridos e esguios salpicava as colinas toscanas, que, embaadas
pela mudana de luz, balanavam, fluorescentes.
A cidade estava calma, coisa rara, enquanto o sol subia e enchia o ar com fragmentos dourados. As portas de ferro das bancas de jornal e revistas chacoalhavam enquanto
o proprietrio bocejava e se preparava para o dia de trabalho. Somente algumas poucas luzes acesas nas muitas janelas da cidade. Uma delas era a de Miranda.
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Ela se vestiu rapidamente, o olhar na direo oposta do maravilhoso quadro que se pintava calmamente, sozinho, do lado de fora de seu quarto de hotel. Sua cabea
estava no trabalho.
Quanto progresso faria naquele dia? Quo mais perto chegaria das respostas? Lidava com fatos e se ateria a eles, no importava quo tentador fosse passar para o
nvel seguinte. Nem sempre se pode confiar nos instintos. Na cincia, sim.
Prendeu o cabelo para trs, depois calou sapatos sem salto e um terno azul-marinho simples.
Chegar cedo garantiria a ela algumas horas de trabalho solitrio. Apesar de gostar de ter experts  disposio, a Senhora Sombria j se tornara sua propriedade.
Pretendia que cada passo daquele projeto tivesse a sua marca.
Levantou seu carto de identificao para o guarda atrs da porta de vidro. Ele relutou para abandonar seu caf da manh e arrastou-se na sua direo, franzindo
o cenho para o carto, para ela, depois novamente para o carto. Pareceu suspirar ao destrancar a porta.
- Chegou muito cedo, Dottoressa Jones.
- Tenho muito trabalho.
Americanos, at onde o guarda sabia, pensavam muito pouco em outra coisa. - A senhora tem que assinar o livro de presena.
- Claro. - Ao aproximar-se da bancada, o cheiro do caf do guarda a alcanou. Ela fez o que pde para no salivar enquanto assinava seu nome e anotava a hora
da chegada.
- Grazie.
- Prego - ela murmurou e dirigiu-se ao elevador. Faria um caf antes de comear, disse para si mesma. No estaria acordada o suficiente enquanto no tomasse
pelo menos uma dose de cafena.
Usou o carto-chave para acessar o andar correto, depois digitou seu cdigo quando chegou ao guich de segurana, do lado de fora do laboratrio. Quando apertou
os interruptores, algumas lmpadas fluorescentes se acenderam. Uma
rpida olhada em volta indicou
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que tudo estava em ordem, que o servio comeado fora muito bem guardado ao final do dia de trabalho.
Era essa a expectativa de sua me, pensou. No toleraria nada menos que eficincia e organizao por parte de seus empregados. E dos filhos. Miranda encolheu os
ombros, como se tentasse expulsar o ressentimento.
Logo depois, fez caf, o computador j ligado, e transcreveu as anotaes do dia anterior.
Se gemeu ao contato do primeiro gole de caf quente, forte, no havia ningum para escutar. Recostou-se na cadeira de olhos fechados, sorriso sonhador nos lbios,
no havia testemunhas. Por cinco minutos, permitiu-se o mimo de ser uma mulher perdida num dos pequenos prazeres da vida. Seus ps escorregaram para fora dos sapatos
de mulher prtica, e seu rosto endurecido suavizou-se. Ronronava.
Se o guarda a visse agora, aprovaria completamente seu comportamento.
Depois levantou-se, serviu-se de mais um caf, vestiu o jaleco e ps-se ao trabalho.
Separou primeiro a poeira do lugar, mediu a radiao, fez contas. Mais uma vez, testou a argila que fora cuidadosamente extrada. Colocou um pouquinho de cada um
numa palheta, depois preparou uma terceira com as amostras de bronze e tinta, estudando cada uma atravs das lentes do microscpio.
Analisava a tela do computador quando os primeiros funcionrios comearam a chegar. L estava Giovanni, procurando-a com uma xcara de caf e um bolinho.
- Me diz o que voc t vendo - pediu a opinio dele e continuou avaliando as cores e formas na tela.
- Uma mulher que no sabe relaxar. - Ele descansou as mos nos ombros de Miranda, afagando-os levemente. - Miranda, voc j t aqui h uma semana e no tirou
um minuto sequer de folga.
- A imagem, Giovanni.
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- Ah. - Ainda massageando-a, ele mudou de posio, de maneira que suas cabeas ficassem mais prximas. - O primeiro passo no processo de decadncia, corroso.
A linha branca  a superfcie do bronze, no?
- Isso.
- A corroso est densa na superfcie e vai avanando de encontro ao metal, o que pode ser tpico num bronze de quatrocentos anos.
- A gente precisa localizar a escala desse avano.
- Isso nunca  fcil - ele disse. - E ela estava num poro mido. A corroso avanaria muito rpido l.
- Eu estou levando isso em conta. - Ela tirou os culos para aliviar a presso nas laterais do nariz. -A temperatura e a umidade. A gente pode calcular a
mdia nesse caso. Nunca ouvi falar de nveis de corroso assim serem falsificados. Esto l, Giovanni, dentro dela.
- O pano no tem mais de cem anos. Menos, eu acho, uma ou duas dcadas menos.
- Cem? - Irritada, Miranda virou-se para encar-lo. - Tem certeza?
- Tenho. Voc vai fazer seus prprios testes, mas vai ver que eu estou certo. Oitenta a cem anos. No mais que isso.
Ela voltou a olhar para o computador. Seus olhos viam o que j vira, seu crebro soube o que j sabia. - Tudo bem. Ento, vamos imaginar que o bronze tenha sido
embrulhado naquele pano e guardado naquele poro h oitenta, cem anos. Mas todos os testes indicam que a estatueta  muito mais antiga.
- Talvez. Vai, toma seu caf.
- Humm. - Ela pegou o bolinho e mordeu-o, distrada. - Oitenta anos atrs, comeo do sculo. Primeira Guerra Mundial. Objetos de valor freqentemente so
escondidos em tempos de guerra.
- Verdade.
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- Mas onde  que ela ficou antes disso? Por que a gente nunca ouviu falar dela? Escondida de novo? - murmurou. - Quando Piero de Mdici foi expulso da cidade.
Mas esquecida? - Insatisfeita, ela balanou a cabea em negativa. - Isso no  trabalho de amador, Giovanni. - Deu um comando para imprimir a imagem da tela. - 
trabalho de mestre. Tem que existir algum documento, alguma prova em algum lugar. Eu preciso saber mais sobre aquela villa, sobre a mulher. Pra quem ela deixou as
suas coisas, quem foi morar l logo depois que ela morreu? Ela teve filhos?
- Sou qumico - ele disse com um sorriso -, no historiador. Pra isso, voc precisa do Richard.
- Ele j chegou?
- Ele  superpontual. Espera. - Ele riu, pegando seu brao antes que pudesse escapar. - Janta comigo hoje  noite.
- Giovanni. - Ela deu um aperto carinhoso na mo dele, depois afastou a sua. - Gosto de ver que voc se preocupa comigo, mas eu estou bem. Ando muito ocupada
pra sair pra jantar.
- Voc anda trabalhando demais, e no t se cuidando. Como eu sou seu amigo,  minha obrigao tomar conta de voc.
- Eu prometo que vou pedir um jantar excelente no hotel enquanto trabalho hoje  noite.
Ela encostou os lbios no rosto dele e a porta foi aberta. Elise levantou uma sobrancelha, a boca tensa, em desaprovao.
- Desculpem a interrupo. Miranda, a diretora quer que voc d um pulo na sala dela s quatro e meia pra vocs discutirem o progresso dos seus testes.
- Claro. Elise, voc sabe dizer se o Richard t livre um minuto?
- Todo mundo est  sua disposio.
- Foi exatamente o que eu disse pra ela. - Claramente imune ao gelo, Giovanni sorriu, depois deixou a sala.
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- Miranda. - Depois de uma breve hesitao, Elise entrou na sala e fechou a porta. - Espero que voc no se ofenda, mas acho que tenho que te avisar que o
Giovanni...
Maliciosamente divertida com o desconforto bvio de Elise, Miranda limitou-se a sorrir discretamente. - Giovanni?
- Ele  brilhante no trabalho, uma pea valiosa pra Standjo. Mas na vida pessoal  um mulherengo, um conquistador.
- Eu no diria isso. - Com a cabea inclinada, Miranda colocou os culos, baixando-os um pouco para olhar sobre a armao. - Um conquistador usa as mulheres.
O Giovanni  um doador.
- Isso pode ser verdade, mas o fato  que ele flerta com todas as mulheres da equipe.
- Inclusive voc?
As sobrancelhas arqueadas de Elise juntaram-se. - Uma vez, e entendo isso como parte da personalidade dele. Ainda assim, o laboratrio no  lugar pra isso, nem
pra beijos roubados.
- Meu Deus, voc t parecendo a minha me! - E nada teria irritado mais Miranda. - Mas vou ficar com isso na cabea, Elise, da prxima vez que Giovanni e
eu resolvermos brincar de fazer sexo selvagem no laboratrio.
- Eu no quis te ofender. - Elise suspirou, levantou as mos, impotente. - Eu s queria...  s porque ele pode ser muito sedutor. Eu quase ca nessa quando
fui transferida pra c. Estava me sentindo to deprimida, to infeliz.
- Estava?
A frieza no tom de Miranda fez com que Elise contrasse os ombros. - O divrcio do seu irmo me fez sair correndo atrs de alegria, Miranda. Foi uma deciso difcil
e dolorosa, e eu s posso esperar ter feito o que era certo. Eu amava o Drew, mas ele... - Sua voz fraquejou e ela sacudiu energicamente a cabea. - S posso dizer
que isso no era o suficiente pra nenhum de ns.
Os olhos marejados de Elise suscitaram em Miranda uma pontada de vergonha. - Desculpe - murmurou. - Aconteceu to
rpido. Achei que voc no tinha dado a mnima.
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- Mas eu dei. Ainda dou - ela suspirou, depois piscou os olhos, tentando fazer com que as lgrimas ameaadoras desaparecessem do seu rosto. - Queria que tivesse
sido diferente, mas o fato  que no foi, e no  diferente. Tenho que viver a minha vida.
- Claro. - Miranda encolheu os ombros. -Andrew anda to mal, e  mais fcil pra mim culpar voc. Nunca acho que o fim de um casamento  culpa s de uma pessoa.
- Eu acho que nenhum dos dois tinha talento pro casamento. Pareceu mais limpo, honesto e at mesmo mais gentil acabar do que continuar fingindo.
- Como meus pais?
Elise arregalou os olhos. -Ah, Miranda, eu no queria...
- Tudo bem. Concordo com voc. Meus pais no vivem sob o mesmo teto h mais de vinte e cinco anos, mas nenhum deles se deu o trabalho de terminar, honesta
ou gentilmente. O Andrew pode ter ficado mal, mas, no final das contas, eu prefiro a sua maneira de resolver as coisas.
Era, ela admitia, o caminho que teria tomado - se alguma vez tivesse cometido o erro de se casar, em primeiro lugar. Divrcio, decidira, era a alternativa mais humana
 plida iluso do casamento.
- Posso me desculpar pelos pensamentos perversos que tive a seu respeito no ltimo ano?
Os lbios de Elise se curvaram. - No precisa. Eu entendo sua lealdade ao Drew. Admiro isso, sempre admirei. Sei como vocs dois so prximos.
- Juntos, ficamos de p; divididos, temos que correr pra terapia.
- A gente nunca conseguiu realmente ser amiga. Fomos colegas, fomos parentes, mas nunca amigas, mesmo com tudo que temos em comum. Talvez seja impossvel,
mas eu gostaria de pensar que pelo menos a gente tem uma relao amigvel.
- Eu no tenho muitos amigos. - Muita intimidade  um risco, Miranda pensou com uma pitada de desgosto. - Seria bobagem da minha parte recusar uma oferta
de amizade.
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Elise abriu a porta novamente. - Eu tambm no tenho muitas amigas - disse baixinho. -  bom que voc seja uma.
Tocada, Miranda acompanhou Elise at a sada da sala, depois juntou as suas impresses e provas para tranc-las no cofre.
Pressionara Carter rapidamente, designando-o para checar todas as fontes para frmulas de estatuetas da era apropriada - apesar de j t-lo feito ela mesma, e apesar
de que o faria mais uma vez.
Encontrou Richard praticamente enterrado no computador e nos livros. Seu nariz arranhava as pginas como um co farejador.
- Encontrou alguma coisa til?
- Ahn? - Ele piscou diante da pgina, mas no levantou o olhar. -A villa foi finalizada em 1489. Lorenzo de Mdici contratou um arquiteto, mas a funo ficou
a cargo de Giulietta Buonadoni.
- Ela era uma mulher poderosa. - Miranda puxou uma cadeira, remexeu os papis. - No era comum pra uma amante ser dona de uma propriedade to valiosa. Ela
conseguiu uma coisa incrvel.
- As mulheres muito bonitas j tm um poder enorme - ele balbuciou. - As inteligentes sabem como usar esse poder. A histria revela que ela era inteligente.
Intrigada, Miranda tirou a foto da estatueta de sua pasta. - D pra ver no rosto dela que era uma mulher que sabia quanto valia. Que mais?
- O nome dela aparece de vez em quando. Mas no tem muitos detalhes. A linhagem, por exemplo, est enterrada, perdida no tempo. No consigo descobrir nada.
As primeiras menes a ela que encontrei comeam em 1487. Existem indicaes de que ela era membro da famlia dos Mdici, provavelmente prima de Clarice Orsini.
- Ento, seguindo por a, Lorenzo pegou a prima da mulher como amante. Manteve tudo em famlia - disse com um sorriso. Richard simplesmente concordou com
um gesto de cabea.
- Isso explicaria como ela chamou a ateno dele. Apesar de outra fonte indicar que ela pode ter sido a filha ilegtima de um dos
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membros da Academia Neoplatnica de Lorenzo. Isso tambm teria feito com que estivesse na mira dele. Seja l como se conheceram, ele a colocou dentro da villa em
1489. Segundo todos os relatos, ela era to devota s artes quanto ele, e usou seu poder e influncia para juntar as estrelas da poca sob seu teto. Ela morreu em
1530, durante o stio a Florena.
- Interessante. - Mais uma vez, ela pensou, uma poca em que coisas de valor deveriam ser guardadas em segredo. Inclinando-se para trs, levantou os culos.
- Ento ela morreu antes de ter certeza de que os Mdici continuariam no poder.
- Parece que sim.
- Filhos?
- No descobri nada sobre filhos.
- Me empresta alguns desses livros - ela resolveu. - Vou te ajudar a procurar.
Vincente morelli era quase um tio para miranda. Conhecia os pais dela desde antes de seu nascimento, e, por muitos anos, administrara a publicidade, as promoes
e os eventos do instituto, no Maine.
Quando sua primeira mulher adoeceu, ele a levou de volta a Florena, seu lar, e a enterrou ali, doze anos antes. Sofreu por trs anos; depois, para surpresa de todos,
casou-se repentinamente com uma atriz de sucesso marginal. O fato de Gina ser dois anos mais jovem que sua filha mais velha causou algum constrangimento na famlia,
e alguns sorrisos maldosos por parte dos scios.
Vincente era redondo como um barril, tinha a barriga como a de Pavarotti e pernas de gambito, enquanto sua mulher parecia Sophia Loren, quando jovem, exuberante,
sensual e linda. Raramente era vista sem muito ouro e pedras preciosas no pescoo, Punhos ou orelhas.
Os dois falavam alto, eram escandalosos e, ocasionalmente, grosseiros. Miranda era f dos dois. mas muitas vezes se perguntava
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como um casal to extrovertido conseguia manter-se associado  sua me.
- Mandei cpias dos relatrios l pra cima - Miranda disse a Vincente quando ele adentrou seu escritrio, enchendo-o com seu corpanzil e sua personalidade.
-Achei que voc ia querer acompanhar a evoluo das coisas pra quando chegar a hora de fazer os pronunciamentos para a mdia, j ter dado tempo de ter explorado
bem os arquivos.
- Claro, claro. Os fatos so simples de descrever, mas o que voc acha, cara? Me d alguma tinta nova.
- Eu acho que a gente ainda tem algum trabalho a fazer.
- Miranda - ele disse devagar, com um sorriso persuasivo, e reclinou-se na cadeira, que gemeu de maneira alarmante sob seu peso. - Sua linda me atou minhas
mos at ter... como  que se diz?... at ter todos os pingos nos is. Ento, quando eu puder levar essa histria pra imprensa, ela tem que causar impacto, paixo
e romance.
- Se ficar comprovado que o bronze  verdadeiro, voc vai causar impacto.
- Claro, claro, mais do que isso. A adorvel e talentosa filha da direttrice vem do outro lado do oceano. Uma lady para cuidar da outra. O que voc acha dela?
O que voc sente por ela?
Miranda levantou uma sobrancelha e bateu com o lpis na beirada da mesa. - Eu acho que a esttua tem noventa centmetros e quatro milmetros de altura, vinte e quatro
quilos e sessenta e oito gramas de peso.  um nu feminino - continuou, contendo um sorriso enquanto Vincente virava os olhos e mirava o teto -, concebida em estilo
renascentista. Os testes at agora indicam que foi feita na ltima dcada do sculo quinze.
- Voc  parecida demais com a sua me.
- Voc no vai conseguir nada me insultando - Miranda o advertiu, e sorriram um para o outro.
- Voc dificulta meu trabalho, cara. - Quando chegasse a hora
certa, ele pensou, usaria seu prprio ponto de vista no press release.
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Elizabeth vistoriou os relatrios com olhos atentos.
Miranda fora bastante cuidadosa com os fatos, os nmeros, as frmulas, com cada passo e cada etapa de todos os testes. Mas ainda era possvel ver qual a sua tendncia,
e que resultado acreditava que aquilo teria.
- Voc acha que  verdadeira.
- Todos os testes indicam que a idade do bronze est entre quatrocentos e quinhentos anos. Voc tem as cpias das fotos e dos testes qumicos no computador.
- Quem fez os testes?
- Eu.
- E a termoluminescncia? Quem conduziu?
- Eu.
- E a datao do estilo tambm  sua. A documentao  resultado de sua pesquisa. Voc supervisionou os testes qumicos e testou pessoalmente a tinta e o
metal, comparou as frmulas.
- No foi pra isso que voc me trouxe aqui?
- Foi, mas eu tambm providenciei uma equipe de peritos pra voc. Esperava que fizesse mais uso deles.
- Quando eu mesma coordeno os testes, tenho mais controle das coisas - Miranda disse secamente. - As chances de erro so menores. Esse  o meu campo. J autentiquei
quatro peas dessa poca, trs delas eram de bronze, uma delas um Cellini.
- O Cellini tinha documentao incontestvel e registros de escavao.
- Independentemente disso - Miranda falou com ressentimento latente. Apesar de imaginar-se sacudindo as mos, os punhos no ar, manteve os braos levemente
pendidos nas laterais do corpo.
Fiz precisamente os mesmos testes pra poder descartar a hiptese de falsificao. Consultei o Louvre, o Instituto Smithsoniano, o Bargello. Acredito que minhas credenciais
estejam em ordem.
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Elizabeth inclinou-se para trs, cansada. - Ningum est questionando suas credenciais ou sua capacidade. Eu dificilmente chamaria voc se duvidasse de uma das duas
coisas.
- Ento, por que tantos questionamentos agora que eu j conclu o trabalho?
- Estou s comentando a falta de trabalho de equipe, Miranda, e estou preocupada, porque acho que voc formou sua opinio no instante em que viu o bronze.
- Reconheci o estilo, a poca e o artista. - Exatamente como voc, Miranda pensou, furiosa. Inferno, exatamente como voc! - No entanto - continuou, friamente
- conduzi todos os testes de praxe, depois parei, documentei todo o procedimento e todos os resultados. A partir de ento, pude concluir que o bronze atualmente
trancado no cofre  uma representao de Giulietta Buonadoni, feita por volta do fim do sculo quinze, e  obra de Michelangelo Buonarroti, quando jovem.
- Concordo que o estilo seja o mesmo da escola de Michelangelo.
- O bronze  um trabalho muito antigo pra ser da escola dele. Ele no tinha ainda vinte anos. E s gnios produzem gnios.
- Que eu saiba, no existe nenhuma documentao sobre um bronze desse artista que diga respeito a esse trabalho.
- Ento essa documentao ainda vai ser encontrada ou nunca existiu. Temos documentos de vrias obras que desapareceram. Por que no ter uma pea sem a documentao?
O desenho do afresco da Batalha de Cascina. Perdido. O bronze de Jlio II, destrudo e derretido, muitos dos desenhos aparentemente queimados por ele mesmo pouco
antes de morrer.
- De qualquer forma, sabemos que existiram.
- A Senhora Sombria existe. A idade est correta, o estilo idem, principalmente de acordo com os primeiros trabalhos. Ele devia ter uns dezoito anos quando
essa pea foi fundida. J havia feito a Madona da Escada, a Batalha dos Centauros contra os Lpidas. J
havia mostrado sua genialidade.
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Considerando-se uma mulher paciente, Elizabeth simplesmente concordou com a cabea. - No se discute que o bronze  um trabalho superior, e que tem o estilo dele.
Isso, no entanto, no prova a autoria.
- Ele viveu no palcio dos Mdici, era tratado como filho de
Lorenzo. Ele a conhecia. Existe documentao comprovando que eram bem chegados. Ela foi muitas vezes usada como modelo. Seria mais estranho se nunca tivesse posado
pra ele. Voc sabia que existia essa possibilidade quando mandou me chamar.
- Possibilidade e fato so coisas bem diferentes, Miranda. - Elizabeth cruzou as mos. - Voc mesma disse que no lida com possibilidades.
- Eu estou te dando fatos. A frmula do bronze t correta, absolutamente correta, os raios X comprovaram que a ferramenta utilizada  autntica da poca.
O interior de argila e as amostras foram datados. Os testes revelaram o avano de corroso profunda. A ptina t correta. O bronze  do final do sculo quinze. Mais
provavelmente da ltima dcada.
Ela levantou a mo antes que a me pudesse falar. - Sendo especialista no campo, e depois de uma anlise cuidadosa e objetiva da pea, minha concluso  que o bronze
 um trabalho de Michelangelo. Tudo o que falta  a assinatura dele. E ele no assina-va as peas, com exceo da Piet em Roma.
No vou discutir os resultados dos seus testes. - Elizabeth inclinou a cabea. - Mas tenho restries s suas concluses. No posso correr o risco de deixar seu
entusiasmo pesar em todos os lados. Voc no vai dizer nada disso a ningum da equipe, por enquanto. E insisto que no diga nada fora do laboratrio. Se algum rumor
vazar para a imprensa, vai ser um desastre.
Dificilmente eu ligaria pra todos os jornais, pra anunciar que autentiquei um Michelangelo perdido. Mas eu autentiquei. - Ela colocou as mos sobre a mesa e inclinou
o corpo  frente. - Eu sei disso. E, mais cedo ou mais tarde, voc vai ter que admitir isso.
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- Nada me dar mais prazer, garanto a voc. Mas, at l, isso deve ser mantido em segredo.
- Eu no estou nisso pela glria. - Apesar de poder experiment-la, na ponta da lngua. Podia senti-la, fazendo coar as pontas dos dedos.
- Todos ns estamos nisso pela glria - Elizabeth corrigiu a filha com um ligeiro sorriso. - Por que fingir o contrrio? Se sua teoria se comprovar, voc
ter uma glria enorme. Se no, e for prematura em suas declaraes, vai arruinar sua reputao. E a minha, alm da desta instituio. Isso, Miranda, eu no vou
permitir. Pode continuar a pesquisa dos documentos.
-  o que eu pretendo fazer. - Miranda girou nos calcanhares e saiu indignada. Juntaria uma pilha de livros, levaria tudo de volta ao hotel, e, por Deus,
disse a si mesma, encontraria a conexo necessria.
s trs da manh, quando o telefone tocou, ela se sentou na cama, rodeada de livros e documentos. Os dois toques a tiraram de algum sonho colorido em meio a colinas
e jardins com esttuas de mrmore, fontes musicais e som de harpas.
Desorientada, piscou diante das luzes deixadas acesas e agarrou o telefone.
- Pronto. Dra. Jones. Al?
- Miranda, eu preciso que voc venha at minha casa o mais rpido possvel.
- O qu? Me? - Olhou a imagem embaada do relgio na mesa de cabeceira. - So trs da manh.
- Sei exatamente que horas so. Assim como o assistente do ministro, que foi acordado h mais ou menos vinte minutos por um reprter pedindo detalhes do bronze
perdido de Michelangelo.
- O qu? Mas...
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- No quero discutir isso por telefone. - A voz de Elizabeth
apresentava frieza e fria muito pouco disfaradas. - Voc lembra como se chega aqui?
- Claro que sim.
- Espero voc em trinta minutos - ela disse, segundos antes
de desligar o telefone.
Miranda chegou em vinte.
A casa de Elizabeth era pequena e elegante, uma residncia de dois andares tpica de Florena, com paredes em tom de marfim e telhas vermelhas. Flores jorravam de
vasos e jardineiras nas janelas, e eram cuidadas religiosamente pela empregada.
No escuro, as janelas brilhavam, fachos de luz atravessavam as persianas fechadas. Era espaosa, pelo que Miranda recordava, um espao atraente para o entretenimento.
No teria ocorrido nem  me nem  filha dividirem o espao enquanto Miranda estivesse em Florena.
A porta foi escancarada antes que ela pudesse bater. Elizabeth estava de p, com boa aparncia e perfeitamente apresentvel no robe de cor pssego.
- O que foi que aconteceu?
-  exatamente a minha pergunta. - Controle absoluto era o que impedia Elizabeth de bater a porta. - Se essa foi a sua maneira de provar seu argumento, de
expor sua expertise ou de me causar constrangimento profissional, tudo que voc conseguiu foi a ltima opo.
No sei do que voc t falando. - Miranda no perdera
tempo ajeitando o cabelo e passava a mo impaciente nos fios, na
tentativa de tir-los dos olhos. - Voc disse que um jornalista ligou...
- Exatamente.
Ereta como um general, Elizabeth voltou-se e andou at o gabinete. A lareira estava preparada, mas ainda no acesa. A luz dos abajures fazia com que o cho encerado
de madeira luzisse. Havia um
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vaso de rosas brancas na cornija da lareira e nada mais. As cores eram suaves e plidas.
Parte da mente de Miranda registrava o de sempre quando entrava naquele ou em qualquer cmodo da casa. Era mais um show-room que um lar, to frio quanto.
- O jornalista,  claro, se recusou a revelar a fonte. Mas ele tinha muitas informaes.
- O Vincente nunca iria prematuramente  imprensa.
- No - Elizabeth concordou friamente. - O Vincente no faria isso.
- Ser que o encanador, como  mesmo o nome dele?, falou com um reprter?
- O encanador no poderia dar fotos com os resultados dos testes do bronze.
- Resultados dos testes? - Como seus joelhos de repente fraquejaram, Miranda sentou-se. - Dos meus testes?
- Testes da Standjo - Elizabeth disse entre os dentes. - Apesar de voc ter conduzido o processo, os resultados ainda so responsabilidade do meu laboratrio.
E a segurana desse laboratrio foi quebrada.
- Mas como... - Ela voltara ao lar agora, com o tom, o olhar no rosto da me. Levantou-se devagar. - Voc acha que eu liguei pra um jornalista e dei as informaes?
Que ofereci fotos e resultados de testes?
Elizabeth simplesmente estudou o rosto enfurecido de Miranda. - Voc fez isso?
- No, eu no fiz. Mesmo que a gente no tivesse discutido as conseqncias, eu nunca prejudicaria um projeto dessa maneira. A minha reputao tambm t em
jogo.
- E  exatamente a sua reputao que voc poderia estar tentando valorizar.
Miranda olhou Elizabeth nos olhos e viu que sua opinio j estava formada. - Voc pode ir pro inferno!
- O reprter fez  citaes do seu relatrio.
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- Direto pro inferno! E pode levar seu precioso laboratrio
junto. Ele sempre foi mais importante pra voc do que seu prprio sangue.
- Meu precioso laboratrio deu a voc treinamento e emprego,
alm do potencial para que chegasse ao topo na sua rea. Agora, por causa da pressa, da teimosia e do ego, minha integridade profissional est em jogo, e a sua reputao
pode muito bem ter sido arruinada. O bronze est sendo transferido para outro lugar hoje.
- Transferido?
- Fomos demitidos - Elizabeth despejou, depois pegou o telefone, que comeara a tocar numa mesa ao seu lado. Os lbios se contraram e o ar saiu-lhe num fio,
de uma vez s. - Sem comentrios - disse em italiano e desligou. - Outro jornalista. O terceiro que liga para o meu nmero particular.
- No importa. - Apesar do estmago revirado, Miranda falou calmamente. - Que transfiram a estatueta! Qualquer laboratrio srio vai confirmar as minhas descobertas.
- Foi exatamente esse tipo de arrogncia que nos colocou onde estamos agora. - Seus olhos destilavam tanta frieza que Miranda no reparou as olheiras escuras.
- Trabalhei anos para chegar onde estou, para construir e manter uma instituio que est, sem sombra de dvida, entre as melhores do mundo.
- Isso no vai mudar. Esse tipo de vazamento de informao acontece at mesmo nas melhores instituies.
- No na Standjo. - A seda do robe de Elizabeth balanava enquanto ela andava de um lado para outro. Os chinelos combinando no faziam barulho algum ao pisarem
as rosas em flor do tapete.
Vou comear a reparar esse erro imediatamente. Espero que voc evite a imprensa e pegue o primeiro voo disponvel de volta para o Maine.
- No vou embora enquanto isso no estiver terminado.
- Est terminado para voc. Seus servios no so mais necessrios na Standjo, em Florena. - Deu as costas para a filha, o rosto
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composto, os olhos cansados, frios e diretos. - Sua permisso de ir e vir est cancelada.
- Entendi. Uma execuo rpida, sem julgamento. Eu no devia estar surpresa - disse meio para si mesma. - Por que ser que fiquei?
- Isso no  hora para drama.
Como seus nervos estavam  flor da pele, Elizabeth foi indul-gente consigo mesma e dirigiu-se ao armrio de bebida. Um lateja-mento insistente na base do crnio
lhe causava mais irritao que dor.
- Vai me dar um trabalho enorme manter o nvel da Standjo depois de uma coisa como essa. E vou ser questionada, vo fazer muitas perguntas. - De costas para
Miranda, Elizabeth jogou duas doses de conhaque na coqueteleira. - Seria melhor voc no estar no pas quando comear a sesso de perguntas.
- Eu no tenho medo de perguntas. - O pnico insinuava-se agora, escalando, sorrateiro, sua espinha. Ela seria mandada embora, A Senhora Sombria lhe seria
tirada. Seu trabalho seria questionado, sua integridade, abalada. - No fiz nada ilegal ou que no fosse tico. E vou sustentar minha autenticao do bronze. Porque
 correta. Porque  real.
- Para o seu prprio bem, espero. A imprensa est com seu nome, Miranda. - Elizabeth levantou sua bebida, num brinde inconsciente. - Acredite-me, eles o usaro.
- Que usem!
- Arrogncia - Elizabeth disse entre os dentes. - Obviamente voc no se deu conta de que suas atitudes vo ter reflexo em mim, pessoal e profissionalmente.
- Voc pensou nisso - Miranda rebateu - quando me trouxe pra verificar e corroborar sua prpria suspeita. Voc pode dirigir a Standjo, mas no tem qualificao
pra esse tipo de trabalho. Voc queria a glria. - O corao de Miranda batia dolorosamente em
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sua garganta quando se aproximou da me. - Voc me chamou porque carrego o seu nome, o seu sangue, por mais que ns duas lamentemos isso.
Os olhos de Elizabeth estreitaram-se. A acusao no era inexata, mas tambm no estava completa. - Eu dei a voc a oportunidade da sua vida, por causa da sua qualificao
e,  verdade, porque voc  uma Jones. Voc estragou essa oportunidade, e a minha instituio no caminho.
- Eu no fiz nada alm do que me trouxe aqui. No falei com ningum de fora da instituio, e com ningum de dentro que no estivesse dentro dos seus critrios
de segurana.
Elizabeth respirou fundo. Sua deciso j fora tomada, lembrou a si mesma. No havia sentido continuar discutindo. - Voc vai deixar a Itlia hoje. No vai voltar
ao laboratrio, nem contatar ningum que trabalha l; se voc no concordar, serei forada a extinguir sua funo no museu.
- Voc no dirige mais o instituto, nem o papai. Andrew e eu dirigimos.
- Se voc quer que continue a ser assim, vai fazer o que estou dizendo. Acredite ou no, estou tentando evitar constrangimentos para voc.
- No quero que voc me faa nenhum favor, mame. No  bom manchar a sua ficha. - Banida, era tudo em que conseguia pensar. Cortada do trabalho mais excitante
de sua vida, e mandada embora to impotente quanto uma criana de castigo no quarto.
- Dei a voc uma opo, Miranda. Se ficar, estar sozinha. E no ser mais bem-vinda em nenhuma das instalaes da Standjo, nem mesmo no Instituto de Histria
da Arte da Nova Inglaterra.
Miranda sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo, um tremor de medo e raiva. Mesmo ouvindo ecos de gritos internos de pavor e dio, disse calmamente: - Nunca vou te
perdoar por isso. Nunca. Mas eu vou embora, porque o instituto  importante pra mim.
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E porque, quando isso tudo acabar, voc vai ter que pedir desculpas, e eu vou te mandar pro inferno. Essas vo ser as ltimas palavras que vou dizer pra voc.
Pegou a coqueteleira das mos da me.
- Salute- disse, e bebeu tudo com confiana. Jogou o objeto no cho, o rudo de vidro se quebrando, virou-se e saiu. Ela no olhou para trs.
Captulo Quatro
Andrew Jones estava pensando em casamento e fracasso enquanto bebia Jack Daniels, puro, num copo pequeno. Sabia muito bem que todo mundo que o conhecia achava que
j havia passado da hora de virar a pgina do divrcio e seguir em frente.
Mas ele no sentia assim, agora que era to confortante chafurdar na lama.
O casamento fora um grande passo para ele, passo que considerara cuidadosamente, apesar de estar loucamente apaixonado na poca. Assumir um compromisso assim, traduzir
uma emoo em documento legal, lhe proporcionara muitas noites em claro. Ningum do lado dos Jones conseguira ter sucesso no casamento.
Ele e Miranda chamavam isso de maldio dos Jones.
Sua av sobrevivera ao marido por mais de uma dcada e nunca - pelo menos que o neto soubesse - tivera algo de bom a dizer sobre o homem com quem vivera por mais
de trinta anos.
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Era difcil culp-la, j que o ltimo e no chorado Andrew Jones era conhecido por sua infame afeio s louras jovens e ao Jack Daniels Black.
Seu xar tambm sabia que o av era bastardo, inteligente e bem-sucedido, mas um bastardo, mesmo assim.
O pai de Andrew preferira as escavaes aos incndios caseiros e passara a maior parte da infncia do filho longe, escovando poeira antiga de ossos antigos. Quando
estava em casa, concordava com tudo o que a esposa dizia, piscava para as crianas, como se esquecido de como haviam ido parar no seu campo de viso, e trancava-se
por horas em seu escritrio.
Mulheres e usque no eram o problema de Charles Jones. Seu objeto de adultrio e negligncia sempre fora a cincia.
No que a grande dra. Elizabeth Standford-Jones desse a mnima, Andrew pensou enquanto bebericava o que intencionara ser um drinque amigvel no bar
Annie's Place.
Ela entregara as crianas aos cuidados dos empregados, geria a casa como um general nazista e ignorava o marido de maneira to sublime quanto ele a ignorava.
Andrew sempre estremecia ao imaginar que pelo menos duas vezes esses dois sangues-frios, autorreferentes, tinham se embolado na cama por tempo suficiente para conceber
um casal de filhos.
Quando menino, Andrew sempre fantasiara que Charles e Elizabeth haviam comprado os filhos de algum casal pobre que chorara copiosamente ao trocar as crianas por
dinheiro para o aluguel.
Quando ficou mais velho, gostava de imaginar que ele e Miranda haviam sido criados em laboratrio, experimentos concebidos atravs da cincia, em vez de sexo.
Mas o triste fato era que havia muito de Jones nele para que no fosse algo natural.
Sim, pensou, e levantou o copo. Charles e Elizabeth se enrascaram na cama em carcias quentes. Ele fizera o melhor para que o
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casamento desse certo, para fazer Elise feliz, para ser o tipo de marido que ela queria e quebrar a maldio dos Jones.
E falhara completamente.
- Vou tomar outro, Annie.
- No vai, no.
Andrew revirou no banco, suspirou. Conhecia Annie McLean desde sempre, e sabia como lidar com ela.
Quando tinham dezessete anos, em pleno vero, embolaram-se sobre um lenol velho na areia e fizeram amor  beira das ondas do Atlntico.
Ele achava que o sexo casual - a primeira vez para os dois - tinha tanto a ver com a cerveja que haviam consumido, a noite em si e a tolice da juventude quanto as
ondas de calor que esbanjavam de seus corpos.
E nenhum dos dois poderia saber o que aquela nica noite, aquelas poucas horas ardentes ao mar, faria a ambos.
- Anda, Annie, me deixa tomar mais um.
- Voc j tomou dois.
- Ento, mais um no vai fazer diferena.
Annie abriu a cerveja e deslizou a garrafa graciosamente pelo balco de cerejeira do bar em direo ao cliente. Rapidamente, limpou as mos estreitas no avental.
Com um metro e sessenta e oito, e cinqenta e oito quilos bem distribudos, Annie McLean aparentava competncia.
Um grupo seleto - incluindo o ex-marido traidor - sabia que havia uma delicada borboleta azul tatuada em seu bumbum.
Seu cabelo cor de trigo era curto e espetado, e emoldurava um rosto mais interessante que bonito. O queixo era pontudo, o nariz ligeiramente para o lado e salpicado
de sardas. Seu sotaque era tpico da Nova Inglaterra e tendia a no valorizar as vogais.
Podia, e j o fizera, expulsar homens adultos de seu bar com as prprias mos calejadas, mos de trabalhadora.
O Annie's Place era dela por esforo prprio. Usara cada centavo das economias do tempo de garonete no bar - cada centavo
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que o ex-marido escorregadio no levara. Implorara e pegara emprestado o resto. Trabalhara noite e dia para transformar o que fora nada mais que um poro num confortvel
bar de bairro.
Dirigia um lugar limpo, conhecido por freqentadores regulares, suas famlias, seus problemas. Sabia quando oferecer uma nova rodada, quando servir o caf para
o cliente, quando pedir as chaves do carro e chamar um txi.
Olhou para Andrew e balanou a cabea. Beberia at cair, se deixasse.
- Andrew, vai pra casa. Come alguma coisa.
- Eu no t com fome. - Ele sorriu, sabendo como usar suas covinhas. - T frio l fora e t chovendo, Annie. S quero tomar uma coisinha pra esquentar o sangue.
- Tudo bem. - Virou-se para a mquina de caf e encheu uma caneca. - T quentinho e fresco.
- Jesus! Posso descer a rua e conseguir um drinque sem tanto sofrimento.
Ela simplesmente arqueou as sobrancelhas. - Toma o seu caf e para de reclamar. - Com isso, continuou seu trabalho.
A chuva mantivera a maioria de seus clientes em casa. Mas aqueles que corajosamente haviam desafiado a tempestade estavam grudados a seus bancos, bebendo cerveja,
vendo o canal de esportes na tev, envolvidos em conversas.
Havia fogo queimando na pequena lareira de pedra, algum colocara moedas na jukebox e selecionara Ella Fitzgerald.
Era seu tipo de noite. Quente, amigvel, fcil. Era esse o motivo que a levara a arriscar cada centavo, a escalavrar as mos, a ficar acordada e preocupada na cama,
noite aps noite. Poucas pessoas acreditaram que ela poderia ser bem-sucedida na empreitada: uma mulher de vinte e seis anos cuja nica experincia era servir canecas
de cerveja e contar gorjetas.
Sete anos depois, o Annie's Place era tradio em Jones Point.
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Andrew acreditara nela, ela se lembrou com uma pontada de culpa ao v-lo sair do bar. Ele lhe emprestara dinheiro quando os bancos no o fizeram. Levava sanduches
quando ela estava pintando as paredes e o cho de madeira. Dera ouvidos aos seus sonhos quando outros os ignoraram.
Ele achava que lhe devia alguma coisa, ela pensava agora. E era um homem decente que pagava as prprias contas.
Mas ele no poderia apagar a noite dezesseis anos antes, quando, perdida de amor por ele, ela lhe entregara sua inocncia, tomando a dele. Ele no a faria esquecer
que com isso haviam criado vida, vida que brilhara por pouco tempo.
Ele no a faria esquecer o olhar em seu rosto quando, com a alegria dando voltas sob o medo, ela lhe contara que estava grvida. Andrew empalidecera, enrijecera
sentado na pedra da praia, os olhos fixos no mar.
E sua voz soara seca, fria, impessoal, ao fazer a oferta de casar-se com ela.
A oferta de pagamento de uma dvida, ela pensava agora. Nada mais, nada menos. Oferecendo o que a maioria consideraria honrado ele partira seu corao.
Perder o beb, duas semanas depois, fora parte do destino, ela imaginou. Livrara a ambos de decises onerosas. Mas ela amara o que crescia dentro de seu corpo, assim
como amara Andrew.
Quando finalmente aceitou que o beb se fora, deixou de amar. Isso, ela sabia, fora mais um alvio para Andrew que para ela.
Era muito mais fcil danar o ritmo da amizade que as batidas desgovernadas do corao.
Droga, mulheres eram a maldio da existncia, Andrew concluiu ao destrancar o carro e postar-se atrs do volante. Sempre lhe dizendo o que fazer, como fazer e, 
acima
de tudo, como voc sempre est fazendo tudo errado.
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Estava feliz de ter encerrado a carreira com elas.
Estava muito melhor enterrando-se no trabalho do instituto de dia e embaando seus limites com usque  noite. Ningum se feria dessa maneira. Especialmente ele.
Agora estava mais sbrio, e a noite que tinha pela frente era muito longa.
Dirigiu sob a chuva, perguntando-se como seria simplesmente continuar dirigindo. At ficar sem combustvel e comear de novo em qualquer lugar. Poderia mudar de
nome, conseguir um trabalho numa construo. Era forte e tinha boas mos. Talvez o trabalho rduo, manual, fosse a resposta.
Ningum saberia quem ele era ou esperaria algo dele.
Mas ele sabia que no o faria. Nunca deixaria o instituto. Era, como nada em sua vida fora, seu lar. Precisava dele tanto quanto era necessrio  instituio.
Bem, ele tinha uma garrafa ou duas em casa. No havia razo alguma para no tomar alguns drinques em frente  sua prpria lareira, para relaxar, at que sentisse
o sono se aproximando.
Mas viu luzes piscando sob a chuva ao subir a estradinha sinuosa. Miranda. No esperava encontrar a irm em casa, no por alguns dias. Seus dedos apertaram o volante
quando pensou nela em Florena, com Elise. Precisou de vrios minutos depois de estacionar o carro at que fosse capaz de se sentir relaxado.
O vento o recebeu com uma rajada ao abrir a porta do carro. A chuva lambeu-lhe o rosto e encharcou seu colarinho. Acima das cumeeiras da casa, o cu explodia em
relmpagos.
Uma noite tempestuosa. Imaginou Miranda dentro de casa, apreciando a chuva. Ela adorava uma boa tempestade. Para si, ele queria paz, silncio e esquecimento.
Apressou-se em direo  porta, depois sacudiu-se como um cachorro, assim que entrou no hall. Pendurou o casaco encharcado
no velho suporte de carvalho e passou a mo no cabelo sem olhar-se
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no espelho antigo. Podia ouvir os tons funestos do Rquiem, de Mozart, ecoando no gabinete.
Se Miranda estava ouvindo isso, sabia que a viagem no tinha ido bem.
Encontrou-a enroscada numa poltrona em frente  lareira, embrulhada no seu robe cinza preferido, tomando ch na melhor loua da av.
Todas as suas ferramentas de conforto organizadamente em seus lugares.
- Voc voltou cedo.
- Parece que sim. - Ela estudou o irmo. Tinha certeza de que estivera bebendo, mas seus olhos estavam claros, a cor normal. Pelo menos estava ligeiramente
sbrio.
Apesar de querer um drinque, Andrew sentou-se diante dela. Era fcil perceber os sinais de irritao na irm. Mas ele a conhecia melhor do que ningum, e tambm
foi capaz de ver a tristeza escondida. - Ento, o que foi que houve?
- Ela tinha um projeto pra mim. - Como esperava que ele chegasse em casa antes que fosse para a cama, Miranda havia trazido duas xcaras. Serviu o ch e fingiu
no ouvir o gemido de desgosto do irmo.
Ela sabia muito bem que ele preferia uma dose de usque.
- Um projeto incrvel - Miranda continuou, estendendo a xcara. - Encontraram um bronze no poro da Villa delia Donna Oscura. Voc conhece a histria daquele
lugar?
- Me ajuda.
- Giulietta Buonadoni.
- Ah, lembrei. A Senhora Sombria, amante de um dos Mdici.
- Lorenzo, o Magnfico, pelo menos ele era o protetor dela - Miranda acrescentou, grata ao fato de que o irmo tinha conhecimento vasto o suficiente da poca.
Isso pouparia tempo. - O bronze era dela, era ela, no tem como confundir aquele rosto. A Elizabeth
queria que eu fizesse alguns testes para datar a pea.
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Ele esperou um pouco. - Elise podia ter feito isso.
- A rea da Elise  um pouco mais ampla que a minha. - Havia um qu de irritao no tom de Miranda. - A Renascena  a minha poca, os bronzes so a minha
especialidade. Elizabeth queria o melhor.
- Ela sempre quer. Ento, voc fez os testes.
- Fiz. Fiz de novo. Tinha as melhores pessoas da equipe me ajudando. Fiz tudo pessoalmente, passo a passo. Depois, fiz tudo de novo.
- E?
- Era verdadeiro, Andrew. - Ele inclinou o corpo  frente, extravasando um pouco de sua excitao. - Final do sculo quinze.
- Isso  incrvel! Maravilhoso! Por que a gente no t celebrando?
- Tem mais. - Ela precisou respirar fundo para controlar-se. -  um Michelangelo.
- Jesus! - Ele deixou a xcara de lado rapidamente. - Tem certeza? No tenho nenhuma lembrana de um bronze perdido.
Uma linha cavava teimosamente seu caminho entre as sobrancelhas de Miranda. - Eu apostaria minha reputao nisso.  uma pea do comeo da carreira dele, maravilhosamente
executada,  linda, lembra a sensualidade do Baco bbado dele. Eu ainda estava trabalhando na pesquisa de documentao quando vim embora, mas j tenho material suficiente
pra sustentar essa afirmao.
- O bronze no tava catalogado?
Miranda comeou a bater o p, irritada. - Giulietta provavelmente escondeu a estatueta ou, pelo menos, manteve a pea guardada. Poltica. As coisas se encaixam -
insistiu. - Eu teria provado isso se ela tivesse me dado mais tempo.
Sem conseguir ficar sentada, Miranda descruzou as pernas, levantou-se e foi atiar o fogo da lareira. - Algum deixou a informao vazar pra imprensa. A gente no
estava pronto pra fazer um anncio oficial, e o pessoal do governo ficou nervoso. Destituram
a Standjo do encargo e ela me destituiu. Me acusou de ter passado a
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informao. - Furiosa, deu um giro e voltou para perto do irmo.
- Me acusou de ter arriscado o projeto em nome de glria. Eu nunca faria isso.
- No, claro que no. - Ele podia descartar essa hiptese sem pensar. - Eles dispensaram a mame. -Apesar de ser muito baixo da parte dele, no conseguia
parar de sorrir. - Aposto que ela deve ter ficado furiosa.
- Ela ficou lvida. Se as circunstncias fossem outras, talvez eu at ficasse satisfeita com isso. Mas agora eu perdi o projeto. No s no vou ganhar crdito
nenhum por ele, como a nica maneira de eu ver aquela estatueta de novo vai ser no museu. Droga, Andrew, eu tava to perto!
- Voc pode apostar que quando o bronze for oficialmente autenticado ela vai dar um jeito de colocar o nome da Standjo associado a ele. - Levantou a sobrancelha
e olhou para a irm. - E, quando ela fizer isso, voc s tem que garantir que o seu nome no fique de fora.
- No  a mesma coisa. - Ela tirou isso de mim, era tudo em que Miranda conseguia pensar.
- Pega o que der pra pegar. - Ele tambm se levantou e foi at o armrio de bebidas. Porque precisava perguntar: - Voc encontrou a Elise?
- Encontrei. - Miranda enfiou as mos nos bolsos do robe. Porque teria que responder. - Ela me pareceu bem. Acho que ela  perfeita pra dirigir o laboratrio
l. Perguntou por voc.
- E voc disse que eu tava timo.
Miranda acompanhou-o com o olhar enquanto o irmo se servia do primeiro drinque. - Achei que voc no ia querer que eu dissesse pra ela que voc tava virando um
bbado autodestrutivo e deprimido.
- Eu sempre fui deprimido - ele disse, levantando um brinde.
- Todos ns somos; ento, isso no conta. Ela t saindo com algum?
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- No sei. A gente no chegou a discutir nossa vida sexual. Andrew, voc precisa parar com isso.
- Por qu?
- Porque  perda de tempo e  estpido. E, honestamente, apesar de eu gostar dela, ela no vale isso tudo. - Miranda levantou os ombros. - Ningum vale isso.
- Eu amava a Elise - ele murmurou, olhando para o lquido dentro do copo, antes de beb-lo. - Dei o meu melhor pra ela.
- Voc alguma vez considerou a possibilidade de ela no ter dado o melhor pra voc? Que talvez ela no estivesse  sua altura?
Ele olhou para Miranda por sobre as lentes dos culos.
- No.
- Talvez voc devesse fazer isso. Ou talvez devesse considerar que o seu melhor e o melhor dela no eram o melhor juntos. Casamentos acabam o tempo todo.
As pessoas superam.
Ele observou a bebida, analisando a luz atravs do copo.
- Talvez, se as pessoas no superassem com tanta facilidade, os casamentos no falhassem com tanta freqncia.
- E, talvez, se as pessoas no fingissem que o amor  o que faz o mundo girar, escolhessem os parceiros com mais ateno.
- O amor faz o mundo girar, Miranda.  por isso que o mundo  to errado.
Ele levantou o copo e bebeu tudo de uma vez s.
Captulo Cinco
O cu, ao amanhecer, estava tomado por nuvens cinzentas, raivosas. Incansvel, sombrio e barulhento, o mar batia nas pedras e subia para atacar o ar com seus punhos
brancos. A primavera teria de brigar para abater o inverno.
Nada poderia ter dado mais prazer a Miranda.
Ela estava de p na beira da colina, o humor to instvel quanto as guas agitadas abaixo. Observou o borrifo das ondas depois de se chocarem contra as pedras, geladas
e furiosas, e deixou-se penetrar pela fragrncia clssica de seu perfume.
Dormira mal, envolta em sonhos cuja culpa atribua ao prprio temperamento e ao cansao da viagem. No era do tipo que sonhava. Ainda estava escuro quando desistira
de dormir e vestira uma suter grossa verde e calas largas de l. Retirara o resto do caf do pote - Andrew no ficaria satisfeito quando acordasse - e tomara metade
dele.
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Agora tomava seu caf, puro e forte, numa caneca grande e branca enquanto assistia ao amanhecer ganhando vida no cu infeliz da costa leste.
A chuva parara, mas voltaria, pensou. E a temperatura cara consideravelmente durante a noite; provavelmente nevaria ou haveria chuva de granizo. Tudo bem, isso
era agradvel.
Isso era o Maine.
Florena, com seu sol brilhante e quente, o vento seco, parecia muito distante. Mas, por dentro, em seu corao raivoso, estava perto.
A Senhora Sombria era seu passaporte para a glria. Elizabeth estava certa quanto a isso, pelo menos. A glria sempre fora a sua meta. Mas, por Deus, ela trabalhara
para isso. Estudara, esforara-se arduamente para aprender, absorver, lembrar, enquanto seus contemporneos iam de uma festa  outra, de um namoro a outro.
No houvera um perodo de revolta em sua vida, nunca se rebelara contra as regras e tradies enquanto estava na universidade, no tivera nenhum affair louco, de
partir o corao. Reprimida, uma colega de quarto assim a classificara. Entediante, essa fora a opinio de outra. Como uma parte secreta de si concordava, resolvera
o problema mudando-se do campus e indo morar sozinha num pequeno apartamento.
Fora melhor assim, Miranda sempre pensara. No tinha habilidade para interaes sociais. Sob a armadura de compostura e a dureza do treinamento, era absolutamente
tmida com as pessoas, e sentia-se muito mais confortvel com a informao e o conhecimento.
Lera, escrevera e aproximara-se de outros sculos com uma disciplina alimentada pela luz quente da ambio.
Essa ambio tinha um foco. Ser a melhor. E, sendo a melhor, ter os pais olhando-a com orgulho, com deleite assombrado, com respeito. Ah, irritava-a saber que essa
motivao ainda estava cravada em seu peito, mas nunca fora capaz de se livrar dela.
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Estava perto dos trinta, tinha um doutorado, uma posio no instituto, uma slida reputao em arqueometria. E a pattica necessidade de ouvir o aplauso dos pais.
Bem, ela simplesmente teria de superar isso.
No demoraria muito, pensou, sua descoberta seria comprovada. Ento garantiria que lhe fosse dado o crdito merecido. Escreveria um artigo sobre A Senhora Sombria,
sobre seu envolvimento nos testes e na autenticao da pea.
O vento aumentou, insinuando-se por dentro da suter como mos agarrando-lhe a carne. Os primeiros flocos finos e molhados de neve comearam a danar no ar. Miranda
virou-se e afastou-se do mar, as botas triturando as pedras ao descer a colina.
O facho de luz firme do grande farol continuava a circular na torre branca, refletindo na gua e nas pedras, apesar de no haver nenhum navio ao seu alcance. Noite
e dia, ano aps ano, pensou, ele nunca falhava. Alguns o olhariam e veriam romance, mas, quando Miranda observava a torre slida, branca, sentia-se segura.
Mais, pensava agora, do que se sentia normalmente com as pessoas.
A distncia, a casa ainda dormia no escuro, silhueta elegante de outro tempo, erguida sob um cu impiedoso.
A grama estava amarelecida pelo inverno e estalava sob seus saltos e a neve. Os vestgios do jardim um dia adorvel da av pareciam ralhar com ela.
Este ano, Miranda prometeu a si mesma ao passar pelas folhas escurecidas e galhos secos, daria a ele mais tempo e ateno. Faria da jardinagem um hobby, sempre
prometera a si um hobby.
Na cozinha, serviu o resto do caf na sua xcara. Depois de um ltimo olhar para a neve que caa rapidamente l fora, decidiu ir cedo para o instituto, antes que
as estradas estivessem cobertas de branco.
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No conforto de seu mercedes alugado, ele observou o Land Rover deslizar sem esforo sobre a camada fina de neve da rua, depois entrar no estacionamento do Instituto
de Histria da Arte da Nova Inglaterra. Aquele parecia ser um veculo a ser dirigido por um general durante uma pequena guerra elegante.
Ela era uma figura, ele pensou divertido, vendo-a saltar do carro. Um metro e oitenta de mulher dentro de um par de botas, pensou, a maior parte envolta por um casaco
cinza-chumbo que garantia mais calor do que senso esttico. O cabelo era de um vermelho sensual e escapava do capuz preto em cachos despenteados. Carregava uma pasta
cheia, quase explodindo, e se movia com uma preciso e um propsito que teriam feito aquele general de guerra orgulhoso.
Mas sob aquelas passadas longas estavam a arrogncia e a sexualidade insuspeita de uma mulher que se acreditava um passo  frente das necessidades fsicas de um
homem. Caminhava com balano altivo.
Mesmo na luz fraca, ele a reconheceu. Ela era, pensou com um leve sorriso, uma mulher em quem dificilmente no se repara.
Ele estivera sentado ali por quase uma hora, entretendo-se com vrias rias de Carmen, La Bobme, As Bodas de Fgaro. Realmente tinha tudo de que precisava por enquanto,
e fizera o que era preciso, mas estava satisfeito por ter vadiado o suficiente para v-la chegar.
Uma madrugadora, concluiu, uma mulher que gostava do seu trabalho o suficiente para encar-lo numa manh fria e com neve, antes que a maioria das pessoas da cidade
tivesse sado da cama. Apreciava uma pessoa que gostava de seu trabalho. Deus era testemunha, ele adorava o seu.
Mas o que fazer quanto  dra. Miranda Jones?, perguntava-se. Imaginava-a usando a entrada lateral, mesmo agora enquanto ela
enfiava seu carto de identificao na fresta da porta e digitava seu
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cdigo no visor. Sem dvida, zeraria os alarmes de segurana assim que entrasse.
Todos os relatrios demonstravam que era uma mulher prtica e cuidadosa. Ele gostava de mulheres prticas. Era to divertido corromp-las...
Ele poderia trabalhar perto dela, poderia us-la. De uma maneira ou de outra, concluiria sua tarefa. Mas us-la seria to mais... divertido. Como seria seu ltimo
trabalho, parecia-lhe justo incluir um pouco de diverso  emoo e aos lucros.
Pensou que valeria a pena conhecer Miranda Jones, mimar a si mesmo com ela. Antes de roub-la.
Viu as luzes piscarem numa janela do terceiro andar do grande prdio de granito. Direto ao trabalho, divertiu-se, sorrindo novamente ao enxergar a sombra se movendo
atrs da janela.
Era hora de ele mesmo comear seu trabalho. Ligou o carro, saiu do meio-fio e foi embora para se preparar para a outra parte do dia.
O Instituto de Histria da Arte da nova Inglaterra
fora construdo pelo bisav de Miranda. Mas fora seu av, Andrew Jones, quem expandira seu potencial. Ele sempre tivera grande interesse pelas artes e sempre se
imaginara um pintor. Fora pelo menos bom o suficiente para convencer algumas modelos a tirar a roupa e posar para ele.
Gostava de socializar com artistas, entret-los, agindo como patrono, quando uma mulher - particularmente atraente - chamava sua ateno. Um mulherengo e bbado
entusistico ele fora, mas tambm generoso, imaginativo e nunca tivera medo de colocar seu dinheiro a servio do corao.
O prdio era um bloco firme de granito cinza e estendia-se por todo o quarteiro com suas colunas altas, suas alas laterais e arcos. A estrutura original havia sido
um museu de jardins muito bem cuidados, rvores frondosas e uma fachada de dignidade discreta, em vez de rgida.
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Andrew quisera mais. Enxergava o instituto como um carto de visitas para as artes e para os artistas, como uma arena em que a arte pudesse ser exposta, restaurada,
ensinada e analisada. Portanto, cortara as rvores, cobrira o cho e construra acrscimos sofisticados no prdio original.
Havia salas de aula com janeles, laboratrios cuidadosamente planejados, grandes depsitos e muitos escritrios. Os espaos para as galerias haviam sido mais que
triplicados.
Estudantes que quisessem aprender ali eram admitidos por mrito. Aqueles que pudessem pagar o faziam felizes pelo privilgio. Os que no podiam, e valiam a pena,
eram subsidiados.
A arte era sagrada no instituto, e a cincia, uma divindade.
Gravadas na pedra sobre a entrada principal, estavam as palavras de Longfellow:
a arte  duradoura, e o tempo  fugidio
Estudando, preservando e expondo essa arte, era assim que o instituto despendia seu tempo.
Mantinha-se basicamente fiel  concepo de Andrew cinqenta anos depois, sob a direo dos netos.
As galerias do museu eram indiscutivelmente as melhores do Maine, e os trabalhos expostos haviam sido cuidadosamente escolhidos e adquiridos ao longo dos anos, a
comear pelas prprias colees de Charles e de Andrew.
A rea pblica tomava o primeiro piso, uma galeria sucedendo a outra nos corredores de arcos. Salas de aula e estdios ocupavam o segundo piso, sendo a rea de restaurao
separada por um pequeno lobby, e visitantes autorizados podiam circular pelos espaos de trabalho.
Os laboratrios ficavam no trreo e espalhavam-se pelas alas laterais. Eram, apesar das grandes galerias e instalaes educacionais, a alma do instituto.
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Os laboratrios, Miranda sempre pensara, eram sua alma tambm.
Deixando a pasta de lado, dirigiu-se  bancada sob a janela para preparar caf. Quando apertou o boto da mquina, seu fax tocou. Depois de abrir as persianas, foi
at o aparelho e retirou a pgina impressa.
Bem-vinda ao lar, Miranda. Gostou de Florena? Que pena que sua viagem tenha sido interrompida to abruptamente! Onde voc acha que cometeu um erro? J pensou nisso?
Ou est absolutamente confiante de que est certa?
Prepare-se para a queda. Vai ser um choque violento.
Esperei tanto tempo por isso. Assisti a tudo com tanta pacincia.
Ainda estou observando, e a espera est quase no fim.
Miranda surpreendeu-se esfregando a mo no brao, na tentativa de aquec-lo enquanto lia a mensagem. Apesar de interromper o gesto, o calafrio persistiu.
No havia nome, nenhum nmero de telefone.
Parecia uma ligeira gargalhada, ela pensou. O tom era zombeteiro e fantasmagoricamente ameaador. Mas por qu? Quem?
Sua me? Envergonhou-se de o nome de Elizabeth ser o primeiro a ocorrer-lhe. Mas certamente uma mulher com o poder de Elizabeth, com sua personalidade e posio,
no se rebaixaria com mensagens annimas cifradas.
Ela j ferira Miranda da maneira mais direta possvel.
Era mais provvel que um empregado insatisfeito da Standjo ou do instituto o tivesse feito, algum que achasse que ela fora injusta na poltica de trabalho ou na
delegao de tarefas.
Claro, era isso, concluiu e tentou respirar calmamente de novo. Um tcnico que ela repreendera ou um aluno infeliz com sua nota. Isso s poderia ser algo com a inteno
de desestabiliz-la, e no permitiria que isso acontecesse.
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Mas, em vez de descartar a mensagem, enfiou-a na ltima gaveta e trancou-a com a chave.
Tirando o incidente da cabea, sentou-se para organizar seu dia no papel. Quando completou a lista das primeiras tarefas - ler a correspondncia e os memorandos,
organizar os recados telefnicos -, o sol estava alto e os raios adentravam o ambiente pelas frestas da persiana.
- Miranda? - Batidas rpidas  porta a assustaram.
- Oi, pode entrar. - Olhou para o relgio, notando que sua assistente era pontual, como sempre.
- Vi seu carro no estacionamento. No sabia que voc estaria de volta hoje.
-  verdade, no era... previsto.
- E como vai Florena? - Lori moveu-se agilmente pela sala, checando as mensagens, ajustando as persianas.
- Quente, ensolarada.
- Que timo! - Satisfeita porque tudo estava em ordem, Lori sentou-se e apoiou o bloco de notas nos joelhos. Era muito loura e tinha boca de boneca, voz de
Betty Boop e um ar de eficincia de lmina de barbear. - Que bom que voc voltou - disse com um sorriso.
- Obrigada. - Como as boas-vindas eram sinceras, Miranda sorriu em retribuio. -  bom estar de volta. Tenho um monte de coisas para atualizar. Agora eu
preciso das novidades do Nu do Carbello e da restaurao do Bronzino.
A rotina era apaziguadora, tanto que Miranda esqueceu tudo que no fazia parte dos assuntos em pauta por duas horas. Deixou Lori marcando encontros e compromissos,
e saiu da sala para ver como andavam as coisas no laboratrio.
Como pensou em Andrew, Miranda decidiu passar pela sala do irmo antes de descer. Seu escritrio ficava na ala do lado oposto, perto das reas abertas ao pblico.
As galerias, obras de arte e expositores eram seu domnio, enquanto Miranda preferia trabalhar
majoritariamente nos bastidores.
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Atravessou os corredores, as botas buscando seu caminho sobre o mrmore. Por toda a extenso, grandes janeles quadrados deixavam entrar plidos raios de luz solar
sobre o piso, dando tambm passagem ao som abafado do trfego na rua,  viso de pedaos de prdios e rvores de galhos secos.
As portas dos escritrios estavam fechadas. O som ocasional de telefones tocando ou de fax ecoava monotonamente. Uma secretria saiu do almoxarifado carregando uma
pilha de papis e encarou Miranda com olhos de coelho assustado, antes de murmurar um "Bom-dia, dra. Jones" e seguir em frente.
Ela era to intimidadora assim?, Miranda pensou. To pouco amigvel? Como isso a fazia pensar no fax, estreitou os olhos na direo das costas da mulher que sumia
por uma porta, fechando-a em seguida.
Talvez ela no fosse to extrovertida, talvez o staff no tivesse a mesma afeio por ela que parecia ter por Andrew, mas ela no era... difcil. Era?
Perturbou-a imaginar que sim, e perguntou-se se sua atitude naturalmente reservada seria percebida como frieza.
Como a de sua me.
No, ela no queria acreditar nisso. Aqueles que a conheciam no pensariam assim. Tinha um relacionamento slido com Lori, uma camaradagem com John Carter. No dirigia
o laboratrio como se fosse um acampamento de guerra em que ningum podia dar sua opinio ou contar uma piada.
No entanto, ningum brincava com ela, pensou.
Estava no comando, lembrou a si mesma. O que mais podia esperar?
Deliberadamente, relaxou mais uma vez os ombros. No podia deixar que uma secretria tmida a levasse a um momento de auto-anlise.
Como, felizmente, no tinha encontros ou compromissos pblicos importantes agendados, vestia a mesma roupa que colocara de manhzinha para assistir ao alvorecer.
O cabelo estava puxado
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para trs numa trana malfeita e fios j escapavam do penteado desajeitado.
Pensou que j passava do meio-dia na Itlia e que o bronze j estaria sendo testado intensamente. Isso fez com que seus ombros se retesassem mais uma vez.
Passou pela porta da antessala do escritrio do irmo. L dentro havia uma escrivaninha vitoriana, robusta, duas cadeiras velhas de espaldar alto, armrios cor de
burro quando foge e uma mulher que tomava conta daquilo tudo.
- Bom-dia, Srta. Purdue.
A assistente de Andrew tinha algo em torno dos cinqenta, aprumada como uma freira muito severa. Usava o mesmo coque grisalho todos os dias, ano sim, ano no, e
nunca estava sem sua blusa engomada e o tailleur escuro.
Era sempre a srta. Purdue.
Ela acenou, ocupada, depois removeu os dedos do teclado do computador e cruzou as mos delicadamente. - Bom-dia, dra. Jones. No sabia que estava de volta da Itlia.
- Voltei ontem. - Tentou sorrir, pensando ser um bom momento para ser agradvel com o staff. -
 um pouco chocante voltar pra esse inverno gelado. - Quando
a srta. Purdue respondeu com um simples aceno de cabea, Miranda desistiu, agradecida, de bater papo. - Meu irmo t a?
- O dr. Jones acabou de descer para receber um convidado. Deve estar de volta em um instante. Voc quer esperar ou prefere deixar um recado?
- No. No era nada de mais. Falo com ele mais tarde. - Virou-se ao ouvir vozes masculinas subindo as escadas. Se os olhos crticos da srta. Purdue no estivessem
cravados nela, teria escapado rapidamente, em vez de se arriscar a ter de socializar com o convidado de Andrew.
No teria ficado presa se tivesse ido direto para o laboratrio, pensou, rapidamente afastando o cabelo dos olhos e esboando um
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O sorriso sumiu-lhe do rosto quando Andrew e seu acompanhante chegaram ao topo da escada.
- Miranda, que bom que voc t aqui! - Os olhos de Andrew brilharam ao v-la. - Vai me poupar o trabalho de ligar pra sua sala. Queria te apresentar Ryan
Boldari, da Galeria Boldari.
Ele deu um passo  frente, pegou a mo de Miranda e a levou delicadamente at os lbios. - Que bom conhecer voc finalmente!
Ele tinha um rosto que poderia ter sido reproduzido por ricas pinceladas em um dos quadros do instituto. A beleza sombria e selvagem era ligeiramente suavizada pelo
terno cinza impecavelmente bem cortado e pelo n perfeito da gravata de seda. O cabelo era cheio, preto como tinta, e elegantemente ondulado. A pele era aveludada
e intri-gantemente marcada por uma pequena cicatriz na ponta da sobrancelha esquerda.
Seus olhos captaram os dela e eram de um castanho-escuro com reflexos ligeiramente dourados sob a luz. A boca deveria ter sido esculpida por um mestre e estava curvada
num sorriso feito para levar uma mulher a se perguntar que sensao aquele contato provocaria. E suspirar.
Ouviu um estampido - som nico e animador dentro da prpria cabea -, e era a dupla batida de seu corao.
- Bem-vindo ao instituto, sr. Boldari.
- O prazer de estar aqui  todo meu. - Ele manteve a mo dela nas suas, porque isso parecia aturdi-la. Por mais educadamente que sorrisse, havia uma linha
suave de irritao entre suas sobrancelhas.
Ela questionou se no deveria puxar a mo de uma vez, mas concluiu que seria um gesto muito feminino.
- Por que a gente no vai pra minha sala? - Desatento a qualquer que fosse o jogo que acontecia sob seu nariz, Andrew gesticulou em direo  porta do escritrio.
- Miranda, voc tem um minuto?
- Na verdade, eu estava...
- Eu adoraria ter alguns minutos do seu tempo, dra. Jones. - Ryan lanou um sorriso ao soltar a mo dela e toc-la no ombro.
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- Tenho uma proposta pro seu irmo que acho que  do seu interesse. Sua rea principal de trabalho  o Renascimento, no ?
Encurralada, ela permitiu que Andrew a encaminhasse at o escritrio. - Isso.
- Uma poca brilhante, cheia de beleza e energia. Voc conhece o trabalho de Giorgio Vasari?
- Claro, do final do Renascimento, um maneirista, o trabalho dele determinou o caminho em busca da elegncia.
- Ryan tem trs obras de Vasari. - Andrew gesticulou em direo s cadeiras, que, graas  srta. Purdue, no estavam cheias de livros e papis, como de hbito.
- Jura? - Miranda sentou-se e providenciou um novo sorriso. O escritrio de Andrew era bem menor que o dela, porque ele preferia assim. Era tambm abarrotado,
colorido e cheio de enfeites que gostava de ter  sua volta. Ossos antigos, fragmentos de cermica, pedaos de vidro. Ela preferiria ter tido esse encontro inesperado
no ambiente discreto e formal de seu prprio territrio.
Como estava nervosa, imaginou-se tamborilando e balanando os ps.
- Verdade. - Ryan deu uma leve puxada na cala para preservar o vinco ao se sentar numa cadeira estreita de encosto de couro.
- Voc no acha o trabalho dele um pouco autocentrado? Meio excessivo?
- Isso tambm  tpico do maneirismo - Miranda argumentou.
- Vasari  um artista importante daquela poca e daquele estilo.
- Concordo. - Ryan simplesmente sorriu. - Pessoalmente, eu prefiro o estilo do comeo e do auge da Renascena, mas negcios so negcios. - Ele acenou com
a mo, tinha mos fortes, graciosas, Miranda percebeu. Palmas largas, dedos longos.
Irritou-a o fato de ter notado e constrangeu-a o de ter - por um ou dois segundos - imaginado a sensao de t-las sobre a sua pele. Como uma adolescente diante
de um astro do rock, pensou, assombrada consigo mesma.
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Quando, deliberadamente, afastou o olhar das mos dele, seus olhos se encontraram. Ele sorriu novamente, os olhos brilhando.
Mulher fascinante, pensou. O corpo de uma deusa, maneiras de pessoa modesta, senso de moda de refugiada e uma pitada muito atraente de timidez nesses olhos azuis
sensuais.
Manteve o olhar grudado nela, deliciado ao perceber o leve colorido que brotava em suas faces. Na sua opinio, as mulheres quase no coravam mais hoje em dia.
Perguntou-se como ficaria com aqueles culos que estavam pendurados na gola da suter.
Sexy como uma estudante.
- Conheci seu irmo h alguns meses, quando estvamos os dois em Washington para a festa beneficente As Mulheres na Arte. Imagino que ele tenha ido no seu
lugar.
- , eu no pude ir.
- Miranda andava enfiada no laboratrio. - Andrew sorriu. - Eu sou mais facilmente dispensvel. - Reclinou-se na prpria cadeira. - O Ryan t interessado
na nossa Madonna de Cellini.
Miranda ergueu uma sobrancelha. -  um dos nossos tesouros.
- , acabei de ver. Gloriosa. Seu irmo e eu discutimos uma troca.
- O Cellini. - O olhar de Miranda desviou em direo ao irmo. - Andrew.
- No  pra ser permanente - Ryan disse rapidamente, e no se preocupou em disfarar a risadinha diante do rpido desconforto dela. - Coisa de trs meses,
pra benefcio mtuo. Ando planejando fazer uma exposio das obras de Cellini na galeria de Nova York, e o emprstimo da sua Madonna seria incrvel pra mim. Em troca,
emprestaria meus trs Vasari pro instituto pelos mesmos trs meses.
- Voc pode fazer a exposio dos trs estilos da Renascena que vem querendo h anos - Andrew ressaltou.
Era um dos sonhos de Miranda, uma exposio completa de seu campo de interesse. Arte, artefatos, histria, documentos, tudo exposto, exatamente como queria.
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- , acho que eu poderia fazer isso. - Sentiu uma leve onda de excitao, mas virou-se placidamente para Ryan. - Os Vasari foram autenticados?
Ryan inclinou a cabea, e ambos fingiram no ouvir o gemido baixinho de Andrew. - Claro que sim. Mando pra voc os documentos antes de a gente fechar o acordo. E
voc tambm me manda os documentos do Cellini.
- Posso te passar tudo hoje mesmo. Minha assistente pode mandar entregar no hotel pra voc.
- timo. Eu agradeo.
- Bem, vou deixar vocs dois acertarem os detalhes.
Mas, quando ela se levantou, ele tambm o fez, e pegou sua mo novamente. - Ser que voc no me levaria pra conhecer um pouco mais desse lugar? Andrew me falou
que os laboratrios e as instalaes de restaurao so seu departamento. Eu adoraria conhecer.
- Eu...
Antes que pudesse desculpar-se, Andrew ficou de p e deu-lhe um cutuco nada sutil nas costelas. - Voc no poderia estar em melhores mos. Te vejo de novo daqui
a algumas horas, Ryan. Depois vou providenciar aquela sopa de mariscos que prometi.
- Estou contando com isso... Minhas galerias expem obras de arte - ele comeou a dizer, segurando casualmente a mo de Miranda enquanto ela caminhava pelo
corredor em direo  outra ala do prdio. - No sei quase nada sobre a cincia de manter essas obras. Voc j se sentiu confusa alguma vez, misturando as duas coisas?
- No. Sem uma, no existiria a outra. - Dando-se conta de que sua resposta fora um tanto abrupta, suspirou. O homem a deixava nervosa, nervosa o suficiente
para que deixasse transparecer. Isso no era bom. - O instituto foi construdo pra comportar as duas atividades, ou melhor, pra celebrar as duas. Como uma cientista
que estuda a arte, eu gosto disso.
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- Eu era um pssimo estudante de cincias - ele disse, com um sorriso to sedutor que ela curvou os lbios em retribuio.
- Tenho certeza de que voc tem outros pontos fortes.
- Prefiro achar que sim.
Ele era um homem observador e prestou ateno nos espaos entre as alas, na posio das escadas, dos escritrios, dos depsitos, das janelas. E, claro, das cmeras
de segurana. Tudo exatamente como nas informaes que recebera. Ainda assim, poderia transcrever suas observaes detalhadamente mais tarde. Por ora, simplesmente
as arquivaria na mente, enquanto apreciava a fragrncia delicada do perfume de Miranda.
Nada era declarado na dra. Jones, pensou. Nada obviamente feminino. E o cheiro rascante com notas de madeira que ele imaginava vir do sabonete, em vez de um frasco
delicado, era perfeitamente apropriado para ela, concluiu.
No final do corredor, ela virou  direita, depois parou para passar seu carto-chave no lugar adequado, ao lado de uma porta de metal. Um rudo e as trancas se abriram.
Ryan deu uma olhada discreta para a cmera logo acima.
- Nossa segurana interna  rigorosa - ela disse. - Ningum entra sem uma chave ou algum acompanhando. A gente faz muitos testes pra outras pessoas e outros
museus.
Ela o encaminhou a uma ala muito parecida com a Standjo em Florena, embora em escala bem menor. Tcnicos trabalhavam em computadores e microscpios, entravam e
saam de salas, os jalecos abertos esvoaando.
Ela observou um membro da equipe trabalhando numa cermica decorada e levou Ryan at l. - Stanley, o que  que voc pode nos dizer sobre essa pea?
O tcnico coou o bigode louro e sugou o ar atravs dos dentes semicerrados. - Seu pai mandou da escavao em Utah, junto com vrios outros artefatos.  provavelmente
Anasazi, sculo doze, e era usada para cozinhar.
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Ele pigarreou, lanando um rpido olhar para Miranda, e, depois do aceno de concordncia, continuou: - A beleza  que est praticamente intacta, s tem essa rachadurazinha
na borda.
- Por que voc acha que era usada pra cozinhar? - Ryan queria saber, e Stanley piscou.
- O formato, o tamanho, a espessura.
- Obrigada, Stanley. - Miranda virou-se novamente para Ryan e quase tropeou nele, j que ele se aproximara enquanto ela estava de costas. Afastou-se imediatamente,
mas no antes de perceber que ele era alguns centmetros mais alto que ela. E aquele brilho de ateno profunda nos olhos dava ao rosto dele um trao alm do sensual,
pura e simplesmente sexy.
Ela sentiu aquela maldita acelerao no corao.
- Somos antes de tudo um instituto de arte, mas, como meu pai tem interesses em arqueologia, temos uma sesso de exposio de artefatos, fazemos muitos testes
e dataes nessa rea. No  minha rea. Agora...
Ela foi at um armrio, abriu uma gaveta e revirou-a at encontrar um pequeno saco marrom. Transferiu um punhado de tinta para uma lmina, depois colocou-a sob um
microscpio.
- D uma olhada nisso - ela o convidou. - Me diz o que voc v.
Ele se inclinou, ajustou o foco. - Cor, forma, interessante... parece uma pintura de Pollock. - Ergueu-se e fixou aqueles olhos cor de conhaque nela. - O que  isso,
dra. Jones?
- Um fragmento de um Bronzino que estou restaurando. A tinta  indiscutivelmente do sculo dezesseis. A gente sempre pega uma amostra, tanto antes de comear
o trabalho quanto depois de terminar. Assim no fica dvida de que recebemos uma obra autntica, e nenhuma dvida de que devolvemos a mesma pea para o dono depois
de terminar a restaurao.
- Como  que voc sabe que a tinta  do sculo dezesseis?
- Quer uma aula de cincias, sr. Boldari?
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- Ryan, e a eu tambm posso chamar voc pelo primeiro nome. Miranda  um nome encantador. - A voz dele era como uma cobertura quente sobre usque, e ela
estremeceu. - E talvez eu at goste de ter aula de cincias com a professora certa.
- Voc vai ter que se inscrever pra fazer as aulas.
- Maus alunos funcionam melhor com aulas particulares. Janta comigo hoje  noite.
- Eu sou uma professora medocre.
- Janta comigo mesmo assim. A gente pode discutir arte e cincia, e eu posso te falar sobre os Vasari. - Ele teve urgncia em levantar a mo e brincar com
os fios que escapavam de seu penteado. Ela pularia como uma lebre, ele concluiu. - A gente pode chamar de jantar de negcios, se te deixar mais  vontade.
- Eu no estou pouco  vontade.
- Bem, ento eu te pego s sete. Sabe - ele continuou, novamente segurando a mo dela -, eu adoraria ver esse Bronzino. Gosto da pureza formal do trabalho
dele.
Antes que ela pudesse imaginar como livrar sua mo, ele a enfiou confortavelmente em seu brao e encaminhou-se para a porta.
Captulo Seis
ela no sabia por que concordara em jantar com ele, embora se desse conta de que no havia necessariamente concordado, ao relembrar a conversa entre ambos. O que
no explicava o motivo de estar se vestindo para sair.
Ele era um associado, lembrou a si mesma. A Galeria Boldari tinha grande reputao por sua elegncia e pela exclusividade. Na nica vez em que conseguira uma horinha,
quando estava em Nova York, para visitar o lugar, impressionara-se com a grandeza do prdio quase tanto quanto se impressionara com o acervo.
No faria mal ao instituto se ela forjasse uma relao entre uma das mais glamourosas galerias do pas e as organizaes Jones.
Queria jantar para falar de negcios. Certificara-se de manter o combinado na esfera profissional, mesmo que o perfume dele acendesse fagulhas de desejo nas suas
entranhas.
Se ele queria flertar com ela, tudo bem. Com o corao aos pulos ou no, o flerte no a afetava. No era uma cabea de vento
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impressionvel, afinal de contas. Homens como Ryan Boldari j nasciam com a habilidade do flerte completamente desenvolvida.
Ela gostava de pensar que nascera naturalmente imune a esses tolos talentos.
Ele tinha olhos incrveis. Olhos que olhavam para voc como se todo o resto tivesse desaparecido.
Quando se deu conta de que suspirara e fechara os olhos, resmungou algo entre os dentes e fechou o zper de trs do vestido de uma s vez.
Era somente uma questo de orgulho e cortesia profissional o fato de ter escolhido ser elegante quanto  sua aparncia naquela noite. Quando ele a vira pela primeira
vez, ela parecia uma estudante desleixada. Hoje  noite, veria que era uma mulher madura e sofisticada, que no tinha dificuldade para lidar com um homem durante
uma refeio.
Escolhera um vestido de l preta, com decote frontal generoso, to generoso que era possvel vislumbrar o volume de seus seios firmes sobrepondo-se  borda do tecido.
As mangas eram compridas e justas, a saia, estreita e levemente mais larga  altura dos tornozelos. Adicionou uma cruz bizantina, o que lhe deu um ar inquestionavelmente
sexy. A ponta vertical do objeto descansava confortavelmente no vo entre seus seios.
Puxou o cabelo para cima, prendendo-o com grampos a esmo. O resultado foi, se tivesse coragem de dizer, um visual casualmente sensual.
Estava bem, concluiu, com a aparncia confiante e muito distante da jovem alta demais, socialmente inadequada, que fora nos tempos de universidade. Ningum que olhasse
para ela agora diria que tinha calafrios no estmago por causa de um simples jantar de negcios, ou que se preocupava com a possibilidade de ficar sem assunto inteligente
antes dos aperitivos.
Veriam pose e estilo, pensou. Os outros e ele veriam exatamente o que ela queria que vissem.
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Pegou sua bolsa, espichou o pescoo para espiar o bumbum no espelho e ter certeza de que o vestido no o fazia parecer muito grande, depois encaminhou-se para o
andar de baixo.
Andrew estava na saleta de entrada, j no segundo usque. Baixou os culos quando ela entrou e levantou as sobrancelhas.
- Bem, uau.
- Andrew, voc  um poeta, sabia? T gorda com esse vestido?
- Nunca houve uma resposta correta pra essa pergunta. Ou, se existe uma, nenhum homem descobriu. Portanto... - Levantou o copo num brinde. - Eu passo.
- Covarde. - E, como seu estmago desse cambalhotas de nervosismo, serviu-se de uma taa de vinho branco.
- Voc no t um pouco sensual demais pra um jantar de negcios?
Ela deu um gole, deixou o vinho descer e acalmar um pouco a agitao do corpo. - No foi voc que fez uma palestra de uns vinte minutos hoje  tarde sobre quantos
benefcios um relacionamento com a Galeria Boldari pode trazer?
- Verdade. - Mas ele estreitou os olhos. Apesar de Andrew nem sempre enxergar a irm como mulher, o fazia agora. Ela estava, ele pensou com desconforto, de
parar o trnsito. - Ele deu em cima de voc?
- Cuida da sua vida.
- Deu?
- No. No exatamente - ela emendou. - E se deu, ou der, eu sou bem crescidinha e sei como dar um corte ou reagir, se for o caso.
- Aonde vocs vo?
- No perguntei.
- As estradas ainda esto bem ruins.
- Estamos em maro, claro que as estradas no Maine esto ruins. No d uma de irmo mais velho comigo, Andrew. - Ela deu um tapinha no rosto dele ao dizer
isso, mais relaxada agora que
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ele estava tenso. - Deve ser o Ryan - acrescentou ao ouvir a campainha. - Comporte-se.
- Me comporto em nome de trs Vasari - ele resmungou, mas franziu as sobrancelhas ao acompanhar a sada de Miranda. s vezes ele esquecia como ela podia parecer
extravagante, se quisesse. O fato de esse ter sido obviamente o objetivo deixou-o com a pulga atrs da orelha.
A desconfiana o teria perturbado caso tivesse visto o brilho nos olhos de Ryan, o fogo ardente por trs daquele olhar, quando Miranda abriu a porta.
Um soco no estmago, Ryan pensou, e ele deveria estar mais preparado para isso. - Voc parece uma pintura de Ticiano. - Ele pegou a mo dela, aproximou-se e encostou
os lbios no rosto de Miranda... uma face, depois a outra,  europeia.
- Obrigada. - Ela fechou a porta e resistiu  necessidade de apoiar-se nela para recobrar o equilbrio. Havia algo poderoso e enervante na maneira como suas
botas de salto alto os deixavam numa altura que permitia que seus rostos se alinhassem. Como se estivessem, digamos, na cama.
- Andrew t na saleta - disse a ele. - Quer entrar um minuto?
- Adoraria. Voc tem uma casa fabulosa. - Examinou o hall com os olhos e deu uma olhada na escada ao segui-la at a saleta. - Impressionante e confortvel
ao mesmo tempo. Voc podia contratar algum pra fazer uma pintura dela.
- Meu av fez um leo. No  muito bom, mas a gente  f do quadro. Quer beber alguma coisa?
- No, nada. Oi, Andrew. - Estendeu a mo. - Vou roubar sua irm um pouquinho hoje  noite, a no ser que voc queira vir com a gente.
Ryan sempre fora um jogador, mas amaldioou-se ao ver que Andrew considerava a possibilidade. Apesar de no perceber que Miranda estreitava os olhos e fazia caretas
ameaadoras para o irmo, Ryan sentiu-se aliviado quando Andrew balanou negativamente a cabea.
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- Agradeo, mas eu tenho outros planos. Vocs dois, se divirtam.
- S vou buscar meu casaco.
Andrew os viu sair, depois puxou o prprio casaco de dentro do armrio. Seus planos haviam mudado. No estava mais a fim de beber sozinho. Preferia ficar bbado
acompanhado.
MiRANDA CONTRAIU OS LBIOS AO ESCORREGAR PARA O banco de trs da limusine. - Voc sempre viaja assim?
- No. - Ryan sentou-se ao seu lado, pegou uma rosa branca num pequeno vaso e ofereceu a ela. - Mas tenho uma queda por champanhe que no poderia ser atendida
se eu estivesse dirigindo. - Para provar o que dizia, pegou uma garrafa j aberta de Cristal num balde de gelo e serviu uma taa para ela.
- Jantares de negcios normalmente no comeam com rosas e champanhe.
- Deveriam. - Serviu a prpria taa e brindou com ela. - Quando incluem mulheres devastadoramente lindas. Ao comeo de uma relao interessante e divertida!
- Parceria - ela corrigiu. - Eu estive na sua galeria em Nova York.
- Jura? E o que voc achou?
- Intimista. Glamourosa. Uma joia polida com arte.
- Fico lisonjeado. Nossa galeria em San Francisco  mais espaosa, tem mais luz. Nosso foco l  arte contempornea e arte moderna. Meu irmo Michael tem
um olho timo, e  um apaixonado. Eu prefiro o clssico... e ntimo.
A voz dele percorreu suavemente a pele de Miranda. Um sinal, ela pensou, um sinal perigoso. - Ento a famlia Boldari  empreendedora.
- Isso. Como a sua.
- Duvido - ela murmurou, depois encolheu os ombros. Mantenha a conversa, lembrou a si mesma. Era uma mulher
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confiante. Era capaz de manter o dilogo. - Como voc se envolveu com arte?
- Meus pais so artistas. A maior parte do tempo eles ensinam, mas as aquarelas da minha me so gloriosas. Meu pai  escultor, faz estruturas complicadas
de metal que ningum, fora o Michael, entende. Mas isso alimenta a alma dele.
Mantinha os olhos fixos nela enquanto falava, de maneira direta e intensa, o que fazia com que insistentes ondas sensuais atravessassem a pele de Miranda. - E voc
pinta ou esculpe? - ela perguntou.
- No, no tenho mos pra isso, nem alma. Foi um desapontamento enorme pros meus pais o fato de nenhum dos seis filhos ter talento pra fazer arte.
- Seis. - Miranda piscou quando ele encheu novamente sua taa. - Seis filhos.
- Minha me  irlandesa, meu pai  italiano. - Ele sorriu, charmoso. - O que mais podiam fazer? Tenho dois irmos, trs irms e eu sou o mais velho. Voc
tem um cabelo maravilhoso - ele murmurou, enrolando uma mecha solta no dedo. Ele tinha razo. Ela deu um salto. - Como  que voc consegue no ficar com a mo nele
o tempo todo?
-  vermelho, difcil de cuidar, e se eu no fosse ficar parecendo uma azaleia gigante, cortava bem curtinho.
- Foi a primeira coisa que reparei em voc. - Seu olhar baixou, encontrando o dela novamente. - Depois, os seus olhos. Voc tem cores e formas definidas e
intensas.
Ela se esforou para reprimir a idia fascinante de agarr-lo pelo colarinho e simplesmente juntar seu corpo ao dele at que fossem s um no banco de trs. E, apesar
de seus dedos lutarem por controle, ela no conseguia fazer com que ficassem quietos. - Como a arte moderna?
Ele riu. - No. Muita praticidade clssica pra isso. Gosto do Seu visual - ele disse quando a limusine encostou no meio-fio e
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parou. A porta foi aberta e ele segurou a mo dela para ajud-la a descer. A boca quase de encontro  orelha dela. - Vamos ver se a gente gosta da companhia um do
outro.
Ela no saberia dizer o momento em que comeou a
relaxar. Talvez na terceira taa de champanhe. Tinha de admitir que ele era suave - talvez um pouquinho suave demais -, mas era bom. J fazia bastante tempo desde
a ltima vez em que estivera numa mesa  luz de velas com um homem, e quando o homem tinha um rosto que pertencia a um quadro renascentista, era impossvel no apreciar
o momento.
E ele escutava. Podia alegar ter sido pssimo aluno de cincias, mas certamente sabia fazer as perguntas certas e mostrar interesse pelas respostas. Talvez quisesse
simplesmente deix-la  vontade, mantendo a conversa no campo profissional, mas ela estava agradecida pelos resultados.
No conseguia se lembrar da ltima vez em que despendera uma noite falando de seu trabalho, e ao falar dele, lembrava-se da razo pela qual o amava.
-  a descoberta - disse para ele. - Estudar uma obra de arte, descobrir a sua histria, a individualidade, a personalidade, eu acho.
- Como se voc dissecasse a pea?
- De certa maneira,  isso. - Era to agradvel estar assim, no calor reconfortante de um restaurante, uma lareira acesa por perto, o mar escuro e gelado
do outro lado da janela. - A tinta em si, depois as pinceladas, o objeto, o motivo. Todas as partes que podem ser estudadas e analisadas pra se chegar s respostas.
- E voc no acha, no final de tudo, que a resposta  a arte em si?
- Sem a histria e as anlises,  s uma pintura.
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- Quando uma coisa  bonita, isso  o suficiente. Se eu fosse analisar o seu rosto, pegaria seus olhos, o vero escaldante que vejo neles, a inteligncia,
uma pitada de tristeza. E a suspeita. - Acrescentou com um sorriso: - A sua boca, suave, grande, com dificuldade de sorrir. As mas do rosto, agudas, aristocrticas.
O seu nariz, fino, elegante. Separando os traos, analisando, estudando, eu ainda chegaria  concluso de que voc  uma mulher incrvel, lindssima. E posso fazer
isso simplesmente sentado aqui, olhando pro todo.
Ela remexeu a comida no prato, lutando para no se mostrar nitidamente lisonjeada ou seduzida. - Isso foi inteligente.
- Sou um homem inteligente e voc no confia em mim.
Ela fixou os olhos nele mais uma vez. - Eu no te conheo.
- O que mais eu posso te contar? Sou de uma famlia grande, tnica, cresci em Nova York, estudei, sem grande entusiasmo, na Colmbia. Depois, como no sou
artista, passei a fazer negcios com arte. Nunca me casei, coisa que desagrada a minha me, tanto que uma vez cheguei a considerar a possibilidade seriamente, mas
foi por pouco tempo.
Ela levantou a sobrancelha. - E descartou a possibilidade?
- Naquela poca, com aquela mulher. Faltava aquela centelha.
- Ele se aproximou, pelo prazer de estar perto dela e porque gostava do olhar de cautela que aparecia em seus olhos enquanto o fazia.
- Voc acredita nesse tipo de coisa, Miranda?
Essa centelha, ela imaginava, era prima daquela sensao no corao. - Acredito que ela alimenta uma primeira atrao, mas uma centelha morre e no  o suficiente
a longo prazo.
- Voc  ctica - ele concluiu. - Eu sou romntico. Voc analisa, eu aprecio.  uma combinao interessante, no acha?
Ela moveu o ombro, descobrindo que no estava mais to relaxada. Ele pegou sua mo tamborilando na mesa mais uma vez. Tinha o hbito do toque, ao qual ela no estava
acostumada, e o dele era um toque que a deixava mais do que alerta  tal centelha.
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Centelha, lembrou a si mesma, que podia pegar fogo. Mas tambm podia queimar.
Estar to rapidamente, to escandalosamente atrada por ele era algo perigoso, e ilgico. Tinha tudo a ver com hormnios e nada a ver com a razo.
Portanto, concluiu, o sentimento deveria e seria duplamente controlado.
- No entendo os romnticos. Tomam decises baseados nos sentimentos, no nos fatos. - Andrew era um romntico, pensou, e sofreu pelo irmo. - Depois, ficam
surpresos quando essas decises do errado.
- Mas  bem mais divertido que o ceticismo. - E ele se deu conta de que estava muito mais atrado por ela do que imaginara. No somente pela sua aparncia,
concluiu quando terminaram de comer. Era aquele limiar de praticidade, de pragmatismo. Difcil de resistir.
E, sim, aqueles grandes olhos tristes.
- Sobremesa? - perguntou a ela.
- No, eu no faria isso. A comida estava maravilhosa.
- Caf?
- J est muito tarde pra tomar caf.
Ele sorriu, absolutamente seduzido. - Voc  uma mulher metdica, Miranda. Gosto disso em voc. - Ainda observando-a, fez sinal pedindo a conta. - Por que a gente
no d uma volta? Voc pode me mostrar a praia.
- JoNES point  uma cidade segura - ela comeou a dizer enquanto caminhavam sob o vento gelado que lambia o mar. A limusine os seguia devagar, fato que a divertia
e desequilibrava ligeiramente. Por mais que viesse de uma famlia rica, nenhum Jones jamais contratara uma limusine para escolt-los enquanto passeavam. -  um lugar
bom pra passear. Tem vrios parques. Eles so
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lindos na primavera e no vero. Cheios de rvores e canteiros. Voc nunca tinha vindo aqui?
- No. A sua famlia vive aqui h muitas geraes?
- . Sempre vrios Jones em Jones Point.
-  por isso que voc mora aqui? - Seus dedos dentro das luvas enlaaram os dela, couro deslizando sobre couro. - Porque  o que se espera de voc?
- No.  daqui que eu venho,  de onde eu sou. - Era difcil explicar, at para si mesma, quo profundas eram suas razes no solo pedregoso da Nova Inglaterra.
- Eu gosto de viajar, mas  aqui que quero estar quando  hora de voltar pra casa.
- Fale mais sobre Jones Point.
-  um lugar calmo e organizado. A cidade era uma vila de pescadores e se transformou numa comunidade com nfase na cultura e no turismo. Vrios moradores
ainda fazem a vida no mar. O que a gente chama de beira-mar , na verdade, a Commercial Street. Pescar lagostas  rentvel, a fbrica de enlatados daqui vende para
o mundo inteiro.
- Voc j fez isso?
- O qu?
- Pescar lagosta.
- No. - Ela sorriu levemente. - Posso ver os barcos, as boias e as redes l de cima, atrs da minha casa. Gosto de ficar assistindo.
Observar mais que participar, ele pensou.
- Aqui  Old Port. H muitas galerias nesta parte da cidade. Talvez voc queira visitar algumas antes de ir embora.
- . Talvez - ele disse.
- A cidade fica mais bonita na primavera, d pra aproveitar os parques e as praias. Tem umas partes muito bonitas de areia e pntano, lugares pra ver a paisagem
da Miracle Bay e as ilhas. Mas, no inverno, vira carto-postal. O lago do Atlantic Park congela e as pessoas gostam de patinar.
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- Voc gosta? - Ele deslizou o brao em volta dos ombros dela para proteg-la do vento. Seus corpos se encostaram. - De patinar.
- Gosto. - Seu sangue esquentou, a garganta ficou seca. -  um timo exerccio.
Ele riu e logo depois de passarem sob a luz de um poste de rua, virou-a para si. Agora suas mos estavam nos ombros dela, e o vento soprava-lhe o cabelo. - Ento,
voc patina pelo exerccio, no pelo prazer.
- Eu gosto. Mas j passou a poca boa.
Ele podia sentir a tenso, o tremor dela em suas mos. Intrigado, puxou-a para perto. - E como  que voc se exercita nesta poca do ano?
- Eu ando  bea. Nado quando d. - O batimento de seu pulso comeou a acelerar, uma sensao na qual ela sabia no poder confiar. - T muito frio.
- Ento por que voc no pensa nisto como um exerccio pra dividir o calor do corpo? - Ele no tinha a inteno de beij-la, em algum momento, sim,  claro,
mas no to cedo. Mesmo assim, no mentira quando dissera ser um romntico. E o momento simplesmente pedia isso.
Encostou seus lbios nos dela, testando-a, seus olhos abertos, assim como os dela. A cautela fez com que os lbios de Miranda se curvassem enquanto ele provava seu
gosto uma segunda vez. Era um homem que acreditava na prtica at tornar-se habilidoso em um assunto de seu interesse. Ele era bastante capaz, no que dizia respeito
s mulheres, e aqueceu os lbios dela pacientemente, at que ela relaxasse, at que seus clios baixassem e ela suspirasse baixinho em sua boca.
Talvez fosse tolice, mas que mal havia nisso? A pequena guerra interna pela razo se transformou em sussurros, ao passo que as sensaes assumiam o controle. A boca
dele era firme e sedutora, o corpo, comprido e firme. Ele tinha o gosto suave do vinho que haviam tomado juntos, e era simplesmente excitante, estrangeiro e rico.
Ela se viu encostando-se nele, suas mos agarrando-lhe o casaco na altura da cintura. E o prazer apagou todos os pensamentos de sua cabea.
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De repente, as mos dele estavam envolvendo seu rosto, o couro macio e frio das luvas um choque na sua mente em devaneio. Ela abriu os olhos e encontrou os dele
fixos no seu rosto, com uma intensidade ardente que o beijo fcil no antecipara.
- Vamos tentar de novo.
Agora a boca de Ryan estava tensa, quente, e aprofundou-se na dela at que Miranda escutasse um rugido dentro da cabea, como o do mar sob sua casa no penhasco.
Havia uma demanda e a certeza arrogante de que seria atendida. Mesmo que sua mente tentasse se desvencilhar, se desdobrasse em recusa, sua boca respondia.
Ele sabia muito bem o que queria. Queria muito da vida e principalmente de seus negcios. Sabia que ser um homem de negcios o levaria ao topo e, consequentemente,
 realizao de seus sonhos e desejos. Desej-la era no apenas aceitvel. Era esperado. Mas quer-la agora, com tanta fora, com tanto mpeto, era algo perigoso.
Perigoso at mesmo para um jogador como ele. Um homem que jogava com a vida, mas sabia perfeitamente a hora de parar.
Ainda assim, permaneceu tempo suficiente para se assegurar de que passaria uma noite desconfortvel, solitria. No podia dar-se ao luxo de seduzi-la, lev-la para
a cama. Havia trabalho a ser feito e a agenda j estava programada. Mais do que tudo, ele no podia dar-se ao luxo de se preocupar com ela. Apegar-se  banca representava
a certeza de perder o jogo.
Ele nunca perdia.
Afastou-a, passando os olhos pelo rosto dela. As mas do rosto estavam coradas, de um misto de frio e calor. Os olhos ainda nublados por uma paixo que ele supunha
t-la surpreendido tanto quanto a ele mesmo. Ela tremeu quando ele escorregou suas mos at os ombros dela novamente. E no disse nada.
- Eu devia levar voc pra casa. - Por mais que se maldissesse, seu sorriso era suave e fcil.
- E. - Ela queria sentar, acalmar-se. Voltar a raciocinar. - T ficando tarde.
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- Mais um minuto - ele murmurou - e seria tarde demais. - Segurou a mo de Miranda e levou-a at a limusine. - Voc vai muito a Nova York?
- De vez em quando. - O calor parecia ter formado uma bola de fogo em seu estmago. O resto dela estava frio, gelado.
- Me avisa quando estiver planejando ir pra l. E eu me organizo pra te receber.
- Tudo bem. - Miranda ouviu-se dizer e no se sentiu nem um pouco tola.
Ela cantou no chuveiro. Era algo que nunca fazia.
Nunca precisaram avis-la de que tinha uma voz terrvel, podia ouvir-se. Mas naquela manh ela soltou a voz e cantou Making Whoopee. No sabia por que a melodia
estava em sua cabea - no fazia nem idia de que sabia a letra -, mas repetia as palavras com voz engrolada enquanto a gua caa sobre sua cabea.
Ainda cantarolava enquanto se secava.
Retirou a toalha do corpo e enrolou-a no cabelo, balanando os quadris enquanto o fazia. Tambm no danava muito bem, apesar de conhecer os passos apropriados.
Os membros do conselho de arte que a guiavam nas valsas ficariam chocados ao ver a fria dra. Jones bailando dentro de seu confortvel banheiro.
Riu ao pensar nisso, algo to improvvel que precisou parar para recuperar o flego. Deu-se conta, com certo assombro, de que estava feliz. Realmente feliz. Isso
era to raro. Contente estava sempre, envolvida, satisfeita, desafiada. Mas sabia que a felicidade simples normalmente a evitava.
Era maravilhoso poder senti-la agora.
E por que no deveria? Vestiu um robe felpudo e passou um creme suavemente perfumado nos braos e nas pernas. Estava interessada num homem bastante atraente, e ele
estava interessado nela. Gostava da sua companhia, apreciava seu trabalho, achava-a atraente tanto fsica quanto intelectualmente.
103
No ficara intimidado, como acontecera com muitos, por sua posio ou personalidade. Era charmoso, bem-sucedido - sem falar que era lindo - e civilizado o suficiente
para no ter se apressado em obviedades e a arrastado para a cama.
Ela teria ido?, Miranda perguntou-se enquanto secava o espelho embaado. Normalmente a resposta seria um sonoro no. Ela no se permitia casos inconseqentes com
homens que mal conhecia. No se permitia casos, melhor dizendo. Seu ltimo romance fora h dois anos, e o affair terminara to terrivelmente que ela evitara at
mesmo relacionamentos casuais.
Mas a noite passada... Sim, pensou que teria sido persuadida. Contra a prpria razo, teria sido levada. Mas ele a respeitara o suficiente para no pedir.
Continuou a cantarolar enquanto se vestia, escolheu um terno de l com uma saia curta e um casaco comprido em tons de azul metlico. Foi cuidadosa com a maquiagem
e deixou o cabelo solto. Num ltimo ato de rebeldia feminina, calou sapatos de salto alto.
Quando saiu para o trabalho, ainda estava escuro e frio, e ainda cantava.
Andrew acordou com a me de todas as ressacas. Incapaz de suportar os prprios gemidos, tentou sufocar-se com o travesseiro. O instinto de sobrevivncia foi maior
que a misria de seu estado e ele desistiu. Esforou-se para respirar, segurando a cabea para evitar que despencasse sobre os ombros.
Depois desistiu, torcendo para que casse.
Arrastou-se para fora da cama. Por ser um cientista, sabia que no era possvel que seus ossos realmente estivessem se chocando uns contra os outros, mas tinha medo
da possibilidade de ser exatamente isso que acontecia com seu corpo, um desafio  natureza.
Era culpa de Annie, concluiu. Ela ficara irritada o suficiente com ele na noite anterior e o deixara beber at cair. Contara com ela para faz-lo parar, como sempre
acontecia. Mas, no, ela continuara colocando a bebida na frente dele toda vez que ele pedia.
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Mal se lembrava de ela t-lo enfiado dentro de um txi, dizendo algo apelativo sobre seu desejo de v-lo passar to mal quanto trs cachorros abandonados.
O desejo dela fora atendido, pensou enquanto descia aos trancos e barrancos. Se estivesse se sentindo pior, estaria morto.
Quando viu que j havia caf pronto, quase chorou de amor e gratido pela irm. As mos tremendo desajeitadas, tirou do frasco quatro comprimidos extrafortes de
efedrina e engoliu-os com o caf queimando-lhe a boca.
Nunca mais, prometeu a si mesmo, pressionando os dedos contra os olhos vermelhos e latejantes. Nunca mais beberia alm da conta. Mesmo enquanto jurava, a vontade
escorregadia de tomar s mais uma dose percorreu seu corpo. Uma nica dose para equilibrar suas mos, para acalmar seu estmago.
Recusou o pensamento, dizendo para si mesmo que havia diferena entre beber demais e ser alcolatra. Se bebesse s sete da manh, seria um alcolatra. s sete da
noite, tudo bem. Ele podia esperar. Esperaria. Doze horas.
O toque da campainha perfurou sua cabea como a ponta de uma lmina bem afiada. Ele quase gritou. Em vez de atender, sentou-se  mesa da cozinha, baixou a cabea
e rezou por um estado de ausncia.
Estava quase apagando quando a porta de trs foi aberta e uma lufada de vento gelado adentrou seguida de uma mulher raivosa.
- Pensei que voc estaria enroscado num canto com pena de si mesmo. -Annie colocou uma sacola de supermercado sobre a bancada, levou as mos  cintura e fez
uma careta para ele. - Olha s pra voc, Andrew. Uma desgraa de dar d. Seminu, barbado, olhos inchados e fedendo. Vai tomar um banho.
Ele levantou a cabea e piscou para ela. - Eu no quero.
- Vai tomar um banho, enquanto eu preparo o caf da manh pra voc. - Quando ele tentou levantar a cabea novamente, ela
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apenas agarrou um punhado do seu cabelo e manteve-a de p. - Voc t tendo exatamente o que merece.
- Jesus, Annie, voc vai arrancar a minha cabea fora.
- E voc ia se sentir muito melhor se eu conseguisse fazer isso. Levanta essa bunda da cadeira e vai tomar banho, e pode usar uma quantidade substancial de
pasta de dente. T precisando.
- Deus Todo-Poderoso. O que  que voc veio fazer aqui? - No pensara que havia espao para o constrangimento na raiva da ressaca, mas estava errado. Pde
sentir uma onda de vergonha atravessar seu corpo e, maldio da pele muito clara, enrubescer-lhe as mas do rosto.
- Eu vendi bebida pra voc. - Soltou o cabelo dele e sua cabea caiu novamente sobre a mesa com uma pancada que o fez gemer. - Voc me irritou, por isso te
deixei beber. Ento, vou preparar um caf decente, e garantir que voc tome banho e v pro trabalho. Agora vai tomar banho, seno eu mesma vou te levar l pra cima
e te enfiar na banheira.
- Tudo bem, tudo bem. - Qualquer coisa era melhor do que t-la cutucando-o. Com o resto de dignidade que conseguiu juntar, levantou-se. - No quero comer
nada.
- Voc vai comer o que eu fizer. - Virou-se para a bancada e comeou a retirar as coisas das sacolas. - Agora sai daqui. Voc t fedendo a cho de bar de
segunda.
Esperou at ouvi-lo se afastar, depois fechou os olhos e apoiou-se na bancada.
Nossa, ele lhe parecera to pattico! To triste, tolo e doente. Ficara com vontade de abra-lo, acalm-lo, de arrancar dele todo aquele veneno. Veneno, pensou,
culpada, que lhe vendera porque estava com raiva.
No era a bebida, no na verdade, pensou. Era o corao, e ela simplesmente no sabia como toc-lo.
Perguntou-se se seria capaz, se ele fosse menos importante para
ela.
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Ouviu o barulho da gua no encanamento quando ele ligou o chuveiro e sorriu. Ele era to parecido com aquela casa, pensou. Um pouco gasto, um pouco danificado, mas
surpreendentemente resistente.
S no podia ver por que toda aquela inteligncia e beleza no haviam sido boas para ele. Formavam um casal incrvel, luminoso e brilhante, mas s na superfcie.
Ela no compreendera do que ele era feito, sua necessidade de doura, a dor em seu corao, decorrente do fato de no se julgar digno de amor.
Ele precisava de cuidados.
Isso, ela podia fazer, Annie concluiu, arregaando as mangas. Se no pudesse fazer nada mais, ela o empurraria para que encontrasse seu cho novamente.
Amigos, disse para si mesma, ficam do lado dos amigos.
A cozinha estava tomada de aromas caseiros quando ele voltou. Se fosse qualquer outra pessoa que no Annie, ele se teria trancado no quarto. O banho ajudara, e os
comprimidos haviam mandado o pior da ressaca embora. O resto dela ainda estava aninhado em seu estmago e rodando na sua cabea, mas achava que conseguiria administrar
os efeitos, agora.
Pigarreou, forou um sorriso. - O cheiro t timo.
- Senta - ela disse sem se virar.
- Ok. Desculpa, Annie.
- No precisa pedir desculpas pra mim. Voc tem que se desculpar consigo mesmo.  voc quem acaba saindo ferido nessa histria.
- Desculpe, mesmo assim. - Olhou para a tigela que ela colocou na sua frente. - Mingau de aveia?
- Pra forrar o seu estmago.
- A sra. Patch costumava me dar mingau de aveia - ele disse, pensando na mulher que cozinhava para eles quando eram crianas. - Todo dia, antes de ir pro
colgio, chovesse ou fizesse sol.
- A sra. Patch sabia o que era bom pra voc.
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- Ela costumava colocar um pouco de maple syrup no mingau.
Esboando um leve sorriso, Annie abriu o armrio da cozinha.
Conhecia-a como conhecia a si prpria. Colocou um frasco de syrup e um prato de torradas em frente a ele. - Come.
- Sim, senhora. - Deu a primeira colherada com cuidado, incerto de que alguma coisa que comesse se manteria dentro do corpo. - T uma delcia. Obrigado.
Quando ela percebeu que ele estava fazendo progresso, que seu rosto no estava mais sombrio, sentou-se de frente para ele. Amigos ajudam amigos, pensou novamente.
E so honestos uns com os outros.
- Andrew, voc precisa parar de fazer isso com voc.
- Eu sei. No devia ter bebido tanto.
Ela estendeu a mo, tocou a dele. - Se voc tomar uma dose, vai tomar a prxima e a prxima.
Irritado, ele sacudiu os ombros. - No tem nada de mais tomar um drinque de vez em quando. Nada de mais em ficar bbado de vez em quando.
- Tem quando a pessoa  alcolatra.
- Eu no sou.
Ela recostou na cadeira. - Eu tenho um bar e fui casada com um bbado. Conheo os sinais. Tem uma diferena entre a pessoa que bebe um pouco alm da conta e aquela
que no consegue parar.
- Eu consigo parar. - Ele pegou o caf que ela lhe servira. - No t bebendo agora, t? No bebo no trabalho, nem deixo a bebida afetar o meu trabalho. No
fico bbado toda noite.
- Mas bebe toda noite.
- Como metade do mundo, droga! Qual  a diferena entre duas taas de vinho no jantar e uma dose ou duas mais tarde?
- Voc  que tem que descobrir isso. Como eu fiz. Ns dois estvamos meio bbados na noite em que... - Doa dizer. Pensava que estava pronta, mas machucava, e ela
no pde dizer mais nada.
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- Jesus, Annie. -A lembrana fez com que passasse a mo no cabelo, desejando que aquele bolo de culpa e vergonha no lhe pesasse no estmago. - A gente era
criana.
- A gente tinha idade suficiente pra fazer um beb. Temporariamente. - Ela pressionou os lbios. Fosse qual fosse o preo, ela colocaria pelo menos parte
daquilo para fora. - A gente era bobo, inocente e irresponsvel. J aceitei isso. - Meu Deus, ela tentara aceitar. - Mas essa histria me ensinou o que a gente pode
perder, o que pode acontecer quando a gente perde o controle. Voc perdeu o controle, Andrew.
- Uma noite, quinze anos atrs, no tem nada a ver com hoje.
- No minuto em que as palavras foram despejadas, no minuto em que viu o corpo dela retrair-se, ele se arrependeu. - No foi bem isso que eu quis dizer, Annie.
No  que no tenha importncia, eu s...
- No. -A voz dela era fria e distante agora. - No diz mais nada.  melhor quando a gente finge que no aconteceu nada. S toquei no assunto porque parece
que voc no v a diferena. A gente s tinha dezessete anos, mas voc j tinha um problema com a bebida. Eu no tinha. No tenho. Voc deu um jeito de passar a
maior parte da vida sem deixar isso tomar conta. Agora voc cruzou a linha. A bebida t comeando a mandar em voc, Andrew, e voc precisa assumir o controle de
novo. T te falando isso como amiga.
- Ela se levantou, envolveu o rosto dele com as mos. - No volta mais no meu bar. Eu no vou te servir.
- Annie...
- Voc pode ir l pra conversar, mas no vai pra beber porque eu no vou dar.
Ela se virou, pegou o casaco e saiu apressada.
captulo Sete
Ryan vagava pela Galeria Sul admirando o uso da luz, a disposio do espao. Os Jones conhecem o mercado, pensou. Os expositores eram elegantemente dispostos, as
placas explicativas discretas, e a informao, clara.
Sem dar a perceber, escutava com um dos ouvidos a mulher de cabelo azul e sotaque acentuado que liderava um pequeno tour at uma das magnficas madonas de Rafael.
Outra excurso, um pouco maior e mais barulhenta, era composta de crianas de escola e conduzida por uma morena animada. Dirigiam-se para os impressionistas, para
alvio de Ryan.
No que no gostasse de crianas. Seus sobrinhos e sobrinhas eram motivo de grande deleite e diverso para ele. Tinha prazer em mim-los desavergonhadamente. Mas
crianas tendem a ser uma distrao durante as horas de trabalho. Ryan estava trabalhando
seriamente.
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Os guardas eram discretos, mas muitos. Prestou ateno  sua postura e, pela rpida olhada de um deles para o relgio, notou que estava perto da troca de turno.
Ele parecia andar a esmo, parando de vez em quando para apreciar uma pintura, escultura ou uma vitrine com objetos diversos. Internamente, no entanto, contava os
passos. Da entrada at a cmera na esquina do lado sul, da cmera at o corredor, do corredor at a prxima cmera, de l at o seu objetivo.
No ficava diante de uma vitrine mais do que um amante da arte ficaria ao analisar a rara beleza de uma estatueta do sculo quinze. O bronze, o Davi, era uma pequena
joia, um jovem arrojado, esbelto, seu estilingue puxado para trs naquele histrico momento da verdade.
Apesar de o artista ser desconhecido, o estilo era de Leonardo. E, como a placa indicava, presumia-se que fosse obra de um de seus alunos.
O cliente de Ryan era f de Leonardo, e o comissionara para avaliar essa pea, vista por ele no instituto seis meses antes.
Ryan achou que seu cliente ficaria feliz, e mais cedo do que esperava. Decidira adiantar a prpria agenda. Era mais inteligente seguir adiante e para longe, ele
pensara, do que arriscar-se a cometer um erro com Miranda. J sentia certo pesar por causar a ela algum inconveniente e aborrecimento.
Mas, afinal, ela tinha seguro. E o bronze certamente no era a melhor pea da instituio.
Se estivesse escolhendo algo para si, teria pego o Cellini, ou talvez a mulher de Ticiano, que lhe lembrava Miranda. Mas o bronze, que caberia no bolso, era a escolha
do seu cliente. E seria um trabalho mais fcil do que o Cellini ou a pea de Ticiano.
Devido  sua prpria reao no planejada a Miranda, perdera uma hora produtiva ou duas, depois de lev-la em casa e trocar seu traje do jantar, arrastando-se no
espao exguo sob o instituto. Ali, como ele j sabia, ficava o painel de controle do sistema de segurana do prdio. Alarmes, cmeras, sensores.
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Tudo de que precisava era seu laptop e um pouco de tempo para zerar o principal e entrar com suas especificaes pessoais. No precisara alterar muita coisa. A maior
parte do trabalho seria feita dali a algumas horas, mas algumas mudanas de cautela facilitariam seu servio a longo prazo.
Completou suas medies, depois, seguindo seu planejamento, iniciou o primeiro teste. Sorriu para a mulher de cabelo azulado ao passar pelo grupo. Com as mos nos
bolsos, estudou uma pintura sombria da Anunciao. Com o pequeno mecanismo na mo, passou o polegar sobre os controles at sentir o boto apropriado. A cmera estava
 sua direita.
Sorriu para a Virgem ao ver, com o canto dos olhos, a pequena luz vermelha da cmera se apagar.
Deus, ele adorava a tecnologia.
No outro bolso, pressionou um cronmetro. E esperou.
Concluiu que haviam se passado dois minutos at que o walkie-talkie do guarda mais prximo tocasse. Ryan pressionou o boto do cronmetro novamente, desativou a
cmera com a outra mo e foi analisar o rosto triste e confuso de So Sebastio.
Mais que satisfeito, Ryan saiu da galeria e foi at o lado de fora para usar seu celular.
- Escritrio da dra. Jones, posso ajudar?
- Espero que sim. - A voz da assistente de Miranda fez com que ele abrisse um sorriso. - A dra. Jones pode falar?  Ryan Boldari.
- Um momento, sr. Boldari.
Ryan deu um passo atrs para esconder-se do vento e aguardou. Gostava do visual do centro da cidade, concluiu, da variedade arquitetnica, do granito com tijolos.
Passara por uma esttua digna de Longfellow em suas caminhadas e descobriu que ela e outras esttuas e monumentos davam um charme a mais quela cidade interessante.
Talvez preferisse Nova York, a velocidade e a demanda do lugar. Mas achava que no se incomodaria de passar um pouco mais de
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tempo ali. Em outro momento,  claro. No era sbio permanecer por muito tempo depois de concluir um servio.
- Ryan? - Sua voz parecia um pouco arfante. - Desculpe, eu te deixei esperando,
- No tem problema. Tirei um dia de folga e fiquei passeando pelas suas galerias. - Melhor que ela soubesse, estariam revisando as fitas de segurana no dia
seguinte.
- Voc podia ter me avisado que vinha. Eu teria ciceroneado voc.
- Eu no queria tirar voc do seu trabalho. Mas queria dizer que acho que meus Vasari vo ter um lar temporrio maravilhoso. Voc devia ir a Nova York pra
ver onde seu Cellini vai ficar.
Ele no tinha a inteno de dizer isso. Droga. Mudou o telefone de mo, lembrando-se de que alguma distncia seria recomendvel por um tempo.
- Talvez eu faa isso. Voc quer subir? Posso liberar sua entrada.
- Eu subiria, mas tenho alguns encontros que no posso remarcar. Queria levar voc pra almoar, mas no posso cancelar essas reunies. Vou ficar enrolado
o resto do dia, mas fiquei pensando se voc no almoaria comigo amanh.
- Com certeza, eu posso me organizar. Que horas  bom pra voc?
- Quanto mais cedo, melhor. Quero ver voc, Miranda. - Podia imagin-la sentada no escritrio, talvez vestindo um jaleco sobre uma suter grossa. Sim, ele
queria v-la, muito. - Que tal ao meio-dia?
Ouviu o som de papis sendo remexidos. Checando a agenda, ele pensou, e por alguma razo achou isso delicioso. - Ok. Meio-dia  bom. A documentao dos seus Vasari
acabou de chegar na minha mesa. Voc trabalha rpido.
- Mulheres bonitas no deviam ter que esperar. Te vejo amanh. Vou pensar em voc hoje  noite.
Encerrou a ligao e sentiu algo muito raro. Reconheceu o sentimento de culpa somente porque no conseguia realmente
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recordar-se de outra experincia como essa. Certamente no no que dizia respeito s mulheres ou ao trabalho.
- Que pena - disse suavemente, e guardou o celular. Enquanto caminhava em direo ao estacionamento, retirou o cronmetro do bolso. Cento e dez segundos.
Tempo suficiente. Mais que suficiente.
Olhou para cima, para a janela que sabia ser a da sala de Miranda. Haveria tempo para isso tambm. Em algum momento. Mas obrigaes profissionais vinham em primeiro
lugar. Estava certo de que uma mulher de natureza prtica concordaria com isso.
Ryan despendeu as prximas vrias horas trancado na sua sute. Pediu um almoo leve, ligou o rdio numa estao de msica clssica e espalhou suas anotaes para
revis-las.
Tinha as plantas do instituto na mesa de reunio juntamente com o saleiro, pimenteiro e pequenas garrafinhas de mostarda e ket-chup vindas na bandeja do servio
de quarto.
Os esquemas do sistema de segurana estavam na tela de seu lap-top. Comeu uma batata frita, tomou um gole de Evian e voltou a estudar.
Havia sido faclimo acessar as plantas. Contatos e dinheiro podem trazer acesso a quase tudo. Ele tambm era muito habilidoso com o computador. Desenvolvera e aperfeioara
esse talento ainda na escola.
A me insistira que ele devia aprender a digitar - porque nunca se sabe -, mas ele tinha coisas mais interessantes a fazer com um teclado do que catar milho para
escrever correspondncias.
Instalara programas no laptop que carregava consigo agora e adicionara vrios atrativos que no eram exatamente legais. Mais uma vez, assim tambm era com sua profisso.
As Galerias Boldari estavam acima de qualquer suspeita e, atualmente, autofinanciadas, geravam um lucro confortvel. Mas haviam
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sido construdas com fundos que ele acumulara ao longo dos anos, tendo comeado ainda menino, de raciocnio rpido e dedos geis nas ruas de Nova York.
Alguns nascem artistas, outros, contadores. Ryan nascera ladro.
Inicialmente, batera carteiras e roubara objetos, porque o dinheiro era curto. Afinal, professores de arte no ganhavam grande coisa e eram muitas as bocas para
alimentar na famlia Boldari.
Mais tarde, ele mudara para um segundo trabalho, porque, bem, ele era bom no que fazia, e aquilo era excitante. Ainda se lembrava da primeira incurso numa casa
s escuras. O silncio, a tenso, a emoo de estar em algum lugar onde no deveria, a possibilidade de ser pego, eram coisas que davam um brilho a mais a tudo aquilo.
Era como fazer sexo em algum lugar pblico,  luz do dia. Com a mulher de outro homem.
Como tinha um cdigo de tica estrito contra o adultrio, limitava-se  excitao do roubo.
Quase vinte anos mais tarde, ainda sentia a mesma emoo toda vez que arrombava uma fechadura e adentrava um prdio com esquemas de segurana.
Refinara sua aptido e, por mais de uma dcada, especializara-se em arte. Tinha um sentimento pela arte, um amor por ela, e em seu corao considerava-a algo de
domnio pblico. Se extraviasse uma pintura do Instituto Smithsoniano - e j o fizera -, estava simplesmente prestando um servio a algum, pelo qual era muito bem
pago.
E, com o valor, comprava mais arte para expor em suas galerias, a ser vista e usufruda pelo pblico.
Parecia um timo equilbrio para as coisas.
Como tinha certo af por equipamentos eletrnicos, por que no coloc-los em prtica juntamente com o talento para a trapaa que lhe fora dado por Deus?
Voltando ao laptop, digitou as medidas tiradas na Galeria Sul e abriu a planta tridimensional do andar na tela. A posio das cmeras
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estava marcada em vermelho. Com alguns toques rpidos nas teclas, fez com que o computador calculasse os ngulos, a distncia e a melhor abordagem.
Estava, pensou, a milhas de distncia de seus dias de gatuno, quando escolhia uma casa, entrava pela janela e se esgueirava l dentro, enchendo sua bolsa de objetos
de valor. Esse aspecto da profisso era para os jovens, os descuidados ou tolos. E, numa poca de insegurana, muitas pessoas possuam armas em casa e saam atirando
em qualquer coisa que se movesse.
Preferia evitar donos de casa animados com seus gatilhos.
Melhor colocar em prtica a idade e a tecnologia, fazer rapidamente o servio de maneira limpa, segura e organizada, depois seguir em frente.
Por hbito, checou as baterias em seu carregador de bolso. O design era seu e a pea feita com pedaos retirados de um controle remoto de TV, um celular e um pager.
Uma vez que estudara o sistema de segurana - que Andrew fora gentil o suficiente para lhe mostrar -, podia facilmente ajustar o alcance da freqncia a ser aplicado,
depois de equipar o sistema na fonte. Seu teste naquela manh provara que fora bem-sucedido.
Conseguir entrar fora mais problemtico. Se trabalhasse com um parceiro, um poderia ficar trabalhando no computador existente na tubulao e contornar as trancas.
Ele trabalhava sozinho, precisava de um controle para as cmeras.
Trancas eram relativamente simples. Ele acessara os esquemas do sistema de segurana semanas antes, e finalmente quebrara o cdigo. Depois de duas noites no lugar,
marcara a lateral da porta e forjara um carto-chave.
O cdigo de segurana em si fora mais uma cortesia de Andrew. Ryan achava impressionante a quantidade de informao que as pessoas carregam na carteira. Os nmeros
e a seqncia estavam escritos claramente num pedao de papel dobrado logo atrs da carteira de motorista de Andrew. Haviam sido precisos alguns segundos para
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que Ryan roubasse a carteira, alguns minutos para procurar, encontrar os nmeros e memoriz-los, alm de nada mais que um tapinha amigvel nas costas para devolver
a carteira ao bolso de Andrew.
Ryan imaginava que o servio lhe tomara aproximadamente setenta e duas horas de trabalho preparatrio, mais uma hora necessria para a execuo e, descontando seus
gastos, teria um lucro de oitenta e cinco mil.
Um timo trabalho, pensou, e tentou no se arrepender por esta ser sua ltima aventura. Dera sua palavra, e nunca voltava atrs numa promessa. No  famlia.
Conferiu a hora, deu-se conta de que estava a oito horas do fechamento das cortinas. Gastara as primeiras cuidando de qualquer evidncia, queimando plantas na lareira
de seu quarto de hotel, trancando todos os equipamentos eletrnicos numa caixa reforada, depois digitando senhas e cdigos adicionais em seu computador para que
seu trabalho ficasse arquivado em segurana.
Teve tempo de sobra para exercitar-se, fazer uma sauna e dar uma rpida cochilada. Acreditava na ativao do corpo e da mente antes de uma invaso.
Logo depois das seis, Miranda sentou-se em sua sala
para escrever uma carta, ela mesma. Apesar de ela e Andrew dirigirem juntos o instituto, ainda era procedimento padro informar os pais sobre o que estava acontecendo,
assim como esperar pela aprovao em casos de emprstimo ou transferncia de obras de arte.
Pretendia que a carta fosse objetiva, uma carta de negcios, e estava vida por trabalhar cada palavra at que estivesse to azeda quanto o vinagre, pouco amigvel,
mas inequvoca e absolutamente profissional.
Pensou que o vinagre iria muito bem com o aborrecimento que a me logo estaria estampando no rosto.
Completara o primeiro rascunho e comeava a refinar a redao quando o telefone tocou.
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- Instituto de Histria da Arte da Nova Inglaterra, dra. Jones
falando.
- Miranda, graas a Deus eu peguei voc a. -Desculpe. - Irritada com a interrupo, ela mudou o telefone de orelha, tirando o brinco. - Quem fala?
- Giovanni.
-Giovanni? - Passou os olhos pelo relgio de mesa, calculou
o horrio. -J  mais de meia-noite a. Aconteceu alguma coisa?
- Tudo. Desastre total. No me atrevi a te ligar mais cedo, mas achei que voc precisava saber o mais rpido possvel, antes que... antes que amanhecesse.
O corao de Miranda deu um salto, um salto brutal, e o brinco que ela removera caiu de sua mo, fazendo barulho metlico na mesa. - Minha me? Aconteceu alguma
coisa com a minha me?
- Isso... quer dizer, no. Ela est bem, no est ferida. Desculpe. Estou chateado.
- Tudo bem. - Para acalmar-se, ela fechou os olhos, respirou profunda e silenciosamente. - Me diz o que aconteceu.
- O bronze. O Fiesole.  falso.
- Isso  ridculo. - Ela se endireitou na cadeira, a voz saindo de controle. - Claro que no  falso. Quem disse isso?
- Os resultados dos testes feitos em Roma chegaram hoje. Laboratrios Arcana-Jasper. O dr. Ponti supervisionou o processo. Voc conhece o trabalho dele?
- Claro que eu conheo. Voc deve estar com a informao errada, Giovanni.
- Estou te falando, eu vi os resultados. A dra. Standford-Jones me chamou, tambm chamou o Richard e a Elise, j que ns trs fazamos parte da equipe original.
Ela at rejeitou o Vincente. Ela t furiosa, Miranda, humilhada e nem um pouco frgil. O bronze  falso. Provavelmente foi fundido h poucos meses, se tanto. A frmula
do metal estava certa, at a ptina estava perfeita e poderia ser
confundida.
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- Eu no confundi nada - ela insistiu, mas sentiu pontadas de pnico subindo-lhe pela coluna.
- Os nveis de corroso estavam errados. No sei como voc deixou isso escapar, Miranda, mas estavam errados. Foi feita uma tentativa de criar os nveis no
metal, mas no deu certo.
- Voc viu os resultados, as fotos no computador, os raios X.
- Eu sei. Falei isso pra sua me, mas...
- Mas o qu, Giovanni?
- Ela me perguntou quem fez as radiografias, quem programou o computador. Quem fez os testes de radiao. Cara, desculpe.
- Entendi. - Sentiu-se dormente, a mente turva. - A responsabilidade  minha. Eu fiz os testes. Eu escrevi os relatrios.
- Se a informao no tivesse vazado pra imprensa, a gente teria varrido tudo pra baixo do tapete, pelo menos uma parte.
- O Ponti pode estar errado. - Ela esfregou os lbios com a mo. - Ele pode ter errado. Eu no me enganaria com uma coisa to bsica como o nvel de corroso.
Preciso pensar sobre isso, Giovanni. Agradeo por voc ter me contado.
- Odeio pedir isso, Miranda, mas eu preciso, porque quero manter minha posio. A sua me no pode saber que eu falei com voc sobre isso, alis, ela no
pode saber que eu falei com voc sobre nada. Acho que ela deve te ligar de manh.
- No precisa se preocupar, no vou mencionar o seu nome. No posso mais falar agora. Preciso pensar.
- Tudo bem. Desculpe, eu sinto tanto...
Propositalmente devagar, ela desligou e permaneceu sentada,
como uma esttua, olhando para o nada. Esforou-se por trazer todas as informaes  mente, orden-las, tentando v-las claramente, como fizera em Florena. Mas
no havia nada alm de um zumbido que a fazia desistir e deixar a cabea pender entre os joelhos.
Falso? No podia ser. Sua respirao acelerou, dificultando a permanncia do ar em seus pulmes. Depois as pontas dos dedos comearam a formigar, at que a dormncia
passou e deu lugar a uma tremedeira.
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Ela fora cuidadosa, certificara-se. Fora meticulosa. Fora acurada. Seu corao batia to fortemente, provocando-lhe dor, que precisou pressionar o esterno com as
mos.
Deus, no entanto no fora cuidadosa o suficiente, meticulosa o suficiente, acurada o suficiente.
Sua me estaria certa? Apesar de todas as suas alegaes em contrrio, teria ela se confundido a respeito do bronze no momento em que o vira?
Ela o quisera, admitiu, e levantou a cabea para em seguida recostar-se na cadeira num movimento deliberadamente lento, como o dos idosos ou doentes. Quisera que
fosse verdadeiro, quisera saber que tinha algo importante, precioso e raro nas mos.
Arrogncia, Elizabeth dissera. Sua arrogncia e sua ambio. Ser que deixara o convencimento, o desejo, a sede de aprovao turvarem seu julgamento e afetarem seu
trabalho?
No, no, no. Cerrou os punhos, pressionou-os contra os olhos. Vira as fotografias, os resultados dos testes qumicos. Estudara-os. Eram fatos, e fatos no mentem.
Cada teste provara sua crena. Deveria haver algum engano, mas ela no se enganara.
Porque, se isso tivesse acontecido, pensou, baixando os punhos at a mesa, seria pior que o fracasso. Ningum confiaria nela novamente. Ela no confiaria mais em
si mesma.
Fechou os olhos, inclinou a cabea para trs.
Foi assim que Andrew a encontrou, vinte minutos mais tarde.
- Vi sua luz acesa. Tambm fiquei trabalhando at tarde e... - Ele recuou, parando na porta. Ela estava plida, e quando abriu os olhos, estes revelaram-se
muito sombrios, molhados e vidrados. - Ei, voc t sentindo alguma coisa?
Apesar de doenas o deixarem nervoso, ele atravessou a sala e colocou a mo na testa da irm. - Voc t tendo um calafrio, alguma coisa, vou te levar pra casa. Voc
tem que se deitar.
- Andrew... - Ela tinha que falar, falar em voz alta. E sua garganta estava embargada pelas palavras. - A Senhora Sombria.  falsa.
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- O qu? - Ele comeara a fazer carinho na cabea dela. Agora sua mo estava paralisada. - O bronze? Em Florena?
- Os segundos testes. Os resultados chegaram. O nvel de corroso t errado, os nmeros da radiao, errados. Ponti, em Roma, supervisionou os testes pessoalmente.
Ele sentou na borda da mesa, sabendo que cafun de irmo no acabaria com o mal-estar. - Como  que voc sabe?
- O Giovanni, ele acabou de ligar. No era pra ele fazer isso. Se a mame descobrir, ele pode ser demitido.
- Ok. - Giovanni no era sua preocupao no momento. - Voc tem certeza de que essa informao  precisa?
- No quero acreditar que seja. - Cruzou os braos sobre o peito, enterrando os dedos nos bceps. Apertando, soltando, apertando, soltando. - Ele no teria
me ligado, se no fosse. A mame ligou pra ele, pra Elise e pro Richard Hawthorne, pra contar. O Vincente tambm. Eu imagino que ela tenha dado um ataque. Eles vo
dizer que eu estraguei tudo. - Sua voz fraquejou, fazendo com que balanasse violentamente a cabea, como se negasse a emoo. - Exatamente como ela previu.
- Voc estragou?
Ela abriu a boca para negar isso tambm, violentamente. Mas voltou a fech-la, pressionando os lbios. Controle, ordenou a si mesma. No mnimo, ela precisava de
controle. - No sei como. Fiz os testes. Segui o procedimento. Documentei os resultados. Mas eu queria, Andrew, talvez eu quisesse at demais que fosse verdadeiro.
- Nunca vi voc deixar o seu desejo interferir na realidade de um fato. - Ele no suportava ver a irm to vulnervel. Dos dois, ela sempre fora a mais forte.
Os dois sempre haviam contado com isso. - Ser que aconteceu algum problema tcnico, com algum equipamento?
Ela quase riu. - A gente t falando da menina dos olhos da Elizabeth, Andrew.
- Mquinas quebram.
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- Ou as pessoas colocando os dados nessas mquinas cometem
erros. A equipe do Ponti tambm pode ter cometido um. - Ela se afastou da mesa e, apesar do tremor nas pernas, comeou a andar de um lado para outro. - No  to
mais difcil do que eu ter cometido um. Preciso ver os arquivos de novo, e os resultados. Preciso ver os testes dele. Preciso ver A Senhora Sombria.
- Voc vai precisar falar com ela.
- Eu sei. - Ela parou, virou-se para a janela, mas s conseguiu
enxergar o escuro. - Ligaria pra ela agora, se isso no fosse abalar a confiana da me em Giovanni. Preferia resolver logo o assunto, em vez de esperar ela me ligar.
- Voc sempre foi do tipo que faz as coisas de uma tacada s. Eu acredito piamente em adiar pra sempre tudo o que voc no quer encarar hoje.
- No tem como evitar. Quando os resultados forem liberados, vai ser efeito domin. Eu vou ser vista como idiota, ou uma fraude, e uma coisa  pior que a
outra. O Vincente vai descobrir uma maneira de dar uma volta na situao, mas no vai impedir o trabalho da imprensa. Ela tava certa quanto a isso. Vai afetar a
Standjo, a ela prpria, a mim. - Virou-se e olhou para ele. - Vai afetar o instituto.
- A gente segura as pontas.
- Isso vai ser um problema, Andrew. E no  seu.
Ele foi at ela, levou suas mos aos ombros da irm. - No - disse de maneira simples, lgrimas queimando em seus olhos. - Ns vamos enfrentar isso juntos, como
sempre foi.
Ela deixou escapar um suspiro, recostou-se nele e deixou-se ser confortada. Mas pensou que a me no lhe daria escolha. Se as conseqncias tivessem de recair sobre
o instituto ou a filha, Miranda no tinha dvidas do que aconteceria.
Captulo Oito
O vento da meia-noite era to frio e to cortante quanto uma mulher desprezada. Ryan no se importava. Achou-o revigorante enquanto cruzava os trs quarteires,
depois de estacionar o carro.
Tudo de que precisava estava nos bolsos do casaco ou na pequena pasta que carregava. Se guardas o parassem por alguma razo, e o vistoriassem, estaria preso antes
de poder exercer seus direitos de cidado e pedir para dar um telefonema. Mas isso fazia parte da emoo.
Deus, ele sentiria falta disso, pensou, e continuou andando com passos ansiosos de um homem que corre para encontrar seu amor. A encenao estava encerrada, assim
como aquele aspecto de sua vida. Agora a execuo estava prxima, sua ltima. Queria registrar cada detalhe na mente, para que, quando fosse um homem velho e tivesse
netos  sua volta, pudesse trazer de volta a sensao do poder da juventude.
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Percorreu as ruas com o olhar. As rvores estavam nuas e balanavam ao vento, o trfego era rarefeito, a lua estava encoberta pelas luzes da cidade e pelas nuvens
no cu. Passou por um bar onde uma taa de martni de non piscava na janela, e sorriu. Talvez passasse ali para um drinque depois do trabalho. Um pequeno brinde
ao fim de uma era pareceu-lhe algo apropriado.
Atravessou a rua no sinal, um cidado respeitador das leis que no pensaria em andar fora da faixa. Pelo menos no quando estivesse de posse de ferramentas de roubo.
Viu o instituto logo  frente, uma silhueta majestosa, de granito imponente. Agradou-lhe o fato de que seu ltimo trabalho seria invadir um prdio antigo to digno
e cheio de orgulho quanto aquele.
As janelas estariam s escuras, no fosse o brilho das lmpadas de segurana no hall. Achava estranho, e realmente doce, na verdade, que as pessoas deixassem luzes
acesas para afastar os bandidos. Um dos bons roubaria  luz do dia com tanta facilidade quanto sob a proteo do escuro.
E ele era muito bom.
Seu olhar varreu a rua de alto a baixo antes de voltar-se para o relgio. Seus vigias lhe haviam fornecido os horrios de ronda policial na rea. A menos que houvesse
um chamado, tinha pelo menos quinze minutos antes que algum de farda passasse por ele.
Atravessou para o lado sul do prdio, mantendo os passos firmes, mas no apressados. O casaco comprido dava a ele a impresso de corpulncia, o chapu de feltro
encobria-lhe o rosto e o cabelo estava agora cinza-chumbo, digno.
Qualquer um que o notasse veria um homem de negcios de meia-idade, ligeiramente acima do peso.
Estava ainda a alguns metros do prdio, fora do alcance da cmera, quando pegou o equipamento dentro do bolso e direcionou-o. Viu a luz vermelha se apagar e movimentou-se
com rapidez.
Seu carto-chave requeria um pouco de delicadeza, mas a fenda o aceitou na terceira tentativa. Digitou o cdigo de memria e adentrou
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a antessala em quarenta e cinco segundos. Religou a cmera - no havia necessidade de ter um guarda vido vindo checar o equipamento -, depois fechou a porta,
trancando-a novamente.
Tirou o casaco e pendurou-o cuidadosamente ao lado das mquinas de refrigerantes e petiscos. Suas luvas pretas de couro foram at o bolso. Sob elas, vestia luvas
cirrgicas que qualquer homem honesto poderia comprar numa loja de artigos mdicos. Cobriu o cabelo prateado com um gorro preto.
Eficientemente, conferiu suas ferramentas uma ltima vez.
S ento permitiu-se parar, por um segundo apenas, e usufruir.
Ficou de p no escuro, escutando o silncio, que no era, de fato, silncio. Prdios tm a prpria linguagem, e este estalava e zumbia. Podia ouvir o som do ar quente
passando pela tubulao dos aquecedores, os suspiros do vento pressionando a porta atrs de si.
Os guardas e as salas de segurana ficavam no andar de baixo, e o piso era espesso. No ouvia nada vindo de l, e eles, sabia, no o podiam escutar. Com os olhos
acostumados ao escuro, dirigiu-se  prxima porta. Tinha uma tranca boa que requeria suas ferramentas, a lanterna, que segurava entre os dentes, e mais ou menos
trinta segundos do seu tempo para administrar.
Sorriu diante do som das travas cedendo, depois escorregou para dentro da sala e adentrou o corredor.
A primeira cmera ficava no final, onde o corredor bifurcava para a direita e para a esquerda. Isso no o preocupava muito. Era uma sombra em meio a sombras ali,
e a cmera ficava voltada para a galeria. Deslizou pelas paredes sob ela, fora de alcance, e pegou o caminho da esquerda.
A Caverna de Aladim, pensou quando agachou-se do lado de fora da Galeria Sul. A Torre de Londres, o Tesouro do Barba Negra, o Pas das Maravilhas. Um lugar assim
era exatamente como os contos de fadas que lera e escutara na infncia.
Uma excitao fulminante percorria-lhe a pele, tensionava-lhe os msculos, fervia como o desejo em suas entranhas. Era seu,
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bastava pegar. Pensar em como era fcil um profissional sucumbir  ganncia - e ao desastre.
Uma vez mais conferiu o relgio. A imponncia primeiro-mundista de um lugar e como aquele indicava a presena de guardas fazendo rondas, apesar de cmeras e sensores
cumprirem sua funo com eficincia. Claro, ele era a prova do contrrio, e se estivesse no comando da segurana, teria empregado o dobro de guardas e duplicaria
suas rondas.
Mas esse no era seu trabalho.
No usava mais a lanterna, no precisava dela. O brilho de um simples alfinete ativaria os sensores. Usando suas medies e a excelente viso noturna, moveu-se at
o canto da galeria, apontou seu controle e desligou a cmera irritante.
Uma parte de seu crebro contava os segundos. O resto fazia seu corpo mover-se com rapidez. Quando abaixou-se em frente ao dis-play, seu cortador de vidro j estava
na mo. Fez um crculo perfeito, ligeiramente mais largo que o pulso, sugou o vidro com quase nenhum rudo e colocou-o descansando em cima do mostrurio.
Trabalhou rpido, mas com a eficiente economia de gestos que lhe era inata. No perdeu tempo admirando sua nova posse, nem considerando o prazer de pegar algo alm
do que viera buscar. Isso era para os amadores. Simplesmente esticou o brao, alcanou o bronze e guardou-o na pochete do cinto.
Como apreciava a ordem, e a ironia, colocou o crculo de vidro de volta, esgueirou-se mais uma vez at o canto. Ligou novamente a cmera e voltou por onde viera.
Enrolou-se no casaco, abriu a porta para sair, trancou-a com cuidado atrs de si e, menos de dez minutos depois de ter entrado no prdio, estava a um quarteiro
de distncia.
Suave, escorregadio e organizado, pensou. tima maneira de encerrar uma carreira. Viu o bar novamente; quase entrou. No ltimo instante, decidiu voltar ao hotel
e pedir uma garrafa de champanhe, em vez disso.
Alguns brindes eram particulares.
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s seis da manh, depois de uma noite sem dormir, Miranda foi arrancada de seu primeiro cochilo verdadeiro pelo telefone. Com dor de cabea, desorientada, alcanou
o aparelho, descoordenada.
- Dra. Jones. Pronto. - No, no  a Itlia,  o Maine. Casa. - Al?
- Dra. Jones, aqui quem fala  Ken Scutter, da segurana.
- Sr. Scutter. - Nenhuma imagem lhe vinha a partir do nome e ela estava muito zonza para buscar uma. - O que foi?
- Ns tivemos um incidente.
- Um incidente? - Enquanto seu crebro se reconectava, ela se ergueu na cama. Os lenis e cobertores estavam enroscados nela, embrulhando-a como se fosse
uma mmia, e ela deixava escapar palavres entre os dentes enquanto tentava libertar-se. - Que tipo de incidente?
- No fui informado at a mudana de turno, ainda h pouco, mas quis contat-la imediatamente. Tivemos uma invaso.
- Uma invaso. -Acordou completamente, o sangue latejan-do em sua cabea. - No instituto?
- Sim, senhora. Imaginei que a senhora gostaria de vir imediatamente.
- Algum dano? Alguma pea foi roubada?
- Nenhum dano grande, dra. Jones. Um item desapareceu de uma vitrine da Galeria Sul. Os catlogos indicam um bronze do sculo quinze, de Davi, artista desconhecido.
Um bronze, ela pensou. De repente, estava amaldioada pelos bronzes. - Eu j estou a caminho.
Levantou-se de supeto e, sem preocupar-se em pegar o robe, correu at o quarto de Andrew com seu pijama de flanela azul. Entrou apressada, partiu para o amontoado
na cama e sacudiu-o violentamente.
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- Andrew, acorda. O instituto foi invadido.
- Ahn? O qu? - Ele empurrou a mo da irm, passou a lngua
nos dentes, comeou a bocejar. Seu maxilar estalou enquanto ele se endireitava na cama. - O qu? Onde? Quando?
- No instituto. Tem um bronze desaparecido da Galeria Sul. Se
veste, anda.
- Um bronze? - Ele esfregou o rosto com as mos. - Miranda, voc tava sonhando?
- O Scutter, da segurana, acabou de ligar - disse de uma vez. - Eu no sonho. Dez minutos, Andrew. - Ela falou por sobre o ombro ao sair do quarto s pressas.
Quarenta minutos depois, ela estava de p ao lado do
irmo na Galeria Sul, olhando para o crculo perfeito recortado do vidro, e para o vazio atrs dele. O estmago de Miranda revirou e ela caiu de joelhos.
- Chame a polcia, sr. Scutter.
- Sim, senhora. - Ele fez sinal para um de seus homens. - Dei ordens para fazerem uma varredura no prdio... o que ainda est em processo... mas at agora
no encontramos nada fora do lugar e nada mais foi levado.
Andrew fez um gesto afirmativo de cabea. - Eu quero rever as fitas das cmeras de segurana das ltimas vinte e quatro horas.
- Sim, senhor. - Scutter deixou escapar um suspiro. - Dra. Jones, o chefe da noite falou sobre um pequeno problema com duas das cmeras.
- Problema. - Miranda voltou-se. Lembrava-se de Scutter agora. Era baixo, corpulento, um antigo policial que decidira trocar as ruas pela segurana particular.
Sua ficha era imaculada. Andrew o entrevistara e contratara pessoalmente.
- Aquela cmera. - Scutter virou-se, apontou para cima. - Ela apagou por uns noventa segundos ontem de manh. Ningum
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se preocupou, mas foram feitos testes pra verificar o problema. Noite passada, por volta da meia-noite, a cmera do lado de fora da entrada sul falhou por menos
de um minuto. Estava ventando muito e o problema foi atribudo ao mau tempo. Essa cmera de dentro tambm apagou por uns oitenta segundos, entre meia-noite e uma
da manh. As horas exatas vo aparecer nas fitas.
- Entendi. - Andrew mantinha as mos nos bolsos, os punhos cerrados. - Sua opinio, sr. Scutter?
- Eu diria que o assaltante  um profissional, com conhecimento dos procedimentos de segurana e de tecnologia. Ele entrou pelo lado sul, passou pelo alarme
e pela cmera. Sabia o que queria aqui, no ficou dando voltas. Desculpe, dra. Jones - murmurou, dirigindo um gesto de pesar a Miranda -, mas isso me diz que ele
conhece o museu, as instalaes.
- E ele entra danando - Miranda disse, mal contendo a fria -, tira o que quer, depois sai danando de novo, apesar de um sistema de segurana complexo e
caro, e meia dzia de guardas armados.
- Sim, senhora. - Scutter pressionou os lbios. - Isso resume tudo, mais ou menos.
- Obrigada. Por favor, voc vai at o lobby e espera pela polcia? - Esperou at que os passos ficassem distantes; depois, como estava sozinha com Andrew,
permitiu-se demonstrar a raiva.
- Filho da me. Filho da me, Andrew! - Olhou diretamente para a cmera em questo, fez uma careta, depois voltou o olhar. - O cara quer que a gente acredite
que algum pode no dar a mnima pra segurana, entrar aqui e roubar uma pea especfica em menos de dez minutos.
- Parece que essa  a teoria mais provvel, a menos que voc ache que os guardas tenham tramado uma conspirao, e, de repente, tenham desenvolvido uma obsesso
por garotos italianos nus esculpidos em bronze.
Ele se sentia doente. Amava aquela estatueta, a vitalidade e a arrogncia dela. - Poderia ter sido muito pior, Miranda.
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- Nossa segurana falhou, nossa propriedade foi invadida, uma
pea foi levada. Como poderia ter sido pior?
- Pelo que parece, esse cara poderia ter enchido um saco de
Papai Noel e limpado metade dessa rea.
- Uma pea ou uma dzia; ainda assim, fomos violados. Deus!
- Cobriu o rosto com as mos. - Nada nunca foi roubado do
instituto desde aqueles seis quadros nos anos cinqenta, e quatro foram recuperados.
- Talvez estivesse na hora - ele murmurou.
- Que besteira! - Miranda girou nos calcanhares. - A gente protegeu esta propriedade sem economizar com a segurana.
- No tem detector de movimentos - ele murmurou.
- Voc queria que tivesse.
- O sistema que eu queria ia ocupar o andar inteiro. - Ele olhou para as grandes placas do bonito mrmore do piso. - O pessoal no ia topar.
Com pessoal, ele queria dizer os pais. O pai ficara abismado com a idia de destruir o piso e quase to chocado com o preo do sistema proposto.
- Provavelmente no teria tido a menor importncia - ele disse, encolhendo os ombros. - Provavelmente o cara acharia um jeito de passar por ele tambm. Droga,
Miranda, segurana  minha
responsabilidade.
- No  culpa sua.
Ele suspirou e, desesperadamente, ferozmente, desejou tomar um drinque. - Sempre  culpa de algum. Tenho que contar pra eles. Nem sei como falar com o velho em
Utah.
- Ela vai saber como fazer isso, mas vamos com calma. Deixe-me pensar um minuto. - Ela fechou os olhos e ficou quieta. - Como voc mesmo disse, poderia ter
sido bem pior. S perdemos Uma Pea, que pode muito bem ser recuperada. Alm do mais, ela tem seguro, e a polcia j est a caminho. Tudo foi feito. A gente tem
que deixar a polcia trabalhar.
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- Eu tenho que fazer a minha parte, Miranda. Tenho que ligar pra Florena. - Forou um sorriso plido. - Vamos encarar assim, o nosso pequeno incidente pode
colocar o seu problema com ela de molho por um tempo.
Ela riu com desdm. - Se eu achasse que isso era uma possibilidade, talvez eu mesma tivesse roubado essa droga.
- Dra. Jones. - Um homem entrou na sala, as faces vermelhas de frio, os olhos de um verde plido posicionados estreitamente sob sobrancelhas grisalhas.
- E dr. Jones. Detetive Cook. - Ele estendeu um distintivo dourado. - Fui informado de que perderam algo.
s nove horas, a cabea de Miranda latejava violentamente, a ponto de faz-la ceder e deit-la sobre a mesa. Sua porta estava fechada, mal resistira  tentao de
tranc-la, e agora permitia-se sossegar por dez minutos, levada pelo desespero e pela pena de si mesma.
S sossegara por cinco minutos, no entanto, e o interfone tocou.
- Miranda, desculpe. - Havia preocupao e hesitao na voz de Lori. - A dra. Standford-Jones est na linha um. Quer que eu diga que voc no pode falar agora?
Ah, isso era tentador! Mas ela respirou profundamente, endireitou a postura. - No. Eu vou atender. Obrigada, Lori. - Como a voz lhe sasse rouca, pigarreou, depois
pressionou o boto da linha um. - Al? Mame?
- Os testes do Bronze Fiesole esto completos - Elizabeth disse sem prembulos.
- Entendi.
- Sua avaliao no foi acurada.
- No acredito nisso.
- Suas crenas no importam, elas foram derrubadas. O bronze no passa de uma tentativa inteligente e bem-feita de imitar o estilo e os materiais da Renascena.
As autoridades esto investigando Cario Rinaldi, o homem que alega ter encontrado a pea.
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-Eu quero ver os resultados do segundo teste.
-Essa no  uma opo.
-Voc pode dar um jeito nisso. Tenho autorizao pra...
-Voc no tem autorizao pra nada, Miranda. Vamos ver se
voc compreende. Minha prioridade agora  prevenir danos, caso a notcia se espalhe. J tivemos dois projetos do governo cancelados. A sua reputao e, consequentemente,
a minha esto sob ataque. Algumas pessoas acreditam que voc direcionou os testes e os resultados para levar o crdito pela descoberta.
Com cuidado, Miranda removeu a mancha deixada pela xcara de ch na mesa. -  nisso que voc acredita?
A hesitao falou mais claro que as palavras que a seguiram.
- Eu acredito que voc permitiu que a ambio, a pressa e o entusiasmo nublassem o seu julgamento, a sua lgica e sua eficincia. Eu assumo a responsabilidade,
j que envolvi voc.
- Eu sou responsvel por mim mesma. Muito obrigada pelo apoio.
- O seu sarcasmo no faz nenhum sentido. Tenho certeza de que a mdia vai te procurar nos prximos dias. E voc no tem permisso para comentar nada.
- Mas eu tenho vrios comentrios a fazer.
- E vai guardar todos para si. Seria melhor se voc tirasse umas frias.
- Seria? - Sua mo comeou a tremer e ela cerrou o punho.
Isso seria admitir passivamente a culpa, e eu no vou fazer isso.
Quero ver esses resultados. Se cometi um erro, pelo menos preciso saber onde e como.
Isso no cabe a mim.
- Tudo bem. Vou encontrar uma maneira, sem precisar de
Voc. Olhou com irritao para o fax que apitava. - Eu mesma
Vou falar com Ponti.
Eu j falei com ele e ele no est interessado em falar com voc. A questo est encerrada. Me transfere para a sala do Andrew.
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- Ah, vou adorar fazer isso. Ele tem algumas novidades pra voc. - Furiosa, ela pressionou o boto de espera e ligou para Lori. - Transfere a ligao pro
Andrew - ordenou, depois afastou-se da mesa.
Respirou fundo, primeiro. Daria alguns minutos a Andrew, depois iria at ele. Estaria calma quando o fizesse. Calma e solidria. Para consegui-lo, teria de afastar
o prprio problema por enquanto, e concentrar-se na invaso.
Para se distrair, foi at o fax e puxou a pgina contendo uma mensagem.
E seu sangue congelou.
Voc tinha tanta certeza, no tinha? Parece que voc estava errada. Como vai explicar isso?
O que sobrou para voc agora, Miranda, agora que sua reputao est em frangalhos? Nada. Voc era s uma reputao, um nome, uma parede cheia de diplomas.
Agora voc d pena. Voc no tem nada.
Agora eu tenho tudo.
Qual a sensao, Miranda, de ser exposta  fraude, de ser flagrada como incompetente? De ser um fracasso?
Apertou uma das mos contra o peito enquanto lia o bilhete. A respirao entrecortada, rpida, fez com que sua cabea se desligasse, e ela recuou, trpega, apoiando-se
pesadamente na mesa, em busca de equilbrio.
- Quem  voc? - A raiva tomara conta dela, aprumava o corpo novamente. - Que inferno! Quem  voc?
No importa, disse a si mesma. No deixaria que essas mensagens perversas, mesquinhas e insignificantes a afetassem. No significavam nada.
Mas guardou o fax junto com a outra mensagem dentro da gaveta e trancou-a.
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Acabaria descobrindo. Havia uma maneira de descobrir. Levando as mos ao rosto, pressionou-o para trazer o sangue de volta  face. E, quando descobrisse, prometeu
a si mesma, veria como lidar com isso.
Agora no era hora de se preocupar com pequenas provocaes perversas. Respirou fundo, soltou o ar e esfregou as mos at que estivessem novamente quentes.
Andrew precisava dela. O instituto precisava dela. Fechou os olhos, apertando-os com fora ao passo que a presso em seu peito transformava-se em dor. Ela no era
somente um nome, uma coleo de diplomas.
Era mais do que isso. E o provaria.
Endireitando os ombros, marchou para fora da sala com a inteno de ir at o escritrio de Andrew.
Pelo menos dois membros da famlia apoiariam um ao outro.
O detetive Cook estava de p ao lado da mesa de Lori. - Mais um minuto do seu tempo, dra. Jones.
- Claro. - Mesmo que seu estmago se revirasse, comps-se e fez um gesto indicativo. - Por favor, pode entrar. Lori, no passa nenhuma ligao pra mim, por
favor. Quer um caf, detetive?
- No, obrigado. Estou cortando. Cafena e tabaco so mortais. - Ele sentou-se numa cadeira, pegou seu bloco de anotaes. - Dra. Jones, o dr. Andrew Jones
me disse que a pea que foi levada tinha seguro.
- O instituto tem cobertura total contra furtos e incndios.
- Quinhentos mil dlares. No  muito dinheiro pra uma pea como essa? No era assinada nem algo do gnero, era?
- O artista  desconhecido, mas acredita-se que era um aluno de Leonardo da Vinci. - Desejava cuidar de sua dor de cabea, mas manteve as mos quietas. -
Era um timo estudo de Davi, de cerca de 1524.
Ela mesma testara o bronze, pensou com amargura. E ningum questionara sua descoberta.
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- Quinhentos mil seria o preo, caso a pea tivesse sido leiloada e vendida pra um colecionador - ela acrescentou.
- Vocs fazem esse tipo de coisa aqui? - Cook pressionou os lbios. - Vendem peas?
- s vezes. A gente tambm compra peas.  parte do nosso objetivo.
Ele deixou seu olhar vagar pela sala. Eficiente, arrumada, equipamentos sofisticados e uma mesa que provavelmente tambm valia uma pequena fortuna. - Precisa de
um bocado de dinheiro pra dirigir um lugar como este.
-  verdade. As taxas que a gente cobra pelas aulas, pelo trabalho de consultoria e admisses cobrem uma grande parte. Tambm existe um fundo deixado pelo
meu av. Alm disso, a gente conta com patronos que fazem doaes em dinheiro ou em obras de arte. - Apesar de passar-lhe pela mente que seria sbio chamar seu advogado,
ela inclinou o corpo  frente. - Detetive Cook, ns no precisamos de quinhentos mil dlares do dinheiro do seguro pra administrar o instituto.
- Imagino que isso seja uma gota no oceano. Claro, pra algumas pessoas  um bocado de grana. Especialmente se a pessoa joga, tem dvidas ou quer comprar um
carro de luxo.
Por mais tensos que estivessem seu pescoo e seus ombros, Miranda o encarou. - Eu no jogo, no tenho nenhuma dvida grande e tenho carro.
- Me desculpe estar falando assim, dra. Jones, mas a senhora no me parece muito chateada com essa perda.
- O fato de eu estar chateada vai ajudar a encontrar a pea?
Ele estalou a lngua. - Entendi seu argumento. Mas seu irmo
parece bastante abalado.
Como seus olhos se turvassem, ela baixou o olhar e fixou-se na xcara de ch. - Ele se sente responsvel. Leva tudo muito a srio.
- E a senhora no?
- Me sinto responsvel ou levo as coisas a srio? - ela contra-atacou, depois suspendeu as mos um pouco acima da mesa. - Neste caso, nem um nem outro.
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-S pra ajudar minhas investigaes, a senhora se incomodaria de repassar sua noite pra mim?
-Tudo bem. - Seus msculos se haviam retesado novamente, mas ela falou calmamente. - Eu e Andrew trabalhamos at mais ou menos sete horas. Mandei minha assistente
pra casa logo depois das seis. Recebi uma ligao internacional um pouco depois disso.
- De onde?
- De Florena, na Itlia. Um associado. -A angstia queimava em seu peito como lcera. - Imagino ter ficado no telefone uns dez minutos, talvez um pouco menos.
Andrew passou aqui. Tivemos uma conversa e samos juntos por volta das sete.
- Vocs costumam vir e voltar juntos?
- No, no costumamos. Nossos horrios nem sempre coincidem. Eu no tava me sentindo bem na noite passada, ento ele me levou pra casa. Moramos juntos na
casa que nossa av deixou de herana. Jantamos. Fui pro meu quarto por volta das nove.
- E ficou por l o resto da noite?
- Isso, como eu disse, no estava me sentindo muito bem.
- E seu irmo ficou em casa a noite toda?
Ela no fazia idia. - Ficou. Eu o acordei logo depois do telefonema do Sr. Scutter, da segurana, por volta das seis da manh. Viemos juntos pra c, tomamos p
da situao e mandamos o sr. Scutter chamar a polcia.
- A estatueta... - Cook apoiou o bloco sobre os joelhos. - Vocs tm peas naquela galeria que valem muito mais do que ela, imagino. Engraado que ele s
tenha levado essa, s uma depois de ter tido todo o trabalho pra entrar.
-  verdade - ela disse no mesmo tom. - Pensei a mesma coisa. Como  que voc explicaria isso, detetive?
Ele teve de sorrir. Era um bom contra-ataque. - Diria que ele Queria aquela pea. No deram pela falta de mais nada?
Os espaos da galeria vm sendo investigados exaustivamente. Parece que no sumiu mais nada. No sei mais o que dizer.
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- Isso deve ser o suficiente por enquanto. - Ele se levantou, guardou o bloco de anotaes. - Vamos interrogar seu pessoal e provavelmente vou precisar falar
com vocs novamente.
- Vamos ter o maior interesse em colaborar. - Ela tambm se levantou. Queria v-lo fora dali. - Voc pode ligar para c ou para minha casa - continuou enquanto
o levava at a porta. Quando a abriu, viu Ryan andando de um lado para outro no corredor.
- Miranda. - Ele foi diretamente at ela e segurou suas mos. - Acabei de saber.
Por alguma razo, as lgrimas se aproximavam mais uma vez de seus olhos e eram empurradas para longe. - Dia ruim - ela conseguiu dizer.
- Eu sinto tanto. Quanto foi roubado? A polcia tem alguma pista?
- Eu... Ryan, esse  o detetive Cook. Ele  o encarregado. Detetive, esse  Ryan Boldari, um associado.
- Detetive. - Ryan poderia t-lo identificado como policial a quilmetros de distncia.
- Sr. Boldari. O senhor trabalha aqui?
- No, eu tenho uma galeria em Nova York e outra em San Francisco. Estou aqui a trabalho por uns dias. Miranda, o que eu posso fazer pra ajudar?
- Nada. No sei. -A emoo acometeu Miranda novamente, como uma onda, fazendo com que suas mos tremessem em contato com as dele.
-  melhor voc sentar. Voc no t bem.
- Sr. Boldari? - Cook levantou um dedo quando Ryan virou-se para encaminhar Miranda novamente  sala. - Como se chama sua galeria?
- Boldari - ele disse, arqueando uma sobrancelha. - Galeria Boldari. - Pegou uma caixinha de prata e tirou dali um carto de visitas. - Os endereos esto
a. Desculpe, detetive, a dra. Jones precisa de um minuto.
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Sentiu uma satisfao silenciosa ao fechar a porta na cara de Cook - Senta, Miranda. Me conta o que aconteceu.
Ela atendeu a seu pedido, agora grata pelo aperto firme dele em suas mos.
- S uma pea - Ryan disse quando ela terminou. - Estranho.
- Deve ser um ladro imbecil - ela disse com algum prazer.
-Ele podia ter limpado aquela vitrine sem precisar se esforar
muito.
Ryan segurou a lngua na boca e lembrou-se de no se sentir ofendido. - Aparentemente, ele foi seletivo, mas imbecil? Difcil acreditar que um imbecil, ou uma imbecil,
sabe-se l, conseguiria passar pela sua segurana com essa facilidade e rapidez.
- Bem, ele deve conhecer equipamentos eletrnicos, mas no conhece arte. - Incapaz de ficar sentada, ela se levantou e abriu o pote de caf. - O Davi era
uma graa de pea, mas no a melhor que a gente tem. Mas no importa... - murmurou, passando a mo no cabelo. - Parece at que eu estou chateada porque ele no levou
mais nada ou porque no soube escolher. S estou com raiva porque ele conseguiu entrar,  isso.
- Como era de esperar. - Foi at ela e beijou-lhe a testa. - Tenho certeza de que a polcia vai encontrar o ladro, e a estatueta. O Cook me pareceu um tipo
eficiente.
- Acho que sim... depois que ele eliminar a mim e ao Andrew da lista de suspeitos e conseguir se concentrar em encontrar o ladro de verdade.
- Isso  tpico, eu acho. - A pequena pontada de culpa o incomodou novamente quando ela se virou para olhar para ele. - Voc no t preocupada com isso, t?
- No, na verdade, no. Irritada, mas no preocupada. Que bom que voc veio, Ryan, eu... Ah, o almoo - lembrou-se. - No vou conseguir.
- No precisa se preocupar com isso. A gente remarca da prxima vez que eu vier.
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- Prxima vez?
- Tenho que ir embora hoje  noite. Esperava poder ficar mais um dia ou dois... por motivos pessoais. Mas tenho que voltar hoje.
- Ah... - Ela no podia imaginar-se mais infeliz.
Ele levou as mos dela at os lbios. Olhos tristes eram to atraentes, pensou. - No vai fazer mal voc sentir falta de mim. Pode te ajudar a afastar o pensamento
disso tudo.
- Acho que vou ficar bem ocupada nos prximos dias. Mas  uma pena que voc no possa ficar mais um pouco. Isso no.... esse problema no vai fazer voc mudar
de idia em relao  troca, vai?
- Miranda. - Ele usufruiu o momento, bancando o forte, o heri protetor. - Deixa de ser boba. Os Vasari vo estar aqui em um ms.
- Obrigada. Depois da manh que eu tive, fico feliz pela confiana. Mais do que voc possa imaginar.
- E voc vai sentir a minha falta.
Seus lbios se curvaram. - Acho que vou.
- Agora, vem se despedir de mim.
Ela comeou a frase, mas ele parou o movimento de sua boca com um beijo. Permitiu-se ir fundo, passando por cima da surpresa e da resistncia inicial dela, como
um ladro, o ladro que ele era.
Demoraria bastante para que a visse novamente, ele sabia - se  que a veria outra vez. Suas vidas separavam-se ali, mas ele queria levar algo consigo.
Portanto, levou a doura que comeara a sentir sob a carapaa de fora dela, e a paixo que comeava a fugir-lhe ao controle.
Afastou-a com suavidade, analisou seu rosto, deixou que suas mos afagassem-lhe o brao, descendo mais uma vez at encontrar a ponta dos dedos dela.
- Adeus, Miranda - ele disse, mais arrependido do que lhe era confortvel. E deixou-a, certo de que ela daria conta da pequena inconvenincia que ele trouxera
para a sua vida.
Captulo Nove
Quando Andrew terminou de falar ao telefone com a me, seria capaz de trair seu pas por trs dedos de Jack Daniels. Aquilo pesara sobre ele. Aceitara isso. A administrao
diria do instituto era sua responsabilidade, e segurana era prioridade.
A me lhe lembrara isso - com frases curtas e declaradas.
No lhe faria nenhum bem contra-atacar, j que, tendo a segurana sido violada, deveria estar dando pulinhos de alegria pelo fato de s uma pea ter sido perdida.
Para Elizabeth, a invaso era um insulto pessoal, e a perda do pequeno Davi de bronze era to amarga quanto se todo o acervo das galerias tivesse sido levado.
Ele tambm era capaz de aceitar isso. Podia e deveria agentar a responsabilidade de lidar com a polcia, a companhia de seguros, o staff, a imprensa. Mas o que
no conseguia aceitar, o que fazia com que desejasse ter acesso a uma garrafa, era a falta total de apoio e de simpatia da parte dela.
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Mas no havia como obter uma garrafa. Manter uma no escritrio era uma barreira que no ultrapassara, e que afastava qualquer sugesto de que tinha problemas de
alcoolismo.
Bebia em casa, em bares, em eventos sociais. No bebia durante as horas de trabalho. Portanto, tinha controle da situao.
Fantasiar que escapava at a loja de bebidas mais prxima e tomava algo para ajud-lo a atravessar um dia duro e longo no era a mesma coisa que fazer isso.
Pressionou o boto do interfone. - Srta. Purdue?
- Sim, dr. Jones.
D um pulinho na Freedom Liquors, por favor, minha querida srta. Purdue, e me traz um Jack Daniels Black.  uma tradio de famlia.
- A senhora poderia dar um pulinho aqui?
- Estou indo, doutor.
Andrew se afastou da mesa e voltou-se para a janela. Suas mos estavam firmes, no estavam? O estmago podia estar um pouquinho revirado, as costas pegajosas de
suor, mas suas mos ainda estavam firmes. Ele estava no comando.
Ouviu-a entrar e fechar cuidadosamente a porta.
- O investigador da seguradora vai estar aqui s onze horas - ele disse sem se virar. - Queria que a senhora mantivesse minha agenda livre.
- Cancelei todas as reunies que no so essenciais, hoje, dr. Jones.
- timo. Obrigado. Ah... - Pressionou a ponta do nariz, na esperana de aliviar um pouco da tenso. - Vamos precisar marcar uma reunio com a equipe, s os
chefes de departamento. O mais cedo possvel durante a tarde.
- Uma hora, dr. Jones.
- timo. Pode mandar um memorando pra minha irm. Queria que ela preparasse uma declarao para a imprensa. Avise a
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todo e qualquer jornalista que telefonar que liberaremos informaes no final do dia. Por ora, no temos nada a declarar.
-Sim, senhor. Dr. Jones, o detetive Cook gostaria de falar com
o senhor mais uma vez, assim que for possvel. Ele est l embaixo.
-Eu deso j. Preciso escrever uma carta para a dra. Standford
Jones e para o dr. Charles Jones detalhando esse incidente e o p em que as coisas esto. Eles... - Parou ao ouvir batidas  porta, virou-se e viu Miranda entrar
na sala.
- Desculpe, Andrew. Posso voltar depois, se voc estiver ocupado.
- Tudo bem. Vamos poupar a srta. Purdue de um memorando. Voc pode preparar uma declarao pra imprensa?
- J t fazendo isso. - Ela podia ver as marcas em volta dos olhos do irmo. - Voc falou com Florena.
Ele sorriu levemente. - Florena falou comigo. Vou fazer uma carta, contando a triste histria, e mandar uma cpia pra ela e pro papai.
- Por que eu no fao isso? - A sombra sob os olhos dele eram to escuras, ela pensou, as linhas ao redor da boca to profundas... - Isso vai te dar tempo
e te livrar de problemas.
- Agradeo. O investigador da seguradora vai chegar daqui a pouco e Cook quer falar comigo de novo.
- Ah. - Ela juntou as mos para mant-las quietas. - Srta. Purdue, a senhora nos daria um minuto?
- Claro. Vou preparar o encontro com a equipe, dr. Jones.
- Cabeas de departamento - Andrew disse a Miranda quando a porta se fechou novamente. - Uma da tarde.
- Tudo bem. Andrew, sobre o Cook... ele vai querer saber sobre a noite passada. Onde voc tava, o que voc fez, com quem. Eu disse que a gente saiu daqui
por volta das sete e ficou em casa a noite toda.
- Certo.
Ela torceu os dedos. - Voc ficou?
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- O qu? Em casa? Fiquei. - Ele inclinou a cabea, estreitou os olhos. - Por qu?
- Eu no sabia se voc tinha sado ou no. - Descruzando os dedos, ela passou as mos pelo rosto. - Mas achei melhor dizer que no.
- Voc no tem que me proteger, Miranda. Eu no fiz nada. E isso, de acordo com a nossa me,  o problema.
- Eu sei que voc no fez. Eu no quis dizer isso. - Ela tocou o brao do irmo. - S achei menos complicado dizer que voc passou a noite em casa. Depois
comecei a pensar no que aconteceria se voc tivesse sado, se algum tivesse te visto...
- Encostado no balco de um bar? - Um tom de ressentimento e amargura transpareceu em sua voz. - Ou rodeando o prdio?
- Ah, Andrew. - Sentindo-se pssima, ela sentou no brao da cadeira. - No vamos trocar farpas.  que esse Cook me deixa nervosa, e eu fiquei com medo de,
se ele me pegasse numa mentira, mesmo que fosse inocente, isso piorar as coisas.
Com um suspiro, ele deixou-se cair na cadeira. - Parece que a gente t atolado at os joelhos.
- Eu t at a cintura - Miranda resmungou. - Ela me mandou tirar frias. Recusei.
- Voc t fazendo isso por voc ou s para revidar?
Miranda franziu o cenho e analisou as prprias unhas. Qual a
sensao de ser um fracasso? No, ela no cederia a isso. - Os dois.
- Cuidado pra no levar um tombo. Ontem  noite eu teria concordado com ela, no pelas mesmas razes, mas teria concordado. Hoje as coisas mudaram, eu preciso
de voc aqui.
- Eu no vou a lugar nenhum.
Ele deu um tapinha no joelho da irm, antes que ela se levantasse. - Vou falar com o Cook. Manda uma cpia do press release pra mim, e da carta. Ah, ela me deu o
endereo do papai em Utah. -Rasgou um pedao de papel de um bloco em cima da mesa e entregou a Miranda. - Se apressa com essas cartas. Quanto mais cedo eles tiverem
isso por escrito, melhor.
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-Vejo voc  uma, ento. Ah, Andrew, Ryan pediu pra mandar um abrao de despedida pra voc.
Ele parou com a mo na maaneta da porta. - Despedida?
-Ele tem que voltar pra Nova York hoje  noite.
-Ele veio aqui? Droga. Ele j t sabendo dessa confuso toda?
E os Vasari?
- Ele foi completamente solidrio. Me garantiu que esse problema no afetaria a troca. Eu, , ando pensando em ir a Nova York daqui a algumas semanas. - Na verdade,
acabara de ter essa idia. - Pra entregar o emprstimo.
Distrado, ele assentiu: - timo, isso  bom. Vamos falar sobre isso mais tarde. Uma nova exposio  tudo de que a gente precisa pra superar essa confuso.
Desceu as escadas olhando para o relgio. Impressionou-o ainda serem dez horas. Tinha a sensao de estar funcionando num horrio particular havia dias.
Policiais, uniformizados ou  paisana, tomavam conta do andar principal. O que ele julgava ser p para revelar impresses digitais cobria a vitrine de exposio.
O pequeno crculo de vidro havia ido embora. Guardado em alguma embalagem para armazenamento de provas de crime, imaginou.
Andrew questionou um dos oficiais uniformizados e foi informado de que encontraria o detetive Cook na entrada sul.
Ele percorreu aquela rota tentando imaginar o ladro fazendo o mesmo caminho. Vestido de preto, pensou, um homem de rosto duro. Talvez sua face tivesse uma cicatriz.
Carregaria uma arma? Uma faca? Uma faca, Andrew concluiu. Desejaria matar silenciosa e rapidamente, caso fosse necessrio.
Pensou nas muitas noites em que Miranda ficava at tarde no laboratrio ou na sua sala, e revoltou-se.
Uma fria nova percorria-lhe o sangue sob a pele quando adentrou a antessala e encontrou Cook pesquisando as ofertas da mquina de petiscos.
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-  assim que voc pretende encontrar o filho da me?
Andrew perguntou. - Comendo batata frita?
- Na verdade, ia pegar pretzels. - Calmamente, Cook pressionou os botes apropriados. - Estou controlando a ingesto de gordura. - O saco caiu na bandeja
de metal. Cook o retirou pela fenda prpria.
- Bom. Um policial preocupado com a sade.
- Quem tem sade - Cook disse enquanto abria o pacote -tem tudo.
- Eu quero saber o que voc vai fazer pra descobrir o desgraado que invadiu o meu prdio.
- Meu trabalho, dr. Jones. Por que a gente no senta aqui? - Apontou para uma das mesas do bar. - Voc est com cara de quem quer tomar um caf.
Os olhos de Andrew brilharam, um azul vibrante, repentino, que transformou seu rosto em algo forte e potencialmente perverso. Essa mudana rpida fez com que Cook
prestasse mais ateno nele.
- No quero sentar - Andrew respondeu -, e no quero caf. - Mataria por um. - Minha irm trabalha at tarde, detetive. Freqentemente ela fica sozinha at
tarde aqui. Se no tivesse passado mal ontem  noite, talvez estivesse aqui quando o cara entrou. Eu poderia ter perdido uma coisa muito mais valiosa pra mim do
que aquele bronze.
- Compreendo a sua preocupao.
- No, voc no seria capaz disso.
- Eu tambm tenho famlia. - Apesar da recusa de Andrew, Cook contou as moedas e dirigiu-se  mquina de caf. - Como  que voc gosta?
- Eu disse... puro -Andrew murmurou -, sem nada.
- Eu costumava tomar assim tambm. Ainda sinto falta. - Cook inspirou profundamente quando o caf comeou a pingar dentro do copinho descartvel. - Deixe-me
aliviar sua cabea um pouco, dr. Jones. Normalmente, um tipo que invade prdios,
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principalmente um homem esperto, no est atrs de machucar ningum. O fato  que ele prepara o trabalho antes de entrar nesse tipo de empreitada. No anda armado,
porque, se fizer isso, o tempo de priso aumenta muito, caso ele seja pego.
Colocou o caf sobre a mesa, sentou-se, aguardou. Depois de um momento, Andrew cedeu e fez o mesmo. Quando o temperamento explosivo se esvaiu do rosto dele, sua
expresso se abrandou, os ombros voltaram  habitual postura um pouco encurvada.
- Talvez esse cara no seja um caso clssico.
- Diria que no, mas, se for esperto como acho que , seguiu essa regra. Nada de armas, nenhum contato com pessoas. Entrar e sair. Se sua irm estivesse aqui,
ele teria evitado contato com ela.
- Voc no conhece a minha irm. - O caf fazia com que se sentisse um pouco mais humano.
- Uma mulher forte, a sua irm.
- Ela teve que ser. Mas foi agredida recentemente, bem em frente  nossa casa. O cara tinha uma faca, ela tem pavor de facas. Ela no pde fazer nada.
Cook contraiu os lbios. - Quando foi isso?
- Umas duas semanas atrs, eu acho. - Andrew passou a mo no cabelo. - Ele jogou a Miranda no cho, pegou a bolsa dela, a pasta. - Ele se calou, respirou
profundamente, tomou mais um gole de caf. - Isso mexeu com ela, mexeu com ns dois. E pensar que ela poderia estar aqui na hora em que esse cara entrou...
- Esse tipo de ladro no bate em mulheres por a pra roubar a bolsa delas.
- Talvez no. Mas ele no foi pego. Ele deixou minha irm apavorada, levou as coisas dela e fugiu. Miranda j aguentou o suficiente, teve isso e o problema
em Florena. -Andrew repreendeu-se ao perceber que relaxava e falava sobre a vida de Miranda, pelo amor de Deus. - Mas no era sobre isso que voc queria falar
comigo.
- Na verdade, at me ajuda, dr. Jones. - Um assalto e um furto em menos de um ms. Mesma vtima? Interessante, Cook
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refletiu. - Voc disse que sua irm no estava se sentindo bem na noite passada. O que ela teve?
- Um problema em Florena - ele disse rapidamente.-
Dificuldades com nossa me. Ela ficou chateada.
- Sua me est na Itlia?
- Ela mora l. Trabalha l. Ela dirige a Standjo.  um laboratrio para testes de objetos e obras de arte. Faz parte dos negcios da famlia. Um brao do
instituto.
- Ento existe uma tenso entre sua me e sua irm?
Andrew bebericou o caf novamente para equilibrar-se, e observou Cook. Seus olhos endureceram novamente. - Os relacionamentos na minha famlia no so assunto da
polcia.
- S estou tentando ter uma viso mais ampla das coisas. Isso  uma empresa familiar, afinal de contas. No tem nenhum sinal de trancas foradas.
A mo de Andrew tremeu e ele quase derramou o caf ao tentar control-la. - O qu?
- No tem nenhuma indicao de que as portas foram arrombadas. - Cook apontou o dedo em direo s portas do lado de dentro e do lado de fora. - Todas estavam
fechadas. Na porta de entrada  preciso ter um carto-chave e um cdigo, no ?
- Isso. S os chefes de departamento podem usar essa entrada. A rea  usada como um salo para o staff. Tem outro pro resto da equipe, no terceiro andar.
- Vou precisar de uma lista com o nome dos chefes de departamento.
- Claro. Voc pensa em algum que trabalha aqui?
- No penso nada. O maior erro  chegar a uma cena de crime com uma idia formada. - Sorriu ligeiramente. -  s o procedimento de praxe.
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A invaso ao instituto foi a manchete principal no jornal local das onze. Em Nova York, ganhou trinta segundos no primeiro bloco. Estendido no sof de seu apartamento
na regio sul do Central Park, Ryan bebericava um conhaque, usufruindo de um charuto cubano, atento aos detalhes.
No havia muitos. E Nova York tinha sua prpria cota de crimes e escndalos para preencher o noticirio. Se o instituto no fosse uma referncia, e os Jones no
fossem uma famlia to proeminente da Nova Inglaterra, o roubo no teria recebido mais de um segundo de ateno fora do Maine.
A polcia estava investigando. Ryan sorriu com o charuto na boca ao pensar em Cook. Conhecia o tipo. Obstinado, detalhista, uma ficha repleta de casos resolvidos.
Era satisfatrio ter um bom policial investigando seu ltimo trabalho. Fechava muito bem sua carreira.
Perseguir vrias pistas. Bem, isso era bobagem. No havia pistas, mas eles precisavam dizer que sim para salvar a pele.
Sentou-se ao ver a imagem de Miranda saindo do prdio. O cabelo preso num coque. Fizera isso para as cmeras, pensou, lembrando-se de como estava solto e encaracolado
quando a beijara na despedida. O rosto estava calmo, composto. Frio, concluiu. A moa tinha uma aura fria, durona, aura que ele tivera a tentao de derreter. O
que teria feito, pensou, se tivesse tido um pouco mais de tempo.
Ainda assim, ficava feliz ao ver que ela estava lidando bem com a situao. Ela era forte. Mesmo com a timidez e a tristeza que a acompanhavam, era forte. Mais um
ou dois dias, calculou, e a vida dela voltaria ao normal. O pequeno tropeo que ele lhe causara no teria mais importncia, a seguradora reembolsaria o instituto
e a Polcia arquivaria o caso.
E ele, Ryan pensou ao soltar baforadas circulares de fumaa em direo ao teto, teria um cliente satisfeito, uma ficha perfeita e tempo de lazer  sua disposio.
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Talvez, talvez infringisse as regras e levasse Miranda para o Caribe por algumas semanas. Sol, areia e sexo. Faria bem a ela, decidiu.
E, com certeza, no faria mal algum a ele.
o apartamento de annie mclean caberia na sala de Ryan, mas dava vista para o parque. Se debruasse na janela do quarto, virasse o pescoo at doer e forasse os
olhos. Mas ela o achava bom o suficiente.
Os mveis eram de segunda mo, mas coloridos. O tapete provavelmente fora comprado numa venda de garagem, mas fora lavado e estava timo. E ela gostava das rosas
na borda.
Arrumara as estantes, pintara-as de verde-escuro e as entulhara de livros comprados na liquidao anual da biblioteca.
Clssicos, na maioria. Livros que deixara de ler na escola e desejava explorar agora. Fazia-o sempre que tinha uma horinha ou duas, enroscava-se debaixo de uma colcha
listrada de azul e verde que a me fizera, e mergulhava em Hemingway, Steinbeck ou Fitzgerald.
Seu aparelho de CD fora um presente que se dera de Natal, dois anos antes. Deliberadamente, colecionava uma grande variedade de estilos musicais - ecltica, era
assim que gostava de pensar em sua coleo.
Andara muito ocupada desenvolvendo o gosto amplo pelos livros e pela msica na adolescncia e comeo da juventude. Uma gravidez, um aborto e um corao partido antes
do aniversrio de dezoito anos haviam mudado seus rumos. Estava determinada a fazer algo por si mesma, a ter algo seu.
Depois, deixara-se encantar por um homem de voz macia e vida fcil, um filho da me, Buster.
Hormnios, pensou, e a necessidade de construir um lar, de constituir a prpria famlia, a haviam cegado quanto  impossibilidade de um casamento com um mecnico
desempregado que tinha um fraco por cervejas e louras.
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Ela queria um filho, pensava agora. Talvez, Deus a ajudasse, para compensar a perda do outro.
Vivendo e aprendendo, sempre dizia a si mesma. Fizera os dois. Agora era uma mulher independente, tinha um negcio slido e usava o tempo para melhorar sua vida.
Gostava de ouvir os freqentadores, suas opinies, pontos de vista, e compar-los aos seus. Estava ampliando horizontes, e calculava que durante os sete anos  frente
do Annie's Place aprendera mais sobre poltica, religio, sexo e economia do que qualquer universitrio.
Se sofreu nas noites em que foi para a cama sozinha e desejou a presena de algum que a ouvisse, abraasse, risse com ela quando contava seu dia, esse era um preo
baixo a pagar pela sua independncia.
Por experincia prpria, podia dizer que os homens no queriam escutar o que voc tem a dizer, eles s queriam um pouco de futrica e sacanagem. Depois, arrancar
sua camisola e transar.
Ela estava muito melhor sozinha.
Um dia, pensou, compraria uma casa com um jardim. No se importaria se tivesse um cachorro. Poderia diminuir as horas de trabalho, contratar um gerente para o bar,
talvez tirar umas frias. Primeiro, Irlanda, naturalmente. Queria conhecer as montanhas - e os bares,  claro.
Mas sofrer a humilhao de no ter dinheiro suficiente, de ter as portas fechadas na sua cara quando pedira emprstimos, a humilhao de saber que era um risco
alto.
No tinha inteno alguma de passar por isso novamente.
Portanto, seus lucros alimentavam o prprio negcio, e o que conseguia guardar ia diretamente para aplicaes seguras, aes e fundos. No precisava ser rica, mas
no seria pobre outra vez.
Os pais beiraram a pobreza durante toda a vida de Annie. Haviam feito o possvel por ela, mas o pai - Deus o abenoe - agarrava o dinheiro como quem agarra gua.
Sempre deixando que lhe escorresse por entre os dedos.
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Quando eles se mudaram para a Flrida, trs anos antes, Annie despedira-se dos dois, chorara um pouco e dera quinhentos dlares para a me. Dinheiro suado, mas sabia
que a me o esticaria atravs dos esquemas do pai para enriquecer rapidamente.
Ligava para eles toda semana, nas tardes de domingo, quando as tarifas eram mais baixas, alm de mandar um cheque para a me a cada trs meses. Sempre prometia visit-los,
mas s conseguira fazer duas viagens rpidas em trs anos.
Annie pensava neles agora, enquanto assistia s ltimas notcias e fechava o livro que vinha esforando-se para ler. Seus pais adoravam Andrew. Claro que nunca souberam
nada sobre aquela noite na praia, nem sobre o beb que ela concebera, e perdera.
Com uma sacudidela de cabea, afastou todos esses pensamentos da mente. Desligou a televiso, pegou a xcara de ch que deixara esfriar e levou-a para o "armrio"
que seu senhorio insistia em chamar de cozinha.
Estava prestes a apagar a luz quando algum bateu  sua porta. Annie olhou para o taco de beisebol que mantinha na entrada - havia um irmo gmeo dele atrs do balco
do bar. Apesar de nunca ter tido necessidade de usar nem um nem outro, faziam com que se sentisse segura.
- Quem ?
- Andrew. Me deixa entrar, vai? As paredes aqui do lado de fora esto geladas.
Apesar de no muito satisfeita de encontr-lo na sua soleira, Annie retirou a corrente, soltou a tranca e abriu a porta. - T tarde, Andrew.
- Voc acha? - ele respondeu, embora ela vestisse um robe e meias pretas grossas. - Eu vi sua luz acesa pela fresta da porta. Vai, Annie, me deixa entrar.
- Eu no vou te dar um drinque.
- Tudo bem. - Uma vez ali dentro, enfiou a mo no casaco e pegou uma garrafa. - Eu trouxe a minha. Foi um dia longo, exaus-
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tivo, Annie. - O olhar de cachorro perdido que ele dirigiu a ela partiu-lhe o corao. - Eu no queria ir pra casa.
- Tudo bem. - Irritada, ela foi at a cozinha e pegou um COpo. - Voc  adulto, vai beber se quiser.
- Eu quero. - Serviu-se de uma dose e levantou o copo num brinde. - Obrigado. Acho que voc j soube das novas.
- J, sinto muito. - Ela sentou-se no sof e escondeu o exemplar de Moby Dick debaixo das almofadas, apesar de no saber explicar por que ficaria constrangida
se ele o visse.
- A polcia acha que foi algum l de dentro. - Tomou um gole, deu uma risada. - Nunca pensei que fosse usar essa frase. Eles esto investigando a mim e a
Miranda primeiro.
- Por que eles achariam que vocs roubariam de si mesmos?
- As pessoas fazem isso o tempo todo. A seguradora tambm t investigando. Estamos sendo estudados minuciosamente.
-  s trabalho de rotina. - Agora preocupada, pegou a mo dele e puxou-o para perto de si.
- . Rotina  um saco. Eu amava aquele bronze.
- Qual? O que roubaram?
- Ele tinha um significado especial pra mim. O jovem Davi lutando contra o gigante, ansioso pra furar a pedra com a espada. Coragem. Do tipo que eu nunca
tive.
- Por que voc faz isso consigo mesmo? - A irritao era visvel na sua voz enquanto se dirigia a ele.
- Eu nunca enfrento os gigantes - ele disse e buscou mais uma vez a garrafa. - Eu simplesmente nado a favor da corrente e sigo ordens. Meus pais dizem que
" hora de voc assumir a direo do instituto, Andrew". E eu digo: "Quando vocs querem que eu comece?"
- Voc ama o instituto.
- Uma feliz coincidncia. Se eles tivessem me dito pra ir a Bornu pra estudar os hbitos dos nativos... Aposto que eu estaria bastante bronzeado agora. Elise
diz: "T na hora de a gente se casar";
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eu digo: "Marca a data." Ela diz: "Quero me divorciar"; eu digo: "Amor, e voc quer que eu pague seu advogado?"
Eu digo que estou grvida, Annie pensou, e voc me pede em casamento.
Ele analisou a bebida no copo, avaliou como a luz do abajur de p refletia no lquido mbar. - Eu nunca combati o sistema, porque nunca achei que valia o esforo.
E isso no diz muito de Andrew Jones.
- Quer dizer que voc bebe porque  mais fcil do que decidir o que  importante?
- Talvez. - Mas ele baixou o copo para ver se podia, para ver como se sentia ao dizer o que mais lhe viesse  cabea sem uma bengala. - Eu no fiz a coisa
certa com voc, Annie, realmente no te apoiei como devia tantos anos atrs, porque morria de medo do que eles iam fazer.
- Eu no quero falar sobre isso.
- A gente nunca falou, na maioria das vezes porque eu achava que voc no queria. Mas voc tocou no assunto, outro dia.
- Eu no devia. - Sentiu uma ligeira pontada de pnico na boca do estmago diante da lembrana. -  assunto antigo.
-  assunto nosso, Annie - ele disse gentilmente, porque percebeu um trao de pnico na voz dela.
- Deixa pra l. - Afastou-se dele e cruzou os braos, na defensiva.
- Tudo bem. - Para que remexer feridas antigas, ele decidiu, quando tinha novas e frescas? - Vamos continuar repassando a vida de Andrew Jones. Agora, por
exemplo, t esperando pacientemente a polcia me dizer que eu no vou pra cadeia.
Dessa vez, quando ele estendeu o brao para alcanar a garrafa, ela a agarrou antes, levantou-se, foi at a cozinha e despejou o contedo na pia.
- Que droga, Annie!
- Voc no precisa de usque pra se fazer de miservel, Andrew. Voc j faz esse papel sozinho. Seus pais no te amaram o suficiente. Isso  muito difcil.
- Deu vazo a uma exploso que no previra.
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-Os meus me amaram  bea, mas eu ainda passo as noites sozinha, cheia de lembranas e arrependimentos que partem meu corao. Sua mulher tambm no te amou o suficiente.
Que pssimo! Meu marido se enchia de lcool e vinha transar comigo, quisesse eu ou no.
-Annie, caramba! - Ele no sabia disso, nunca imaginara. -
Sinto muito.
- No vem me dizer que voc sente muito - ela respondeu.
-Eu superei. Superei voc e superei meu ex-marido, quando me
dei conta do erro.
- No faz isso. - A raiva dele tambm encontrou vazo. Uma luz perigosa brilhou em seus olhos, endurecendo-os, e ele se levantou. - No compara o que a gente
teve com o que voc teve com ele.
- Ento, no usa o que a gente teve da mesma maneira como voc usa seu casamento com a Elise.
- Eu no fiz isso. No  a mesma coisa.
- Claro, droga, porque ela era linda, porque ela era brilhante. - Annie bateu com o dedo no peito dele com fora suficiente para faz-lo dar um passo para
trs. - E talvez voc no amasse a sua mulher o suficiente. Se amasse, talvez ela ainda estivesse contigo. Porque eu nunca soube de voc ser capaz de viver sem o
que quer de verdade. Voc  do tipo que d um boi pra no entrar numa briga, mas d uma boiada pra no sair.
- Ela  que no queria mais! - ele gritou. - No d pra obrigar algum a amar voc.
Annie se apoiou na pequena bancada, fechou os olhos e, para surpresa dele, comeou a rir. - Pode ter certeza que no. - Secou as lgrimas que o surto de gargalhada
trouxera a seus olhos. - Voc pode ser Ph.D., dr. Jones, mas  idiota. Voc  um idiota, e eu t cansada. Vou dormir. Voc sabe o caminho da sada.
Ela passou por ele apressada, desejando t-lo enfurecido o suficiente para que a agarrasse. Mas ele no o fez, e ela foi para o quarto sozinha. Quando o ouviu ir
embora, quando ouviu a porta bater, enroscou-se na cama e permitiu-se chorar compulsivamente.
Captulo Dez
A tecnologia nunca deixara de encantar e impressionar Cook. Quando ele comeara a trabalhar como detetive, vinte anos antes, sabia que o servio envolvia horas de
telefonemas, papelada e visitas de porta em porta. Nada to excitante quanto gostaria Hollywood, ou ele mesmo - jovem e ansioso - quando entrou para o time.
Planejara passar aquela tarde de domingo pescando em Miracle Bay, j que o tempo estava calmo e a temperatura beirava os quinze graus. Mas passara pela delegacia
num impulso. Acreditava em seguir os impulsos, considerava-os muito prximos dos palpites.
Na sua mesa, empilhado juntamente com os arquivos amontoados na sua caixa de mensagens, estava o relatrio virtual de uma jovem oficial chamada Mary Chaney.
Cook abordava o computador com o cuidado e o respeito que um policial de rua tinha ao abordar um viciado num beco escuro. Era preciso lidar com ele, era preciso
fazer esse trabalho, mas sabia
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muito bem que qualquer coisa poderia dar errado se desse um passo em falso.
O caso dos Jones era prioridade, porque eles eram ricos e o governador os conhecia pessoalmente. Como estava com o caso na cabea, pedira que Mary fizesse uma pesquisa
na internet, buscando crimes semelhantes.
As informaes que tinha em mos teriam levado semanas para chegar, se  que teria sido capaz de junt-las, nos primrdios de sua carreira. Agora tinha um padro
 sua frente que fazia com que seus planos de pescaria lhe sumissem da mente enquanto ele se afastava um pouco da mesa e avaliava o material.
Seis roubos parecidos num perodo de dez anos, e o dobro disso parecido o suficiente para valer a meno.
Nova York, Chicago, San Francisco, Boston, Kansas City, Atlanta. Um museu ou galeria em cada uma dessas cidades reportara uma invaso e a perda de um item na ltima
dcada. O valor de cada pea ia de cem mil a mais de um milho. Nenhum dano s propriedades, nenhuma desordem, nenhum alarme disparado. Todas as obras tinham cobertura
de seguro e nenhuma priso fora feita.
Escorregadio, pensou. O cara era escorregadio.
Na dzia subsequente, havia variaes. Duas ou mais peas haviam sido roubadas, e, em um dos casos, drogas haviam sido colocadas no caf de um dos guardas, alm
de o sistema de segurana ter sido desligado por trinta minutos. Em outro caso, uma priso fora feita. Um guarda tentara penhorar um camafeu do sculo quinze. Fora
preso e confessara, mas alegara ter usurpado o objeto depois da invaso. A paisagem de Renoir e o retrato de Manet, tambm roubados, nunca foram recuperados.
Interessante, Cook pensou novamente. O perfil que se formava em sua mente no inclua deslizes ou casas de penhor. Talvez tivesse de investigar um guarda como fonte
interna. Era algo que valia a Pena checar.
E no custava nada saber onde andavam os Jones nas datas dos outros roubos. Afinal, isso seria outro tipo de pescaria.
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A primeira coisa que ocorreu a miranda quando abriu os olhos na manh de domingo foi A Senhora Sombria. Tinha de v-la novamente, examin-la mais uma vez. De que 
outra
maneira saberia como estivera to completamente enganada?
Com o passar dos dias, conclura dolorosamente que estivera errada. Que outra explicao havia? Para salvar a reputao da Standjo, Elizabeth teria questionado cada
detalhe do segundo teste. Teria insistido e recebido provas absolutas de sua preciso.
Ela jamais teria se contentado com menos.
No havia outra opo, a no ser aceitar o fato. Salvaria seu orgulho no dizendo nada mais sobre o assunto at que a situao se acalmasse. Levantar a poeira no
traria nada de positivo, porque o dano j fora causado.
Decidiu que podia fazer melhor uso do tempo do que se amofinar, e colocou seu moletom. Algumas horas na academia de ginstica talvez a ajudassem a expurgar a depresso
junto com o suor.
Duas horas depois, voltou para casa e encontrou Andrew cambaleando pela sala, lutando contra a ressaca. Ia subir a escada quando a campainha tocou.
- Me deixa pegar seu casaco, detetive Cook. - Ouviu Andrew dizer.
Cook? Numa tarde de domingo? Miranda passou a mo no cabelo, limpou a garganta e sentou-se.
Quando Andrew entrou na sala com Cook, Miranda recebeu-os com um sorriso plido. - Alguma novidade?
- Nada conclusivo, dra. Jones. S uma ou duas pontas soltas.
- Sente-se, por favor.
- Sua casa  maravilhosa. - Os olhos de policial sob sobrancelhas grossas e grisalhas vasculharam o ambiente enquanto ele
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andava at uma poltrona. - Realmente uma imagem imponente aqui no penhasco. - Dinheiro antigo, pensou, tinha cheiro especial, visual prprio. Ali, cheirava a cera
de abelhas e leo de pinho. Moblia herdada e papel de parede esmaecido, janelas do cho ao teto emolduradas por cortinas cascateantes, provavelmente de seda.
Classe e privilgio, alm de quinquilharias suficientes para transformar a casa em lar.
- O que  que a gente pode fazer por voc, detetive?
- Estou trabalhando um ngulo especfico do caso. Fiquei me perguntando se vocs poderiam me dizer onde estavam, onde os dois estavam, em novembro passado.
Na primeira semana.
- Novembro passado. - Era uma pergunta estranha. Andrew coou a cabea, pensando. - Eu tava em Jones Point. No viajei muito no outono passado. Viajei? -
perguntou a Miranda.
- No que eu lembre. Por que isso  importante, detetive?
- S estou tentando clarear alguns detalhes. Onde voc estava, dra. Jones?
- Estive em Washington por uns dias no comeo de novembro. Uma consultoria no Instituto Smithsoniano. Vou precisar dar uma conferida na minha agenda pra ter
certeza.
- Voc se importaria? - Ele sorriu, desculpando-se. - S mesmo pra eu poder organizar isso aqui.
- Tudo bem. - Ela no conseguia entender a razo disso, mas tambm no via mal algum. - T no meu escritrio.
- Sim, senhor - Cook continuou, depois que ela deixou a sala. - Uma casa e tanto. Deve ser dureza pra aquecer.
- A gente tem vrias lareiras - Andrew resmungou.
- Voc viaja muito, dr. Jones?
- O instituto me mantm bastante perto de casa. A Miranda  quem viaja mais. Faz muitas consultorias, d palestras de vez em quando. - Bateu nos joelhos com
os dedos e percebeu que o olhar de Cook desviara-se para a garrafa de Jack Daniels em cima da mesa
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ao lado do sof. Seus ombros encolheram-se defensivamente.-
O que  que novembro passado tem a ver com a invaso?
- No tenho certeza se tem, s estou tentando estabelecer uma conexo. Voc pesca?
- No. Fico enjoado no mar.
- Que pena!
- Pelas minhas anotaes - Miranda entrou falando -, fiquei em Washington do dia 3 de novembro at o dia 7.
E o roubo em San Francisco ocorrera nas primeiras horas do dia 5. - Imagino que voc tenha ido de avio.
- Isso, pousei no National. - Conferiu a agenda. - Voo 4108, saindo de Jones Point s dez e cinqenta, chegando ao aeroporto de Washington  meia-noite e
cinqenta e nove. Fiquei hospedada no Four Seasons. Especfico o suficiente?
- Com certeza. Para uma cientista,  fcil manter tudo muito bem anotado.
- Com certeza. - Ela foi at Andrew, sentou-se no brao da poltrona onde o irmo se encontrava. - Qual  o motivo disso tudo?
- S estou tentando ordenar as coisas na minha cabea. Voc teria anotaes de onde estava em junho nessa sua agenda? Digamos, na terceira semana.
- Claro. - Equilibrada pela mo de Andrew em seu joelho, ela folheou os meses para trs, at chegar a junho. - Passei o ms inteiro de junho no instituto.
Trabalho de laboratrio, algumas turmas de vero. Voc tambm deu umas aulas, no deu, Andrew, quando o Jack Goldbloom tirou uns dias por causa daquela alergia?
- Foi. - Ele fechou os olhos para tentar lembrar. - Isso foi por volta do fim de junho. Arte Oriental do Sculo Vinte. - Abriu os olhos novamente e sorriu
para ela. - Voc no se meteu, e eu tive que enfiar a cara. A gente pode conseguir as datas exatas pro detetive. O instituto tambm tem tudo bem registrado.
- timo. Eu agradeo.
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-A gente vai cooperar. - Miranda falou seca e rapidamente.
- Esperamos que voc faa o mesmo. O roubo foi na nossa propriedade, detetive. Acho que a gente tem o direito de saber que caminhos a investigao t tomando.
-Sem problemas. - Ele apoiou as mos nos joelhos. - Estou
checando uma srie de roubos que se encaixam no perfil do que aconteceu aqui. Talvez vocs tenham ouvido alguma coisa, j que so do ramo, um roubo em Boston, em
junho passado.
- No Museu de Arte da Universidade de Harvard. - Um tremor percorreu o corpo de Miranda. - O kuang. Uma pea tumu-lar chinesa, apesar de ser do final do sculo
treze, comeo do doze antes de Cristo. Mais um bronze.
- Voc tem boa memria pra detalhes.
- , tenho. Foi uma perda enorme. Uma das peas de bronze mais bem preservadas da arte chinesa j encontrada, e valia muito mais que o nosso Davi.
- Em novembro foi em San Francisco, uma pintura dessa vez.
No um bronze, ela pensou, e, por alguma razo, sentiu alvio.
- Foi em M. H. de Young Memorial Museum.
- Isso mesmo.
- Arte americana - Andrew acrescentou. - Perodo colonial. Qual  a ligao?
- No disse que tinha uma, mas acho que tem. - Cook ficou de p. - Pode ser que seja um ladro com um gosto ecltico pra arte. Eu, eu gosto das coisas da
Gergia O'KeefFe. O trabalho dela  transparente, as coisas so o que parecem. Agradeo pelo tempo de vocs. - Virou-se, depois voltou. - Ser que eu poderia levar
emprestada essa agenda, dra. Jones? E se os dois tiverem qualquer anotao por escrito do ano anterior. S pra me ajudar a colocar as coisas em ordem.
Miranda hesitou, e mais uma vez pensou nos advogados. Mas o orgulho a manteve de p, estendendo a fina agenda de couro para ele. - Bem-vindo a ela. E eu tenho agendas
dos ltimos trs anos guardadas na minha sala no instituto.
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- Eu agradeo. Vou te dar um recibo pelo material. - Guardou a agenda e pegou a sua prpria, onde anotou as informaes e assinou.
Andrew tambm se levantou. - Vou mandar a minha pra voc.
- Isso vai ser uma ajuda enorme.
-  difcil no se sentir insultado com isso, detetive.
Cook levantou as sobrancelhas e olhou para Miranda. - Eu peo desculpas, dra. Jones. S estou tentando fazer o meu trabalho.
- Eu imagino que sim. E, assim que voc colocar a mim e ao meu irmo fora da sua lista de suspeitos, seu trabalho vai ficar mais rpido e mais eficiente.
 por isso que estamos topando esse tipo de tratamento. Vou te levar at a porta.
Cook fez um gesto de assentimento para Andrew e seguiu Miranda at o hall. - No era minha inteno criar constrangimento, dra. Jones.
- Ah, era sim, detetive. - Ela escancarou a porta. - Boa-tarde.
- Boa-tarde. - Um quarto de sculo na polcia no o tornara imune  lngua ferina de uma mulher com raiva. Baixou a cabea e fez uma ligeira careta quando
a porta se fechou com estrondo atrs dele.
- O cara acha que a gente  ladro. - Irritada, ela voltou ao gabinete. Perturbava-a, mas no a surpreendia, ver o irmo servindo-se de um drinque. - Ele
acha que a gente anda viajando pelo pas invadindo museus.
- At que ia ser divertido, no ia?
- O qu?
- S t tentando descontrair o ambiente. - Ele levantou o copo. - De um jeito ou de outro.
- Isso no  um jogo, Andrew, e no me importo de ter a vida esmiuada pelo microscpio da polcia.
- No tem nada alm da verdade pra ele encontrar.
- No  o resultado que me preocupa,  o mtodo. A gente t sendo investigada. A imprensa vai acabar descobrindo alguma coisa.
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- Miranda - ele disse suavemente, acrescentando um sorriso de afeio. - Voc t parecendo assustadoramente com a mame.
- No precisa me insultar.
- Desculpe, voc tem razo.
- Vou fazer um bolo de carne. - Miranda anunciou enquanto se encaminhava para a cozinha.
- Um bolo de carne. - O humor de Andrew mudou drasticamente. - Com batata e cenoura?
- Voc descasca as batatas. Aproveita e me faz companhia, Andrew. - Ela fez o apelo por si mesma, mas tambm era uma tentativa de afast-lo da garrafa. -
No quero ficar sozinha.
- Claro. - Ele baixou o copo. J estava vazio, de qualquer maneira. E passou o brao em volta dos ombros da irm.
A refeio ajudou, tanto quanto prepar-la. ela gos-tava de cozinhar e considerava essa arte uma cincia. A sra. Patch lhe ensinara, feliz pelo interesse da jovem
nas funes da cozinha. O calor daquele cmodo e a companhia da sra. Patch eram o motivo do empenho de Miranda. O resto da casa era bastante frio e cheio de regras.
Mas a sra. Patch dava as ordens ali dentro, nem mesmo Elizabeth ousava se intrometer.
Era mais provvel que nem ligasse, Miranda pensou enquanto se aprontava para dormir. Nunca vira a me preparar uma refeio, e esse simples fato fizera com que achasse
aprender ainda mais atraente.
No seria um espelho de Elizabeth.
O bolo de carne cumprira sua funo, pensava agora. Pedaos de carne e batatas, os biscoitos que fizera, a conversa com Andrew. Talvez ele tivesse tomado mais vinho
que o desejado durante o jantar, mas, pelo menos, no estava sozinho.
Fora quase um momento feliz. Haviam concordado tacitamen-te em no discutir sobre o instituto, nem sobre o problema em
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Florena. Era muito mais relaxante discutir suas diferenas de gosto por msica e livros.
Quase brigaram por causa deles, ela lembrou ao vestir o pijama. Sempre haviam compartilhado pontos de vista, expectativas e pensamentos. Ela duvidava que tivesse
sobrevivido  infncia sem ele. Sempre haviam sido o porto seguro um do outro no mar gelado, desde que se entendia por gente.
Desejava poder fazer mais para equilibr-lo agora e convenc-lo a procurar ajuda. Mas, sempre que tocava no assunto da bebida, ele se fechava. E bebia mais. Tudo
o que podia fazer era assistir, e estar ao seu lado quando ele casse da beira do abismo sobre o qual se debruava com tanto afinco. Depois, faria o possvel para
ajud-lo a catar os pedaos.
Subiu na cama, arrumou os travesseiros de maneira que lhe apoiassem as costas, depois apanhou o livro que costumava ler antes de dormir. Alguns podem dizer que reler
Homero no  particularmente relaxante. Mas funcionava com ela.
Por volta da meia-noite, sua mente estava tomada por batalhas gregas e traies, livre de preocupaes. Marcou a pgina, colocou o livro de lado e apagou a luz.
Em minutos, estava profundamente adormecida.
O suficiente para no ouvir a porta se abrir e fechar novamente. No ouvir o barulho da tranca voltando ao lugar com suavidade nem os passos que atravessavam o quarto
em direo  cama.
Acordou com um puxo, uma mo enluvada na sua boca, a outra apertando sua garganta com firmeza, e uma voz masculina ameaando-a brandamente ao p do ouvido.
- Eu poderia estrangular voc.

PARTE DOIS

O Ladro

Todos os homens gostam de se apropriarem daquilo que pertence a outrem.

ALAIN REN LESAG E

Captulo Onze

Sua mente simplesmente congelou. A faca. Por um momento hediondo, ela poderia jurar ter sentido a ponta de uma lmina na garganta, em lugar do aperto suave das mos
dele, e seu corpo amoleceu de terror.
Sonhando, ela devia estar sonhando. Mas podia sentir cheiro de couro e de homem, sentia a presso na garganta que a forava a buscar avidamente o ar e a mo que
cobria sua boca, bloqueando qualquer som. Conseguia enxergar uma leve silhueta, o formato da cabea, a largura dos ombros.
Tudo isso piscando dentro de sua mente em choque, processado em segundos que lhe pareciam horas.
De novo, no, prometeu-se. Nunca mais.
Numa reao instintiva, cerrou o punho direito, suspendendo-o do colcho num golpe rpido. Ele tambm era gil, ou capaz de ler pensamentos, e moveu-se um segundo
antes de o soco atingi-lo. Sua mo alcanou o bceps dele sem fazer nenhum estrago.
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- Deita e fica quieta - ele sussurrou a ordem e balanou a cabea de modo a convenc-la. - Por mais que eu goste da idia de machucar voc, no vou fazer
isso. Seu irmo t roncando do outro lado da casa,  bem difcil que ele escute seus gritos. Alm do mais, voc no pretende gritar, pretende? - Seus dedos pressionaram
gentilmente a garganta de Miranda, o dedo acariciando-a levemente. - Pode ferir seu orgulho.
Ela balbuciou algo contra a mo enluvada. Ele a removeu, mas manteve a outra na sua garganta. - O que  que voc quer?
- Quero chutar Sua Excelncia daqui at Chicago. Droga, dra. Jones, voc estragou tudo.
- Eu no sei do que  que voc t falando. - Era difcil manter a respirao sob controle, mas ela conseguiu. Isso tambm era orgulho. - Me solta. Eu no
vou gritar.
No o faria, porque Andrew poderia ouvir e vir rugindo at o quarto. E quem quer que a estivesse prendendo  cama provavelmente estava armado.
Bem, ela pensou, dessa vez ela tambm estava. Se conseguisse abrir a gaveta da mesa de cabeceira e pegar o revlver.
Em resposta, ele sentou-se na cama a seu lado, e, ainda a segurando, estendeu o brao para acender o abajur. Ela piscou vrias vezes, protegendo os olhos da luz,
depois o encarou, olhos arregalados, queixo cado.
- Ryan?
- Como  que voc pde cometer um erro to estpido, to pouco profissional?
Ele estava de preto, jeans apertado, botas, gola rul e jaqueta. Seu rosto estava mais lindo que nunca, mas os olhos no eram confortantes nem atraentes como na
sua memria. Eram quentes, impacientes e, sem dvida, perigosos.
- Ryan - conseguiu repetir. - O que  que voc t fazendo aqui?
- Tentando limpar a sujeira que voc fez.
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-Entendi. - Talvez ele tivesse algum tipo de... surto. Era fundamental manter-se calma, lembrou a si mesma, sem alarm-lo. Lentamente, levou a mo ao pulso dele
e afastou a mo de sua garganta. Sentou-se instintivamente e, com decoro, fechou a gola do pijama.
-Ryan. - Conseguiu at esboar o que imaginou ser um sorriso.
- Voc t no meu quarto no meio da noite. Como  que voc
entrou?
- Do mesmo jeito que entro nas casas que no so minhas. Arrombei suas fechaduras. Voc realmente precisa providenciar coisa melhor.
- Voc arrombou as fechaduras. - Ela piscou, piscou novamente. Definitivamente ele no parecia um homem em meio a uma crise mental, mas algum que mal conseguia
controlar o prprio humor. - Voc invadiu a minha casa? - E a frase fazia uma idia ridcula brotar em sua cabea. - Voc invadiu - ela repetiu.
- Exatamente. - Ele mexia no cabelo dela, cado sobre os ombros. Era absolutamente louco pelo cabelo dela. -  isso que eu fao.
- Mas voc  um empresrio, um patrono das artes. Voc... por qu? Voc no  Ryan Boldari, ?
- Com certeza eu sou. - Pela primeira vez aquele sorriso terrvel apareceu, alcanou-lhe os olhos, trazendo-lhes um brilho dourado e divertido. - E tenho
sido desde que minha santa me me deu esse nome, trinta e dois anos atrs, no Brooklyn. E, at minha associao com voc, esse nome queria dizer alguma coisa. -
O sorriso se desfez, transformando-se numa espcie de rosnado. - Confiabilidade, perfeio. A porcaria do bronze era falso.
- O bronze? - O sangue simplesmente sumiu do rosto de Miranda. Ela sentiu quando ele se esvaiu, gota a gota. - Como  que voc sabe?
- Eu sei porque fui eu que roubei aquela porcaria que no vale merda nenhuma. - Ele inclinou a cabea. - Ou talvez voc esteja
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pensando no bronze de Florena, o outro que voc tambm acho que era bom. Soube disso ontem, quando meu cliente me escorraou porque entreguei uma falsificao.
Uma falsificao, pelo amor de Deus!
Excitado demais para ficar sentado, ele deu um salto da cama e comeou a andar pelo quarto. - Vinte anos sem uma mancha, e agora isso. E tudo porque eu confiei em
voc.
- Confiou em mim. - Ela ficou de joelhos, os dentes cerrados. No havia espao para o medo ou a ansiedade quando a raiva percorria com tanta fora e rapidez
sua corrente sangnea. - Voc me roubou, seu filho da me!
- E da? O que eu peguei deve valer umas cem pratas como peso de papel. - Ele se aproximou novamente e parou, perturbado por achar aquele brilho ardente nos
olhos dela e a cor da raiva na face bastante atraentes. - Quantas outras peas voc anda passando por verdadeiras naquele seu museu?
Ela no pensou, agiu. Saiu da cama como uma bala, lanando-se sobre ele. Com seu tamanho, ela no era nenhum peso-pena, e Ryan recebeu o impacto total de seu corpo
bem-torneado embalado em temperamento explosivo. Foi sua afeio inata s mulheres que fez com que ele se movesse e aparasse a queda dela - um gesto instantneo
do qual se arrependeu assim que atingiram o cho. Para proteger os dois, rolou por cima dela, mantendo-a presa sob seu corpo.
- Voc me roubou. - Ela se debateu, mas ele no se moveu nem um milmetro. - Voc me usou. Seu filho da me, voc deu em cima de mim. - Ah, isso era o pior.
Ele flertara, romanceara, e ela estivera  beira de ceder  tentao.
- A ltima parte foi efeito colateral, um benefcio  parte. - Ele apertou os pulsos dela para impedi-la de dar um murro em seu rosto. - Voc  muito atraente.
No foi problema algum.
- Voc  um ladro. Nada alm de um ladro ordinrio.
- Se voc acha que me insulta com isso, errou. Sou um timo ladro. Agora, a gente pode sentar e resolver isso, ou pode continuar
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lutando aqui. Mas eu vou te dizer que, mesmo usando esse pijama inacreditavelmente horrvel, voc  um pedao de mau caminho. Voc decide, Miranda.
Ela ficou quieta, observando-o com admirao relutante enquanto seus olhos iam do fogo ao gelo. - Sai de cima de mim. Sai de cima de mim.
- Tudo bem. - Ele a soltou e levantou-se rapidamente. Apesar de oferecer-lhe a mo, ela a rejeitou com um safano e ficou de p.
- Se voc tiver machucado o Andrew...
- Por que eu machucaria o Andrew? Foi voc quem documentou o bronze.
- E voc foi quem roubou. - Ela pegou o robe ao p da cama.
- E o que  que voc vai fazer agora? Atirar em mim, depois limpar a casa?
- Eu no atiro em ningum. Sou ladro, no sou bandido.
- Ento voc  um idiota completo. O que voc acha que eu vou fazer assim que voc for embora? - disse por sobre o ombro enquanto vestia o robe. - Vou pegar
o telefone, ligar pro detetive Cook e dizer que foi voc quem invadiu o instituto.
Ele enfiou os dedos no bolso da cala jeans. O robe, concluiu, era to pouco atraente quanto o pijama. No havia razo alguma para que ele bloqueasse a necessidade
de abrir caminho por entre toda aquela flanela.
- Se voc chamar a polcia, vai fazer papel de boba. Primeiro, porque ningum vai acreditar. Eu nem t aqui, Miranda. Eu estou em Nova York. - Seu sorriso
se alargou, arrogante e seguro. - E tem muita gente que vai ficar mais do que feliz de jurar que isso  verdade.
- Bando de criminosos.
- Isso no  maneira de tratar a minha famlia e os meus amigos. Principalmente se voc no conhece nenhum deles. Segundo
- ele continuou, enquanto ela cerrava os dentes -, voc ia ter que
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explicar pra polcia por que uma pea que no vale nada tem seguro de seis dgitos.
- Voc t mentindo. Eu autentiquei essa pea.  do sculo dezesseis.
- , e o bronze Fiesole  do Michelangelo. - Ele sorriu com sarcasmo. - Isso calou voc. Agora senta, e eu te digo como  que a gente vai coordenar isso.
- Eu quero que voc saia daqui. - Ela ergueu o queixo.
- Quero voc fora da minha casa imediatamente.
- Se no, voc vai fazer o qu?
Foi um impulso, um impulso selvagem, mas pela primeira vez ela seguia um instinto primitivo. Mergulhou, abriu a gaveta e pegou a arma. Ele agarrou seu punho, agarrou
o revlver. Com a outra mo, ele a empurrou novamente sobre a cama.
Ele era mais forte do que ela previra. E mais rpido. - Isso no teria sido um acidente.
- Voc podia ter se machucado - ele resmungou, removendo cuidadosamente a munio. Guardou-a e jogou a arma de volta na gaveta. -Agora...
Ela tentou se levantar, e ele levou a mo ao seu rosto, empurrando-a para trs.
- Senta. Fica quieta. Ouve. Voc me deve, Miranda.
- Eu... - Ela quase engasgou. - Eu devo!
- Eu tinha uma ficha limpa. Toda vez que eu pegava um trabalho, a satisfao do cliente era garantida. E esse era meu ltimo, caramba. No acredito que na
reta final uma cabea ruiva v estragar minha reputao. Tive que dar uma pea da minha coleo particular pro meu cliente, alm de devolver o dinheiro pra manter
o nosso contrato.
- Ficha? Cliente? Contrato? - Ela no resistiu e sacudiu a cabea enquanto gritava. - Voc  um ladro, pelo amor de Deus, no um negociante.
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- No vou discutir semntica com voc - ele disse calmamente como um homem no comando, totalmente controlado. - Eu quero a Vnus do Donatello.
- Como ? Voc quer o qu?
- A Vnus pequenininha que estava na vitrine, junto com o
seu Davi falso. Eu podia voltar l e pegar, mas isso no ia ser justo. Quero que voc pegue a estatueta, d pra mim, e, se for autntica, fica tudo certo.
No havia fora de vontade capaz de impedir seu espanto.
- Voc enlouqueceu.
- Se voc no fizer isso, vou dar um jeito de colocar o Davi no mercado de novo. Quando a companhia de seguros recuperar a pea, e test-la, como  rotina,
sua incompetncia vai ser descoberta. - Ele inclinou a cabea e percebeu as sobrancelhas dela se curvarem, enquanto ela acompanhava perfeitamente suas palavras.
- Isso, depois do desastre recente em Florena, deixaria uma marca bem pouco interessante na sua carreira, dra. Jones. Eu preferia poupar voc desse constrangimento,
apesar de no saber por qu.
- Eu no quero nenhum favor seu. Voc no vai me chantagear pra eu te dar o Donatello, nem nenhuma outra coisa. O bronze no  falso, e voc vai pra cadeia.
- Voc simplesmente no consegue admitir que errou, no ?
Voc tinha tanta certeza, no tinha? Parece que voc estava errada.
Como vai explicar isso? Estremeceu, antes que pudesse se controlar.
Quando eu cometer um erro, eu vou admitir.
- Como voc fez em Florena? - ele contra-atacou, e viu os olhos dela revirarem. -As notcias daquela tolice esto se espalhando no mundo da arte. As opinies
entre se voc falsificou os testes
se  incompetente esto divididas. Meio a meio.
- No me importa quais so as opinies. - Mas a frase saiu fraca e ela comeou a esfregar os braos, buscando algum calor.
- Se eu ouvisse isso alguns dias antes, no me arriscara a roubar uma pea autenticada por voc.
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- Eu no posso ter cometido um erro. - Ela fechou os olhos porque, de repente, essa idia era pior, muito pior do que saber que ele a usara para roubar.
- No esse tipo de erro.  impossvel.
O desespero na voz dela fez com que ele enfiasse as mos nos bolsos. Ela parecia repentinamente frgil, insuportavelmente desgastada.
- Todo mundo erra, Miranda. Faz parte da condio humana.
- No no meu trabalho. - Lgrimas estavam presas em sua garganta quando ela abriu os olhos para encar-lo. - Eu no cometo erros no meu trabalho. Sou muito
cuidadosa. No tiro concluses precipitadas. Sigo o procedimento. Eu... - A voz embargada, seu peito comeou a tremer. Ela pressionou as mos cruzadas contra os
seios, tentando controlar as lgrimas quentes que se avolumavam como ondas.
- Tudo bem, no precisa exagerar. Sem sentimentalismos.
- Eu no vou chorar. No vou chorar. - Repetiu a frase vrias vezes, como um mantra.
- Mas a boa notcia, Miranda,  que a gente t falando de negcios. - Aqueles grandes olhos azuis estavam brilhantes e molhados. E atrapalhavam a concentrao.
- Vamos manter essa histria nesse nvel e vai ser melhor pra ns dois.
- Negcios. - Ela esfregou a boca com as costas da mo, aliviada; o absurdo dito congelara suas lgrimas. - Tudo bem, sr. Boldari. Negcios. Voc diz que
o bronze  falso. Eu digo que no. Voc diz que eu no vou me reportar  polcia. Eu digo que vou. O que voc pretende fazer com isso?
Ele a observou por uns instantes. No seu campo de trabalho - no campo de ambos - era preciso ser rpido e acurado no julgamento das pessoas. Era fcil ver que ela
defenderia seus testes, e que chamaria a polcia. A segunda parte no o preocupava muito, mas causaria algum inconveniente.
- Tudo bem, troca essa roupa.
- Por qu?
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-  A gente vai pro laboratrio, voc pode testar o bronze de
novo, na minha frente, satisfazer uma parte do trato.
- So duas da manh.
- Ento, ningum vai interromper a gente. Veste alguma coisa,
a no ser que voc prefira ir de pijama.
- Eu no posso testar uma coisa que eu no tenho.
- Eu tenho. - Ele fez um gesto em direo  bolsa de couro que deixara ao lado da porta. - Trouxe comigo, pensando em enfiar na sua goela. Mas prevaleceu
a razo. Veste alguma coisa quente - ele sugeriu, e sentou-se confortavelmente na poltrona. - A temperatura caiu.
- No vou levar voc pra dentro do instituto.
- Voc  uma mulher prtica. Seja prtica. Eu tenho o bronze e a sua reputao nas minhas mos. Voc quer uma chance de ter o primeiro de volta e salvar a
segunda. Estou te dando essa chance. - Ele esperou um pouco, para que ela digerisse isso. - Vou te dar tempo pra testar a esttua, mas vou ficar do seu lado, respirando
no seu cangote. Esse  o acordo, dra. Jones. Melhor voc ser esperta e aceitar a minha proposta.
Precisava saber a verdade, no precisava? Ter certeza. E quando a tivesse, ela o entregaria  polcia antes que ele pudesse piscar aqueles olhos bonitos.
Podia lidar com ele, concluiu. O fato era que seu orgulho demandava que aceitasse a oportunidade de fazer aquilo. - No vou mudar de roupa na sua frente.
- Dra. Jones, se eu estivesse com sexo na cabea, j teria administrado isso quando a gente estava no cho. Negcios - ele repetiu. - E voc no vai sair
do meu campo de viso at a gente concluir isso.
- Eu realmente te odeio. - Ela falou com tanta averso que ele no viu motivo para duvidar de suas palavras. Mas sorriu para si mesmo quando ela se trancou
no closet e ouviu o chacoalhar de cabides.
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ElA ERA UMA CIENTISTA, UMA MULHER EDUCADA, DE FORMAo impecvel e reputao exemplar. Tinha artigos publicados em dezenas de revistas e jornais de arte e cincia.
A Newsweek havia feito uma matria sobre ela. Dera palestras em Harvard e passara trs meses como professora convidada em Oxford.
No era possvel que estivesse dirigindo pelo Maine gelado ao lado de um ladro, com a inteno de invadir seu prprio laboratrio para conduzir testes clandestinos
em um bronze falso.
Pisou no freio e desviou o carro para o acostamento. - No posso fazer isso.  ridculo, sem falar que  ilegal. Vou ligar pra polcia.
- Tudo bem. - Ryan deu de ombros quando ela esticou o brao para alcanar o telefone do carro. - Faz isso, corao. E explica pra eles o que voc anda fazendo
com uma porcaria de metal que no vale nada, tentando fazer passar por obra de arte. Depois voc explica pra seguradora... o dinheiro j foi pedido, no foi?...
como  que voc espera que eles paguem quinhentos mil por uma falsificao. Uma que voc mesma autenticou.
- No  uma falsificao - ela disse entre os dentes, mas no discou 911.
- Prova isso. - Seu sorriso iluminou a noite. - Pra mim, dra. Jones, e pra voc. Se fizer isso... a gente negocia.
- Negocia  o escambau! Voc vai pra cadeia - ela disse e se revirou no assento para que ficassem cara a cara. - Vou providenciar isso.
- Primeiro, o mais importante. - Divertido, ele apertou amigavelmente o queixo dela. - Liga pra segurana. Avisa que voc e seu irmo esto chegando pra trabalhar
no laboratrio.
- No vou envolver o Andrew.
- Andrew j est envolvido. Basta fazer a ligao. Pode escolher a desculpa que quiser. Voc no conseguiu dormir e decidiu trabalhar
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um pouco enquanto o ambiente t calmo. Anda, Miranda. Voc quer saber a verdade, no quer?
- Eu sei a verdade. Voc  que no saberia nem se ela pulasse em cima de voc e te mordesse.
- Voc perde um pouco da classe quando fica assim, nervosa.
- Ele inclinou o corpo  frente e deu um beijo de leve antes que ela
o empurrasse de volta. - Eu gosto.
- Tira a mo de cima de mim.
- No era a minha mo. - Ele a segurou pelos ombros, fez um carinho. - Essa  a minha mo. Liga.
Ela o enxotou com o cotovelo e pressionou os nmeros. As cmeras estariam ligadas, pensou. Ele nunca passaria por Andrew, portanto estariam liquidados antes de comear.
O chefe da segurana, se tivesse algum senso, ligaria para a polcia. Tudo o que precisaria fazer era contar sua histria, e Ryan Boldari seria algemado e encarcerado
pelo resto da vida.
- Aqui  a dra. Miranda Jones - disse rispidamente, e ele deu um tapinha de aprovao no joelho dela. - Eu e meu irmo estamos a caminho da. Isso, pra trabalhar.
Com toda essa confuso dos ltimos dias, fiquei com trabalho atrasado no laboratrio. A gente deve estar a em dez minutos. Vou entrar pela porta principal. Obrigada.
Ela desligou, fungou. Pegara-o agora, concluiu, e ele mesmo lhe entregara os meios. - Eles esto me esperando e vo desligar o alarme quando eu chegar.
- timo. - Ele esticou as pernas quando ela voltou para a pista. - Eu estou fazendo isso por voc.
- No tenho como te agradecer.
- No precisa. - Fez um ligeiro gesto de recusa enquanto ela rosnava. - Juro. Apesar de tudo que voc me causou, eu gosto de voc.
- Nossa, estou tendo palpitaes.
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- Viu? Voc tem estilo, sem falar nessa boca implorando pra ser saboreada durante horas no escuro. Eu realmente me arrependi de no ter tido mais tempo com
essa sua boca.
As mos dela apertaram o volante. Sua respirao descompassada representava pura raiva. No permitiria que fosse outra coisa.
- Voc vai ter mais tempo, Ryan - disse docemente. - Essa minha boca vai te mastigar e cuspir antes de acabar.
- Vou ficar esperando ansiosamente. Aqui  um lugar legal. - Comentou mantendo a conversa enquanto ela seguia a orla em direo  cidade. - Varrido pelo vento,
dramtico, mas com cultura e civilizao  mo. Perfeito pra voc. A casa  um bem de famlia, imagino.
Ela no respondeu. Por mais absurdas que fossem suas atitudes, no manteria um bate-papo com ele.
-  invejvel - ele continuou, sem ofender-se. - A herana, e o dinheiro,  claro. Mas, acima dos privilgios,  o nome, sabe? Os Jones do Maine. Cheira a
classe.
- O que no  o caso dos Boldari do Brooklyn - ela sussurrou, mas isso s o fez rir.
- Ah, a gente cheira a outras coisas. Voc ia gostar da minha famlia.  impossvel no gostar. E eu me pergunto: o que eles pensariam de voc, dra. Jones?
- Talvez a gente se conhea no seu julgamento.
- Ainda determinada a me entregar pra justia. - Apreciou o perfil de Miranda, quase tanto como as sombras das rochas desgastadas, o vislumbre do mar escuro.
- Estou nesse jogo h vinte anos, darling. No tenho nenhuma inteno de dar um passo em falso na hora de me aposentar.
- Uma vez ladro, sempre ladro.
- Ah, de corao, concordo com voc. Mas na vida real... - Ele suspirou. - Assim que eu limpar minha ficha, acabou. Se voc no tivesse estragado as coisas,
eu estaria tirando frias merecidas em St. Bart agora.
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- Que trgico pra voc!
- . - Ele moveu os ombros novamente. - Mas eu ainda posso salvar alguns dias. - Destravou o cinto de segurana e virou-se para pegar a bolsa que jogara no
banco de trs.
- O que  que voc t fazendo?
- Quase l. - Ele assoviou ligeiramente e pegou um gorro de esqui, puxando-o sobre a cabea at esconder o cabelo. Depois foi a vez de uma echarpe de casimira
com a qual envolveu o pescoo, cobrindo a parte inferior do rosto.
- Voc pode tentar alertar os guardas. - Ele comeou a dizer, baixando o espelhinho para ver o resultado de sua vaidade. - Mas se fizer isso, no vai ver
o bronze, nem a mim, outra vez. Joga limpo, entra, vai pro laboratrio normalmente e fica tudo bem. O Andrew  um pouco mais alto que eu - considerou enquanto desdobrava
um casaco comprido e escuro. - Mas no tem importncia. Eles vo ver o que querem ver. As pessoas sempre fazem isso.
Quando ela entrou no estacionamento, teve que admitir que ele estava certo. Era to annimo dentro daquela vestimenta de frio que ningum olharia duas vezes para
ele. E mais: quando saltaram do carro e se dirigiram  entrada principal, deu-se conta de que ela mesma poderia t-lo confundido com Andrew.
A linguagem corporal, o jeito de andar, os ombros ligeiramente encurvados do irmo, tudo perfeito.
Ela passou o carto na fenda, com irritao. Depois de uma pausa, entrou com o cdigo. Imaginou-se fazendo caretas para os guardas. Em vez disso, batia levemente
com o carto na palma da mo e esperava o zumbido do destravamento do porto.
Ryan abriu as portas, apoiando uma das mos amigvel, no ombro dela. Manteve a cabea baixa, sussurrando em seu ouvido enquanto entravam: - Sem rodeios, dra. Jones.
Voc realmente no vai gostar do incmodo nem da publicidade.
- O que eu quero  o bronze.
- Voc j vai ter. Pelo menos temporariamente.
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Ele manteve a mo no ombro dela, guiando-a atravs dos corredores, das escadas, at chegarem ao laboratrio. Novamente, ela liberou a entrada dos dois. - Voc no
vai sair daqui com uma coisa que me pertence.
Ele acendeu as luzes. - Voc deve se preocupar com os seus testes - ele sugeriu, tirando o casaco. - Voc t perdendo tempo. - Manteve as luvas para pegar o bronze
e entreg-lo a ela. - Eu sei alguma coisa sobre autenticao, dra. Jones, e vou ficar te observando de perto.
E este, ele disse a si mesmo, era um dos maiores riscos de sua carreira. Ir at l com ela. Trancara-se, e estaria perdido se conseguisse racionalizar o motivo.
Ah, voltar era uma loucura, pensou enquanto observava Miranda pegar os culos de armao de metal dentro da gaveta e coloc-los no rosto.
Estava certo quanto quilo, divertiu-se. A acadmica sexy. Afastou esse pensamento e sentou-se confortavelmente enquanto ela levava o bronze at a cabine para uma
extrao.
Sua reputao, seu orgulho - o que era a mesma coisa - estavam em jogo.
O trabalho, que deveria ter um resultado tranqilo, limpo e sem surpresas na sua carreira, acabara por lhe causar uma enormidade de problemas, custara caro e fizera
com que perdesse prestgio.
Mas sua inteno era confront-la, amea-la, chantage-la para que cobrisse suas perdas, e ir embora.
No resistira  tentao de ser mais inteligente que ela. No tinha dvidas de que pretendia fazer os testes em favor prprio, de que tentaria convenc-lo de que
o bronze era genuno. E se o fizesse, ia lhe custar caro.
Pensou que o Cellini seria um pagamento justo pela sua permissividade. O instituto, concluiu enfiando as mos nos bolsos enquanto a via trabalhar, estava prestes
a fazer uma generosa doao  Galeria Boldari.
Isso a mataria de raiva.
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Miranda franziu as sobrancelhas ao se afastar do microscpio. Havia um embrulho em seu estmago que nada tinha a ver com raiva ou irritao. No disse nada, mas
fez anotaes com a mo firme.
Retirou outras amostras do bronze, tanto da ptina quanto do metal, e colocou-as numa lmina para examin-las. Seu rosto estava plido e rijo quando depositou o
bronze na balana, fazendo anotaes adicionais.
- Eu preciso fazer os testes de corroso, preciso levar as radiografias pra rea das ferramentas.
- Tudo bem, vamos l. - Ele atravessou o laboratrio com ela, imaginando onde exporia o Cellini. A pequena Vnus dada por ela ficaria em sua coleo particular,
mas o Cellini ficaria na galeria, para o pblico, e daria um ar de prestgio aos negcios.
Tirou um charuto fino do bolso, procurou o isqueiro.
- No pode fumar aqui.
Ele simplesmente colocou o charuto entre os dentes e acendeu-o.
- Chama a polcia - sugeriu. - Que tal um caf?
- Me deixa em paz. Cala a boca.
O embrulho no estmago de Miranda estava mais forte agora e espalhava-se como uma bactria com o passar dos minutos. Ela seguiu o procedimento ao p da letra. Mas
j sabia a resposta.
Aqueceu a argila, rezando pelo lampejo dos cristais. E precisou morder o lbio para segurar um gemido. No daria a ele esse prazer.
Mas, quando levantou a radiografia contra a luz e viu sua intuio confirmada, seus dedos ficaram gelados.
- E? - Ele levantou uma sobrancelha, esperando pela confirmao.
- O bronze  uma falsificao. - Como suas pernas fraquejassem, ela se sentou num banco e perdeu a surpresa nos olhos dele. - A frmula, pelo que posso dizer
com os testes preliminares, t certa. Mas a ptina foi aplicada recentemente, e os nveis de corroso so inconsistentes em relao aos de um bronze do sculo dezesseis.
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As ferramentas esto erradas.  bem-feito - continuou, uma das mos inconscientemente pressionando com fora o estmago revirado. - Mas no  autntico.
- Bem, dra. Jones - ele murmurou -, voc me surpreendeu.
- No  o bronze que eu autentiquei h trs anos.
Ele meteu os dedos nos bolsos e girou sobre os calcanhares.
- Voc fez uma besteira, Miranda. Vai ter que encarar isso.
- No  o bronze - ela repetiu, e sua espinha perfilou-se quando ela se levantou rapidamente do banco. - No sei o que voc pensou que podia provar me trazendo
essa falsificao, fazendo a gente passar por essa charada ridcula.
- Esse  o bronze que eu roubei da Galeria Sul - ele disse calmamente - e que peguei confiando na sua reputao, doutora. Ento, chega de palhaada e vamos
acertar os nossos ponteiros.
- Eu no vou negociar com voc. - Ela pegou a estatueta e jogou em cima dele. - Voc acha que pode invadir a minha casa, tentar fazer essa porcaria passar
por propriedade minha pra eu te dar alguma coisa em troca? Voc  louco.
- Eu roubei esse bronze na boa-f.
- Ai, pelo amor de Deus! Eu vou chamar a segurana.
Ele a agarrou pelo brao, empurrou-a contra a bancada. - Olha s, corao, eu entrei nesse joguinho contra minha prpria vontade. Agora t feito. Talvez voc realmente
no fosse tentar passar o bronze adiante. Talvez tenha sido um erro honesto...
- Eu no cometi nenhum erro. Eu no cometo erros.
- O nome Fiesole no te lembra nada, no?
O surto de raiva morreu no rosto dela. Os olhos perderam o foco, ficaram vidrados. Por um momento, ele pensou que ela fosse escapar de suas mos como gua. Se estivesse
fingindo, ele a subestimara.
- Eu no cometi um erro - ela repetiu, mas agora sua voz tremia. - Eu posso provar. Tenho os registros, as minhas anotaes, as radiografias e os resultados
dos testes do bronze original.
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A vulnerabilidade o golpeou, com fora suficiente para que ele a soltasse quando ela se virou. Ele balanou a cabea e a seguiu at uma sala repleta de arquivos.
- O peso tava errado - ela disse rapidamente enquanto se
atrapalhava com a chave da gaveta. - A amostra que eu tirei no  aviltante, mas o peso... eu sabia que tava errado desde a hora em que segurei a esttua... Onde
 que eu enfiei esse arquivo?
- Miranda...?
- Era muito pesado, um pouco pesado demais, e a tinta at chega perto, mas no t certa. Simplesmente no t certa. Mesmo que eu deixasse isso escapar, no
erraria nos nveis de corroso. A gente no erra essas coisas.
Balbuciando, ela fechou a gaveta, destrancou outra, depois outra.
- No est aqui. Os arquivos no esto aqui. Sumiram. - Lutando por calma, ela fechou a gaveta. - As fotos, as anotaes, os relatrios, tudo sobre o bronze
do Davi desapareceu. Voc pegou tudo.
- Pra que eu faria isso? - ele perguntou, com uma pacincia de santo, na sua opinio. - Olha s, se eu pude entrar aqui e pegar uma falsificao, poderia
ter pego qualquer coisa que quisesse. Qual seria a funo de passar por isso, Miranda?
- Eu preciso pensar. Fica quieto. Eu preciso pensar. - Ela pressionou a boca com a mo e andou de um lado para outro. Lgica, seja lgica, ordenava-se. Lide
com os fatos.
Ele roubara o bronze e ele era falso. Qual o sentido em roubar uma falsificao, depois traz-la de volta? Nenhum. Se fosse verdadeiro, por que ele estaria ali?
No estaria. Portanto, a histria que ele lhe contara, por mais absurda que fosse, era verdadeira.
Ela testara a pea e concordara com as concluses dele.
Teria ela cometido um erro? Deus, ela teria cometido um erro?
No. Lgica, nada de emoo, lembrou a si mesma. Obrigou-se a parar o movimento errtico e a ficar absolutamente imvel.
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A lgica, quando apropriadamente aplicada, era incrivelmente simples.
- Algum te enganou - disse baixinho. - Algum te enganou, fez voc roubar o bronze e o substituiu por uma falsificao.
Voltou-se para ele, vendo pelo olhar em seu rosto que ele tambm estava chegando  mesma concluso.
- Bem, dra. Jones, parece que ns dois levamos um p na bunda. - Inclinou a cabea para observ-la. - O que  que a gente vai fazer quanto a isso?
Captulo Doze
Miranda resolveu aceitar que aquele era um dia para comportamentos fora do normal, ao ver-se sentada num posto de gasolina da Rota 1 s seis da manh.
A garonete trouxe uma jarra de caf, duas canecas marrons e dois cardpios laminados.
- O que  que a gente t fazendo aqui?
Ryan serviu o caf, cheirou, deu um gole, depois disse: - Isso sim  um caf.
- Boldari, o que  que a gente t fazendo aqui?
- Tomando caf - ele respondeu e avaliou o cardpio.
Ela respirou fundo. - So seis horas da manh. Eu tive uma noite difcil e t cansada. Preciso pensar seriamente em vrias coisas e no tenho tempo de ficar sentada
num bar de posto de gasolina trocando frases inteligentes com um ladro.
- At agora, voc no foi nem um pouco esperta. Mas, como voc disse, a noite foi difcil. Vai esbarrar com algum conhecido aqui?
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- Claro que no.
- Exatamente. A gente precisa comer, e precisa conversar. - Colocou o cardpio na mesa e sorriu para a garonete quando ela se aproximou, com o bloquinho
na mo. - Quero meia poro de panquecas, ovos mexidos e uma poro de bacon, por favor.
- Deixa comigo, chefe. E voc, amor?
- Eu... - Resignada, Miranda apertou os olhos diante do cardpio, em busca de algo que no fosse letal. - S um mingau de aveia. Tem como fazer com leite
desnatado?
- Vou ver o que d pra fazer e te falo num segundo.
- Ok, vamos mapear a situao - Ryan continuou. - H trs anos voc adquiriu uma estatueta de bronze de Davi. Minha pesquisa indica que isso veio atravs
do seu pai, de uma escavao particular em Roma.
- Sua pesquisa t correta. A maioria dos achados foi doada pro Museu Nacional de Roma. Ele trouxe o Davi pro instituto. Pra ser estudado, autenticado e exposto.
- E foi voc quem fez os estudos e a autenticao?
- Isso.
- Quem trabalhou com voc?
- Sem as minhas anotaes eu no vou conseguir ter certeza.
- Tenta lembrar.
- Foi h trs anos. - Como estava confusa, experimentou o caf. A imagem voltou como um relmpago. - Andrew, claro - comeou a dizer. - Ele era f daquela
pea. Tinha uma atrao por ela. Acho que ele deve ter feito uns desenhos dela. Meu pai entrava e saa do laboratrio, acompanhando o progresso dos testes. Ficou
feliz com os resultados. John Carter - acrescentou, sentindo uma ligeira pontada de dor na testa. - Ele  o chefe do laboratrio.
- Ento teve acesso ao bronze. Quem mais?
- Quase todo mundo que trabalhava no laboratrio naquela poca. No era um projeto prioritrio.
- Quantas pessoas trabalhavam no laboratrio?
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- Qualquer coisa entre doze e quinze, depende.
- Todas elas tinham acesso aos arquivos?
- No. - Ela fez uma pausa enquanto o caf da manh era servido. - Nem todos os assistentes e tcnicos tinham as chaves.
- Pode acreditar em mim, Miranda. As pessoas se preocupam demais com chaves. - Ele deu aquele sorriso novamente enquanto completava a xcara de caf. - Vamos
imaginar que qualquer um trabalhando no laboratrio tivesse acesso aos arquivos. Voc precisa conseguir uma lista de nomes do pessoal.
- Precisa mesmo disso?
- Voc quer encontrar o bronze?  um espao de trs anos. - Ele explicou: - Do momento em que voc autenticou a estatueta at eu te entregar a falsa. Quem
trocou as duas teve acesso ao original, pra poder fazer a cpia. A maneira mais inteligente e simples seria fazer um molde de silicone, uma reproduo em cera.
- Acho que voc entende de falsificaes - ela disse, enquanto sentia o cheiro do mingau.
- S o que um homem da minha rea, das minhas reas, precisa saber. A pessoa tem que ter o original pra fazer o molde - ele continuou, sem sentir-se ofendido,
e ela se perguntou por que se dera ao trabalho de atac-lo. - A forma mais eficiente de fazer isso seria enquanto o bronze ainda estava no laboratrio. Depois que
a pea foi pra exposio, a pessoa teria que driblar a segurana, e a sua  muito boa.
- Muito obrigada. Isso no  leite desnatado - ela reclamou, franzindo o cenho diante da vasilha na qual a garonete trouxera o mingau de aveia.
- Viva o perigo. - Ele salpicou os ovos mexidos com sal. -  assim que eu vejo essa histria: algum que trabalhava no laboratrio naquela poca viu o que
os seus testes estavam indicando. Uma pea boa, que um colecionador compraria pagando um preo justo. Ento, talvez essa pessoa seja algum endividado ou com raiva
da sua famlia, ou talvez simplesmente algum tentando um golpe de
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sorte. No  um processo complicado, e o cara j t dentro do laboratrio. Nada mais fcil. Se ele no sabe como fazer o molde, com certeza conhece algum que sabe.
E mais, ele tambm sabe como fazer o bronze parecer muito antigo, pelo menos superficialmente. Quando a cpia fica pronta, ele troca as peas, provavelmente antes
que ela seja colocada em exposio. Ningum desconfia de nada.
- Isso no poderia ser feito de impulso. Precisaria de tempo, de planejamento.
- Eu no disse que foi feito de impulso. Mas tambm no precisaria de tanto tempo assim. Quanto tempo o bronze ficou no laboratrio?
- No tenho certeza. Duas semanas, talvez trs.
- Mais que suficiente. - Ryan gesticulou com uma fatia de bacon antes de mord-la. - Se eu fosse voc, faria testes em outras peas.
- Outras? - Ela no sabia por que isso no lhe ocorrera antes de se dar conta da possibilidade, naquele momento. - Meu Deus!
- Ele fez uma vez, e bem o suficiente pra no ser descoberto. Por que no fazer de novo? No fica com essa cara to devastada, darling. Eu vou te ajudar.
- Me ajudar? - Ela pressionou os dedos nos olhos que agora ardiam. - Por qu?
- Porque eu quero aquele bronze. Afinal, garanti isso ao meu cliente.
Ela deixou as mos penderem. - Voc vai me ajudar a pegar o bronze de volta pra poder roubar de novo?
- Eu tenho interesse pessoal nisso. Termina seu caf. A gente tem muito trabalho pela frente. - Ele pegou sua xcara e sorriu para ela. - Parceira.
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Parceira. a palavra fez miranda tremer. talvez esti-vesse muito cansada para pensar com clareza, mas na hora no conseguiu enxergar uma forma de recuperar a pea
sem ele.
Ele a usara, pensou ao destrancar a porta da frente de casa. Agora, ela o usaria. Depois, providenciaria para que passasse os prximos vinte anos tomando banho grupai
numa instituio federal.
- Voc t esperando algum, hoje? A empregada, o cara da tev a cabo, algum operrio?
- No. A companhia de limpeza vem s teras e sextas.
- Companhia de limpeza. - Ele tirou a jaqueta. - No se come comida caseira nem se ganha conselhos sbios de uma companhia de limpeza. Voc precisa de uma
empregada chamada Mabel, que use avental branco e sapatos que no fazem barulho.
- A companhia de limpeza  eficiente e no  invasiva.
- Que pena. O Andrew j deve ter sado pro trabalho. - Viu no relgio que eram oito e quinze. - A que horas a sua assistente chega?
- A Lori chega s nove, normalmente um pouquinho antes.
- Voc precisa ligar pra ela. Tem o telefone de casa?
- Tenho, mas...
- Liga pra ela, diz que voc no vai trabalhar hoje.
- Claro que eu vou. Tenho reunies.
- Ela cancela. - Ele foi at o gabinete e,  vontade, comeou a preparar a lareira. - Pede pra ela as cpias de registro do pessoal do laboratrio de trs
anos atrs.  o melhor lugar pra comear. Fala pra ela mandar pro seu computador de casa.
Ele acendeu a fagulha e em segundos a madeira na lareira comeou a estalar. Ela no disse nada, enquanto ele escolhia dois pedaos de madeira na caixa onde ficavam
guardados e os colocava para arder na lareira com a eficincia de um escoteiro.
Quando ele ficou de p e virou-se, o sorriso de Miranda era ina-mistoso como uma faca desembainhada. - Mais alguma coisa que eu possa fazer?
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- Docinho, voc vai precisar aprender a receber ordens com um pouco mais de animao. Algum tem que assumir o comando, entende?
- E voc t no comando?
- Isso. - Ele foi at ela, pegou-a pelos ombros. - Sei muito mais sobre roubo do que voc.
-A maioria das pessoas no consideraria isso uma qualidade de liderana.
- A maioria das pessoas no est tentando capturar um ladro.
- O olhar dele baixou, fixou-se na boca de Miranda.
- Nem pensa nisso.
- Eu nunca censuro meus pensamentos. D lcera. A gente podia aproveitar muito mais a nossa... associao, se voc fosse um pouco mais amigvel.
- Amigvel?
- Mais flexvel. - Ele a puxou para mais perto. - Em certas reas.
Ela deixou que seu corpo encostasse ligeiramente no dele, permitiu que as pestanas flutuassem. - Tipo?
- Bem, pra comear... - Ele baixou a cabea, respirou o perfume dela, antecipando-lhe o gosto. E sua respirao ficou ofegante ao tempo que ela lhe deu um
soco no estmago.
- Eu disse pra voc ficar com as mos longe de mim.
- E voc tava falando srio. - Com um ligeiro aceno de cabea, ele passou a mo no abdmen. Alguns centmetros mais para o sul, pensou, e o punho dela poderia
t-lo privado de masculinidade.
- Voc tem um soco potente, dra. Jones.
- Pode agradecer, porque peguei leve, Boldari. - Apesar de no t-lo feito. - Ou voc estaria de quatro, com dificuldade de respirar. Acho que nos entendemos
nesse ponto.
- Perfeitamente. Liga pra sua assistente, Miranda. E vamos comear a trabalhar.
Ela atendeu ao pedido, porque isso fazia sentido. A nica maneira de ir adiante seria comeando, e seria preciso um ponto de partida.
189
s nove e meia, ela estava no escritrio de casa, recolhendo informaes no seu computador.
O cmodo era to bem equipado quanto sua sala no instituto, talvez um pouco mais aconchegante. Ryan acendera a lareira ali tambm, apesar de Miranda no considerar
que o frio fosse suficiente para isso. As labaredas estalavam ruidosamente na lareira de pedra; o sol de fim de inverno atravessava as cortinas abertas.
Sentaram-se juntos  sua mesa, averiguando nomes.
- Parece que isso aqui passou por uma reforma grande h um ano e meio - ele ressaltou.
- . Minha me fez obras no laboratrio de Florena. Vrios funcionrios foram transferidos pra c, ou foram trabalhar no instituto.
- T bobo que voc no tenha aproveitado a oportunidade.
- De qu?
- De se mudar pra Florena.
Ela enviou o arquivo para a impressora. Uma cpia impressa significaria no precisar ficar sentada ao lado dele. - Essa no era uma opo. Eu e o Andrew dirigimos
o instituto. Minha me dirige a Standjo.
- Entendi. - E ele achava que sim. - Conflitos com a sua me?
- O relacionamento da minha famlia no  da sua conta.
- Mais que conflitos, eu diria. E com o seu pai?
- Como?
- Voc  a garotinha do papai?
Ela deu uma risada impulsiva, depois levantou para buscar a impresso. - Nunca fui a garotinha de ningum.
- Que pena - ele disse, e estava falando srio.
- Minha famlia no t em questo aqui. - Ela sentou-se na poltrona vermelha, tentando concentrar-se nos nomes embaados diante de seus olhos cansados.
- Mas devia estar.  um negcio familiar. Talvez algum tenha tentado atingir sua famlia roubando o bronze.
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- Sua origem italiana t botando as manguinhas de fora - ela disse secamente, e ele sorriu.
- Os irlandeses so to interessados em vingana quanto os italianos, darling. Me fala das pessoas nessa lista.
- John Carter. Diretor do laboratrio. Fez doutorado em Duke. Trabalha no instituto h dezesseis anos. Arte oriental  o interesse principal dele.
- No, quero informaes pessoais. Ele  casado? Paga penso? Joga, bebe no almoo, se veste de mulher nas noites de sbado?
- Deixa de ser ridculo. - Ela tentou sentar-se ereta, depois desistiu e dobrou as pernas. -  casado, nenhum divrcio. Dois filhos. Acho que o mais velho
acabou de entrar pra faculdade.
- Precisa de muito dinheiro pra educar os filhos, mandar todo mundo pra universidade. - Ele olhou do outro lado da linha, atentando para o salrio anual.
- Ele vive decentemente, mas decncia no satisfaz todo mundo.
- A mulher dele  advogada, e provavelmente ganha mais que ele. Dinheiro no  problema pro casal.
- Dinheiro  sempre um problema. Que carro ele tem?
- No fao a menor idia.
- Como ele se veste?
Ela comeou a suspirar, mas pensou ter compreendido aonde ele queria chegar. - Palets velhos e gravatas tolas - comeou a dizer, fechando os olhos, tentou visualizar
o chefe do laboratrio. - Nenhum luxo, embora a mulher dele tenha comprado um Rolex de presente no aniversrio de vinte anos de casamento. - Conteve um bocejo e
afundou um pouco mais nas almofadas. - Usa o mesmo sapato todo dia. Botinas de sola de borracha. Quando elas esto gastas, ele compra um par novo.
- Tira um cochilo, Miranda.
- Eu t bem. Quem  o prximo? - Esforava-se para manter os olhos abertos. - Ah, Elise, ex-mulher do meu irmo.
- Divrcio problemtico?
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- Nunca acho que divrcio seja uma coisa tranqila, mas ela foi bastante cuidadosa com ele. Era assistente do John aqui, depois foi transferida pra Florena.
 a chefe de laboratrio da minha me. Ela e o Andrew se conheceram no instituto, na verdade, eu apresentei os dois. Casaram seis meses depois. - Ela bocejou mais
uma vez, sem a preocupao de reprimir o gesto.
- Quantos anos durou?
- Uns dois anos. Eles pareciam superfelizes a maior parte do tempo, depois tudo comeou a desmoronar.
- O que ela queria? Roupas sofisticadas, frias na Europa, uma casa grande, chique?
- Ela queria a ateno dele - Miranda murmurou e apoiou a cabea nas mos. - Queria que ele ficasse sbrio, sossegado, focado no casamento.  a maldio dos
Jones. A gente no consegue. Tem um carma com relacionamentos. Eu preciso descansar os olhos um minuto.
- Claro.
Ele voltou a estudar a lista. Por enquanto eram somente nomes numa pgina. Sua inteno era de que fossem muito mais que isso. Antes que terminassem, ele conheceria
todos os detalhes ntimos. Extratos bancrios. Vcios. Hbitos.
E quela lista ele adicionou trs nomes: Andrew Jones, Charles Jones e Elizabeth Standford-Jones.
Levantou-se, depois inclinou-se para tirar os culos dela e colocou-os sobre a mesa ao seu lado. Ela no parecia uma menina inocente dormindo, concluiu. Mas uma
mulher exausta.
Movendo-se silenciosamente, pegou a manta no encosto da poltrona e cobriu-a. Deixou-a dormir uma ou duas horas, para que renovasse as foras do corpo e da mente.
Em algum lugar dentro dela estavam as respostas, ele tinha certeza. Ela era a ligao.
Enquanto ela dormia, ele telefonou para Nova York. No havia sentido em ter um gnio da computao como irmo se no fosse para us-lo de vez em quando.
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- Patrick?  Ryan. - Ele reclinou na cadeira e observou Miranda dormindo. - Tenho vrias coisas pra voc ver pra mim, um servicinho rpido de hacker que eu 
no
tenho tempo de fazer agora. Te interessa? - Riu. - Claro que  pago.
Os sinos da igreja repicavam. seu som ecoou por sobre os telhados vermelhos at as montanhas distantes. O ar estava quente, o cu to azul quanto o interior de um
desejo.
Mas no poro mido da villa, as sombras eram densas. Ela tremeu uma vez ao puxar a alavanca da escada. Estava l, sabia que estava.
Esperando por ela.
Uma lasca de madeira se soltou. Rpido. Rpido. O ar comeou a faltar-lhe nos pulmes, o suor escorria-lhe pelas costas. E as mos tremiam enquanto ela apontava
o facho de luz da lanterna sobre os objetos.
Braos grandes, seios fartos, uma mecha sedutora de cabelo. O bronze era brilhoso sem a pintura verde-azulada. Podia passar os dedos sobre ele e sentir o frio do
metal.
Depois, pde ouvir o som de uma harpa e a gargalhada ligeira de uma mulher. Os olhos da esttua ganharam vida e esplendor, a boca de bronze sorriu e disse seu nome.
Miranda.
Ela acordou com um pulo, o corao galopando. Por um momento, poderia jurar ter sentido um perfume - forte e floral. E ter ouvido o eco distante das cordas de uma
harpa.
Mas era a campainha da porta da frente tocando repetidamente, e com alguma impacincia. Tremendo, Miranda libertou-se da manta e correu para fora do cmodo.
Foi surpreendente encontrar Ryan diante da porta aberta. Mas o choque maior foi ver o pai parado do lado de fora.
- Pai. - Ela pigarreou, afastando o sono da voz, e fez nova tentativa: - Oi. No sabia que voc estava vindo pro Maine.
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- Acabei de chegar. - Ele era um homem alto, aprumado,
queimado de sol. O cabelo era cheio e brilhante como ao polido. Combinava com a barba aparada e o bigode, alm de combinar com seu rosto fino.
Seus olhos - do mesmo azul profundo da filha - olhavam atravs das lentes dos culos de aro de metal e estudavam Ryan.
- Estou vendo que voc tem companhia.
Avaliando rapidamente a situao, Ryan estendeu a mo. - Dr. Jones, que prazer! Rodney J. Pettebone. Sou um associado da sua filha, e um amigo, espero. Acabei de
chegar de Londres - continuou, dando um passo atrs e encaminhando Charles gentilmente para dentro. Olhou em direo  escada, onde Miranda permanecia de p, encarando-o
como se ele tivesse duas cabeas.
- Miranda tem sido muito gentil me dando um pouco de seu tempo enquanto estou por aqui. Miranda, querida. - Levantou a mo e sorriu de maneira ridiculamente
adorvel.
Ela no estava certa do que a deixava mais chocada, se o sorriso de cachorrinho ou o sotaque britnico sofisticado que saa de sua boca, como se tivesse nascido
na famlia real.
- Pettebone? - Charles franziu o cenho enquanto Miranda mantinha-se paralisada como um de seus bronzes. - O filho do Roger.
- No, ele  meu tio.
- Tio? No sabia que Roger tinha irmos.
- Meio-irmo, Clarence. Meu pai. Posso pegar seu casaco, dr. Jones?
- Claro, obrigado. Miranda, acabei de passar no instituto. Disseram que voc no estava passando muito bem.
- Eu tive... muita dor de cabea. No  nada...
- Fomos pegos, darling. - Ryan subiu as escadas e pegou a mo dela, apertando-a com fora suficiente para triturar-lhe os ossos. - Tenho certeza de que seu
pai vai entender.
- No - Miranda disse, definitiva -, no vai, no.
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- A culpa  toda minha, dr. Jones. S tenho alguns dias para ficar por aqui. - Acentuou suas palavras com um beijo suave nos dedos de Miranda. -Acho que convenci
sua filha a tirar um dia de folga. Ela est me ajudando com uma pesquisa sobre pinturas do sculo dezessete. No teria conseguido nada se no fosse ela.
- Entendi. -A desaprovao bvia transpareceu nos olhos de Charles. -Acho que...
- Eu ia fazer um ch. - Miranda interrompeu o pai com suavidade. Precisava de um momento para ordenar seus pensamentos. - Se voc nos d licena, pai. Por
que no espera no gabinete? No vai demorar nada. Rodney, voc me d uma mo, por favor?
- Claro. - Ryan deixou escapar um sorriso quando ela retribuiu o aperto de mos.
- Voc pirou? - ela sussurrou ao bater a porta da cozinha. - Rodney J. Pettebone? Quem  ele?
- Por enquanto, sou eu. No estou aqui, lembra? - Apertou o queixo dela.
- Voc deu a impresso pro meu pai de que a gente t matando aula, pelo amor de Deus! - Ela pegou a chaleira no fogo e levou-a at a pia. - E no s isso,
mas que a gente estava passando o dia brincando de pique-esconde.
- Pique-esconde? - Ele simplesmente no conseguiu resistir e abraou-a por trs. Nem mesmo se importou com os cotovelos dela empurrando suas costelas. - Voc
 uma graa, Miranda.
- Eu no sou uma graa, e no fiquei feliz com essa mentira ridcula.
- Bem, acho que eu podia ter contado pra ele que fui eu que roubei o bronze. Depois, a gente podia explicar que era uma falsificao e que o instituto agora
vai chafurdar numa fraude com a seguradora. Eu ainda acho que brincar de pique-esconde com um ingls pateta  bem mais fcil de engolir.
Os dentes cerrados, ela aqueceu o ch. - Por que um pateta ingls, Deus do cu?
195
- Foi o que me veio na hora. Pensei que podia ser o seu tipo.
- Sorriu docemente quando ela lhe lanou um olhar frio por cima
do ombro. - O ponto, Miranda,  que seu pai t aqui, passou no instituto e obviamente quer respostas. Voc s tem que pensar nas explicaes que quer dar pra ele.
- Voc acha que eu no sei disso? Eu tenho cara de idiota?
- Nem um pouco, mas diria que voc  uma pessoa indiscutivelmente honesta. Mentir exige habilidade. O que voc precisa fazer  contar pra ele tudo o que sabia at
o momento em que eu pulei na sua cama hoje de manh.
- Isso eu podia pensar sozinha, Rodney. - Mas seu estmago j estava ocupado em desfazer os ns causados pela mentira.
- Voc dormiu menos de trs horas. T devagar. Onde ficam as xcaras? - Ele abriu um armrio.
- No, no quero usar a loua do dia a dia. - Acenou com a mo. - Pega o jogo de porcelana na cristaleira da sala de jantar.
Ele ergueu as sobrancelhas. Boa loua era para visitas, no para famlia. Isso lhe deu informaes adicionais sobre Miranda Jones. - Vou pegar duas. Acho que Rodney
percebeu que seu pai quer ter uma conversa particular com voc.
- Covarde - ela murmurou.
Miranda ajeitou meticulosamente na bandeja o bule, as xcaras e os pires, tentando no se irritar com o fato de Ryan ter subido as escadas, deixando-a sozinha para
lidar com a situao. Aprumou os ombros, suspendeu a bandeja e a levou at o gabinete, onde o pai estava de p diante da lareira, lendo um pequeno caderno de anotaes
de capa de couro.
Era to bonito, foi tudo que conseguiu pensar. Alto e empertigado, bronzeado, o cabelo brilhante. Quando era bem jovem, achava que ele parecia um desenho de conto
de fadas. No um prncipe ou cavaleiro, mas um mago. Muito sbio e digno.
Quisera to desesperadamente que ele a amasse! Que a colocasse nas costas e a abraasse em seu colo, que ajeitasse as cobertas em volta dela de noite e lhe contasse
historinhas tolas!
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Em vez disso, teve de se contentar com uma afeio discreta ausente. Ningum a colocou nas costas para um galope nem lhe contou historinhas infantis.
Ela suspirou para aliviar a tristeza e entrou no gabinete. - Pedi
uns minutos pro Rodney - ela comeou a dizer. - Imagino que voc queira conversar comigo sobre o roubo.
- Quero. Isso  muito aborrecido, Miranda.
- , todo mundo t bastante chateado. - Ela colocou a bandeja na mesinha, sentou-se numa poltrona e serviu as xcaras como aprendera na infncia. - A polcia
t investigando. A gente tem esperanas de encontrar o bronze.
- Enquanto isso, a m publicidade prejudica o instituto. Sua me est estressada, e eu tive que abandonar meu projeto num momento crucial para vir at aqui.
- No tinha nenhum motivo pra isso. - Mos firmes, ela entregou a ele a xcara. - Tudo que  possvel est sendo feito.
- Obviamente a nossa segurana no  nada aceitvel. Seu irmo  responsvel por isso.
- No  culpa do Andrew.
- Ns colocamos o instituto nas mos dele e nas suas - ele lembrou a Miranda e provou um gole do ch
- Ele vem fazendo um trabalho maravilhoso. A freqncia das aulas cresceu dez por cento e a receita aumentou. A qualidade das nossas aquisies nos ltimos
cinco anos  impressionante.
Ah, era irritante ter de defender e justificar o irmo, quando o homem em frente a ela fugira das responsabilidades do instituto com a mesma facilidade que tivera
ao fugir s responsabilidades para os familiares.
- O instituto nunca foi uma das suas prioridades - ela disse com suavidade, sabendo que despertaria a raiva do pai. - Voc preferiu o trabalho de campo. Eu
e Andrew  que empenhamos nossa energia nisso.
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- E agora temos o primeiro roubo em mais de uma gerao.
No podemos deixar passar, Miranda.
- No, mas nosso tempo, nosso suor e nosso trabalho podem
ficar de lado.
- Ningum est acusando voc de falta de entusiasmo. - Ele
afastou o comentrio. - No entanto, precisamos lidar com isso. E com a publicidade negativa do seu equvoco em Florena, alm de tudo, ns ficamos numa posio difcil.
- Meu equvoco - ela murmurou. Era a cara dele usar eufemismos nas horas de crise. - Eu fiz tudo o que era preciso em Florena. Tudo. - Quando sentiu a emoo
prestes a borbulhar, engoliu-a e encarou-o da maneira fria que ele esperava. - Se eu pudesse ver os resultados dos segundos testes, poderia analisar os meus prprios
e determinar onde esto os erros.
- Isso  algo que voc deve discutir com a sua me. Mas posso te dizer que ela est muito desapontada. Se a imprensa no tivesse sido avisada...
- Eu nunca falei com a imprensa. - Ficou de p, incapaz de permanecer sentada, incapaz de fingir calma. - Eu nunca discuti sobre A Senhora Sombria com ningum
fora do laboratrio. Droga, por que eu faria isso?
Ele ficou em silncio por um momento, colocou a xcara de lado. Detestava confrontos, no gostava de emoes descontroladas interferindo na ordem das coisas. Estava
ciente de que situaes desse tipo perturbavam sua filha. Nunca fora capaz de compreender de onde elas vinham.
- Eu acredito em voc.
- E ser acusada... O qu?
- Eu acredito em voc. Apesar de voc ser forte e quase sempre teimosa, na minha opinio, nunca achei que fosse desonesta. Se voc est me dizendo que no
tocou no assunto com a imprensa, eu acredito.
- Eu... - Sua garganta queimava. - Obrigada.
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- O que no muda nada, na verdade. A publicidade precisa parar. Devido s circunstncias, voc  o centro da tempestade, pode-se dizer assim. Sua me e eu
acreditamos que seria melhor que voc se afastasse por um tempo.
As lgrimas que nadavam em seus olhos secaram. - Eu j discuti isso com ela. E disse que no vou me esconder. Eu no fiz nada errado.
- O que voc fez ou deixou de fazer no  o que interessa. At que esses dois assuntos estejam resolvidos, sua presena no instituto  negativa.
Ele passou as mos na cala  altura dos joelhos e levantou-se.
- A partir de hoje, voc est de frias por um ms. Se precisar, pode passar l e encerrar algum negcio pendente, mas seria melhor que fizesse isso de casa,
nas prximas quarenta e oito horas.
- Voc tambm pode pintar um C maisculo de culpada na minha testa.
- Voc est exagerando, como sempre.
- E voc t fugindo, como sempre. Bem, eu sei com quem eu posso contar. Com ningum. - Apesar da humilhao, ela tentou uma ltima vez. - Uma vez, pelo menos
uma vez na vida, voc no pode ficar do meu lado?
- No  uma questo de lados, Miranda. E no  um ataque pessoal.  o melhor para todos os envolvidos, e tanto para o instituto quanto para a Standjo.
- Isso me machuca.
Ele pigarreou, evitando os olhos dela. - Tenho certeza de que, quando voc conseguir pensar com calma, vai concordar que  a coisa mais lgica a ser feita. Vou ficar
no Regency at amanh, se voc precisar me encontrar.
- Nunca vou ser capaz de encontrar voc - ela disse baixinho. - Vou pegar seu casaco.
Como sentisse algum remorso, ele a seguiu at o hall. - Voc devia usar esse tempo para viajar um pouco. Pegar um pouco de sol. Quem sabe o seu, ah, seu amigo no
vai com voc?
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- Meu o qu? - Ela pegou o casaco do pai no armrio, depois olhou para a escada. E comeou a rir. - Ah, claro. - Precisou secar as lgrimas enquanto se recompunha
da ligeira onda de histeria. - Aposto que o Rodney vai adorar viajar comigo.
Acenou para o pai, do lado de fora da casa, depois sentou-se no ltimo degrau da escada e riu como louca - at comear a soluar.
captulo Treze
Um homem que tem trs irms sabe tudo sobre lgrimas femininas. Elas so lentas, algumas delas adorveis, capazes de rolar pelas faces de uma mulher como pequenos
diamantes lquidos, e levar um homem a implorar. H tambm as quentes, raivosas, que jorram dos olhos como fogo e induzem um homem sbio a fugir para proteger-se.
E h aquelas escondidas to profundamente no corao que, quando se libertam e se transformam em tempestade, so um dilvio de dor acima do conforto de qualquer
homem.
Portanto, deixou-a sozinha, no ltimo degrau da escada, enquanto aquelas lgrimas nascidas no corao tomavam-se de fria. Ele sabia que a dor que se espalhava como
uma inundao a fechara. Tudo que podia fazer era lhe dar privacidade e esperar.
Quando aqueles soluos sofridos e dilacerantes se acalmaram, ele cruzou o hall, abriu o armrio e vasculhou o interior at encontrar uma jaqueta. - Toma. - Estendeu-a
para Miranda. - Vem, vamos tomar um pouco de ar.
201
Ela o encarou, os olhos inchados e confusos. Simplesmente
esquecera que ele estava ali. - O qu?
- Vamos tomar ar - ele repetiu e, como ela ainda estivesse
completamente entregue s emoes, puxou-a para que ficasse de p. Passou a jaqueta em volta dos braos dela, virou-a e fechou os
botes com eficincia.
- Eu preferia ficar sozinha. - Ela tentou falar com tranqilidade, mas sua garganta ainda estava embargada, e ela no conseguiu.
- Voc j ficou sozinha tempo demais. - Ele pegou o prprio
casaco, vestiu-o, depois puxou-a porta da frente afora.
O ar estava revigorante, o sol forte o suficiente para agulhar seus olhos sofridos. A humilhao comeava a se infiltrar. Lgrimas eram inteis, ela pensou, mas,
quando privadas, pelo menos, no havia testemunhas de sua falta de controle.
- Aqui  um lugar lindo - ele disse, tentando iniciar um dilogo. Ele manteve sua mo na dela, mesmo quando seus dedos pediram liberdade. - Privacidade, uma
vista de embasbacar, o cheiro de mar logo ali. A terra  que merecia um pouco mais de ateno.
Os Jones, ele concluiu, no perdiam muito tempo ao ar livre. Do outro lado do gramado irregular havia duas rvores antigas que imploravam por uma rede. Duvidava
que Miranda alguma vez tivesse explorado os milagres de uma tarde de vero numa rede  sombra.
Havia arbustos, danificados pelo inverno, que ele imaginava lindamente floridos - e descuidados - na primavera. Havia falhas no gramado, gritando para serem ressemeadas
e alimentadas.
Mas o fato de haver grama, arbustos, rvores antigas e uma impressionante fileira de pinheiros ao norte da casa indicava que, um dia, algum se importara o suficiente,
plantando-os.
Certamente um urbanista, mas que apreciava a atmosfera rural.
- Voc no cuida do que tem aqui. Isso me surpreende, Miranda. Pensava que uma mulher com a sua natureza prtica insistiria em manter a propriedade e um legado
como este.
-  uma casa.
,  uma casa. E deveria ser um lar. Voc cresceu aqui?
202
- No. - Miranda sentia a cabea pesada do choro. Queria voltar para dentro de casa, tomar uma aspirina, deitar num quarto escuro. Mas no teve fora suficiente
para resistir quando ele a levou pelo caminho at a beira do penhasco. - Era da minha av.
- Faz mais sentido. No consigo ver o seu pai escolhendo viver aqui. No se encaixa com ele de jeito nenhum.
- Voc no conhece o meu pai.
- Claro que eu conheo. - Fortes rajadas de vento os aoitavam enquanto subiam a colina. Sculos de sua presena constante haviam desgastado as rochas, suavizando-as,
arredondando-as. Brilhavam como zinco sob o sol. - Ele  pomposo, arrogante. Tem aquele tipo de foco estreito que faz com que seja brilhante no trabalho, e um ser
humano sem considerao. Ele no te ouviu - acrescentou quando alcanaram o plat que se espichava sobre o oceano. - Porque ele no sabe como ouvir.
- Obviamente voc sabe. - Agora ela puxou a mo de dentro da dele, e cruzou os braos defensivamente. - No sei por que fico surpresa com o fato de algum
que vive de roubar a propriedade dos outros ouvir conversas particulares atrs da porta.
- Nem eu. Mas a verdade  que voc foi deixada ao sabor do vento. E o que  que voc vai fazer quanto a isso?
- O que  que eu posso fazer? Qualquer autoridade que eu possa ter no instituto ainda tem a ver com o fato de que trabalho pra eles. Fui temporariamente afastada
das minhas responsabilidades,  isso que conta.
- O que conta, se voc tem alguma coragem,  no deixar que acontea, at que as coisas fiquem do jeito que voc quer.
- Voc no sabe do que t falando. - Ela voltou-se para ele, e a autopiedade aparente em seus olhos transformou-se em fria. - Eles dirigem o show, e sempre
foi assim. Eu posso colocar o brilho que quiser, mas fao o que mandam. Dirijo o instituto com o Andrew, porque nenhum deles quis se incomodar com o dia a dia daquilo.
E a gente sempre soube que podiam puxar o nosso tapete quando quisessem. Agora puxaram.
203
- E voc vai tolerar ser chutada desse jeito? Chuta de volta,
Miranda. - Ele segurou um punhado do cabelo dela enquanto o vento sacudia loucamente o resto das mechas vermelhas. - Mostra pra eles do que voc  feita. O instituto
no  o nico lugar onde
voc pode brilhar.
- Voc acha que qualquer museu importante, ou laboratrio,
me empregaria depois disso? O Bronze Fiesole me arruinou. Queria nunca ter visto aquela estatueta.
Vencida, ela sentou nas pedras olhando para o farol, que parecia um mrmore branco contra o cu azul.
- Ento, por que voc no abre seu prprio laboratrio?
- Isso  um sonho impossvel.
- Muita gente me disse a mesma coisa quando eu quis abrir a galeria em Nova York. - Ele se sentou ao lado dela, pernas cruzadas.
Ela deixou escapar um breve suspiro. - A diferena talvez seja que eu no pretendo roubar pra montar um negcio.
- Todo mundo faz aquilo que sabe melhor - ele disse com leveza. - Pegou um charuto e fez uma concha com as mos em volta da ponta para acend-lo. - Voc tem
contatos, no tem? Tem crebro. Tem dinheiro.
- Tenho crebro e dinheiro. J os contatos... - Ela deu de ombros. - No posso contar com eles, agora. Amo o meu trabalho - ouviu-se dizer. - Amo a estrutura
dele, a descoberta. Muita gente acha que a cincia  uma poro de pegadas fincadas em concreto, mas no .  um quebra-cabea, e nem todas as peas vo se encaixar
completamente. Quando voc consegue juntar algumas, encontrar uma resposta,  emocionante. No quero perder isso.
- Voc no vai, a no ser que desista.
- Na hora em que eu vi o Bronze Fiesole, e entendi qual era o projeto, fiquei completamente tomada pelas possibilidades. Sabia que uma parte era puro ego,
mas e da? Ia autenticar a pea, provar como eu era inteligente e esperta, e minha me ia me aplaudir. Do jeito que as mes fazem, vendo os filhos na pea do colgio.
204
Com entusiasmo e orgulho. - Deixou a cabea pender sobre os joelhos.
- Isso  pattico.
- No , no. A maioria das pessoas passa a vida adulta se apresentando pros pais e esperando pelas palmas.
Ela virou a cabea para analis-lo. - Voc fez isso?
- Ainda me lembro da inaugurao da minha galeria em Nova York. Da hora em que meus pais entraram. Ele num terno bom, o mesmo e nico que usava nos casamentos
e funerais, e ela de vestido novo, azul, o cabelo com um penteado horrvel, que fez no cabeleireiro. Lembro da cara deles. Entusiasmo e orgulho. - Ele deu uma leve
risada. - E nenhum choque. Foi importante pra mim.
Ela virou o rosto, apoiou o queixo nas mos e olhou mais uma vez para o mar e as ondas quebrando com fora, brancas e frias.
- Lembro da cara da minha me quando me demitiu do projeto Fiesole. - Suspirou. - Eu teria suportado desapontamento ou arrependimento muito melhor do que
aquele desdm gelado.
- Esquece o bronze.
- Como? Foi a que o trem descarrilou ladeira abaixo. Se eu pelo menos pudesse voltar pra ver o que deu errado... - Pressionou os olhos com os dedos. - Se
eu pudesse fazer os testes de novo, como eu fiz com o Davi.
Lentamente, ela baixou as mos. Suas palmas estavam midas.
- Como o Davi- murmurou. - Meu Deus. - Ela se levantou to rapidamente que, por um instante, Ryan temeu que pretendesse pular.
- Espera. - Ele segurou a mo dela com firmeza e ficou de p.
- Voc t um pouco perto demais da beirada pro meu gosto.
-  como o Davi. - Ela se afastou dele, depois agarrou-lhe o casaco. - Segui os procedimentos, passo a passo. Sei o que tinha nas mos. Eu conheo. - Empurrou-o
novamente, afastou-se, o som dos saltos das botas nas pedras. - Eu fiz tudo certo. Detalhei tudo. As medidas, as frmulas, os nveis de corroso. Eu tinha todas
as informaes, todas as respostas. Algum trocou a pea.
- Trocou?
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- Como o Davi- ela bateu no peito dele imitando o gesto de bater numa porta, como se estivesse perguntando tem verdade em casa?- Apenas como o Davi. O que
o laboratrio Ponti tinha em mos era uma falsificao, uma rplica, e no o mesmo bronze. Era uma cpia. S podia ser uma cpia.
- Isso  uma tremenda reviravolta, dra. Jones. - E as possibilidades borbulhavam como um bom vinho em sua cabea. - Interessante.
- Tudo se encaixa. Faz sentido.  a nica coisa que faz sentido.
- Por qu? - Ele arqueou as sobrancelhas. - Por que no seria mais lgico voc ter cometido um erro?
- Porque eu no cometi. Meu Deus, no acredito que me permiti duvidar do que sei. - Ela passou as mos no cabelo, pressionando os punhos contra as tmporas.
- Eu no estava pensando com clareza. Quando algum te diz mil vezes que voc t errada, e com fora suficiente, voc acredita. At quando no est errada.
Ela comeou a andar com passadas largas, deixando que o vento limpasse sua mente, deixando o sangue fervilhar. - Eu continuaria acreditando nisso se no fosse o
Davi.
- Que bom que eu roubei essa estatueta!
Ela deu uma olhada de vis para ele. Seus passos acompanhavam os dela, e ele parecia estar gostando do passeio naquela tarde de brisa. - Parece que sim - ela murmurou.
- Por que essa pea? Por que voc roubou exatamente essa pea?
- Eu j te falei, eu tinha um cliente.
- Quem?
Os lbios dele se curvaram. - Miranda, certas coisas so sagradas.
- Pode ter uma ligao entre as duas coisas.
- O meu Davi e a sua Senhora Sombria? Isso  demais,  forar um pouco demais a barra.
- Meu Davi e minha Senhora Sombria, e no  to impossvel assim. Os dois so bronzes, so trabalhos da Renascena, a Standjo e o instituto esto conectados,
e eu trabalho pros dois. Isso so fatos. Os dois eram verdadeiros e ambos foram substitudos por cpias.
- E isso  uma especulao, no um fato.
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-  uma teoria lgica, e com sentido - ela o corrigiu -, e uma base pra concluso preliminar.
- Eu conheo esse cliente h anos. Pode acreditar, ele no estaria interessado em esquemas e tramas complicados. Simplesmente, ele v uma coisa de que gosta
e faz um pedido. Se eu achar que  possvel, eu fao. Simples assim.
- Simples. - Era uma atitude que ela era grata por no compreender.
- E - ele acrescentou - ele dificilmente teria me contratado pra roubar uma cpia.
Ela franziu o cenho diante do comentrio. - Ainda acho que quem substituiu o Davi fez a mesma coisa com A Senhora Sombria.
- Concordo que essa  uma possibilidade slida e intrigante.
- Eu poderia chegar a uma concluso slida se pudesse examinar e comparar as duas peas.
- Ok.
- Ok o qu?
- Vamos fazer isso.
Ela parou perto do farol, onde as pedras do cho eram esmagadas pelos seus ps. - Fazer o qu?
- Comparar as peas. A gente tem uma. Basta conseguir a outra.
- Roubar a outra? Deixa de ser ridculo!
Ele segurou seu brao quando ela lhe deu as costas. - Voc quer saber a verdade, no quer?
- Quero, quero saber a verdade, mas no vou pegar um avio pra Itlia, invadir uma instituio do governo e roubar uma falsificao que no vale nada.
- Nada impede que a gente pegue um objeto que vale alguma coisa enquanto t l.  s uma idia - ele acrescentou. - Se voc estiver certa, e a gente conseguir
provar, consegue salvar mais que a sua reputao. Voc vai conseguir.
Era impossvel, insano. No podia ser feito. Mas ela viu o brilho nos olhos dele e perguntou: - Por que voc se importaria? O que  que voc ganha com isso?
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- Se voc estiver certa, eu fico mais perto do Davi original. Eu tambm tenho uma reputao pra salvar.
E se ela estivesse certa, ele pensou, e se A Senhora Sombria fosse verdadeira, ele tambm estaria mais perto dela. Ele a encontraria. Que aquisio maravilhosa essa
pea seria para a sua coleo particular.
- Eu no vou infringir a lei.
- Voc j est infringindo a lei. T aqui comigo, no t? Voc  cmplice dos fatos, dra. Jones. - Ele passou o brao amigavelmente em volta dos ombros dela.
- Eu no apontei uma arma pra sua cabea nem encostei uma faca nas suas costas. Voc me colocou pra dentro e me deixou passar pela segurana - ele continuou, no
caminho de volta  casa. - Voc passou o dia comigo, sabendo totalmente que estou guardando uma pea roubada. Voc j t dentro. - Deu um beijo carinhoso no topo
da cabea de Miranda. - Pode muito bem ir at o fim.
Ele olhou para o relgio, fez clculos. - Voc entra e faz as malas. A gente vai precisar passar em Nova York primeiro. Eu preciso arrumar umas coisas l e preciso
pegar umas roupas e umas ferramentas.
- Ferramentas? - Ela tirou o cabelo do rosto. Melhor no saber, ela concluiu. - Eu no posso simplesmente pegar um avio pra Itlia. Tenho que falar com o
Andrew. Tenho que explicar.
- Deixa um bilhete pra ele - Ryan sugeriu e abriu a porta de trs. - Escreve uma coisa rpida, dizendo que voc ficar fora umas semanas. Basta isso, e ele
fica livre da bisbilhotice da polcia.
- A polcia. Se eu viajar antes de terminarem as investigaes eles podem pensar que estou envolvida.
- Mais excitante ainda, no ? Melhor no usar o telefone - ele murmurou. - Sempre tem a possibilidade de eles conferirem a conta. Vou pegar o meu na mala.
Tenho que ligar pro meu primo Joey.
A cabea dela rodava. - Seu primo Joey?
- Ele  agente de viagens. Vai fazer as malas - Ryan repetiu. - Ele vai colocar a gente no primeiro voo. No esquece seu passa-
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porte... e seu laptop. A gente precisa terminar de dar uma olhada nesses arquivos dos funcionrios.
Ela tentou respirar fundo. - Alguma outra coisa que eu deva levar?
- Fome. - Ele tirou o celular da bolsa. - A gente deve chegar a Nova York na hora do jantar. Voc vai adorar o linguine da minha me.
Eram quase seis horas quando andrew conseguiu chegar em casa. Ele tentara ligar para Miranda meia dzia de vezes, mas s conseguira falar com a secretria eletrnica.
No tinha certeza de como iria encontr-la - louca de raiva ou desolada de sofrimento. Esperava estar preparado para lidar com qualquer um dos dois estados de esprito,
quem sabe concomitantemente. Mas tudo que encontrou foi um bilhete na geladeira.
Andrew, tenho certeza de que voc sabe que recebi ordens para me afastar do instituto. Desculpe deixar voc de uma hora para outra num momento como este. No vou
dizer que no tive escolha, direi que estou fazendo a nica coisa que me parece certa. Ficarei fora algumas semanas. Por favor, no se preocupe. Entro em contato
assim que puder.
No se esquea de levar o lixo para fora. Tem comida que sobrou do domingo para uma ou duas refeies. No deixe de comer.
Amor, Miranda
- Merda! - Ele pegou o bilhete e leu mais uma vez. - Onde  que voc t?
Captulo Catorze
Eu no entendo por que a gente no pega um voo direto pra Florena. - O pensamento de Miranda j estava a milhas de distncia quando Ryan assumiu a direo do elegante
BMW e os dois deixaram o La Guardia. - Se a gente vai fazer uma coisa maluca, no faz sentido ficar pegando desvios.
- No  um desvio,  uma parada programada. Eu preciso das minhas coisas.
- Voc podia comprar roupas na Itlia.
- Eu vou fazer isso, provavelmente. Se os italianos vestissem o mundo, o mundo seria um lugar muito mais atraente. Mas tem certas coisas que nem sempre so
fceis de comprar no mercado de varejo.
- Suas ferramentas... - ela resmungou. - De assaltante.
- Entre outras coisas.
- Est bem. - Ela mudou de posio no assento, tamborilou sobre os joelhos. Teria de aceitar o fato de ser parceira de um crimi-
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noso de alguma forma. Um ladro, algum, por definio, sem integridade.
Sem a ajuda dele, no enxergava como poderia ver o bronze novamente - ou a falsificao. E havia uma falsificao, ela tinha certeza. Era uma teoria lgica, que
requeria mais estudo e pesquisa para que pudesse ser comprovada.
E se ela engolisse o orgulho e contasse sua teoria para a me? A idia quase a fez rir. Elizabeth a recusaria e, com um estalar de dedos, acusaria a filha, chamando-a
de arrogante, teimosa e desesperada.
E no totalmente sem razo, Miranda admitiu.
O nico interessado em ouvir, em explorar a possibilidade, era um ladro profissional que certamente trabalhava em funo dos prprios interesses - e esperava que
ela lhe entregasse a Vnus de Donatello de mo beijada, como pagamento pela consultoria.
Bem, isso ficaria para depois.
Ele era uma pea da equao, lembrou a si mesma, nada mais. Encontrar e autenticar A Senhora Sombria era mais importante que a forma encontrada para isso; o fim
justificava os meios.
- No tem nenhuma razo pra gente ir at o Brooklyn.
- Claro que tem. - Ryan pensou saber muito bem o que se passava na cabea de Miranda. Ela tinha um rosto muito expressivo, quando no sabia que algum estava
prestando ateno. - Eu sinto falta da comida da minha me.
Olhou para ela e cortou um sed que segurava o trnsito. Ela era to fcil de ler. Estava odiando cada minuto daquilo, equacionando os prs e os contras, tentando
encontrar justificativas para a escolha que fizera. - E eu tenho umas coisinhas pra ajeitar, coisas de famlia, antes de ir pra Itlia. Minha irm vai querer que
eu traga sapatos - resmungou. - Ela sempre quer que eu traga sapatos.  viciada em Ferragamo.
- Voc rouba sapatos pra sua irm?
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- Fala srio. - Verdadeiramente insultado, ele reclamou do trfego. - No sou ladro de loja.
- Desculpe, mas roubar  roubar.
Ele levantou a sobrancelha marcada por uma cicatriz. - No  mesmo. Nem de longe.
- E no tem motivo pra eu ir pro Brooklyn. Por que voc simplesmente no me deixa num hotel qualquer?
- Primeiro, voc no vai ficar em hotel. Vai ficar comigo.
Ela girou a cabea num movimento brusco, os olhos estreitos.
- Claro que no.
- E, segundo, voc vai pro Brooklyn, porque, parece que voc esqueceu, a gente vai ficar grudado at essa histria terminar. Voc vai pra onde eu for... dra.
Jones.
- Isso  ridculo. - E inconveniente. Ela precisava de algum tempo sozinha, precisava de tempo s para si, para poder anotar tudo de maneira organizada. Para
pesar e considerar as coisas. Ele no lhe dera tempo para pensar. - Voc mesmo disse que estou muito envolvida pra no colaborar. Se voc no confiar em mim, tudo
vai ficar mais complicado.
- Confiar em voc  que complica tudo - ele a corrigiu. - Seu problema  que voc tem uma conscincia. Ela vai te perturbar de vez em quando e te tentar a
confessar tudo pra polcia. - Ele esticou o brao para tocar na mo de Miranda. - Basta voc me ver como o anjo mau do seu lado, o diabinho chutando o anjo bom no
rosto toda vez que ele comear a falar sobre honestidade e verdade.
- Eu no vou ficar com voc. No tenho nenhuma inteno de dormir com voc.
- Agora voc acabou comigo. Qual  o sentido da vida?
A gargalhada entrecortando a voz dele fez com que ela cerrasse os dentes, de forma que no pudesse se pronunciar, a no ser com a boca semicerrada. - Voc sabe muito
bem que quer dormir comigo.
-  o meu sonho da vida inteira, e agora voc destruiu tudo. No sei como vou continuar vivendo.
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- Voc  desprezvel - ela sibilou, e, quando ele riu novamente, ela fez um favor ao prprio ego e ao seu temperamento: fixou o olhar do lado de fora da janela
do carro e ignorou-o durante todo o resto do trajeto.
Ela no sabia o que esperar, mas certamente no imagi-nara a bela casa de dois andares, com detalhes em amarelo, numa vizinhana sossegada.
- Voc cresceu aqui?
- Aqui? No.
Ele sorriu diante do choque na voz dela. Imaginara que ela contava ser levada para um lugar terrvel, onde vozes em tom elevado seriam to invasoras quanto o cheiro
de alho e lixo.
- Minha famlia se mudou pra c h uns dez anos. Eles esto esperando a gente, e minha me provavelmente j deve ter preparado um antepasto.
- Como assim, esperando?
- Eu liguei e avisei que a gente tava vindo.
- Voc ligou? E quem voc disse que eu era?
- Isso  uma coisa que cada um vai concluir sozinho.
- O que foi que voc disse pra ela? - Miranda exigiu uma resposta e agarrou-se  maaneta enquanto ele se inclinava para abrir a porta do carro.
- Disse que ia levar uma mulher pro jantar. - Ele permaneceu onde estava por um momento, o corpo inclinado e colado ao dela, os rostos prximos. - Deixa de
ser tmida. Eles so muito tranqilos.
- Eu no sou tmida. - Mas havia uma ligeira sensao de enjoo em seu estmago, que experimentava sempre que estava prestes a conhecer gente nova ao seu convvio
social. Neste caso, disse a si mesma, esse tipo de coisa era um absurdo. - S quero saber como voc explicou... Para com isso - ela ordenou quando o olhar dele baixou
e fixou-se em sua boca.
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- Hum. - Ele realmente gostaria de dar uma mordida suave naqueles lbios. - Desculpe, eu tava distrado. Voc tem um perfume... interessante, dra. Jones.
O momento pedia ao e movimento - e no a fantasia ridcula que girava em sua cabea, de agarrar o cabelo dele e puxar-lhe a boca de encontro  sua. Em vez disso,
levou a mo ao peito dele, escancarou a porta e saiu do carro.
Ele riu levemente - o que ajudou a desfazer a bola de tenso que sentia na boca do estmago - e saltou pelo outro lado.
- Oi, Remo.
O grande co castanho que estivera dormindo no jardim levantou-se, soltou um latido que ecoou como uma bala de canho e pulou amorosamente em Ryan. - Achei que voc
tivesse aprendido boas maneiras. - Rindo, ele afagou as orelhas do cachorro, que reagiu deliciado. - O que aconteceu com as aulas de etiqueta? Com certeza, voc
fugiu de novo, no foi? - Ryan perguntou enquanto encaminhavam-se para a porta.
Como se evitasse a pergunta, o animal olhou para o lado e fixou-se em Miranda. A lngua pendeu-lhe da boca, num sorriso canino.
- Voc no tem medo de cachorro, tem?
- No, eu gosto - ela respondeu, e Ryan abriu a porta da frente. De dentro vieram o som do noticirio da noite, de vozes femininas e masculinas em tom de
briga violenta, o perfume delicioso de alho frito com especiarias e um grande gato malhado que saiu correndo em busca de liberdade e iniciou, imediatamente, uma
guerra com o co.
- Lar, doce lar - Ryan murmurou e encaminhou-a para dentro da confuso.
- Se voc no  capaz de se comportar como um ser humano decente, no quero que fale nunca mais com nenhum dos meus amigos.
- Eu s disse que, se ela fizesse uma plstica, ia melhorar o visual, a autoestima e a vida sexual dela.
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- Voc  o fim, Patrick.
- T. A sua amiga tem um nariz que parece uma barbatana.
- No, voc no  s o fim da picada.  tambm um idiota superficial.
- Eu t tentando ouvir o noticirio aqui. Por que vocs no vo brigar l fora at acabar a parte dos esportes, pelo amor de Deus.
- A gente no chegou numa boa hora - Miranda disse com preciso -, definitivamente.
- No, isso  normal - Ryan garantiu e arrastou-a para dentro da sala espaosa, cheia e barulhenta.
- Ei, Ry!
O homem - o jovem, na verdade, percebeu a presena de Miranda ao virar-se, um sorriso to letal quanto o de Ryan - deu alguns passos gingados, alm de um soco de
leve no ombro do irmo. Um sinal de afeio, Miranda concluiu.
O cabelo dele era escuro e encaracolado, os olhos, dourados e brilhantes, tudo isso num rosto que Miranda tinha certeza fizera as adolescentes suspirarem com a cabea
enfiada no travesseiro, na poca de colgio.
- Pat. - Com igual carinho, Ryan o segurou pelo pescoo para as apresentaes. - Meu irmo mais novo, Patrick, Miranda Jones. Comporte-se - avisou a Patrick.
- Pode deixar. Oi, Miranda. E a?
Antes que ela pudesse responder, a jovem com quem Patrick estivera discutindo aproximou-se. Mediu Miranda com os olhos ao mesmo tempo que abraava Ryan e apertava-lhe
as faces. - Tava com saudade de voc. Oi, Miranda, meu nome  Colleen. - No ofereceu a mo, mas manteve os braos em volta do irmo, como se ele fosse sua propriedade.
Tinha a beleza em tons de nix e ouro dos Boldari, e um brilho perspicaz e astuto nos olhos.
- Que bom conhecer vocs. - Miranda sorriu friamente para Colleen e esquentou um pouquinho o sorriso para Patrick.
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- Voc vai deixar a garota parada na porta o dia todo ou vai entrar com ela pra eu dar uma olhada? -A frase veio de fora da sala e fez com que os trs Boldari
sorrissem.
- J vou, papai. Me deixa guardar seu casaco.
Ela entregou o casaco com alguma relutncia e ouviu a porta se fechar atrs de si com o entusiasmo de uma mulher que ouve algum trancar a grade da cela.
Giorgio Boldari levantou-se de sua poltrona e, educadamente, emudeceu a televiso. Ryan no herdara a constituio fsica do pai, Miranda concluiu. O homem que a
analisava era baixo, gorducho e exibia um bigode grisalho sobre lbios sem sorriso. Estava de cala cqui, uma camisa muito bem passada, tnis surrados e uma imagem
de Maria numa corrente em volta do pescoo.
Ningum disse uma palavra. Miranda comeou a ouvir um zumbido de nervoso.
- Voc no  italiana, ? - ele perguntou, finalmente.
- No, no sou.
Giorgio comprimiu os lbios, deixou seu olhar investigar o rosto dela. - Com esse cabelo, voc certamente tem ascendncia irlandesa.
- , o pai da minha me. - Miranda lutou contra a vontade de mudar de posio e levantou a sobrancelha.
Ele finalmente sorriu, um sorriso ligeiro e brilhante como um relmpago. - Charmosa, ela, Ry. D um vinho pra moa, pelo amor de Deus, Colleen. Voc vai deixar a
pobre com sede? Os Yankees se ferraram hoje. Voc acompanha beisebol?
- No, eu...
- Devia.  bom. - Depois, virou-se para o filho e envolveu Ryan num abrao de urso. - Voc devia ficar mais em casa.
- Eu vou dar um jeito nisso. A mame t na cozinha?
- T, t. Maureen! - O grito poderia rachar o concreto. - Ryan t aqui com a namorada. Ela  linda. - Piscou para Miranda. - Como voc pode no gostar de
beisebol?
- No  que eu no goste, exatamente. Eu s...
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- Ryan jogava na terceira base, posio importante. Ele no te contou isso?
- No, ele...
- Uma mdia altssima de tacadas por jogo no ltimo ano. Ningum roubava mais bases que o meu Ryan.
Miranda voltou seu olhar para Ryan. - Imagino.
- A gente guardou os trofus. Ry, mostra os trofus pra sua namorada.
- Mais tarde, papai.
Colleen e Patrick voltaram a discutir aos sussurros, quando ela voltou com uma bandeja e taas. O cachorro latia sem parar para a porta, e Giorgio chamou mais uma
vez pela mulher para que viesse  sala e conhecesse a namorada de Ryan.
Pelo menos, Miranda pensou, no pediriam para que se esforasse na conversa. Aquelas pessoas tomavam conta de tudo, comportando-se como se no houvesse uma pessoa
estranha ali.
A casa era entulhada, cheia de luz e arte. Viu que Ryan estava certo quanto s aquarelas da me. As trs paisagens encantadoras de ruas de Nova York penduradas na
parede eram adorveis.
Havia uma escultura retorcida de metal preto - provavelmente um trabalho de seu pai - atrs de um sof de almofadas gordas e azuis, cheias de pelo de cachorro.
Enfeites e porta-retratos podiam ser vistos em todo o ambiente, uma corda esgarada, cheia de ns, no cho mostrava a prova do crime dos dentes de Remo, e jornais
e revistas espalhados descansavam sobre a mesa de centro.
Ningum se apressou em guardar ou arrumar nada, nem em se desculpar pela baguna.
- Bem-vinda ao lar dos Boldari. - Com uma piscadela, Ryan pegou duas taas na bandeja, entregou uma delas para Miranda e brindou: - Sua vida talvez nunca
mais seja a mesma.
Ela comeava a acreditar nele.
Quando tomava ainda seu primeiro gole, uma mulher adentrou a sala secando as mos no avental salpicado de molho de tomate.
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Maureen Boldari era alguns centmetros mais alta que o marido, esguia como um salgueiro e dona de impressionante beleza irlandesa. O cabelo lustroso emoldurava com
ondas atraentes seu rosto forte, e seus olhos de vivido azul estavam iluminados de prazer quando ela abriu os braos.
- Meu garoto! Vem dar um beijo na sua me.
Ryan obedeceu, levantando-a do cho quando ela o abraou, fazendo com que soltasse uma gargalhada amorosa. - Patrick, Colleen, parem com essa implicncia antes que
eu d uma palmada em cada um. A gente tem visita. Giorgio, onde esto os modos? Desliga essa tev. Remo, para de latir.
E como todas as ordens foram cumpridas rapidamente e sem comentrios, Miranda teve uma dica de quem mandava na casa.
- Ryan, me apresente  sua jovem amiga.
- Sim, senhora. Maureen Boldari, amor da minha vida, essa  a dra. Miranda Jones. Linda, no , me?
- , muito. Bem-vinda  nossa casa, Miranda.
-  muita gentileza sua me receber aqui, sra. Boldari.
- Boas maneiras - Maureen disse, com um rpido aceno positivo. - Patrick, traz o antepasto, e a gente senta pra conversar um pouco. Ryan, mostre a Miranda
onde ela pode se refrescar.
Ryan encaminhou Miranda para fora da sala, cruzaram um pequeno corredor e entraram num banheiro rosa e branco. Ela o agarrou pelos punhos da camisa.
- Voc disse pra eles que a gente estava envolvido.
- A gente t envolvido.
- Voc sabe do que eu t falando - ela disse com um sussurro furioso. - Sua namorada? Isso  ridculo.
- Eu no disse que voc era minha namorada. - Divertido, ele baixou a voz e tambm sussurrou: - Eu tenho trinta e dois anos, eles querem me ver casado e cheio
de filhos.
- Por que voc no deixou claro que ns somos scios de negcios?
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- Voc  bonita, solteira e do sexo feminino. Eles no acreditariam que somos scios. Qual  o problema?
- Primeiro, sua irm olhou pra mim como se fosse me dar um soco no nariz, caso eu no amasse voc o suficiente. Segundo,  uma enganao. No que honestidade
e esse tipo de coisa signifiquem alguma coisa pra voc.
- Eu sempre sou honesto com a minha famlia.
- Com certeza. Sem dvida a sua me morre de orgulho de ter um filho ladro.
- Claro que sim.
Ela gaguejou, perdeu completamente a noo do que diria a seguir. - Voc t tentando me convencer de que ela sabe que voc rouba?
- Claro que sabe. Ela tem cara de idiota? - Ele balanou a cabea. - Eu no minto pra minha me. Agora, anda, vai. - Empurrou-a delicadamente para o banheiro
enquanto ela simplesmente olhava para ele, boquiaberta. - Eu t com fome.
No ficou com fome por muito tempo. Ningum ficaria. Havia comida suficiente para alimentar um pequeno e faminto exrcito da Terceira Guerra Mundial.
Como havia visita, fizeram a refeio na sala de jantar, com suas atraentes paredes listradas e uma linda mesa de mogno. A loua era de qualidade, os copos, de cristal,
e o vinho suficiente para um navio de guerra.
A conversa nunca se esgotava. Na verdade, se voc no fosse capaz de falar rpida e furiosamente, no havia lugar para suas palavras. Quando se deu conta de que
o nvel de seu copo estava sempre  beira da borda, Miranda deixou-o de lado e concentrou-se na comida.
Ryan estava certo quanto a uma coisa. Ela adorou o linguine da me dele.
Ela ficou em dia com as notcias da famlia. Michael, o segundo filho, dirigia a Galeria Boldari em San Francisco. Era casado com a
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namorada de faculdade e tinha dois filhos. O resto das informaes foi ofertado pelo av orgulhoso, e um olhar significativo para Ryan, ao tempo que levantava uma
das sobrancelhas para Miranda.
- Voc gosta de crianas? - Maureen perguntou para ela.
- Humm, gosto. - De uma maneira vaga e cuidadosa, Miranda pensou.
- Elas centram a vida da gente, as crianas. Do um propsito real pra vida, e celebram o amor entre um homem e uma mulher. - Maureen passou a cesta de pes
irresistveis para Miranda.
- Com certeza, voc tem razo.
- Por exemplo, a Mary Jo.
E Miranda foi informada sobre as virtudes de sua filha mais velha, Bridgit, dona de uma loja em Manhattan -me de trs filhos.
- Voc deve se orgulhar muito deles.
- So timos meninos. Educados. - Ela olhou para Ryan ao dizer isso. - Todos os meus filhos foram pra universidade. Patrick acabou de comear. Sabe tudo de
computadores.
- Jura? - Pareceu-lhe um assunto mais seguro; portanto, Miranda sorriu para ele. -  um campo fascinante.
-  como se eu jogasse videogames pra viver. Ah, Ry, j t com algumas das informaes que voc me pediu.
- timo.
- Que informaes? - Colleen parou de encarar Miranda e estreitou os olhos, desconfiada, em direo a Ryan.
- S dando uma geral num negcio, baby. - Ele apertou a mo da irm casualmente. - Me, voc se superou hoje.
- Colleen. - Maureen falou em tom baixo. Metlico. - Ns temos visita, me ajude a tirar a mesa. Eu fiz tiramisu, sua sobremesa favorita, Ry.
- A gente vai discutir isso - Colleen disse entre os dentes, mas se levantou obedientemente para retirar os pratos.
- Eu ajudo. - Miranda fez meno de se levantar, mas recebeu um sinal contrrio da anfitri.
- Hspede no trabalha. Voc fica sentada.
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- No se preocupa com a Colleen - Patrick disse assim que ela estava longe. - A gente sabe lidar com ela.
- Cala a boca, Patrick. - Apesar do sorriso de Ryan para Miranda, ela captou uma pitada de desconforto em seus olhos. - Acho que no comentei qual  a profisso
da Colleen.
- No, no comentou.
- Ela  da polcia. - Com um suspiro, ele se levantou. - Vou dar uma ajuda l com o caf.
- Ah, que timo! - s cegas, Miranda alcanou seu vinho.
Ela saiu de cena, obedecendo s regras da casa, e voltou para a sala depois da sobremesa e do caf. Como Giorgio se ocupasse de fazer-lhe perguntas sobre o seu trabalho
e o motivo de no ser casada, sua mente manteve-se comprometida. Ningum parecia incomodar-se com as palavras raivosas que vinham da cozinha.
Quando Colleen saiu de l, destemperada, Patrick simplesmente suspirou: - L vem ela, de novo.
- Voc prometeu, Ry. Voc deu sua palavra.
- E eu vou mant-la. - Obviamente frustrado, ele passou a mo no cabelo. - S t terminando o que j comecei, baby. Depois, acabou.
- E o que  que ela tem a ver com isso? - Apontou para Miranda.
- Colleen, no  educado apontar para as pessoas - Giorgio a repreendeu.
- Que inferno! - Depois de dizer algo desagradvel em italiano, Colleen encaminhou-se para fora da casa.
- Droga. - Ryan deixou escapar, e desculpou-se de Miranda com um sorriso. - Eu j volto.
- Humm... - Ela sentou-se por um momento, a ponto de se contorcer diante dos olhares de Giorgio e Patrick. - Vou ver se a sra. Boldari precisa de uma ajuda.
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Escapou em direo ao que esperava ser uma rea s. A cozinha era grande, arejada e ainda guardava o aroma acolhedor e amigvel da refeio. Com suas bancadas muito
limpas e o cho absolutamente branco, era a imagem perfeita de uma delicatssen.
Dezenas de desenhos incompreensveis feitos com lpis de cera povoavam a porta da geladeira. Havia uma fruteira em cima da mesa e cortinas cor de caf nas janelas.
Normalidade, foi a concluso de Miranda.
- Espero que voc quebre as regras e me deixe ajudar.
- Sente-se. - Maureen fez um gesto em direo  mesa. - Tome um caf. J, j eles terminam essa discusso. Eu devia dar uma surra nos dois por fazerem essa
cena na frente de uma visita. Minhas crianas. - Voltou-se para uma eficiente mquina de cappuccino e comeou a preparar uma xcara. - Eles so muito apaixonados,
inteligentes e absolutamente teimosos. Puxaram ao pai.
- Voc acha? Vejo muito de voc no Ryan.
Era a coisa certa a ser dita. Os olhos de Maureen tornaram-se acolhedores e amorosos. - O primeiro filho. No importa quantos venham depois, nenhum  como o primeiro.
A gente ama a todos, tanto que  inacreditvel que o nosso corao seja capaz de suportar. Mas s tem um primeiro. Um dia voc vai saber.
- Humm. - Miranda desistiu de fazer algum comentrio enquanto batia o leite. - Deve ser um pouco preocupante ter uma filha na polcia.
- Colleen, ela sabe o que quer. Nunca d um passo que no seja pra frente, aquela menina. Um dia, ela vai ser chefe. Voc vai ver. Ela anda furiosa com o
Ryan - continuou mantendo a conversa viva enquanto colocava uma xcara na frente de Miranda. - Ele vai dar a volta nela.
- Com certeza. Ele  muito sedutor.
- As meninas sempre correram atrs dele. Mas o meu Ryan  muito reservado. Ele est de olho em voc.
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Estava na hora de colocar as coisas s claras, Miranda decidiu.
- Sra. Boldari, acho que o Ryan no foi completamente claro sobre isso. Ns somos scios num negcio, s isso.
- Voc acha? - Maureen falou com placidez, e virou-se para colocar os pratos na lavadora. - Ele no parece bom o bastante pra voc?
- Ele parece muito bom, mas...
- Talvez por ter nascido no Brooklyn, e no na Park Avenue, ele no seja sofisticado o suficiente pra uma Ph.D.?
- No. Nada disso.  que...  que ns somos parceiros, s isso.
- Ele no beijou voc?
- Ele... eu... - Pelo amor de Deus, foi tudo em que pde pensar, e ela encheu a boca com o caf quente e fumegante para manter-se calada.
- Foi o que eu imaginei. Ficaria preocupada com meu menino, se no beijasse uma mulher bonita como voc. Ele gosta de inteligncia tambm. No  bobo, nem
vazio. Mas talvez voc no goste do beijo dele. Isso conta - acrescentou enquanto Miranda olhava fixamente para seu caf. - Se o homem no incendeia o seu sangue
com um beijo, vocs no vo ter um relacionamento feliz. O sexo  importante. Quem diz algo diferente disso  porque no experimentou bom sexo.
Meu Deus. Foi tudo em que conseguiu pensar.
- O que foi? Voc acha que eu no sei que meus meninos fazem sexo? Voc acha que eu sou tonta?
- Eu no transei com o Ryan.
- Por que no?
- Por que no? - Miranda s conseguia piscar enquanto Maureen fechava a lavadora e comeava a encher a pia para lavar as travessas. - Eu mal conheo o seu
filho. - Ela no podia acreditar que estivesse tendo essa conversa. - Eu no transo com todo homem que acho atraente.
- Bom. No quero meu menino saindo com mulheres fceis.
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- Senhora Boldari. -A vontade que lhe veio foi de bater com a cabea dela na mesa. - Ns no estamos saindo. Nossa relao  estritamente profissional.
- O Ryan no traz scios em casa pra comer o meu linguine.
Como no tinha nada a acrescentar a esse comentrio, Miranda
calou a boca novamente. Olhou com alvio quando Ryan e a irm cruzaram o corredor e foram em direo  cozinha.
- Desculpe. Mas a gente precisava deixar as coisas s claras.
- Tudo bem.
- Ento... - Colleen sentou-se  mesa e apoiou os ps na cadeira  sua frente. - Voc tem alguma idia mais consistente sobre quem pode ter roubado o bronze
verdadeiro?
Miranda simplesmente piscou os olhos. - Desculpe, o qu?
- O Ryan j me contou. Talvez eu possa ajudar a descobrir alguma coisa.
- Seis meses fora da academia e ela j  Sherlock Holmes. - Ryan inclinou o corpo, beijou a cabea da irm. - Quer que eu seque as travessas, mame?
- No.  a vez do Patrick. - Ela olhou em volta. - Algum roubou alguma coisa da sua amiga?
- Eu roubei - ele disse com facilidade, juntando-se s mulheres na mesa. - Acontece que era uma falsificao. A gente t tentando endireitar a situao.
- timo.
- Espera um minuto. - Miranda levantou as mos. - timo?  isso que voc tem a dizer? timo? Quer dizer que voc sabe que o seu filho  ladro?
- O qu? Voc acha que eu sou idiota? - Maureen secou as mos antes de lev-las  cintura. -  lgico que eu sei.
- Eu disse que ela sabia - Ryan reforou.
- Disse, mas... - Ela simplesmente no acreditara. Confusa, mudou de posio e observou o rosto bonito de Maureen. - E tudo bem pra voc? Sem problemas? E
voc - apontou para Colleen -, voc  policial. Seu irmo rouba. Como  que vocs dois se resolvem?
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- Ele t se aposentando. - Colleen levantou os ombros. - Um pouco tarde demais.
- Eu no entendo. - Ela pressionou as mos contra a cabea. - Como  que voc pode encorajar o seu filho a ser um fora da lei?
- Encorajar? - Maureen deu aquela gargalhada plena novamente. - Quem precisa fazer isso? - Decidida a dar  visita uma explicao, ela se desfez do pano de
prato. - Voc acredita em Deus?
- O qu? O que uma coisa tem a ver com a outra?
- No precisa discutir, basta responder. Voc acredita em Deus?
Ao lado de Miranda, Ryan sorriu. Ela no poderia saber, mas, quando sua me usava aquele tom, significava que, definitivamente, gostava da pessoa.
- Tudo bem, acredito.
- Quando Deus lhe d um talento,  um pecado no fazer uso dele.
Miranda fechou os olhos por alguns segundos. - Voc t dizendo que Deus deu um talento pro Ryan, e que seria um pecado se ele no invadisse prdios pra roubar?
- Deus poderia ter dado a ele talento pra msica, como fez com a minha Mary Jo, que toca piano como um anjo. Deus deu esse talento a ele, em vez disso.
- Sra. Boldari...
- No adianta discutir - Ryan murmurou. - Voc s vai conseguir arrumar uma dor de cabea.
Ela fez uma careta para ele. - Sra. Boldari - tentou mais uma vez. - Me encanta a sua lealdade ao seu filho, mas...
- Voc sabe o que ele faz com esse talento?
- Sei, pra falar a verdade.
- Ele compra esta casa pra famlia, porque a antiga vizinhana no  mais segura. - Ela abriu os braos para englobar a cozinha deliciosa, depois balanou
um dedo. - Ele manda os irmos e as irms pra faculdade. Nada disso seria possvel. Por mais que eu e
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Giorgio trabalhemos duro, no se mandam seis filhos pra universidade com salrio de professor. Deus deu a ele um talento, um dom - disse novamente, e apoiou a mo
no ombro de Ryan. - Voc quer discutir com Deus?
Ryan estava certo mais uma vez. Ela teve dor de cabea.
Suportou-a em silncio, durante a volta para Manhattan. No tinha certeza se o que a chocava mais era o fato de Maureen ter defendido a escolha de carreira do filho
ou os abraos carinhosos que cada membro da famlia lhe dera, antes de irem embora.
Ryan deixou-a com seu silncio. Quando pararam em frente ao seu prdio, entregou as chaves ao porteiro. - Oi, Jack. Por favor, providencia a devoluo do carro no
aeroporto, pode ser? E pede pra mandar levarem a bagagem da dra. Jones l pro meu apartamento, t tudo na mala.
- Com certeza, sr. Boldari. Bem-vindo de volta. - A nota de vinte dlares que foi discretamente deslizada de uma palma  outra fez com que Jack abrisse um
sorriso. - Boa-noite.
- Eu no entendo a sua vida - Miranda comeou a dizer ao ser escoltada por um lobby elegante, decorado com antigidades e objetos de arte.
- Tudo bem. Eu tambm no entendo a sua. - Ele entrou no elevador e usou uma chave para acessar o ltimo andar. - Voc deve estar exausta. O Jack vai mandar
suas coisas num minuto. A voc vai ficar mais  vontade.
- A sua me queria saber por que eu no transava com voc.
- Eu me pergunto a mesma coisa o tempo todo. - A porta do elevador se abriu numa sala de estar ampla, toda em tons de azul e verde. Janeles de vidro ofereciam
uma vista maravilhosa de Nova York.
Obviamente, ele se permitia o deleite das coisas sofisticadas, ela concluiu depois de uma olhada rpida ao redor. Luminrias art dco, mesas Chippendale, cristais
Baccarat.
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Perguntou-se o quanto daquilo ele teria roubado.
- Tudo comprado legalmente - ele disse, lendo perfeitamente os pensamentos dela. - Bem, menos aquele lustre Ert, mas no consegui resistir. Quer tomar alguma
coisa, um ch quentinho?
- No.
O cho de madeira cor de mel brilhante era enfeitado pelo mais lindo tapete persa que ela j vira. Os quadros nas paredes iam de um nebuloso Corot a adorveis aquarelas
de paisagens dos campos irlandeses.
- Trabalho da sua me?
- . Ela  boa, no ?
- Muito. Intrigante, mas muito boa.
- Ela gostou de voc.
Com um suspiro, Miranda foi at a janela. - Gostei dela tambm, de alguma maneira.
Sua prpria me nunca a abraara daquele jeito, com um aperto caloroso que indicava aprovao e afeto. Seu prprio pai nunca lhe sorrira com aquele brilho vivo nos
olhos, como fizera o pai de Ryan.
Perguntava-se como, apesar de tudo, a famlia dele parecia to mais normal e feliz que a sua.
- Deve ser a sua bagagem. - Quando a campainha tocou, Ryan dirigiu-se at o interfone e liberou o elevador. A entrega foi feita rapidamente, ele deixou as
malas onde estavam e atravessou a sala para encontr-la.
- Voc t tensa - ele murmurou antes de comear a massage-la nos ombros. - Esperava que uma noite com a minha famlia fosse te relaxar.
- Como  que algum consegue relaxar com toda aquela energia em volta? - Inclinou-se para trs, indo de encontro s mos dele, antes que pudesse evitar. -
Voc deve ter tido uma infncia interessante.
- Tive uma infncia incrvel. - Longe da vida de privilgios dela, e, pelo que parecia, com muito mais amor. - Dia longo - ele
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murmurou, e, como percebia que ela comeava a relaxar, inclinou-se para dar-lhe um beijo no pescoo.
- Muito. No faz isso.
- Puxa, eu s tava querendo chegar... aqui. - Ele a virou e cobriu a boca de Miranda com a sua, deixando-a sem flego.
A me dele lhe dissera que beijos deveriam incendiar o sangue. O dela fervera, borbulhando e esquentando a pele, subindo-lhe  cabea, percorrendo rapidamente suas
veias.
- No - ela repetiu, mas foi um protesto fraco, facilmente ignorado pelos dois.
Ele podia sentir o desejo tomando conta dela. No importava que no fosse por ele em particular. No deixaria que importasse. Ele a queria, queria ser o escolhido
para quebrar aquele escudo e descobrir o vulco que tinha certeza existir dentro dela.
Algo nela o atraa com uma fora lenta e constante que se recusava a ser ignorada.
- Me deixa tocar em voc - pediu, mas j a tocava, suas mos percorrendo as laterais do corpo dela em busca dos seios. - Me deixa ter voc.
Ah, sim. O alvio preencheu sua mente, como se procurasse um lugar para descansar. Toque em mim. Me possua. Meu Deus, porfavor, no me deixe pensar.
- No. - Foi um choque ouvir a prpria voz pronunciando essa palavra. Dar-se conta de que estava se afastando, mesmo que desejasse permanecer prxima. - Isso
no vai dar certo.
- Tava dando muito certo pra mim. - Ele a segurou pelo cs da cala e deu-lhe um puxo. - E acho que d pra dizer que tava funcionando muito bem pra voc
tambm.
- Voc no vai me seduzir, Ryan. - Ela se concentrou na irritao que viu nos olhos dele e ignorou os gritos do prprio corpo clamando pela liberao que
os lbios dele prometiam. - Eu no vou deixar. Se a gente vai concluir esse acordo com sucesso, vai ter que ser no nvel profissional. E s.
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- Eu no gosto dessa idia.
-  esse o acordo, e eu no estou disposta a negociar.
- Voc nunca morde a lngua quando fala nesse tom? - Ele enfiou as mos nos bolsos enquanto ela o estudava perniciosamente. - Ok, dra. Jones, s negcios.
Vou mostrar o seu quarto.
Ele foi buscar a bagagem dela e levou as coisas para o segundo andar por uma escada em caracol de metal e degraus pintados de verde. Depois, colocando as malas no
cho ao lado da porta, fez um aceno de cabea. - Voc vai ficar confortvel e preservada aqui. A gente viaja amanh de noite. Assim eu tenho tempo de apertar alguns
parafusos por aqui. Dorme bem - acrescentou e fechou a porta antes que ela mesma o fizesse.
Ela teve um estremecimento e seus olhos se arregalaram quando ouviu o barulho de chaves trancando a porta. Num pulo, comeou a tentar girar a maaneta.
- Seu filho da me! Voc no pode me trancar aqui!
- S um pouquinho de precauo, dra. Jones - ele disse com a voz suave como seda. - S pra garantir que voc vai ficar onde eu te deixei at amanh.
Ele se afastou assoviando, enquanto ela batia os ps e jurava vingana.
Captulo Quinze
Mesmo sabendo ser um gesto intil, Miranda trancou a porta do banheiro de manh. Tomou uma ducha rpida, esforando-se por manter um olho na porta, caso Ryan quisesse
fazer joguinhos.
No toleraria mais esses comportamentos.
Quando terminou o banho, e sentiu-se segura dentro do roupo, relaxou. Queria estar totalmente vestida, com uma maquiagem que esbanjasse confiana e o cabelo cuidadosamente
arrumado, quando o encontrasse novamente. No haveria, decidira, pijama e conversa amena na mesa de caf da manh.
Obviamente, ele precisaria deix-la sair do quarto, primeiro. O canalha.
- Me deixa sair daqui, Boldari - pediu e bateu avidamente na porta.
A resposta foi o silncio. Irritada, bateu com mais fora, gritou mais alto e comeou a inventar ameaas criativas.
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Seqestro, resolveu; adicionaria seqestro  lista de acusaes contra ele. Desejou que os outros presidirios tivessem prazer em tortur-lo, em qualquer que fosse
a instituio federal em que ele passasse o resto da vida.
Frustrada, comeou a chacoalhar a maaneta. Ela virou com facilidade em sua mo, o que fez sua fria transformar-se em constrangimento.
Saiu do quarto e, cuidadosamente, investigou o corredor com o olhar. As portas estavam abertas, portanto adentrou o primeiro cmodo que viu, disposta a confrontar
Ryan.
Deparou com uma biblioteca coberta de estantes do cho ao teto, cheias de livros, aconchegantes poltronas de couro, uma pequena lareira enfeitada com um relgio
de pndulo na bancada. Uma cristaleira em forma de hexgono guardava uma impressionante coleo de garrafinhas chinesas. Ela torceu o nariz. Ele pode ter bom gosto
e ser culto, mas, ainda assim, era um ladro.
Tentou a porta seguinte e encontrou o quarto dele. A grande cama de dossel com talha rococ era impressionante, mas o fato de estar muito bem-feita, coberta por
uma manta perolada, fofinha e cuidadosamente esticada foi o que fez suas sobrancelhas arquearem. Das duas, uma: ou ele no dormira ali, ou sua me o treinara muito
bem.
Depois de ter conhecido Maureen, seu voto foi para a segunda opo.
Um quarto bastante masculino, concluiu, apesar de sutilmente sensual com paredes cor de jade e rodaps marfim. Silhuetas sinuosas de mulheres art dco, estilo que
parecia agrad-lo muito, enfeitavam as luminrias de vidro fosco que suavizavam a iluminao. Havia uma poltrona confortvel e convidativa de frente para a lareira,
de mrmore rosa. Limoeiros em vasos enormes ornavam a janela, agora com as cortinas abertas para deixar que a luz do sol e a paisagem invadissem o ambiente.
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A cmoda era uma Duncan Phyfe, e, alm de um bronze do deus persa Mithras, viam-se vrias moedas espalhadas, o canhoto de um ingresso, uma caixa de fsforos e outros
objetos comuns aos bolsos masculinos.
Ela ficou tentada a remexer os armrios, abrir as gavetas, mas resistiu. No seria bom se ele entrasse enquanto ela bisbilhotava, poderia dar a impresso de que
estava muito interessada.
Havia um terceiro quarto, obviamente o escritrio de um homem que podia pagar pelo bom e pelo melhor para trabalhar em casa. Dois computadores, os dois com impressoras
a laser, um fax e fotocopiadora, um telefone de duas linhas, armrios de madeira. Estantes robustas de carvalho repletas de enfeites e porta-retratos com fotos da
famlia.
As crianas eram provavelmente sobrinhas e sobrinhos, pensou. Rostos encantadores fazendo caretas para a cmera. Uma mulher de semblante sereno e aparncia maternal
segurando uma criana parecia ser sua irm Bridgit, o homem esguio e belo com olhos tpicos dos Boldari deveria ser Michael, e a mulher que ele abraava era certamente
a esposa. Eles moravam na Califrnia, Miranda lembrou.
Havia uma fotografia de Ryan com Colleen, sorrisos idnticos, e uma foto de toda a famlia, obviamente tirada no Natal. As luzes da rvore estavam fora de foco atrs
do amontoado de rostos.
Eles pareciam felizes, ela refletiu. Unidos e nem um pouco enrijecidos, como as pessoas costumam aparecer em fotos posadas. Percebeu-se observando-os, estudando
uma outra fotografia em que Ryan beijava a mo da irm, esta com um vestido de noiva de princesa de contos de fadas e um brilho no olhar que combinava com o traje.
A inveja percorreu seu corpo antes que pudesse impedir. No havia fotografias em sua casa que captassem momentos sentimentais em famlia.
Desejou, tolamente, que pudesse escorregar para dentro de um daqueles porta-retratos, enfiar-se debaixo de um daqueles braos acolhedores e sentir o que eles sentiam.
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Amor.
Afastou tais pensamentos e deu as costas, determinada, para as estantes. No era hora de especular sobre os motivos que faziam a famlia de Ryan ser to calorosa
e a sua, to fria. Precisava encontr-lo e dizer o que pensava enquanto sua irritao ainda estava fresca.
Dirigiu-se ao andar de baixo, mordendo a lngua para impedi-la de mover-se dentro da boca e pronunciar o nome dele. No queria dar-lhe essa satisfao. Ele no estava
na sala, nem no gabinete luxuosamente decorado com a enorme televiso, o som sofisticado e a mquina de pinball - apropriadamente apelidada de "Polcia e Ladro".
Imaginou que ele achava aquilo irnico.
Ele tambm no estava na cozinha. Mas havia uma cafeteira cheia at a metade.
Ele no estava no apartamento.
Pegou o telefone num impulso de ligar para Andrew e contar tudo. No havia sinal. Depois de alguns improprios, dirigiu-se novamente  sala e apertou o boto do
elevador. Silncio total. Com dio, tentou abrir a porta, mas encontrou-a trancada.
Os olhos estreitos, tentou o interfone, mas no ouviu nada alm de rudos de esttica.
O desgraado destrancara o quarto, mas somente expandira o permetro de sua cela.
S depois de uma da tarde ouviu o rudo discreto do elevador. Ela no ficara  toa pela manh. Aproveitara a oportunidade para vasculhar cada centmetro do apartamento.
Remexera os armrios sem culpa. Ele, definitivamente, tinha uma inclinao para os designers italianos. Inspecionara suas gavetas. Ele preferia cuecas de seda, camisas
e suteres de fibra natural.
As escrivaninhas - do quarto, da sala e do escritrio - estavam todas lacradas, coisa irritante. Ela perdera um bocado de tempo
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tentando destranc-las com grampos de cabelo. As senhas dos computadores a haviam bloqueado, a varanda de pedra que dava para a sala de estar a encantava e a cafena
que consumira enquanto bisbilhotava a deixara acelerada.
Estava mais do que preparada quando ele entrou pela porta do elevador.
- Como  que voc ousou me deixar trancada aqui? Eu no sou uma prisioneira.
- S um pouquinho de precauo. - Sentou-se ao lado da pasta e das sacolas de compra que carregava.
- E qual  o prximo passo? Algemas?
- No at a gente se conhecer melhor. Como foi o seu dia?
- Eu te...
- Odeia, abomina e despreza. - Ele completou a frase enquanto tirava o casaco. - T tudo sob controle. - Pendurou o casaco zelosamente. Ela estava certa,
a me o treinara muito bem. - Tive umas coisinhas pra resolver na rua. Espero que voc tenha ficado  vontade enquanto eu fiquei fora.
Ele esperou at que ela chegasse  beira da escada. - A Senhora Sombria est sendo mantida num depsito do Bargello, at que se descubra de onde vem e quem  o escultor.
Ela parou, exatamente como ele previra, e voltou-se lentamente.
- Como  que voc sabe?
-  meu trabalho saber. Agora, com ou sem voc, eu vou pra Itlia e vou liberar essa pea. Eu posso, sem nenhuma dificuldade, encontrar outra pessoa pra fazer
os testes pra mim e descobrir o que aconteceu e como. Se voc sair do jogo, sai completamente.
- Voc nunca vai conseguir sair do Bargello com o bronze.
- Ah, vou. - Ele sorriu, ganancioso. - Vou sim. Voc pode dar uma olhada nela, depois de passar pela minha mo, ou pode voltar pro Maine e esperar seus pais
decidirem que j  hora de voc poder sair do castigo.
Ela deixou passar o ltimo comentrio. Achou que estava bem prximo da verdade. - Como  que voc vai tir-la de l?
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- Isso  problema meu.
- Se eu vou ter que concordar com esse plano imbecil, preciso saber dos detalhes.
- Voc vai saber o que precisa durante o processo.  esse o acordo. Dentro ou fora, dra. Jones? O tempo t passando.
Ela percebeu que esse era o ponto onde cruzara a fronteira, no havia mais volta. Ele a estava observando, esperando, com arrogncia suficiente no olhar para arranhar-lhe
o orgulho.
- Se voc for capaz de fazer um milagre e entrar no Bargello, no vale pegar mais nada alm do bronze. No  uma liquidao, ok?
- Ok.
- E se a gente conseguir pegar o bronze, eu assumo a responsabilidade.
- Voc  a cientista - ele acrescentou com um sorriso. Ela receberia uma cpia, pensou. Ele queria a pea original. - Esse  o acordo - repetiu. - Dentro
ou fora?
- Dentro. - Suspirou com fervor. - E que Deus me ajude!
- timo. Agora... - Ele abriu a pasta, jogou alguns objetos sobre a mesa. - Isso  pra voc.
Ela pegou um livrinho azul-escuro. - Esse no  meu passaporte.
- Agora .
- Esse no  o meu nome, como  que voc conseguiu essa foto? - Olhou para a prpria imagem. - Essa  a foto do meu passaporte.
- Exatamente.
- No, do meu passaporte. E da minha carteira de motorista - ela continuou, finalmente compreendendo. - Voc roubou minha carteira!
- Peguei emprestada. Alguns itens da sua carteira - ele corrigiu.
Ela tremeu. No havia outra palavra para aquilo. - Voc entrou no meu quarto enquanto eu estava dormindo e pegou as minhas coisas.
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- Voc estava inquieta - ele lembrou. - Se virando na cama de um lado pro outro. Acho que voc devia tentar uma meditao pra liberar um pouco dessa tenso.
- Isso  desprezvel.
- No. Necessrio,  diferente. Seria desprezvel se eu tivesse me jogado na sua cama. Divertido, mas desprezvel.
Ela respirou fundo pelo nariz, olhou novamente para baixo.
- E o que voc fez com os meus documentos verdadeiros?
- Guardei. Voc no vai precisar deles at a gente voltar. Eu s t pensando na segurana, darling. Se a polcia t investigando as coisas,  melhor no saberem
que voc saiu do pas.
Ela baixou o passaporte. - Eu no sou Abigail O'Connell.
- Sra. Abigail O'Connell, ns estamos na segunda lua de mel. E acho que te chamo de Abby.  mais ntimo.
- Eu no vou fingir que sou casada com voc. Eu prefiro ser casada com um psicopata.
Ela era politicamente correta, ele lembrou. Um pouco de pacincia seria importante. - Miranda, a gente vai viajar junto, vai dividir um quarto de hotel. Um casal
no vai levantar suspeita nem perguntas. Fica tudo mais simples assim. A partir de agora, durante um tempinho, eu sou Kevin O'Connell, seu marido adorado. Sou corretor
da bolsa, voc trabalha com publicidade. A gente t casado h cinco anos, mora no Upper West Side e anda pensando em comear uma famlia.
- Ah, ento a gente  um casal yuppie.
- No se usa mais esse termo, mas, basicamente,  isso. Eu tambm providenciei uns cartes de crdito pra voc.
Ela olhou para a mesa. - Como voc conseguiu esses documentos?
- Contatos - ele disse com naturalidade.
Ela o imaginou num quarto escuro e fedorento, ao lado de um homem enorme com uma tatuagem de cobra, mau hlito, que forjava documentos e cometia assaltos  mo armada.
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Nada perto da residncia elegante em New Rochelle, onde o primo do contador de Ryan falsificava identidades no poro.
-  ilegal entrar num pas estrangeiro com documentos falsos.
Ele a encarou por dez segundos, depois caiu na gargalhada.
- Voc  inacreditvel. Juro. Agora, eu preciso de uma descrio detalhada do bronze. Tenho que ser capaz de reconhecer a esttua rapidamente.
Ela o observou, perguntando-se como algum podia acompanhar um homem que ia da piada aos negcios num piscar de olhos.
- Noventa centmetros e meio de altura, vinte e quatro quilos e seiscentos gramas, uma mulher nua com ptina verde-azulada prpria desse tipo de bronze e
mais de quinhentos anos.
Enquanto falava, a imagem da pea cravava-se em sua mente.
- Ela est em p, apoiada nas pontas dos dedos, braos pra cima. Seria mais fcil se eu fizesse um desenho pra voc.
- timo. - Ele foi at um armrio, pegou um bloco e lpis numa gaveta. - O mais preciso que voc puder. Detesto cometer erros.
Miranda sentou-se e, com rapidez e habilidade, as sobrancelhas arqueadas, transportou a imagem de sua cabea para o papel. O rosto, aquele sorriso escorregadio e
sensual, os dedos para cima em busca de algo, o corpo fluido em arco.
- Lindo. Absolutamente lindo - ele murmurou, impressionado com o poder do desenho, e inclinou-se sobre o ombro de Miranda. - Voc  boa. Voc pinta?
- No.
- Por que no?
- Porque no. - Ela precisou se esforar para no fazer um movimento brusco com o ombro. O queixo dele quase descansava sobre ela enquanto rabiscava os ltimos
detalhes.
- Voc tem talento. Por que desperdiar isso?
- Eu no desperdio. Um bom desenho pode ser muito til no meu trabalho.
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- Um talento artstico devia ser um prazer na sua vida. - Ele pegou o desenho, observou-o por um momento. - Voc tem talento.
Ela colocou o lpis na mesa e se levantou. - O desenho t bastante prximo da realidade. Se voc tiver a sorte de esbarrar no bronze, vai reconhecer na hora.
- Sorte no tem nada a ver com isso. - Passou o dedo pela face dela delicadamente. - Voc parece um pouco com ela, o formato do rosto, a compleio. Ia ser
muito interessante ver voc com esse sorriso evasivo na boca. Voc no sorri com freqncia, Miranda.
- No tenho tido muitos motivos pra sorrir ultimamente.
- Eu acho que a gente pode mudar isso. Nosso carro vai chegar daqui a mais ou menos uma hora, Abby. Aproveita pra ir se acostumando com o seu novo nome. E
se voc acha que no vai se lembrar de me chamar de Kevin... - piscou para ela - basta me chamar de amor.
- Eu no vou fazer isso.
- Ah, s mais uma coisa. - Ele tirou uma pequena caixa de jias do bolso. Quando a abriu, o brilho de diamantes fez Miranda piscar. - Pelo poder investido
em mim, e por a vai... - ele disse, tirando o anel de dentro da caixa e pegando a mo dela.
- No.
- Deixa de ser boba.  s um presente.
Era impossvel olhar para baixo e no ficar impressionada quando ele colocou o anel em seu dedo. A aliana era cravejada de diamantes que brilhavam como gelo. -
E que presente. Imagino que seja roubado.
- Assim voc me ofende. Eu tenho um amigo dono de joalheria. Comprei pelo preo de atacado. Eu preciso fazer as malas.
Ela se ocupou do anel enquanto ele subia as escadas. Era uma idia absurda, mas desejou que a joia no tivesse cabido to perfeitamente em seu dedo. - Ryan? Isso
vai dar certo?
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Ele piscou para ela. - Com certeza.
Ele soube imediatamente que ela mexera em suas coisas. Fora cuidadosa, mas no o suficiente. De qualquer maneira, no teria visto as pequenas marcas reveladoras
que ele deixara espalhadas pelo quarto - a mecha de cabelo colocada nas maanetas do armrio, o pedacinho mnimo de durex no topo da cmoda. Era um hbito antigo,
que nunca perdera, apesar de toda a segurana do prdio.
Simplesmente balanou a cabea. Ela no teria encontrado nada que ele no quisesse que encontrasse.
Abriu o armrio, pressionou um mecanismo escondido sob os trilhos e adentrou seu quarto privativo. No precisaria de muito tempo para separar as coisas de que precisaria.
J pensara em tudo. Seriam necessrios os utenslios para violar fechaduras, os equipamentos eletrnicos importantes para executar o servio. O rolo de corda fina
e flexvel, luvas cirrgicas.
Cola para cabelo, tinta para cabelo, algumas cicatrizes, dois pares de culos. Ele duvidava que o trabalho pedisse algum disfarce, e, se tudo corresse bem, no precisaria
de mais nada alm das ferramentas bsicas. Mas preferia estar preparado para qualquer eventualidade.
Guardou as peas cuidadosamente no fundo de sua mala. Acrescentou o que um homem em viagem romntica de frias  Itlia levaria, completando-a com roupas e acessrios.
Em seu escritrio, configurou seu laptop, escolheu os arquivos desejados. Utilizou sua lista de memria enquanto aprontava tudo, adicionando alguns itens que pegara
na Spy 2000, no centro da cidade.
Satisfeito, trancou os documentos verdadeiros no cofre, atrs das obras completas de Edgar Allan Poe - o pai do mistrio -, e, num impulso, pegou a aliana de ouro
que guardava ali.
Era a aliana de seu av. Sua me lhe dera o anel durante o funeral, dois anos antes. Apesar de ter tido a oportunidade de usar uma aliana como disfarce em outras
ocasies, nunca o fizera.
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Sem questionar os motivos de querer faz-lo agora, colocou o anel no dedo, trancou o cofre e voltou para sua bagagem.
O interfone tocou, anunciando a chegada do carro, e ele desceu com as malas. A bagagem de Miranda, seu computador e sua pasta estavam cuidadosamente arrumados. Ryan
arqueou as sobrancelhas.
- Gosto de mulheres que ficam prontas na hora. Tudo pronto?
Ela respirou fundo. Chegou a hora, pensou. - Vamos indo?
Detesto correria de aeroporto.
Ele sorriu. - Essa  a minha garota - disse e abaixou-se para pegar uma das malas.
- Eu posso levar as minhas coisas. - Ela afastou a mo dele e pegou a bagagem. - E eu no sou a sua garota.
Ele encolheu os ombros e afastou-se, esperando at que ela conseguisse dar conta de recolher a sua parte. - Vou logo atrs de voc, dra. Jones.
ElA NO DEVERIA TER FICADO SURPRESA COM O FATO DE ELE ter conseguido dois lugares na primeira classe em to pouco tempo. Como se assustasse toda vez que a aeromoa
a chamava de sra. O'Connell, Miranda enterrou a cabea nas pginas de Kafka, imediatamente depois da decolagem.
Ryan passou algum tempo com o ltimo romance de Lawrence Block. Depois tomou um champanhe e assistiu ao Arnold Schwarzenegger dando socos e pontaps na sua tela
de vdeo. Miranda bebeu gua mineral e tentou concentrar-se num documentrio sobre a natureza.
Na metade do Atlntico, a noite finalmente a venceu. Fazendo o mximo para ignorar seu companheiro de assento, baixou o encosto de sua poltrona, esticou-se e ordenou
ao crebro que dormisse.
Sonhou com o Maine, com os penhascos e o mar batendo nas rochas, e com uma nvoa cinza que apagava as sombras. A luz piscava ao longe, embaada, e ela a usava como
guia para chegar ao farol.
240
Estava s, completamente s.
E tinha medo, muito medo.
Aos tropeos, lutava para no perder o flego, por mais que seus pulmes ardessem. Uma gargalhada de mulher, suave e ameaadora, a provocava tanto que ela comeou
a correr.
E, correndo, encontrou-se  beira do penhasco, prestes a cair dentro do mar bravio.
Quando uma mo a agarrou, ela a segurou com fora. No me deixe s.
Ao lado dela, Ryan observava suas mos juntas. As dela eram tensas mesmo dormindo. O que a perseguia?, perguntou-se, e o que a impedia de pedir ajuda?
Ele acariciou os dedos dela at que relaxassem. Mas manteve as mos dela dentro das suas enquanto fechava os olhos e esperava o sono chegar, e achou o fato curiosamente
confortador.
Captulo Dezesseis
S tem um quarto. - Miranda no prestou ateno em nada na adorvel sute, alm da nica e graciosa cama king-size coberta por uma elegante manta branca.
No gabinete, Ryan abriu a porta dupla e adentrou uma enorme varanda onde soprava uma brisa de primavera e o sol italiano brilhava sobre os telhados vermelhos.
- Olha s essa vista. A varanda foi um dos motivos de eu ter escolhido este quarto de novo. Eu podia morar aqui.
- timo. - Ela abriu as portas do quarto e saiu. - Por que voc no planeja exatamente isso? - No se deixaria seduzir pela vista de tirar o flego, nem pelos
alegres gernios que enfeitavam o parapeito. Nem pelo homem que se inclinava sobre eles, parecendo ter nascido para estar precisamente naquele lugar.
- S tem um quarto - ela repetiu.
- A gente  casado. Falando nisso, que tal voc me trazer uma cerveja?
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- Com certeza, tem um tipo de mulher que acha voc irresistvel e divertido, Boldari. Acontece que eu no sou desse tipo. - Ela foi at o parapeito. - S
tem uma cama no quarto.
- Se voc  tmida, a gente pode se revezar no sof do gabinete. Voc primeiro. - Ele passou um brao em volta dos ombros de Miranda, apertando-a amigavelmente.
- Relaxa, Miranda. Conquistar voc ia ser divertido, mas no  a minha prioridade. Uma vista como essa compensa uma viagem longa de avio, no compensa?
- A vista no  a minha prioridade.
- Ela t aqui, melhor apreciar. Tem um casal jovem que mora ali, naquele apartamento. - Ryan a girou e apontou para uma janela no ltimo andar de um prdio
amarelo-claro  esquerda. - Eles fazem jardinagem juntos nesse terrao nas manhs de sbado. E teve uma noite em que at transaram na varanda.
- Voc ficou assistindo?
- S at ter certeza de que era isso mesmo. Eu no sou um pervertido.
- O veredicto ainda t em aberto nesse caso. Ento voc j veio aqui. - Kevin O'Connell ficou uns dias aqui, ano passado.  por isso que a gente t 
usando o quarto de novo. Num hotel bem administrado como este, os funcionrios
normalmente se lembram dos hspedes, ainda mais se eles do boas gorjetas, e o Kevin  uma alma caridosa.
- Por que voc veio aqui como Kevin O'Connell?
- Uma relquia que tinha um pedao de osso do Giovanni Battista.
- Voc roubou uma relquia? Uma relquia religiosa? Um osso de So Joo Batista?
- Um pedao. Caramba, tinha pedaos dele espalhados pela Itlia inteira, principalmente aqui, onde ele  o santo patrono. - No conseguiu resistir e deu uma
gargalhada diante do choque dela.
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- Um cara muito popular, o velho Joo. Ningum vai sentir falta de uma ou duas lasquinhas de osso.
- Eu no sei o que dizer - Miranda murmurou.
- O meu cliente estava com cncer, e convencido de que a relquia representava a cura. Claro que ele morreu, mas viveu nove meses mais do que os mdicos tinham
previsto. Ento, quem sabe? Vamos abrir as malas. - Deu um tapinha no ombro dela. - Quero tomar uma chuveirada; depois, ao trabalho.
- Trabalho?
- Eu tenho que comprar umas coisas.
- Eu no vou passar o dia procurando Ferragamos pra sua irm.
- No vai demorar muito, e eu preciso comprar umas coisi-nhas pro resto da famlia.
- Olha s, Boldari, eu acho que a gente tem uma coisa mais importante pra fazer do que ficar comprando presentinhos pra sua famlia.
Ele a deixou furiosa quando se debruou e beijou-lhe a ponta do nariz. - No precisa se preocupar, darling. Eu compro alguma coisa pra voc tambm. Melhor usar um
sapato confortvel - aconselhou-a e dirigiu-se para o chuveiro.
ELE COMPROU UMA PULSEIRA DE OURO COM ESMERALDAS numa loja na Ponte Vecchio - o aniversrio de sua me estava prximo - e pediu que mandassem a joia para o hotel.
Obviamente, divertindo-se com a multido de turistas e os caadores de promoes que enchiam a ponte sobre o plcido Arno, comprou tambm cordes de ouro italiano,
brincos de marcassita e broches de estilo florentino. Para as irms, disse a Miranda, que esperava impaciente, recusando-se a se deixar seduzir pelo brilho das vitrines.
- Se voc ficar parada a tempo suficiente - ele comentou -, vai poder ouvir todas as lnguas do mundo.
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- A gente j ficou tempo suficiente?
Ele passou o brao em volta de seus ombros e balanou a cabea quando ela enrijeceu o corpo. - Voc nunca se deixa levar pelo momento, dra. Jones?  Florena e a
gente t na ponte mais antiga da cidade. O sol est brilhando. Respira - ele sugeriu -, respira fundo.
Ela quase o fez, quase inclinou-se sobre ele e fez exatamente o que sugerira. - A gente no t aqui por causa da atmosfera - disse, em tom que esperava ser frio
o suficiente para acabar com o entusiasmo dele e com suas prprias necessidades, to pouco caractersticas.
- A atmosfera  a mesma aqui. A gente tambm. - Sem susto, ele pegou sua mo e a puxou pela ponte.
As pequenas lojas e bancas pareciam deleit-lo, Miranda percebeu, ao v-lo barganhar por bolsas de couro e caixas de presente perto da Piazza delia Repubblica.
Ela ignorou sua sugesto de comprar algo para si, e, voltando a ateno para a arquitetura da cidade, esperou por ele em silncio aterrador.
- Isso  pro Robbie. - Ele pegou uma pequena jaqueta de couro preta com acabamento prateado numa arara.
- Robbie?
- Meu sobrinho. Ele tem trs anos. Vai adorar isso.
Era muito bem-feita, cara, sem dvida, e adorvel o suficiente para faz-la contrair os lbios para impedir um sorriso. - No  nada prtica pra uma criana de trs
anos.
- Foi feita pra algum de trs anos - ele corrigiu. -  por isso que  pequenininha. Quanto? - perguntou ao vendedor, dando incio ao jogo.
Quando terminou a rodada, dirigiu-se para o oeste. Mas, se esperava tent-la com a moda impecvel da Via dei Tornabuoni, estava subestimando a fora de vontade e
a determinao de Miranda.
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Comprou trs pares de sapatos Ferragamo, catedral dos calados. Ela no comprou nada - nem mesmo um par perolado que chamara sua ateno e despertara seu desejo.
Os cartes de crdito na sua bolsa, lembrou, no levavam seu nome. Andaria descala, mas no os usaria.
- A maioria das mulheres - ele observou enquanto andavam na direo do rio - estaria carregando uma dzia de sacolas agora.
- Eu no sou a maioria das mulheres.
- J percebi. Mas voc ia ficar maravilhosa com um vestido de couro.
- Nas suas fantasias patticas, Boldari.
- As minhas fantasias no tm nada de pattico. - Adiantou-se  entrada de uma loja e abriu a porta de vidro.
- O que  agora?
- No posso vir a Florena e no comprar nada de arte.
- A gente no veio aqui pra comprar nada. Era pra ser uma viagem de negcios.
- Relaxa. - Ele pegou a mo de Miranda, levando-a rapidamente aos lbios. - Confia em mim.
- Essa  uma frase que no se aplica a voc.
A loja estava repleta de reprodues de esculturas em bronze e mrmore. Deuses e deusas encantavam turistas, fazendo-os lanar mo de seus cartes de crdito por
uma cpia de alguma pea de artista famoso, ou pela oferta de algum novo.
Com a pacincia se esgotando, Miranda preparou-se para perder mais uma hora esperando que Ryan finalizasse suas obrigaes familiares. Mas ele a surpreendeu ao se
dirigir a uma esttua de Vnus depois de cinco minutos.
- O que voc acha dela?
Com sobriedade, ela se aproximou e rodeou a figura de bronze.
-  adequada, no  particularmente boa, mas, se algum da sua legio de parentes anda atrs de uma esttua de jardim, pode servir muito bem.
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- , acho que vai servir bem, sim. - Ele sorriu com simpatia para o vendedor, depois fez com que Miranda franzisse o cenho ao se dirigir a ele em italiano
macarrnico.
Durante seu surto de compras, ele falara fluentemente o idioma, muitas vezes enriquecendo o discurso com coloquialismos e grias. Agora, debatia-se com as frases
mais bsicas e as dizia com sotaque to acentuado que o vendedor tentou ser solcito.
- Voc  americano. A gente pode falar em ingls.
- Jura? Graas a Deus. - Ele riu e apertou a mo de Miranda, puxando-a para perto. - Minha mulher e eu queremos alguma coisa especial pra levar pra casa.
A gente adorou essa pea. Vai ficar linda no jardim de inverno, no vai, Abby?
A resposta dela foi um "aham".
Ele no barganhou muito desta vez, somente gemeu diante do preo, depois puxou-a para longe, como se para uma consulta particular.
- Que palhaada  essa? - Miranda viu-se sussurrando, j que seu rosto estava muito prximo do dele.
- Eu no compraria nada sem ter certeza da aprovao da minha mulher.
- Voc  um idiota.
-  isso que eu ganho por ser um marido cuidadoso. - Baixou o rosto e beijou-a com firmeza na boca - e, instintivamente, evitou tocar em seus dentes. - Promete
que vai tentar de novo, mais tarde.
Antes que ela pudesse revidar, ele se voltou para o atendente.
- A gente vai levar.
Concluda a compra, com a esttua embalada, ele recusou a oferta da loja de mandar a pea para o hotel.
- Tudo bem. A gente j t voltando pra l mesmo. - Pegou a sacola, depois enlaou Miranda, atingindo-a com uma das cmeras que carregava nos ombros. - Vamos
tomar um daqueles sorvetes no caminho, Abby?
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- Eu no quero sorvete - ela resmungou quando saram da loja.
- Claro que quer. Voc tem que manter a energia em alta. A gente vai dar mais uma paradinha.
- Olha s, eu t cansada, meu p t doendo e no estou a fim de fazer compras. Eu encontro voc no hotel.
- E vai perder a parte boa? A gente vai ao Bargello.
- Agora? - O que percorreu sua espinha foi um misto de medo e excitao. - A gente vai fazer isso agora?
- Agora vamos brincar mais um pouquinho de turista. - Ele desceu o meio-fio, abrindo espao para ela na calada. - A gente vai dar uma olhada no lugar, sentir
a atmosfera, tirar umas fotos. - Piscou. - Dar um confere, como se diz na gria popular.
- Dar um confere - ela murmurou.
- Onde ficam as cmeras de segurana? Qual  a distncia entre a entrada principal e o Bacco de Michelangelo? - Mas ele sabia, precisamente. No seria sua
primeira visita disfarada. - Qual  a distncia at o ptio? Quantos passos at a varanda do primeiro andar? Quando  a mudana de turno dos guardas? Quantos...
- T bem, t bem, j entendi. - Ela levantou as mos. - No sei por que a gente no foi l primeiro.
- Tudo tem sua hora, amor. Abby e Kevin gostariam de ver um pouco da cidade no primeiro dia, voc no acha?
Ela achava que os dois estavam de fato parecendo turistas americanos - cmeras, sacolas de compras e guias na mo. Ele comprou um sorvete para ela no caminho. Ela
resolveu que talvez o sorvete pudesse ajudar a aliviar a tenso que fazia seu estmago pegar fogo, e foi lambendo a bola gelada, de limo, enquanto caminhavam, observando
os prdios, as esttuas, as vitrines ou os cardpios nas portas das trattorias.
Talvez houvesse sentido nisso tudo, concluiu. Ningum olharia duas vezes para eles, e se ela se concentrasse, poderia acreditar que passeava pela cidade pela primeira
vez. Era um pouco como se esti-
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vessem numa pea de teatro, pensou. As frias de Abby e Kevin na Itlia.
Se, pelo menos, ela no fosse to m atriz.
- Fabulosa, no ? - Ele parou, entrelaando os dedos nos dela enquanto observava a magnfica catedral que dominava a paisagem.
- . A cpula de Brunelleschi foi um acontecimento revolucionrio. Ele no usou andaimes. Giotto desenhou a campnula, mas no viveu o suficiente pra ver
a obra finalizada. - Ela ajeitou os culos escuros. - A fachada de mrmore neogtica transpira o estilo dele, mas s foi construda no sculo dezenove.
Mexeu no cabelo e percebeu que Ryan sorria para ela.
- O que foi?
- Voc tem jeito pra dar aulas de histria, dra. Jones. - Quando o rosto de Miranda enrijeceu, ele o envolveu com as mos. - No. No faz isso. No foi uma
cantada, foi um elogio. - Seus dedos acariciaram levemente as mas do rosto dela. Tantos pontos sensveis, ele ficava encantado. - Fala mais.
Se estava sorrindo para ela, fazia um bom trabalho ao disfarar. Ela aproveitou a deixa: - Michelangelo esculpiu o Davi no ptio do Museo dell'Opera dei Duomo.
- Jura?
Ele fez o comentrio com tanta seriedade que os lbios de Miranda se curvaram num sorriso. - Juro. Ele tambm copiou o So Joo do Donatello pra fazer o seu Moiss.
Era um elogio. Mas eu acho que o orgulho do museu  a Piet. Dizem que a imagem de Nicodemos  um autorretrato, e  brilhante. Mas a Maria Madalena na mesma escultura
 inferior, e , obviamente, obra de um dos alunos dele. No me beija, Ryan - disse rapidamente, fechando os olhos ao perceber os lbios dele pairando sobre os seus.
- Isso complica as coisas.
- Elas tm que ser simples?
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- Tm. - Abriu os olhos novamente, encarou-o. - Neste caso, tm.
- Normalmente eu concordaria com voc. - Passou os dedos pelos lbios de Miranda, atenciosamente. - A gente tem atrao um pelo outro, e isso devia ser simples.
Mas no parece que  assim que funciona. - Afastou as mos do rosto dela, acariciou-lhe os ombros e deixou que descessem pelos braos dela at encontrarem seus pulsos,
que batiam forte e rapidamente. Isso deveria t-lo agradado.
Mas ele deu um passo para trs. - Tudo bem, vamos manter as coisas o mais simples possvel. Anda at ali e fica parada.
- Pra qu?
- Pra eu tirar uma foto, amor. - Baixou os culos e piscou para ela. - A gente vai querer mostrar fotos pra todos os nossos amigos quando voltar pra casa,
no vai, Abby?
Apesar de considerar um exagero, ela posou em frente ao Duomo, ao lado de uma centena de turistas, e deixou que a fotografasse tendo os tons de branco, verde e rosa
magnficos do mrmore como pano de fundo.
- Agora  sua vez. - Ele foi at ela, estendendo-lhe sua Nikon. - Basta apontar e apertar o boto. Voc s precisa...
- Eu sei como  que uma cmera funciona. - Ela arrancou a mquina das mos dele. - Kevin.
Ela voltou para a posio, preparou o foco. Talvez seu corao estivesse um pouco acelerado. Ele era uma viso to magnfica, alto, moreno, sorrindo convencido para
a cmera.
- Pronto. Satisfeito agora?
- Quase. - Ele falou com um casal de turistas que concordou prontamente em tirar uma foto dos jovens americanos.
- Isso  ridculo - Miranda resmungou ao se ver posando novamente, agora com os braos de Ryan em volta de sua cintura.
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-  pra minha me - ele disse, depois seguiu seu impulso e beijou-a.
Um bando de pombos sobrevoou-os, sacudindo asas e penas no ar. Ela no teve tempo para resistir, muito menos para defender-se. Os lbios dele eram quentes, firmes,
deslizavam sobre os dela ao tempo que o brao em volta da cintura puxava-a para perto. O gemido suave liberado por ela nada tinha a ver com protesto. A mo que levou
ao rosto dele s queria mant-lo ali.
O sol brilhava, o ar estava cheio de som. E seu corao batia na iminncia de algo extraordinrio.
Era fugir ou mergulhar, Ryan pensou. Levou seus lbios  palma da mo dela. - Desculpe - disse sem sorrir, no seria capaz. - Acho que me deixei levar pelo momento.
E deixando-a ali com os joelhos trmulos, pegou a cmera de volta.
Pendurou-a de volta no ombro, pegou a sacola de compras e, com os olhos fixos nela, levantou a mo. - Vamos.
Ela quase esquecera o propsito, quase esquecera o plano. Com um aceno positivo de cabea, acompanhou os passos dele.
Quando chegaram aos portes do antigo palcio, ele retirou o guia do bolso, como um bom turista.
- Foi construdo em 1255 - disse para ela. - Do sculo dezesseis at meados do sculo dezenove foi uma priso. As execues aconteciam no ptio.
- Apropriado, dadas as circunstncias - murmurou. - E eu conheo a histria.
- A dra. Jones conhece a histria. - Deu um tapinha amoroso no bumbum dela. - Abby, meu anjo.
No minuto em que entraram na sala principal do trreo, ele pegou a filmadora. - Lugar lindo, no , Abby? Olha s esse cara, ele devia fazer horrores, hein?
Direcionou a cmera para o glorioso bronze de Baco, depois comeou a escanear o ambiente. - Deixa a Sally e o Jack verem isso. Vo ficar loucos.
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Girou a cmera at um corredor onde um guarda vigiava os visitantes. - D uma andada por a - disse entre os dentes. - Faz cara de classe mdia abismada com a beleza.
As palmas de Miranda suavam.  claro que aquilo era ridculo. Eles tinham todo o direito de estar ali. Ningum saberia o que acontecia dentro de sua cabea. Mas
seu corao batia pesadamente na garganta enquanto circulava pelo salo.
- Incrivelmente horrvel, no ?
Teve um ligeiro sobressalto quando ele se aproximou, enquanto ela fingia analisar a escultura Ado e Eva de Bandinelli. -  uma pea importante da poca.
- S porque  antiga. Parece um casal suburbano num fim de semana numa colnia de nudismo. Vamos ver os pssaros do Giambologna no jardim.
Depois de uma hora, Miranda comeou a suspeitar que boa parte da atividade criminal era bastante tediosa. Entraram em todas as salas abertas ao pblico, filmaram
cada centmetro e cada canto. Ainda assim, ela esquecera que a Sala dei Bronzetti tinha a mais fina coleo de bronzes renascentistas da Itlia. Como isso a fizesse
pensar no Davi, seus nervos se retesaram novamente.
- Voc j no tem o suficiente?
- Quase. Vai l dar uma paquerada no guarda.
- Como?, eu no entendi.
- Distrai ele. - Ryan baixou a cmera e rapidamente abriu os dois primeiros botes da camisa de algodo de Miranda.
- O que voc acha que t fazendo?
- Garantindo a ateno dele em voc, cara. Pergunta alguma coisa, fala mal italiano, pisca os olhinhos e faz com que ele se sinta importante.
- E o que voc vai fazer?
- Nada, se voc no conseguir segurar o olhar dele por cinco minutos. Me d esse tempinho, pergunta onde  o banheiro, depois vai pra l. Me encontra no jardim
daqui a dez minutos.
- Mas...
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- Faz isso - ele a interrompeu, acidamente. - Tem gente  bea aqui capaz de fazer isso.
- Meu Deus. Tudo bem. - Seu estmago se revirou e seus joelhos tremeram quando ela se virou para dirigir-se ao guarda.
- Ah... scusi - Miranda comeou a dizer, falando com forte sotaque americano. - Per favore... - Percebeu os olhos do guarda mergulhando no decote de sua blusa,
depois voltando ao seu rosto, com um sorriso. Ela engoliu com dificuldade e estendeu as mos pedindo ajuda. - English?
- Si, signora, um pouco.
- Ah, que maravilha! - Ela experimentou piscar os olhos avidamente, os clios subindo e descendo, e viu, pelo calor no sorriso do guarda, que esses artifcios
patticos, na verdade, funcionam. - Eu estudei um pouco de italiano antes de viajar, mas as palavras ficam todas embaralhadas na minha cabea. Crebro deplorvel,
esse meu.  terrvel, n, que os americanos no falem qualquer outra lngua, como a maioria dos europeus?
Pelo olhar dele, Miranda deduziu que estava falando um pouco rpido demais. Melhor ainda. -  tudo to lindo aqui. Ser que voc poderia me dizer alguma coisa sobre...
- Escolheu uma escultura qualquer.
Ryan esperou at que o guarda focasse os olhos no decote de Miranda, depois voltassem ao seu rosto, retirou uma pequena ferramenta do bolso e foi at a porta lateral.
Foi muito fcil, mesmo tendo que manejar o instrumento de costas. O museu dificilmente esperava que os visitantes trouxessem armas ou instrumentos para arrombar
fechaduras, ou mesmo que desejassem entrar em salas trancadas no meio do dia.
A planta do museu estava armazenada em um de seus arquivos. Assim como dezenas de outras. Se sua fonte fosse confivel, Ryan encontraria o que procurava atrs daquela
porta, num dos depsitos amontoados do andar.
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Manteve os olhos na cmera de segurana, esperando at que um grupo de amantes da arte passasse na sua frente.
Antes que tivessem ido embora, ele j estava fechando a porta suavemente atrs de si.
Respirou fundo, avaliando o lugar, colocou as luvas que estavam guardadas em seu bolso, estalou os dedos. No podia demorar muito.
A sala era um amontoado de compartimentos lotados de esttuas e quadros, a maioria clamando por restaurao. Normalmente, ele sabia, as pessoas que viviam em meio
aos objetos de arte eram as mais organizadas do mundo.
Muitas peas atraram a ateno de seus olhos, inclusive uma madona de olhar triste e ombro quebrado. Mas ele estava procurando outro tipo de dama...
O rudo de rdios buscando freqncia e passos no assoalho fez com que corresse  procura de um lugar para se esconder.
ELA ESPEROU DEZ MINUTOS, QUINZE. AOS VINTE, ESTAVA torcendo as mos no banco do ptio onde se sentara, e j imaginava como seria passar algum tempo numa priso italiana.
Talvez a comida fosse boa.
Pelo menos no matavam ladres hoje em dia, nem penduravam seus corpos nas janelas do Bargello, como um testemunho de justia voraz.
Mais uma vez conferiu o relgio, esfregou a boca com os dedos. Ele havia sido pego, Miranda tinha certeza. Agora, estaria sendo interrogado dentro de alguma sala
pequena, e entregaria seu nome sem pestanejar. O covarde.
Ento, ela o viu cruzar o ptio como um homem sem uma preocupao na vida, sem nenhuma sombra ilcita no corao. Seu alvio foi to grande que ela se levantou e
lanou os braos em volta dele.
- Onde  que voc estava? Achei que...
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Ele a beijou, tanto para faz-la calar a boca como para tirar proveito da situao. - Vamos tomar um drinque. A gente fala sobre isso - ele disse, os lbios colados
aos dela.
- Como  que voc simplesmente me deixa aqui desse jeito? Voc disse dez minutos, j faz quase meia hora.
- Acabou demorando um pouco mais. -Ainda estavam boca a boca, e ele sorriu. - Sentiu a minha falta?
- No. Eu tava me perguntando qual seria o cardpio da cadeia hoje  noite.
- No custa ter um pouquinho de f. - Ele pegou a mo dela e foram andando, mos dadas, braos balanando. - Um vinho e uns queijinhos cairiam muito bem agora.
A Piazza delia Signoria no  to pitoresca, mas  perto.
- Aonde voc foi? - ela perguntou. - Fiquei perturbando o guarda o mximo que eu pude, e, quando dei por mim, voc j tinha sumido.
- Eu queria ver o que ficava atrs da porta nmero trs. Aquele lugar pode j ter sido um palcio, depois uma cmara de tortura da justia, mas aquelas portas
so brincadeira de criana.
- Como  que voc foi se arriscar assim? Invadir uma sala proibida com um guarda a dez passos de distncia...
- Normalmente  o melhor momento. - Passaram por uma vitrine e ele registrou que deveria reservar mais tempo para compras. - Encontrei a nossa dama - disse
casualmente.
- Foi uma irresponsabilidade, uma atitude tola, e no tem nada mais egocntrico... O qu?
- Eu achei. - O sorriso em seu rosto era como o sol da Toscana. - E acho que ela no tava muito feliz ali, cheia de poeira, guardada no escuro. Pacincia
- ele disse, antes que ela pudesse fazer perguntas. - Estou com sede.
- Voc t com sede? Como voc pode pensar em vinho e queijo, pelo amor de Deus? A gente devia estar fazendo alguma coisa.
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Planejando o prximo passo. A gente no pode simplesmente sentar debaixo de um ombrellone e tomar um Chianti.
-  exatamente isso que a gente vai fazer, e para de ficar olhando pra trs como se a polizia estivesse na nossa cola.
Ele a puxou at uma das mesas em frente a uma trattoria cheia de gente.
- Voc enlouqueceu. Compras, presentes, uma jaqueta de couro pra criana, passeio no museu, como se voc nunca tivesse ido ao Bargello. E agora...
Ela silenciou, chocada ao ser colocada numa cadeira. A mo dele apertou a sua quando ele se inclinou sobre a mesa. O sorriso no rosto dele era to frio e srio quanto
sua voz.
- Agora, a gente vai simplesmente ficar aqui um tempo, e voc no vai me causar nenhum problema.
- Eu...
- Nenhum problema. - O sorriso surgiu-lhe facilmente no rosto quando se virou para olhar para o garom. Como o disfarce parecesse absurdo naquele momento,
ele rapidamente pediu um vinho da casa e uma tbua de queijos em perfeito italiano.
- Eu no vou tolerar suas tentativas tolas de me irritar.
- Meu amor, voc vai tolerar o que eu quiser que voc tolere. Eu estou com a sua senhora.
- Voc est se esforando... O qu?- O vermelho que colorira sua face sumiu novamente. - Como assim, est com a senhora?
- Ela est debaixo da mesa.
- Debaixo da... - Sua vontade era de enfiar-se debaixo da mesa, mas ele apertou a mo dela, fazendo que tivesse que sufocar um grito de dor.
- Olha pra mim, cara, e finge que voc me ama. - Ele levou os dedos machucados de Miranda  boca.
- Voc est me dizendo que entrou no museu,  luz do dia, e saiu de l com o bronze?
- Eu sou bom. Eu te disse.
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- Mas agora? Agora? Voc s sumiu meia hora.
- Se um guarda no tivesse aparecido no depsito pra beber escondido, eu teria feito na metade do tempo.
- Mas voc disse que a gente tinha que inspecionar o lugar, gravar tudo, tirar medidas, ter uma noo melhor.
Ele beijou seus dedos novamente. - Eu menti. - Mantendo as mos delas nas suas, segurou seu olhar romanticamente enquanto o garom colocava o vinho e os queijos
na mesa. Este, ao perceber o clima de romance entre eles, sorriu e deixou-os a ss.
- Voc mentiu.
- Se eu te dissesse que ia pegar a esttua, voc ia ficar nervosa, irrequieta e, muito provavelmente, faria uma besteira. - Ele serviu as duas taas de vinho,
tomou um gole e aprovou a escolha. - O vinho dessa regio  sensacional. Voc no vai experimentar?
Ainda encarando-o, ela levantou a taa e tomou sua bebida em vrios goles seguidos. Agora, era cmplice de roubo.
- Se voc vai beber desse jeito, melhor comer alguma coisa. - Ele partiu um pedao de queijo e ofereceu a ela. - Pegue.
Ela afastou a mo dele e pegou a garrafa. - Voc j sabia que ia fazer isso.
- Eu sabia que se aparecesse uma oportunidade eu ia fazer a troca.
- Que troca?
- O bronze que a gente comprou mais cedo. Substitu uma pea pela outra. Tem um bronze de uma mulher no depsito. A chance de ningum se dar conta da diferena
 enorme.
Ele provou um queijo, achou bom e colocou uma fatia em cima de uma torradinha. - Quando eles perceberem, vo procurar a verdadeira, provavelmente pensando que t
guardada em outro lugar. E quando no conseguirem encontrar a esttua, no vo saber dizer quando foi levada. Se a gente continuar com sorte, a essa altura j vamos
estar de volta aos Estados Unidos.
- Eu preciso ver o bronze.
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- Vai ter tempo pra isso. Preciso dizer que roubar uma falsificao conscientemente... no d a mesma sensao de euforia.
- No? - ela murmurou.
- No. E vou sentir falta dessa sensao quando me aposentar completamente. Alis, voc fez um bom trabalho.
- Ah. - Ela no sentiu euforia alguma, somente a sensao de um peso enorme no estmago.
- Distraindo o guarda. Melhor voc se fortalecer. - Ofereceu-lhe queijo novamente. - A gente ainda tem muito trabalho pela frente.
ERA SURREAL ESTAR SENTADA NUM QUARTO DE HOTEL SEGUrando A Senhora Sombria. Examinou a pea cuidadosamente, percebendo onde pedaos haviam sido retirados para teste,
calculando o peso, criticando o estilo.
Era uma pea bonita e graciosa, o azul-esverdeado da ptina dando-lhe a dignidade do tempo.
Colocou-a na mesa ao lado do Davi.
- Ela  linda - Ryan comentou ao soltar uma baforada do charuto. - Seu desenho era bastante apurado. Voc no conseguiu capturar o esprito, mas, com certeza,
captou os detalhes. Voc seria uma artista melhor se colocasse o corao nos seus trabalhos.
- Eu no sou uma artista. - Sua garganta estava seca. - Eu sou cientista, e esse no  o bronze que eu testei.
Ele levantou uma sobrancelha. - Como  que voc sabe?
Ela no poderia dizer que sentia algo de errado. Nem mesmo a si mesma podia confessar que a pea simplesmente no fazia com que se arrepiasse ao toc-la. Portanto,
deu-lhe fatos.
-  bem possvel pra algum treinado reconhecer um trabalho do sculo vinte s com um exame visual. Mesmo assim, eu no me fiaria s nisso. Mas eu peguei
raspas de material. Aqui, aqui e aqui. - Usou a pontinha do dedo para indicar a parte da panturrilha, a
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curva do ombro. - No tem nenhum sinal disso nessa pea. O laboratrio do Ponti tirou amostras das costas e da base. Essas no so as minhas marcas. Eu preciso de
equipamento e das minhas anotaes pra fazer uma verificao, mas esse no  o bronze no qual eu trabalhei.
Avaliando a situao, Ryan bateu as cinzas do charuto no cinzeiro. - Vamos verificar primeiro.
- Ningum vai acreditar em mim. Mesmo depois que eu fizer as averiguaes, ningum vai acreditar que esse no  o bronze. - Olhou para ele. - Por que eles
deveriam?
- Vo acreditar quando tivermos o original.
- Como...
- Uma coisa de cada vez, dra. Jones. Voc vai precisar trocar de roupa. Um pretinho bsico funciona melhor no caso de uma noite divertida de invaso. Vou
providenciar o transporte.
Ela passou a lngua sobre os lbios. - A gente vai invadir a Sfndjo.
- Esse  o plano. - Ele percebeu sua inteno evasiva e recos-tou na poltrona. - A menos que voc queira ligar pra sua me, explicar tudo e perguntar se ela
deixa voc usar o laboratrio.
Miranda se levantou, o olhar frio. - Eu vou trocar de roupa.
A porta do quarto no tinha tranca, portanto ela arrastou a cadeira da escrivaninha e encaixou o encosto sob a maaneta. Isso fez com que se sentisse melhor. Ele
a estava usando, era tudo em que podia pensar, como se ela fosse apenas mais uma ferramenta. A idia de serem parceiros era uma iluso. E agora ela o ajudara a roubar.
Estava a ponto de invadir a empresa de sua famlia. E como ela poderia impedi-lo se quisesse fazer mais do que alguns testes simples?
Escutou-o falando ao telefone no gabinete, e aproveitou o tempo para vestir cala e camisa pretas. Precisava de um plano pessoal, precisava de algum em quem confiar.
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- Vou ter que dar um pulo na recepo - ele gritou de longe.
- Se apressa a. S vou demorar um segundo, e tambm preciso trocar de roupa.
- J, j estou pronta. - E, assim que ouviu a porta bater, afastou a cadeira da porta. - Tomara que ele esteja l, tomara que ele esteja l - murmurava enquanto
arrancava a agenda de dentro da pasta. Passou as pginas, encontrou o nmero e discou.
- Pronto.
- Giovanni,  Miranda.
- Miranda? - No havia prazer em sua voz, mas precauo.
- Onde  que voc est? Seu irmo anda...
- Estou em Florena - interrompeu-o. - Preciso encontrar voc o quanto antes. Por favor, Giovanni, me encontra na Baslica de Santa Maria Novella. Dez minutos.
- Mas...
- Por favor,  um caso de vida ou morte. - Ela desligou rapidamente e, movendo-se com agilidade, envolveu o bronze de qualquer maneira no plstico bolha,
guardando-o na sacola. Pegou a bolsa e correu.
Pegou as escadas, descendo s pressas os corredores acarpetados, o corao aos pulos no peito, esforando-se para agentar firme o peso da sacola. Parou de sbito
no final da escada.
Viu Ryan na recepo, falando animadamente com o recepcionista. No podia arriscar-se e atravessar o lobby, portanto tentou deslizar pelos cantos e cruzar correndo
o salo. Seguiu adiante, atravessou as portas de vidro que levavam ao lindo ptio do hotel e sua piscina lmpida sombreada por rvores. Pombos espalhados se assustaram
quando ela passou correndo.
Apesar do peso da sacola, no parou para tomar flego at que tivesse dado a volta no prdio e alcanado a rua. Mesmo assim, s usou o tempo necessrio para trocar
o peso de mo e olhar nervosamente para trs. Depois, foi direto para a igreja.
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Santa Maria Novella, em seus charmosos tons de verde e branco, ficava muito perto do hotel.
Miranda controlou a necessidade de correr e adentrar o frio e a penumbra da igreja. Suas pernas tremiam quando se dirigiu aos bancos e encontrou um assento  esquerda
do altar. Uma vez ali, tentou compreender que diabos estava fazendo.
Ryan ficaria furioso, e ela no sabia o grau de violncia escondido sob aquela superfcie elegante. Mas estava fazendo a coisa certa, a nica coisa lgica.
Mesmo que a cpia precisasse de proteo at que alguma atitude fosse tomada. No se pode confiar em um homem que faz do roubo seu meio de vida.
Giovanni viria, disse para si mesma. Conhecia-o havia anos. Por mais frvolo, excntrico que fosse, era um cientista de alma. E sempre fora seu amigo.
Ele a escutaria, avaliaria a situao. Ajudaria.
Na tentativa de se acalmar, fechou os olhos.
Havia algo na atmosfera de lugares como aquele, templos da passagem do tempo, da f e do poder. A religio, em algum nvel, sempre tivera relao com o poder. Ali,
esse poder manifestara-se em arte de qualidade, grande parte dela paga pelos cofres dos Mdici.
Compradores de almas?, perguntou-se. Equilibravam os malfeitos e os pecados, gerando grandeza para a Igreja? Lorenzo trara a mulher com a Senhora Sombria - por
mais que esse tipo de affair fosse aceito na poca. E seu grande protegido a imortalizara numa esttua de bronze.
Ele saberia da sua existncia?
No, no, lembrou-se, ele j havia morrido quando o bronze fora forjado. Ela j estaria com Piero ou um dos primos mais jovens.
No abriria mo do poder que sua beleza lhe garantia dando as costas a um novo protetor. Era muito esperta para isso, muito prtica. Para prosperar, at mesmo para
sobreviver naquele perodo, uma
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mulher precisava da proteo de um homem, ou de fortuna prpria, uma linhagem aceita.
Ou de imensa beleza, cabea fria e um corao capaz de dar conta de tudo.
Giulietta o soubera.
Tremendo, Miranda abriu novamente os olhos. O bronze, e no a mulher, era o que importava agora, lembrou a si mesma. Era a cincia, e no as especulaes, o que
resolveria o quebra-cabea.
Ouviu passos apressados e retesou-se. Ele a encontrara. Meu Deus. Ela deu um pulo, virou-se e quase chorou de alvio.
- Giovanni. - Suas pernas fraquejaram quando ela se adiantou e envolveu-o com seus braos.
- Bella, o que  que voc est fazendo aqui? - Ele retribuiu o abrao com uma combinao de exaspero e afeio. - Por que voc me ligou to assustada e me
pediu pra te encontrar, como se fosse uma espi? - Olhou para o altar. - E numa igreja.
-  silencioso,  seguro. Um santurio - ela disse com um sorriso frgil. - Quero te explicar tudo, mas no sei quanto tempo eu tenho. Ele j deve saber que
eu sa e deve estar me procurando.
- Quem?
-  muito complicado. Senta um segundo. - Sua voz era um sussurro, como era de bom-tom em igrejas e conspiraes. - Giovanni, o bronze. A Senhora Sombria...
era uma falsificao.
- Miranda, o meu ingls no  dos melhores, mas pra ser uma falsificao  preciso que exista alguma coisa pra copiar. O bronze era falso, uma piada de mau
gosto, uma... - Ele buscava as palavras. - M sorte - concluiu. - As autoridades interrogaram o encanador, mas parece que ele tambm no passa de um enganador. 
essa a palavra? Algum que passa uma pea como se fosse verdadeira, e quase d certo.
- Ela era verdadeira.
Ele pegou suas mos. - Eu sei que isso  difcil pra voc.
- Voc viu os resultados.
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- Si, mas...
Doeu ver dvida e suspeita nos olhos de um amigo. - Voc acha que falsifiquei os resultados?
- Eu acho que houve um erro. A gente fez tudo muito rpido, todos ns. Miranda...
- A velocidade no altera os resultados. Aquele bronze era verdadeiro. Este aqui  uma falsificao. - Ela pegou a estatueta na sacola.
- O que  isso?
-  a cpia. A cpia que o Ponti testou.
- Dio mio! Como  que voc conseguiu? - Elevou o tom de voz ao perguntar, fazendo com que algumas cabeas se virassem. Retraindo-se, inclinou o corpo, aproximando-se
de Miranda, e sussurrou: - Isso estava guardado no Bargello.
- No importa. O que importa  que no  o bronze que a gente testou. Voc vai poder ver isso. Assim que levar a pea pro laboratrio.
- Pro laboratrio? Miranda, que loucura  essa?
-  sanidade. - Ela precisava manter-se fiel a essa idia. - Minha entrada t barrada na Standjo. As anotaes esto todas l, Giovanni, o equipamento t
l. Eu preciso da sua ajuda. Tem o Davi de bronze na sacola, tambm.  uma falsificao. Eu j testei. Mas quero que voc a leve e examine os dois, faa todos os
testes que puder. Voc vai comparar os testes do Bronze Fiesole com os que foram feitos no original. Voc vai comprovar que no  o mesmo bronze.
- Miranda, seja razovel. Mesmo que eu faa o que voc est me pedindo, s vou provar que voc estava errada.
- No. Voc vai pegar as minhas anotaes, as suas e as do Richard. A voc faz os testes e compara os resultados. No  possvel que todos ns tenhamos errado.
Eu faria isso, mas tem algumas coisas que complicam a situao.
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Pensou em Ryan, furioso, rasgando a cidade para encontr-la com os bronzes. - E se eu mesma fizesse os testes, ningum se convenceria. Eu preciso de objetividade.
E no posso confiar em ningum, alm de voc.
Apertou as mos do amigo, sabendo que jogara com as fraquezas dele no que dizia respeito  amizade. Poderia ter impedido que as lgrimas brotassem de seus olhos,
mas elas eram genunas. -  a minha reputao, Giovanni. O meu trabalho. A minha vida.
Ele disse alguns palavres em voz baixa, depois retraiu-se ao lembrar onde estava, acrescentando rapidamente uma orao e o sinal da cruz s suas palavras.
- Isso s vai te entristecer ainda mais.
- No tem como eu ficar mais triste. Pela nossa amizade, Giovanni. Por mim.
- Vou fazer o que voc est me pedindo.
Ela apertou os olhos ao passo que seu corao se enchia de gratido. - Hoje  noite, o mais rpido possvel.
- Quanto mais cedo, melhor. O laboratrio est fechado por uns dias, ento ningum vai ficar sabendo.
- Fechado? Por qu?
Ele sorriu pela primeira vez. - Amanh, minha pag adorada,  Sexta-Feira Santa. - E aquela no era a maneira como pensava passar o feriado. Suspirou, cutucou a
sacola com o p. - Onde eu te acho, depois que terminar?
- Eu te acho. - Miranda inclinou o corpo e tocou os lbios do amigo com os seus. - Grazie, Giovanni. Mille grazie. Nunca vou conseguir pagar o que voc t
fazendo por mim.
- Uma explicao quando tudo isso acabar j seria um bom comeo.
- Uma explicao completa, eu prometo. Ah, estou to feliz de ver voc. Queria tanto poder ficar, mas tenho que voltar e... bem, danar conforme a msica.
Vou encontrar uma maneira de te ligar de manh. Cuida bem deles - acrescentou, empurrando a sacola na
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direo dele com o p. - Espera uns minutos antes de sair, t? S por precauo.
Beijou-o novamente, calorosamente, depois o deixou.
Como saiu sem olhar para a esquerda nem para a direita, no viu uma figura de p, na penumbra, virar-se como quem aprecia os afrescos do Inferno de Dante.
No sentiu sua fria, ou a ameaa.
Era como se um peso lhe fosse retirado dos ombros, peso que lhe castigava a cabea, o corao, a conscincia. Saiu da igreja, encontrou a luminosidade do sol que
se punha no oeste. Com medo da possibilidade de Ryan estar procurando por ela, andou na direo contrria ao hotel, e foi a caminho do rio.
No seria bom, pensou ela, que ele a encontrasse antes que estivesse bem longe de Giovanni.
Era uma longa caminhada, e lhe daria tempo para acalmar-se, para pensar e, pela primeira vez, apreciar os casais passeando pelas ruas, de mos dadas, compartilhando
olhares e abraos. Giovanni uma vez lhe dissera que o ar florentino cheirava a romance, e que bastava respirar para sentir sua presena.
Isso a fez sorrir, depois suspirar.
Ela simplesmente no se deixava encantar pelo romance. E j no experimentara? O nico homem que a balanara a ponto de sentir dor fora um ladro com menos integridade
que um cogumelo.
Ela estava melhor, muito melhor sozinha. Como sempre estivera.
Alcanou o rio, observou as ltimas luzes do sol poente morrendo na gua. Quando o rugido de um motor soou atrs dela, quando aquele motor roncou com violncia,
impacincia, ela teve certeza de que ele a encontrara. Sabia que sim.
- Sobe.
Ela olhou para trs, viu o rosto dele, furioso, a maneira como a raiva era capaz de transformar aqueles olhos calorosos em algo frio e mortal. Ele estava todo de
preto, assim como ela, montado numa
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motocicleta. O vento desarrumara seus cabelos. Ele parecia perigoso e absurdamente sexy.
- Eu posso ir andando, obrigada.
- Sobe, Miranda. Porque se eu tiver que descer e colocar voc na moto, eu vou te machucar.
Como a alternativa seria correr covardemente, e talvez ser atropelada, ela sacudiu os ombros, em sinal de pouco-caso. Foi at o meio-fio, passou uma perna sobre
a moto e sentou-se atrs dele. Segurou-se ao banco para equilibrar-se.
Mas, quando ele arrancou como uma bala, o instinto de sobrevivncia tomou conta dela, fazendo com que apertasse a cintura de Ryan com fora.
Captulo Dezessete
Acho que eu devia ter usado algemas, no fim das contas.
- Depois de dirigir com descuido e velocidade arriscada por ruas sinuosas, Ryan parou a motocicleta de supeto na Piazzale Michelangelo.
O lugar parecia propcio e oferecia uma viso de Florena de tirar o flego, as colinas toscanas ao longe. Assim como a privacidade que ele desejava, caso decidisse
cometer um ato de violncia.
A praa estava praticamente vazia, os vendedores que normalmente povoam a rea j tinham encerrado o dia de trabalho, sob um cu carregado, de tempestade, onde o
sol se mantinha tnue ao horizonte.
- Salta - ele ordenou e esperou que ela retirasse as mos que o agarravam com fora pela cintura. Proporcionara-lhe grandes sustos durante a corrida. Cumprira
sua inteno inicial.
- Voc dirige como um louco.
- Meio italiano, meio irlands. O que  que voc esperava? - Ele saltou da moto e arrastou-a at o muro, sob o qual Florena se
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espalhava como uma joia antiga. Havia uns poucos turistas tirando fotografias da fonte, mas, como eram japoneses, ele achou que podia arriscar uma bronca nela em
ingls ou em italiano. Escolheu o ltimo, que considerava mais passional.
- Onde esto os bronzes?
- Em segurana.
- Eu no perguntei como eles esto; perguntei onde. O que foi que voc fez com os bronzes?
- O que era sensato. Vai cair um temporal - ela disse, ao ver relmpagos lambendo o cu com a mesma violncia com que seus nervos perturbavam seu estmago.
- A gente devia entrar em algum lugar.
Ele simplesmente a empurrou contra o muro, e a prendeu ali, corpo contra corpo. - Eu quero ver os bronzes, Miranda.
Ela manteve os olhos nele. No apelaria para os poucos turistas remanescentes em busca de ajuda. Lidaria com a situao sozinha, prometeu-se. - Eles no tm nenhum
valor pra voc.
- Isso sou eu quem decide. Droga, eu confiei em voc.
Agora os olhos dela faiscavam. - Na verdade, voc no pde
me trancar no quarto do hotel como fez no seu apartamento. - Manteve a voz baixa, a rouquido usual temperada pela raiva. - No conseguiu me fazer esperar do jeito
que voc fez no Bargello, enquanto ia l e fazia as coisas, sem me contar qual era o seu plano. Dessa vez, eu tomei a iniciativa.
Ele passou os braos em volta dela para que parecessem amantes apaixonados, envolvidos demais para prestarem ateno na cidade ou na tempestade. O aperto fez com
que ela perdesse consideravelmente o ar. - Tomou a iniciativa de qu?
- De tomar umas providncias. Voc t me machucando.
- No, ainda no. Voc s pode ter dado os bronzes pra algum. Sua me. No... - ele concluiu quando ela continuou a encar-lo. - Sua me, no. Voc ainda
tem a esperana de fazer com que ela se arrependa de ter duvidado da sua capacidade. Voc
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tem algum namorado aqui em Florena, dra. Jones? Algum que voc pudesse convencer com jeitinho a ficar com as esttuas, at achar que eu desisti? Eu quero os bronzes
agora, os dois.
O rugido de um trovo ribombou no cu.
- Eu disse que eles esto em segurana. Tomei umas providncias. Fiz o que achei melhor.
- Voc acha que eu dou alguma importncia para o que voc pensa?
- Eu quero provar que so cpias. E voc tambm. Se eu fizer os testes e as comparaes, pode parecer que manipulei os resultados. A gente no estaria em
melhor posio. O trabalho de tirar o bronze do Bargello foi seu, o meu  determinar como a gente vai provar que  uma falsificao.
- Voc entregou as peas pra algum da Standjo. - Ele se afastou o suficiente para segurar o rosto dela. - Que espcie de idiota voc ?
- Entreguei pra algum da minha confiana, algum que conheo h anos. - Ela respirou fundo, na esperana de trocar o temperamento explosivo por racionalidade.
- Ele s vai fazer os testes porque eu pedi. E amanh vou ligar pra saber os resultados.
Ele teve vontade de bater com a cabea dela no muro, somente para ver se era realmente to dura quanto suspeitara. - Segue esta lgica, dra. Jones: A Senhora Sombria
 uma cpia. Ento, algum da Standjo fez essa cpia. Algum que sabe o que os testes vo mostrar, como fazer com que parea real o suficiente pra passar pelos testes
preliminares, algum que provavelmente tem uma fonte que pagou uma boa grana pela pea verdadeira.
- Ele no faria isso. O trabalho  importante pra ele.
- O meu  importante pra mim. Vamos.
- Pra onde?
Ele a arrastou, literalmente, pela praa at a moto, sob os primeiros pingos grossos de chuva. - Pro laboratrio, darling. A gente vai dar uma conferida nos progressos
do seu amigo.
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- Ser que voc no entende? Se a gente invadir o laboratrio, os testes no vo valer nada. Ningum vai acreditar em mim.
- Esquece isso. Eu j acredito em voc. Esse  o problema. Agora, se mexe, ou eu vou deixar voc aqui e tomar as providncias sozinho.
Ela pensou um pouco, depois decidiu que a ltima coisa de que Giovanni precisava era de Ryan, furioso, invadindo o laboratrio.
- Deixe-o fazer os testes. - Ela afastou o cabelo molhado. -  a nica maneira de eles terem validade.
Ele ligou o motor. - Sobe.
Ela subiu na motocicleta, e, enquanto ele cruzava a praa, tentava se convencer de que o faria cair em si quando chegassem  Standjo.
A meio quarteiro do laboratrio, ele estacionou a moto junto a uma floresta de outras similares ao longo do meio-fio. - Fica em silncio - ele disse, saltando e
retirando sacos do bagageiro da motocicleta. - Faz o que eu mandar e segura isso. -Jogou um dos sacos na mo dela, e segurou seu brao com firmeza, guiando-a pela
rua.
- A gente vai entrar pelos fundos, caso algum seja curioso o suficiente pra estar de viglia debaixo de chuva. Vai passar direto pelo laboratrio fotogrfico
at a escada.
- Como  que voc sabe o caminho?
- Eu fao pesquisa. Tenho as plantas do prdio inteiro num arquivo. - Ele a encaminhou para os fundos, depois pegou um par de luvas cirrgicas. - Coloca isso.
- Isso no vai...
- Eu disse pra ficar calada e fazer o que eu mandar. Voc j me causou mais problemas do que precisava. Eu vou desabilitar o alarme, o que significa que voc
no pode dar mais de um passo longe de mim enquanto a gente estiver l dentro.
Ele colocou as prprias luvas enquanto falava, sem se importar com a chuva que agora caa forte sobre eles. - Se eu precisar de
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acesso a outra parte do prdio, eu me viro com a segurana l dentro.  mais fcil. No tem guarda nenhum,  tudo eletrnico,  pouco provvel que a gente cruze
com algum durante um feriado.
Ela comeou a protestar novamente, mas desistiu. Lembrou-se de que, uma vez l dentro, teria Giovanni para lhe dar suporte. Certamente os dois seriam capazes de
dar conta de um ladro irritante.
- Se ele no estiver a dentro com os bronzes, voc vai se arrepender.
- Ele est aqui. Ele me deu a palavra.
- . Como voc me deu a sua. - Aproximou-se da porta e baixou sua bolsa para preparar o trabalho. Mas seus olhos estreitaram-se e ele atentou para a pea
na lateral da porta. - O alarme t desligado - murmurou. - O seu amigo  descuidado, dra. Jones. Ele no religou o alarme depois que entrou.
Ela ignorou o arrepio que sentiu. - Ele deve ter achado que no precisava.
- Sei. Mas a porta est trancada. Isso devia ser automtico. A gente vai dar um jeito.
Ele desenrolou uma tira de couro, usando o corpo para proteger ao mximo suas ferramentas. Teria que limp-las muito bem mais tarde. No podia correr o risco de
enferrujarem.
- Isso no deve demorar, mas fica atenta, de qualquer maneira.
Ele cantarolou baixinho, uma melodia que ela reconheceu ser
uma passagem de Ada. Cruzou os braos sobre o peito, virou de costas para ele e prestou ateno na chuva.
Quem quer que fosse o encarregado pela segurana, no quis descaracterizar a beleza da porta antiga com trancas modernas. As maanetas eram querubins tristes de
lato que se ajustavam  arquitetura medieval, e eram acompanhadas por trancas eficientes, porm discretas.
Ryan piscou os olhos para livrar-se dos pingos, vagamente desejando ter um guarda-chuva. O barulho da chuva caindo o impediu
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de ouvir o suave e satisfatrio rudo das trancas sendo abertas. Mas as fechaduras, inglesas e arrojadas, acabaram cedendo, uma a uma.
- Traz a bolsa - disse para Miranda quando abriu a porta.
Usou sua pequena lanterna para gui-los pelos degraus da escada. - Voc vai dizer pro seu amigo que estou te ajudando e que eu assumo a partir da. Quer dizer, se
ele estiver a.
- Eu j disse que ele vai estar. Ele me prometeu.
- Ento, ele deve gostar de trabalhar no escuro. - Apontou a lanterna  frente. - Ali  o laboratrio, no ?
- . - Miranda franziu o cenho. O lugar estava um breu. - Talvez ele ainda no tenha chegado.
- Quem desligou o alarme?
- Eu... ele pode estar no laboratrio qumico.  o campo dele.
- A gente j vai ter certeza. Enquanto isso, vamos ver se as suas anotaes ainda esto na sua sala.  por aqui?
- , depois dessa porta,  esquerda. Era minha sala temporariamente.
- Voc deixou os arquivos no computador?
- Deixei.
- Ento a gente vai conseguir pegar.
As portas estavam destrancadas, o que lhes deu uma sensao ruim. Decidindo-se por pecar pela precauo, ele desligou a lanterna. - Fica atrs de mim.
- Por qu?
- Faz o que estou dizendo. - Ele abriu a porta, protegendo o corpo dela com o seu. Por alguns segundos, prestou ateno aos rudos, e, sem escutar nada alm
do ar que entrava pelas frestas, buscou o interruptor.
- Meu Deus! - Instintivamente, ela agarrou os ombros de Ryan. - Meu Deus!
- Eu pensei que cientistas gostavam de ordem - ele murmurou.
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Parecia que algum se lanara num surto violento ou dera uma tremenda festa. Os computadores estavam destroados, o vidro dos monitores e tubos de ensaio estilhaados
no cho. Mesas de trabalho haviam sido reviradas e os papis, espalhados. Compartimentos que antes eram organizados de maneira cirrgica agora estavam destrudos.
O cheiro de misturas qumicas improvveis tomava conta do ar.
- Eu no entendo. Pra que isso?
- No foi assalto - ele disse imediatamente. - No com todos esses computadores detonados, em vez de roubados. Parece, dra. Jones, que o seu amigo entrou
e saiu.
- O Giovanni nunca faria isso. - Ela passou por Ryan e abriu caminho por entre os escombros. - S pode ser coisa de algum vndalo, de gente jovem numa crise
de violncia. Todo esse equipamento, todos esses dados, arquivos. - Ela sofria enquanto dava voltas pela sala. - Tudo destrudo, arruinado.
Vndalos? Ele no acreditava nisso. Onde estavam as pichaes, o deleite? Aquilo fora feito com fria e com inteno. E ele suspeitava que o motivo era algo que
os envolveria.
- Vamos sair daqui.
- Eu tenho que checar as outras sees, ver o tamanho do estrago. Se eles foram at o laboratrio qumico...
Ela partiu, cruzando aquela baguna com a idia de que uma gangue de jovens rebeldes poderia ter invadido o laboratrio atrs de um suprimento de produtos qumicos.
- Voc no vai consertar nada - ele resmungou e partiu atrs dela. Quando a alcanou, ela estava de p diante de uma porta, o olhar fixo e o corpo trmulo.
Giovanni mantivera a palavra e no estava indo a lugar algum. Estava deitado de costas, a cabea pendida num ngulo improvvel sobre uma poa de sangue escuro e
pegajoso. Os olhos, abertos e vtreos, fixos na Senhora Sombria, cada com ele, as mos graciosas e o rosto sorridente cobertos de sangue.
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- Jesus do cu! - Foi tanto um apelo quanto uma blasfmia murmurada por Ryan ao pux-la para trs, forando-a a virar-se para olh-lo nos olhos em vez de
encarar o que estava atrs de si. - Esse  o seu amigo?
- Eu... Giovanni. - As pupilas dela estavam dilatadas pelo choque, os olhos sombrios e sem vida, como os de uma boneca.
- Calma. Voc precisa ter calma, Miranda, porque provavelmente a gente no tem muito tempo. Nossas impresses digitais esto no bronze inteiro, entendeu?
- E o bronze passara recentemente de falsificao  arma de crime. - So as nicas que os guardas vo encontrar nele. A gente caiu numa armadilha.
Ela ouviu um zumbido ensurdecedor - o oceano criando uma onda que atingiria as rochas. - O Giovanni t morto.
- , ele t. Agora, fica aqui. - Ele a encostou contra a parede. Entrou na sala, respirando pela boca para no absorver completamente o cheiro fatal. O ambiente
exalava morte, e o odor era obscenamen-te fresco. Apesar de contorcer-se, pegou o bronze e guardou-o dentro da bolsa. Fazendo o possvel para impedir que o olhar
se fixasse no rosto que o encarava, fez uma busca rpida pela sala destruda.
O Davi fora arremessado contra a parede. As marcas indicavam o ponto que ele a atingira.
Muito inteligente, ele pensou ao colocar a estatueta na sacola. Muito organizado. Deixar as duas peas, amarrando-as. Amarrando as duas em volta do pescoo de Miranda
como uma forca.
Ela estava exatamente onde a deixara, mas agora tremia, plida.
- Voc consegue andar - ele disse secamente. - Pode correr, se precisar, porque temos que sair daqui.
- A gente... a gente no pode abandonar o Giovanni. Ali. Assim. Giovanni. Ele t morto.
- E no tem nada que voc possa fazer. A gente tem que ir.
- Eu no posso.
Em vez de perder tempo discutindo, ele a pegou como se fosse um bombeiro. Ela no lutou, simplesmente deixou o corpo pender
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inerte, e continuou repetindo as mesmas palavras mecanicamente, como um mantra: - Eu no posso abandonar o Giovanni, no posso abandonar o Giovanni.
Ele estava sem flego quando chegou  sada. Ainda assim, mudou a posio do corpo dela e abriu a porta o suficiente para enxergar da rua. No viu nada fora de ordem,
mas sentia fisgadas no pescoo como se tivesse uma lmina encostada nele.
Quando saram na chuva, ele a colocou de p e sacudiu-a com fora. - Voc no pode cair at a gente sair daqui. Esquece, Miranda, e faz o que tem que ser feito agora.
Sem esperar pelo assentimento dela, puxou-a pela rua para longe do prdio. Ela deslizou para o banco da moto atrs dele e segurou-o de maneira que ele podia sentir
as batidas do seu corao contra as costas enquanto dirigia debaixo de chuva.
ELE QUERIA LEV-LA RAPIDAMENTE PARA O HOTEL, MAS forou-se a dar voltas pela cidade, pegando ruas estreitas a esmo, para ter certeza de que no estavam sendo seguidos.
Quem quer que fosse o assassino de Giovanni, provavelmente, estaria vigiando o prdio, esperando por eles. Esperaria at que conseguisse extrair a histria completa
de Miranda, para ter uma opinio final sobre isso.
Satisfeito por confirmar que no havia ningum atrs deles, estacionou em frente ao hotel. Juntou as bolsas e virou-se para afastar o cabelo molhado do rosto dela.
- Escuta. Presta ateno. - Segurou o rosto de Miranda at que seus olhos o enxergassem. - A gente tem que atravessar o lobby. Quero que voc v direto pro elevador.
Eu falo com o recepcionista. Voc vai direto e me espera. Entendeu?
- Entendi. - Pareceu-lhe que as palavras surgiam de algum lugar acima de sua cabea, em vez de sarem de sua boca. Elas flutuavam, confusas e sem sentido.
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Quando andou, teve a sensao de nadar dentro de um xarope, mas seguiu adiante, esforando-se para manter o foco nas portas metlicas dos elevadores. Essa era a
sua meta, pensou. Ela s precisava andar at o elevador.
Ouviu vagamente a conversa de Ryan com o recepcionista, um zum-zum de gargalhadas masculinas. Olhou fixamente para a porta e esticou o brao para sentir sua textura
com a ponta dos dedos. To fria e suave... Estranho, ela nunca havia reparado. Apoiou a palma da mo, e Ryan aproximou-se, pressionando o boto.
O elevador chacoalhava, como um trovo, ela pensou. As engrenagens trabalhando. E a porta produzia nada mais que um sibilo ao abrir-se.
Ela no tinha mais cor em seu rosto que o cadver deixado para trs, Ryan percebeu. E os dentes dela rangiam. Imaginou que estaria congelando. Deus sabe que ele
estava, e no era s devido ao passeio de moto sob a chuva torrencial.
- Vai at o hall - ele ordenou, mudando as sacolas de mo para poder passar o brao em volta da cintura de Miranda. Ela no se apoiou nele, nem parecia ter
substncia suficiente dentro do corpo para manter-se de p, mas ele manteve o brao at que entrassem na sute.
Ele trancou a porta e acrescentou a tranca de segurana, antes de lev-la at o quarto. -Tira essa roupa molhada, coloca um robe. - Preferiria t-la colocado numa
banheira quente, mas teve medo de que ela simplesmente escorregasse e se afogasse.
Checou as portas da varanda, confirmou que tambm estavam trancadas e buscou a garrafa de conhaque no frigobar. No se deu o trabalho de procurar os copos.
Miranda estava sentada na cama, exatamente onde ele a deixara. - Voc tem que tirar essa roupa - ele disse. - Voc t encharcada.
- Eu... meus dedos esto paralisados.
- Tudo bem. Toma um gole.
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Ele abriu o lacre da garrafa, depois a levou de encontro aos lbios de Miranda. Ela obedeceu sem pensar, sentindo o calor da bebida atravessar sua garganta, indo
at seu estmago. - Eu no gosto de conhaque.
- Eu no gosto de espinafre, mas minha me me obrigava a comer. S mais um gole. Anda, vai, age como uma boa combatente.
- Ele conseguiu fazer com que ela tomasse mais um gole, antes que afastasse sua mo.
- Eu t bem, eu t bem.
- Claro que t. - Na esperana de desfazer o n que sentia no prprio estmago, ele virou a garrafa e tomou um gole considervel.
- Agora, a roupa. - Colocou a garrafa de lado e comeou a abrir os botes da blusa dela.
- No...
- Miranda. - Dando-se conta de que suas pernas no estavam completamente firmes, sentou-se ao lado dela. - Voc acha que eu vou tirar proveito da situao?
Voc t em choque. Precisa colocar uma roupa seca e quente. Eu tambm.
- Eu posso fazer isso. - Ela se levantou ainda tremendo e foi claudicante at o banheiro.
Quando a porta se fechou, ele resistiu  necessidade de abri-la novamente para ter certeza de que ela no havia cado no cho.
Ele baixou a cabea um momento, ordenou a si mesmo que respirasse, s isso. Era sua primeira experincia de proximidade com uma morte violenta. Viva, violenta e
real, pensou, e tomou mais um gole de conhaque.
No era uma experincia que quisesse repetir.
- Eu vou pedir alguma coisa pra comer. Alguma coisa quente.
- Tirou a jaqueta molhada enquanto falava. Mantendo o olho na porta, despiu-se, jogou as roupas encharcadas no cho e vestiu camiseta e cala comprida.
- Miranda? - Com as mos nos bolsos, franziu o cenho diante da porta. Dane-se a moderao, decidiu e abriu a porta.
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Ela vestira um robe, mas seu cabelo ainda estava encharcado e ela estava no meio do banheiro, os braos apertados em volta do corpo, ninando-se. Olhou para Ryan
com expresso de total abandono. - Giovanni.
- Calma, t tudo bem. - Ele a envolveu com os braos, apoiou a cabea dela no ombro. - Voc foi muito forte at agora. Tudo bem, pode desmoronar.
Ela simplesmente apertava e soltava as mos nas costas dele.
- Quem faria uma coisa dessas? Ele nunca fez nada contra ningum. Quem faria isso?
- A gente vai descobrir. A gente vai descobrir. Tim-tim por tim-tim. - Ele a abraou com mais fora e passou a mo sobre o cabelo molhado, mais para acalmar
a si mesmo que a ela. - Mas voc precisa pensar com clareza. Eu preciso de voc. Preciso da sua lgica.
- Eu no t conseguindo pensar. Fico vendo ele l, deitado. Todo aquele sangue. Ele era meu amigo. Veio me encontrar quando eu pedi. Ele...
E o horror tomou conta dela, uma facada brutal rasgou seu corao e abriu sua mente para a verdade chocante, terrvel. - Meu Deus, Ryan. Eu matei o Giovanni!
- No. - Ele a afastou para que pudesse olhar em seus olhos. - A pessoa que deu o golpe foi quem matou o Giovanni. Voc tem que superar isso, Miranda, porque
no vai ajudar em nada.
- Ele s foi l hoje por minha causa. Se eu no tivesse pedido, ele teria ficado em casa ou teria sado com algum, teria ido beber com os amigos.
Ela pressionou as mos cerradas contra a boca, os olhos cobertos de horror. - Ele t morto porque eu pedi pra me ajudar, porque no confiei em voc e porque a minha
reputao  to importante, to vital, que eu tive que fazer as coisas do meu jeito. - Ela sacudiu a cabea. - Eu nunca vou superar isso.
Por mais sem expresso que estivessem seus olhos, a cor voltara ao seu rosto e sua voz estava mais forte. A culpa pode ser um ener-
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gtico, assim como pode paralisar. - Ok, ento usa isso. Seca o seu cabelo enquanto eu peo uma comida. A gente tem muita coisa pra discutir.
Ela secou o cabelo e vestiu um pijama branco, depois envolveu o corpo com o robe. Era capaz de comer, disse a si mesma, porque ficaria doente se no o fizesse. Precisava
ficar bem, forte e com a cabea livre se quisesse vingar a morte de Giovanni.
Vingar, pensou, com um tremor. Nunca acreditara em vingana. Agora lhe parecia perfeitamente saudvel, absolutamente lgico. A expresso "olho por olho, dente por
dente" girava sombriamente em sua cabea. A pessoa que assassinara Giovanni a usara sem piedade como uma arma, assim como usara o bronze.
Custasse o que custasse, demorasse o quanto fosse, ela faria com que pagassem por isso.
Quando saiu do banheiro, viu que Ryan pedira ao garom que servisse a refeio na varanda. A chuva parara e o ar estava fresco. A mesa convidativa, velas acesas
sobre a toalha de linho, posta sob o lustroso toldo listrado de verde e branco.
Ela imaginou que a inteno daquilo era fazer com que se sentisse melhor. Como se sentia grata a ele, fez o possvel para fingir que era verdade.
- T tudo com uma cara tima - conseguiu dizer com um meio sorriso. - O que  que a gente vai comer?
- Minestrone pra comear, e uns bifes  florentina. Vai ser bom. Senta e come.
Ela sentou-se e provou a sopa, que desceu como argamassa em sua garganta, mas forou-se a engolir. E ele estava certo, o calor da comida quebrou um pouco do gelo
em seu estmago.
- Eu preciso te pedir desculpas.
- Ok. Eu nunca recuso um pedido de mulher.
- Eu quebrei minha palavra com voc. - Ela levantou o olhar e o encarou. - Eu nunca tive a inteno de manter a palavra. Dizia
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pra mim mesma que uma promessa feita a um homem como voc no precisava ser cumprida. Eu estava errada, desculpa.
A sinceridade e a voz baixa com que ela disse isso tocaram seu corao. Ele teria preferido que fosse diferente. - A gente tem interesses opostos.  assim que .
Mas tem um objetivo comum. A gente quer encontrar os bronzes verdadeiros. E agora algum aumentou os riscos. Pode ser que seja mais inteligente da sua parte sair
do jogo, deixar pra l. Provar que estava certa no vale a sua vida.
- Isso me custou um amigo. - Ela contraiu os lbios, depois obrigou-se a tomar mais uma colherada da sopa. - Eu no vou abandonar o jogo, Ryan. No conseguiria
viver com isso. Eu no tenho muitos amigos. Com certeza, por culpa minha. No me dou muito bem com as pessoas.
- Voc t sendo muito dura consigo mesma. Voc se relaciona bem quando baixa a guarda. Como fez com a minha famlia.
- Eu no baixei a guarda. Eles simplesmente no deram a mnima pra isso. Eu tenho inveja do que voc tem com eles. - Sua voz tremeu um pouco e ela balanou
a cabea, forando-se a tomar um pouco mais da sopa. - O amor incondicional, o prazer que vocs tm um com o outro. No se compra esse tipo de coisa. - Sorriu palidamente.
- E tambm no se pode roubar.
- Voc pode construir. Basta querer.
- Algum precisa querer o presente que voc t oferecendo. - Suspirou e resolveu tentar tomar um gole de vinho. - Se meus pais e eu tivssemos uma relao
melhor, ns dois no estaramos sentados aqui agora. Essa situao tem tudo a ver com isso. A disfuno nem sempre se mostra com murros e pontaps. s vezes, ela
pode ser altamente educada.
- Voc j disse pra eles o que sente?
- No do jeito que eu acho que voc imagina. - Seu olhar passou por ele e fixou-se na cidade, nas luzes brilhando e na lua que comeava a iluminar o cu.
- No tenho certeza se eu sabia o que
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sentia at pouco tempo. E tambm no importa agora. O que importa  descobrir quem fez isso com o Giovanni.
Ele deixou o assunto morrer e, como decidira que era sua vez de lidar com as coisas prticas, removeu a tampa das travessas de carne.
- Ningum consegue entender como um pedao de carne vermelha pode ser mais bem tratado que os florentinos. Me fala mais do Giovanni.
Uma pontada no corao e um choque tremendo a fizeram comear a falar: - No sei o que voc quer que eu diga.
- Primeiro, me diz o que voc sabe sobre ele, e como voc soube. - Isso facilitaria as coisas, ele pensou, facilitaria o caminho para os detalhes que realmente
lhe interessavam.
- Ele ... era brilhante. Qumico. Nasceu em Florena e entrou na Standjo h uns dez anos. Trabalhou aqui primeiro, mas passou um tempo no laboratrio do
instituto. Foi a primeira vez que eu trabalhei com ele, uns seis anos atrs, mais ou menos.
Ela passou a mo na testa. - Ele era um homem adorvel, doce, engraado. Era solteiro. Gostava de mulher, era muito sedutor e atencioso. Prestava ateno nos detalhes.
Se voc estivesse com uma blusa nova ou um penteado diferente.
- Vocs namoraram?
Ela gemeu, mas balanou a cabea. - No. Ele era s meu amigo. Eu respeitava muito o talento dele. Confiava nas opinies e na lealdade dele. Usei a lealdade dele
- disse baixinho e afastou-se da mesa, indo at o parapeito da varanda.
Precisava de um momento para se equilibrar novamente. Ele estava morto. Ela no poderia mudar isso. Quantas vezes, pensou, por quantos anos, ela depararia com a
necessidade de ajustar-se a esse simples fato?
- Foi o Giovanni que me ligou pra dizer que o bronze era falso - continuou. - Ele no queria que eu fosse pega de surpresa quando minha me entrasse em contato
comigo.
- Ento, ele era da confiana dela.
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- Ele era da minha equipe daqui, no projeto. E foi pressionado quando meus resultados foram questionados. - Mais firme, ela voltou a sentar-se  mesa. - Eu
usei a lealdade dele e a nossa amizade. Eu sabia que podia.
- Hoje foi a primeira vez que voc falou com ele sobre a possibilidade de o bronze ser uma cpia?
- Foi. Liguei pra ele quando voc desceu. Pedi pra ele me encontrar na igreja. Disse que era urgente.
- Para onde voc ligou para falar com ele?
- Pro laboratrio. Sabia que ia conseguir falar com ele antes de sair do trabalho. Peguei os bronzes e desci. Sa pelo ptio enquanto voc falava com o recepcionista.
Ele veio imediatamente. No deve ter levado mais de quinze minutos.
Tempo suficiente, Ryan pensou, para que ele tivesse contado a algum sobre o telefonema. Contado para a pessoa errada. - O que  que voc disse?
- Quase tudo. Expliquei que tava com o bronze que o Ponti tinha testado, que no era o mesmo que tinha passado pela gente. Falei tudo o que podia ser falado
sobre o Davi. Acho que ele no acreditou em mim. Mas ele me ouviu.
Ela parou de mexer o bife pelo prato. Fingir que comia era esforo demais. - Pedi que levasse os bronzes pro laboratrio, fazer os testes e depois comparar com os
anteriores. Disse que ligaria amanh. No dei o telefone do hotel, porque no queria que ele ligasse pra c, nem aparecesse aqui. No queria que voc soubesse o
que eu tinha feito com os bronzes.
Ryan recostou na cadeira, chegando  concluso de que nenhum dos dois era capaz de fazer justia  refeio. Em vez de comer, pegou um charuto. - Esse pode muito
bem ser o motivo para ns dois estarmos aqui apreciando o luar.
- Como assim?
- Coloca o crebro pra funcionar, dra. Jones. Seu amigo tinha os bronzes, e agora ele t morto. A arma do crime e o Davi foram deixados l. O que  que liga
as duas peas? Voc.
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Ele acendeu o charuto, dando a ela tempo para absorver aquele pensamento. - Se a polcia encontra os dois bronzes na cena do crime, vai atrs de voc. Quem fez isso
sabe que voc j juntou informao suficiente pra estar indo atrs das respostas, que voc t infringindo a lei e quer colocar a polcia na sua cola.
- Mataram o Giovanni pra me incriminar. - Era muita frieza, uma monstruosidade. E era uma possibilidade cuja lgica no podia ser ignorada.
- Um benefcio a mais. Se ele era correto, ia comear a se fazer perguntas depois dos testes. Ia querer dar outra olhada nas suas anotaes, nos seus resultados.
- Por isso o laboratrio foi destrudo - ela murmurou. - Agora a gente nunca mais vai conseguir achar os meus documentos.
- Eles foram roubados ou destrudos - Ryan concordou. - Seu amigo ficou no meio do caminho. E, Miranda, voc tambm.
-  verdade. - De alguma forma, as coisas ficavam mais fceis daquela maneira. -Agora  mais importante do que nunca achar o bronze verdadeiro. A pessoa que
trocou as esttuas matou Giovanni.
- Voc sabe o que se diz sobre os assassinos? A primeira morte  difcil. Depois disso,  s um negcio.
Ela ignorou o arrepio que percorria sua pele. - Se isso significa que voc quer encerrar o nosso acordo aqui e agora, tudo bem, eu no te culpo.
- No? - Ele recostou novamente, tragando o charuto preguiosamente. Perguntou-se o quanto o fato de ela pensar que ele era um covarde tinha importncia.
E no quanto precisaria proteg-la com base na deciso que j tomara. - Eu costumo terminar as coisas que comeo.
O alvio espalhou-se como um rio, mas ela pegou sua taa de vinho e levantou-a numa espcie de brinde. - Eu tambm.
Captulo Dezoito
Ainda no era meia-noite quando Cario deixou o restaurante e comeou a andar a caminho de casa. Prometera  sua mulher que no chegaria tarde. As fronteiras do casamento
incluam uma noite livre para sair, beber e contar mentiras para os amigos. Sofia tambm tinha a sua noite, sempre uma festi-nha recheada de fofocas na casa da irm,
e ele supunha que elas faziam as mesmas coisas que ele e seus amigos.
Normalmente, ele ficava fora at meia-noite, ou um pouco depois disso, usufruindo o osis masculino, mas, ultimamente, andava voltando mais cedo. Tornara-se a piada
do dia, desde que fora anunciado que sua Senhora Sombria era uma falsificao.
No acreditara nisso nem por um minuto sequer. Segurara a estatueta nas mos, sentira a respirao em seu rosto. Um artista era capaz de reconhecer arte de qualidade.
Mas, toda vez que dizia isso, seus amigos riam.
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As autoridades o haviam prendido como se fosse um criminoso. Dio mio, no fizera nada que no fosse certo. Talvez tivesse cometi do um pequeno erro de julgamento
ao tirar a esttua da villa.
Mas ele a encontrara, afinal de contas. Segurara-a, olhara para seu rosto, sentira sua beleza e seu poder como vinho em seu sangue. Ela o hipnotizara, era o que 
achava
agora. E tambm o enfeitiara. E, ainda assim, ele fizera o que era certo, desistira dela.
Agora estavam tentando dizer que ela no valia nada. Uma manobra inteligente para enganar o mundo da arte. Ele sabia, no fundo do corao, da alma, que era mentira.
Sofia dissera que acreditava nele, mas ele sabia que no. Ela dissera isso porque era leal e amorosa, e porque causaria menos discusso na frente das crianas. Os
reprteres com quem falara alteraram todas as suas afirmaes, fazendo com que parecesse um tolo.
Ele tentara entrar em contato com a tal americana, a mulher que conduzira os testes no laboratrio importante para o qual o bronze fora levado. Mas ela no lhe dera
ouvidos. Perdera a calma com ela, pedira para falar com a dra. Miranda Jones, cientista que provara que a esttua era verdadeira.
A direttrice chamara a segurana e o expulsara de l. Fora humilhante.
Ele nunca deveria ter escutado Sofia, pensava agora enquanto caminhava pela rua silenciosa a caminho de casa, um tanto trpego, devido  quantidade de vinho na cabea.
Deveria ter mantido o bronze guardado em segredo, como quisera fazer. Ele a encontrara, a tirara daquele ambiente imundo e escuro, trouxera-a de volta  luz. Ela
lhe pertencia.
Agora, mesmo quando clamavam que no valia nada, no a devolviam a ele.
Ele a queria de volta.
Telefonara para o laboratrio em Roma e ordenara que lhe res-titussem a propriedade. Gritara e discutira, chamando-os de
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mentirosos e traidores. Inclusive telefonara para os Estados Unidos e deixara uma mensagem desesperada na secretria eletrnica do escritrio de Miranda. Acreditava 
que
ela era um link para a sua dama. Ela o ajudaria, de alguma maneira.
Ele no sossegaria enquanto no visse a sua dama novamente, enquanto no colocasse as mos nela.
Contrataria um advogado, decidiu, inspirado pelo vinho e pela humilhao de uma gargalhada de desdm. Telefonaria para a americana novamente, naquele lugar chamado
Maine, e a convenceria de que tudo no passara de uma trama, de uma conspirao para roubarem a sua dama.
Lembrou de sua fotografia nos jornais. Um rosto forte, honesto. Sim, ela o ajudaria.
Miranda Jones. Ela escutaria o que tinha a dizer.
No olhou para trs quando ouviu o barulho do carro que se aproximava. A estrada estava vazia e ele, parado no acostamento. Concentrado na imagem dos jornais, no
que diria a essa mulher cientista.
Miranda e A Senhora Sombria ocupavam a sua mente quando o carro em alta velocidade o atingiu.
Em P na varanda, sob o sol forte da manh, miranda contemplava a cidade. Talvez pela primeira vez apreciasse verdadeiramente a beleza daquele lugar. A morte de 
Giovanni
a transformara irrevogavelmente. Uma mancha escura de culpa e dor a marcaria para sempre. Ainda assim, era invadida por uma luz que jamais conhecera. Havia certa
urgncia para agarrar tudo, para usar o tempo, para saborear os detalhes.
O beijo suave da brisa que pairava sobre suas faces, os raios de Sol que tremulavam brilhantes sobre a cidade e suas montanhas, a Pedra morna sob seus ps descalos.
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Queria sair, deu-se conta. Vestir-se e passear sem rumo pelas ruas, sem a necessidade de se programar a cada passo. Queria simplesmente olhar as vitrines, andar
 beira do rio. Sentir-se viva.
- Miranda.
Ela respirou fundo, olhou por sobre o ombro e viu Ryan de p na porta da varanda. - O dia t lindo. Primavera, renascimento. Acho que eu nunca prestei ateno nisso
de verdade, antes.
Ele atravessou o terrao, colocou sua mo sobre a dela no para-peito. Ela teria sorrido, no tivesse percebido a expresso do olhar dele. - Ai, meu Deus. O que foi
que aconteceu agora?
- O encanador. Cario Rinaldi. Est morto. Foi atropelado, ontem  noite. Acabei de ouvir no noticirio. - A mo dela girou dentro da dele, agarrou-a. - Ele
tava indo a p pra casa perto de meia-noite. No deram muitos detalhes. - Uma fria fria percorreu seu corpo. - Ele tinha trs filhos, e mais um a caminho.
- Pode ter sido um acidente. - Ela queria agarrar-se a isso, e imaginava ser capaz, no fosse o olhar de Ryan. - Mas no foi. Por que algum quereria que
ele morresse? Ele no tem nenhuma ligao com o laboratrio. No tinha como ele saber de nada.
- Ele andava fazendo muita confuso. Pelo que a gente sabe, estava por dentro de tudo desde o incio. De qualquer maneira, encontrou o bronze, ficou com ele
vrios dias. Deve ter analisado a pea. Era uma ponta solta, Miranda, e as pontas soltas so cortadas.
- Como o Giovanni. - Ela se afastou dele. Seria capaz de viver com aquilo, disse a si mesma. Tinha que ser capaz. - Alguma notcia sobre o Giovanni?
- No, mas vai ter. Se veste. A gente vai sair.
Sair, ela pensou, mas no para passear pelas ruas, para uma caminhada  beira do rio, para, simplesmente, ser ela mesma.
- Tudo bem.
- Sem discusso?
- Hoje no. - Ela entrou no quarto e fechou a porta.
Trinta minutos depois, estavam numa cabine telefnica e Ryan
fazia algo que evitara durante toda a vida. Estava ligando para a polcia.
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Mudou o tom de voz, deixando-o mais agudo, usou um italiano coloquial e sussurrado para falar de um corpo no segundo andar do laboratrio da Standjo. Desligou quando
as perguntas comearam.
- Isso deve ser o suficiente. Vamos sair daqui. No sei se a polcia italiana tem identificador de chamadas.
- A gente vai voltar pro hotel?
- No. - Ele subiu na motocicleta. - A gente vai pra casa da sua me. Voc me guia.
- Pra casa da minha me? - Sua promessa de no fazer perguntas foi engolida pelo choque. - Por qu? Voc t maluco? Eu no posso te levar  casa da minha
me.
- Eu imagino que no v ter um linguine com molho vermelho pro almoo, mas a gente pode pegar uma pizza no caminho. Deve ser tempo suficiente.
- Pra qu?
- Pra polcia encontrar o corpo, pra ela saber o que aconteceu. O que  que voc acha que ela vai fazer quando souber?
- Vai direto pro laboratrio.
-  exatamente com isso que estou contando. Isso vai nos dar uma tima oportunidade pra vasculhar o lugar.
- A gente vai invadir a casa da minha me?
-A menos que ela costume deixar uma chave reserva debaixo do capacho. Coloca isso. - Ele tirou um bon do bagageiro da moto. - Os vizinhos vo ver esse seu cabelo
a um quilmetro de distncia.
- Eu no entendo qual  o sentido disso - miranda disse uma hora depois, sentada atrs dele na moto, a meio quarteiro da casa da me. - Simplesmente no consigo
encontrar uma justificativa pra invadir a casa da minha me e sair remexendo as coisas dela.
- Qualquer documento que tenha a ver com os seus testes que tenha ficado guardado no laboratrio  uma perda. Talvez ela tenha cpias em casa.
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- Por que ela teria?
- Porque voc  filha dela.
- Isso no importa pra ela.
Mas importa para voc, Ryan pensou. - Talvez sim, talvez no.  ela, ali?
Miranda olhou para a casa e flagrou-se escondendo o corpo atrs de Ryan, como se fosse uma colegial matando aula. - , acho que voc acertou essa parte.
- Mulher atraente. Voc no parece muito com ela.
- Muito obrigada.
Ele simplesmente sorriu e observou Elizabeth, vestindo um impiedoso tailleur escuro, abrir a porta do carro. - Ela  fria - ele comentou. - Olhando pra ela, ningum
diz que acabou de receber um telefonema avisando que a empresa foi invadida e que um dos empregados t morto.
- Minha me no  do tipo que expressa as emoes.
-  como eu disse, voc no  muito parecida com ela. Ok, vamos l. Ela no vai voltar por um bom tempo, mas a gente tem que fazer isso rpido, pra no complicar
as coisas.
- No tem nada descomplicado aqui. - Ela o observou pendurar a bolsa no ombro. Ah, sim, decidiu, sua vida nunca mais seria a mesma. Ela era uma criminosa
agora.
Ele foi direto at a porta da frente e tocou a campainha. - Ela tem empregados? Cachorro? Namorado?
- Tem uma arrumadeira, eu acho, mas que no mora aqui. Ela no liga pra bichos de estimao. - Enterrou um pouco mais o bon na cabea, para garantir que
seu cabelo estaria bem preso. - Eu no sei nada sobre a vida amorosa dela.
Ele tocou a campainha novamente. No havia nada de mais constrangedor para ele que entrar numa casa que imaginava vazia para fazer seu trabalho, e descobrir que
o dono estava preso a uma cama, com gripe.
Pegou suas ferramentas e arrombou a fechadura em menos tempo do que o faria se usasse a chave. - Tem alarme?
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- No sei. Provavelmente.
- Tudo bem, a gente resolve isso. - Ele entrou, viu o painel na parede e a luz indicativa de que o sistema requeria um cdigo. Concentrou-se um minuto e,
pegando uma chave de fenda, removeu a tampa do painel, cortou alguns fios, desligando o equipamento.
Como a cientista no conseguiu esconder a admirao pelos gestos eficientes, rpidos e econmicos dele, tentou demonstrar desinteresse na voz: - Voc me faz questionar
por que algum se d ao trabalho de se incomodar com uma coisa dessas. Por que no deixar logo as janelas e as portas abertas?
- Exatamente o que eu penso. - Ele piscou para ela, depois correu os olhos pelo hall de entrada. - Bonito. Muita arte de qualidade, um pouco sem vida pro
meu gosto, mas atraente. Onde  o escritrio dela?
Ela o encarou por um momento, perguntando-se por que a crtica casual de Ryan ao gosto da me a agradara tanto. Poderia ter ficado chocada. - Segundo andar  esquerda,
eu acho. Eu nunca fiquei muito tempo aqui.
- Vamos dar um pulo l. - Ele subiu os degraus de uma graciosa escada. O lugar poderia ter um pouco mais de cor, pensou, algumas surpresas. Tudo era perfeito
como numa casa-modelo e tinha a mesma atmosfera vazia. Com certeza, era sofisticada, mas ele preferia seu apartamento em Nova York, ou a casa elegantemente descuidada
de Miranda no Maine.
Achou o escritrio feminino, mas nada detalhista, polido; apenas eficiente, bacana, mas no muito frgil. Perguntou-se se refletiria a personalidade da ocupante,
e pensou que sim.
- Cofre?
- No sei.
- Ento procura - ele sugeriu, e comeou a fazer o mesmo olhando atrs dos quadros. -Aqui, atrs dessa gravura excelente de Renoir. Eu cuido disso e voc
d uma olhada na mesa.
Ela hesitou. Mesmo quando era criana, sabia que no devia entrar em nenhum dos quartos de sua me sem permisso. Nunca
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teria entrado ali para pegar emprestado um par de brincos ou experimentar uma borrifada de perfume. E, certamente, nunca teria tocado em nada na mesa de trabalho
da me.
Pareceu-lhe uma compensao pelo tempo perdido.
Deixou de lado o condicionamento de toda uma vida e mergulhou na tarefa, com muito mais entusiasmo que jamais admitiria.
- Tem uma poro de arquivos aqui - disse para Ryan enquanto remexia papis. - A maioria parece ser pessoal. Seguros, notas, correspondncia.
- Continua olhando.
Ela sentou-se na cadeira da escrivaninha - mais uma coisa que fazia pela primeira vez - e abriu outra gaveta. Fervilhava de excita-o agora, uma excitao culpada
e repleta de vergonha.
- Cpias de contratos - murmurou - e relatrios. Acho que ela trabalha mesmo aqui. Ah. - Seus dedos ficaram paralisados. - O Bronze Fiesole. Ela tem uma pasta.
- Pega. A gente vai dar uma olhada mais tarde. - Ele ouviu o rudo do ltimo nmero da combinao entrando para a abertura do cofre. - Agora sim, coisa rica.
Muito bom, muito bom - sussurrou, abrindo a caixa de veludo e examinado um colar de prolas de duas voltas. - Relquias de famlia. Isso ficaria muito bem em voc.
- Guarda isso.
- Eu no vou roubar. No roubo jias. - Mas abriu outra caixa e gemeu ao ver o brilho dos diamantes. - Muito chiques esses brincos, uns trs quilates cada
um, boa lapidao, cristalinos, impecveis.
- Pensei que voc no roubasse jias.
- Isso no quer dizer que no me interesso. Eles iam ficar incrveis com o seu anel.
- No  meu anel - ela disse de cara, mas seu olhar voltou-se para o diamante brilhando em seu dedo. -  enfeite de vitrine.
- Certo. Olha isso. - Puxou de dentro do cofre um saco plstico. - Parece familiar?
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- Os raios X. -Afastou-se da mesa e agarrou o objeto em dois tempos. - Os raios X impressos. Olha, olha pra elas. Esto a. D pra ver. Os nveis de corroso.
Basta olhar. T a.  real.
Repentinamente tomada de emoo, ela pressionou a testa com as mos e apertou os olhos. - T a. Eu no tava errada. Eu no cometi um erro.
- Eu nunca achei que voc estivesse errada.
Ela abriu os olhos novamente e sorriu. - Mentiroso. Voc invadiu o meu quarto e ameaou me estrangular.
- Eu disse que podia te estrangular. - Ele passou as mos novamente pela sua garganta. - E isso foi antes de eu te conhecer. Guarda tudo, darling. A gente
tem muita coisa de que se ocupar por algum tempo.
Passaram as horas seguintes na sute do hotel, Miran-da repassando as cpias de seus relatrios linha por linha, enquanto Ryan se dedicava ao seu computador.
- T tudo aqui. Tudo que eu fiz, passo a passo. Cada teste, cada resultado. Tudo bem,  pouca documentao, mas se sustenta. Por que ela no viu isso?
- D uma olhada nisso aqui e v se voc entende.
- O qu?
- Eu cruzei umas informaes. - Ele a chamou para perto. - Aqui esto os nomes que eu consegui. Pessoas que tiveram acesso aos dois bronzes. Provavelmente
tem mais gente, mas esses so os jogadores-chave.
Ela se levantou e leu por cima do ombro dele. S sossegou quando percebeu seu nome no topo da lista. Sua me estava ali, seu pai estava ali, Andrew, Giovanni, Elise,
Carter, Hawthorne, Vincente.
- O Andrew no teve acesso  Senhora Sombria.
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Uma mecha do cabelo que ela prendera soltou-se, fazendo ccegas na face dele. A sensao imediata na regio dos quadris fez com que ele deixasse escapar um longo
suspiro. No mnimo, pensou, o cabelo dela o faria beber antes de terminarem.
- Ele tem ligao com voc, com sua me, com a Elise.  proximidade suficiente.
Ela fungou e prendeu os culos com mais segurana no nariz.
- Isso  um insulto.
- Quero saber o quanto essa lista  precisa. Sem comentrios.
-  bem completa, precisa e insultante.
Ah, sim, havia puritanismo no tom da voz dela tambm. Isso simplesmente o derrubava de desejo. - A mulher do Hawthorne estava com ele em Florena?
- No.
- O Richard  divorciado. - Dane-se, ele pensou, e torturou-se virando a cabea o suficiente para que pudesse sentir o perfume do cabelo dela. - Ele estava
casado quando trabalhou no Maine?
- No sei. A gente mal se viu. Na verdade, no me lembrava dele at ele me dizer que a gente se conhecia. - Perturbada, ela virou a cabea, encontrou seus
olhos fixos nos dele, e algo nele no estava focado no trabalho. Seu corao disparou imediatamente e lanou fagulhas de desejo na boca do seu estmago. - Por que
isso  importante?
- Por que isso  importante? - Ele queria aquela boca. Droga, ele tinha direito quela boca.
- O, ... Richard ser divorciado.
- Porque as pessoas confidenciam com os amantes, maridos e esposas. O sexo - murmurou e enrolou os fios de cabelo soltos em seu dedo -  um grande comunicador.
Um puxo, ele pensou, um puxo e aquela boca se colaria  sua. Teria todo aquele cabelo em suas mos, toda aquela massa crespa, selvagem. Ela estaria nua em segundos.
S manteria os culos.
Ele comeava a ter fantasias incrveis com Miranda nua, somente de culos.
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Foi com grande pesar que ele no a puxou, mas desfez-se da mecha de cabelo, virou-se e fez uma careta para a tela do computador.
- A gente tem que dar uma olhada nos empregados tambm. Mas acho que a gente precisa de um tempo.
- Um tempo? - No havia nenhum pensamento em ordem em sua cabea. Seus nervos crispavam a superfcie de sua pele como choques suaves.
Se ele a tocasse agora, se a beijasse agora, ela sabia que explodiria como um foguete. Empertigou-se, fechou os olhos. E ansiou.
- Qual  a sua idia?
- Vamos dar um tempo e comer alguma coisa.
Seus olhos voltaram a se abrir. - O qu?
- Comida, dra. Jones. - Ele digitava, concentrando-se, e no a viu esfregando as mos no rosto atrs de si.
- Isso, comida. -A voz dela tremia um pouco, gargalhada ou desespero, ela no tinha certeza. - Boa idia.
- O que  que voc gostaria de comer na sua ltima noite em Florena?
- ltima noite?
- As coisas podem ficar meio esquisitas por aqui. Vai ser melhor a gente trabalhar em casa.
- Mas A Senhora Sombria t aqui...
- A gente volta pra buscar depois. - Ele desligou o computador e afastou-se da mesa de trabalho. - Florena no  uma cidade grande, dra. Jones. Mais cedo
ou mais tarde algum que voc conhece vai te ver. - Ele passou a mo pelo cabelo dela. - Voc simplesmente no some na multido. Restaurante rpido, sofisticado
ou barulhento?
Casa. Ela descobriu o quanto queria voltar para casa, enxerg-la com seus novos olhos. - Acho que quero um lugar barulhento, pra variar.
- tima escolha. Sei exatamente pra onde vou te levar.
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Era barulhento, cheio, e a iluminao grosseira exa-cerbava o exagero dos quadros que cobriam as paredes. Estes estavam de acordo com os salames e presuntos que
decoravam o ambiente. As mesas eram grudadas umas nas outras; portanto, quem jantava - amigos e estranhos - comia pores generosas de carne e massa s cotoveladas.
Os dois estavam num canto, ao lado de um homem gordo, de avental manchado, que anotava o pedido de vinho de Ryan com acenos positivos de cabea.  esquerda de Miranda,
estava um casal gay americano viajando pela Europa. Dividiam uma cesta de pes, enquanto Ryan conversava com eles com uma facilidade e um desprendimento que impressionavam
Miranda.
Ela nunca teria falado com estranhos num restaurante, a menos que de maneira absolutamente restrita. Mas, quando o vinho foi colocado na mesa, e servido, ela j
sabia que eram de Nova York, tinham um restaurante no Village, e estavam juntos h dez anos. Aquela era, disseram, sua viagem de aniversrio.
-  nossa segunda lua de mel. - Divertindo-se, Ryan pegou a mo de Miranda e a beijou. - No , Abby?
Perplexa, ela o encarou, depois deu-lhe um leve chute por baixo da mesa em resposta. -Ah, . Humm... a gente no pde ter nossa lua de mel assim que casou. O Kevin
tinha acabado de comear a trabalhar, e eu era s... s uma iniciante numa agncia. Agora a gente t curtindo um pouco, antes de chegarem os filhos.
Impressionada consigo mesma, deu um gole no vinho enquanto Ryan a encarava. - Valeu a espera. A gente respira romance em cada suspiro aqui em Florena.
Desafiando qualquer lei da fsica, o garom abriu caminho entre as mesas e perguntou o que iriam querer.
Menos de uma hora depois, Miranda queria mais vinho. -  maravilhoso. Que lugar maravilhoso! - Mudou de posio na
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cadeira para sorrir afetivamente para a mesa de britnicos que conversavam em tom educado, enquanto, numa mesa ao lado deles, alemes bebiam cerveja local e cantavam.
- Eu nunca vou a lugares assim.
- Tudo girava em sua cabea, os cheiros, as vozes, o vinho.
- Fico me perguntando por qu?
- Quer sobremesa?
- Claro que eu quero. Quero comer, beber e ser feliz. - Ela se
serviu de outra taa de vinho e sorriu para ele, ligeiramente embriagada. - Adorei aqui.
- , t vendo. - Ele afastou um pouco a garrafa e fez sinal para o garom.
- Eles no so um casal fofo? - Ela sorriu, sentimental, em direo ao espao deixado pelo casal ao sair. - Eles so realmente apaixonados. A gente vai procur-los,
no vai, quando voltar pra casa? No, quando eles voltarem pra casa. A gente vai pra casa amanh.
- Vamos querer o zabaglione - Ryan disse para o garom, olhando para Miranda enquanto ela acompanhava baixinho a cantoria dos alemes bbados. - E cappuccino.
- Eu preferia tomar mais vinho.
- No acho uma boa idia.
- Por que no? - Tomada de amores pelo companheiro, ela pegou a taa e tomou tudo. - Eu gosto de vinho.
- Por causa da sua cabea - ele disse, encolhendo os ombros, quando ela puxou novamente a garrafa. - Se voc continuar bebendo, seu voo pra casa no vai ser
nem um pouco agradvel.
- Eu sou tima de avio. - Olhos apertados, encheu a taa at que estivesse quase transbordando. - Viu? Firme como uma rocha. A dra. Jones t sempre firme.
- Ela riu e inclinou o corpo  frente, conspiradora. - Mas a Abby fica bbada.
O Kevin t um pouco mais que preocupado com a possibilidade de a Abby desmaiar na mesa e de ele ter que carregar a mulher no colo.
- Nada. - Ela coou o nariz com as costas da mo. - A dra. Jones no permitiria. Muito constrangedor. Vamos dar uma volta
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no rio. Eu quero passear na beira do rio  luz da lua. Abby vai deixar voc dar um beijo nela.
-  uma proposta interessante, mas eu acho melhor a gente ir pra casa.
- Eu amo o Maine. - Ela recostou, balanando a taa na mo.
- Eu amo os precipcios, o fog, as ondas batendo nos barcos de lagosta. Eu vou fazer um jardim. Este ano eu vou fazer um jardim. Humm. - Essa foi sua opinio
sobre a sobremesa cremosa colocada  sua frente. - Eu gosto de me permitir certas coisas. - Baixou a taa e mergulhou a colher. - Eu nunca soube isso sobre mim -
disse com a boca cheia.
- Experimenta o caf - ele sugeriu.
- Eu quero vinho. - Mas, quando tentou alcanar a garrafa, ele a retirou.
- Ser que eu posso te entreter com outra coisa?
Ela o observou, pensativa, depois sorriu. - Me traz a cabea de Joo Batista - ordenou, depois caiu na gargalhada. - Voc realmente roubou os ossos dele? Eu simplesmente
no consigo entender um homem que rouba os ossos de um santo. Mas  fascinante.
Hora de ir embora, Ryan decidiu. E rapidamente tirou do bolso dinheiro mais que suficiente para cobrir a conta. - Vamos dar uma volta, darling.
- Ok. - Ela se levantou, depois precisou apoiar-se na parede.
- Caramba, tem um bocado de gravidade aqui.
- Talvez no tanto quanto l fora. - Ele passou o brao em volta da cintura dela e a arrastou pelo restaurante, rindo enquanto ela se despedia calorosamente
das pessoas.
- Voc  uma figura, dra. Jones.
- Qual era o nome do vinho? Vinho delicioso. Eu quero comprar uma caixa desse vinho.
- Voc j fez um timo trabalho enchendo a cara com ele. - Ele a guiou pela calada desigual, ao longo da rua vazia, grato por
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terem decidido ir a p, e no de moto. Ele teria precisado amarr-la nesse caso.
- Eu vou pintar as minhas janelas.
- Boa idia.
- As janelas da casa da sua me so amarelas. Muito vivas. Todo mundo da sua famlia  muito vivo. - Abraando-o pela cintura, ela o conduziu num giro. -
Mas eu acho que um azul bonito pode ficar bem na minha casa. Um azul vivo, e eu vou colocar uma cadeira de balano na varanda da frente.
- Nada como uma cadeira de balano na varanda. Cuidado, olha o meio-fio. Isso, garota.
- Eu invadi a casa da minha me hoje.
- . Eu ouvi isso em algum lugar.
- Eu t dividindo uma sute de hotel com um ladro e invadi a casa da minha me. Podia ter roubado tudo.
-  s voc pedir. Prxima  esquerda. A gente t quase chegando.
- Foi timo.
- O qu?
- Invadir. Eu no queria dizer na hora, mas foi timo. - Ela levantou os braos e o segurou cuidadosamente pelo queixo. - Voc bem que podia me ensinar a
arrombar fechaduras. Voc me ensina, Ryan?
- Com certeza. - Ele movimentou o maxilar e a virou na direo da entrada do hotel.
- Eu podia te convencer a fazer isso. - Ela se virou, pen-durando-se nele no carpete elegante do lobby, e pressionou a boca contra a de Ryan, antes que ele
pudesse recobrar o equilbrio. Desta vez a cabea dele girou enquanto ela sugava seu sangue com o beijo.
- Miranda...
-  Abby pra voc, camarada - ela murmurou enquanto o recepcionista discretamente evitava os olhos dele. - Que tal?
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- Vamos conversar l em cima. - Ele a arrastou em direo ao elevador, longe dos olhares alheios.
- Eu no t a fim de conversar. - Ela se jogou em cima dele e mordeu-lhe a pontinha da orelha. - Eu quero sexo selvagem, animal. Agora.
- Quem no quer? - disse o homem do casal formalmente vestido que saa do elevador.
- Viu? - Miranda apontou enquanto Ryan a empurrava para dentro. - Ele concorda comigo. Eu quero transar com voc desde que te vi e ouvi o zumbido.
- Zumbido. - Ele estava ficando sem ar, na tentativa de desenrosc-la do prprio corpo.
- Eu ouo zumbidos com voc. Minha cabea t cheia de zumbidos agora. Me beija de novo, Ryan. Eu sei que voc quer.
- Para. - Com certo desespero, ele afastou as mos dela antes que pudessem desabotoar sua camisa. - Voc t de porre.
- E da? - Ela jogou a cabea para trs e riu. - Voc t tentando me levar pra cama o tempo todo. Agora  a sua chance.
- Existem regras - ele murmurou, movimentando-se como um bbado enquanto ela se jogava em cima dele. Um dos dois, ele pensou, precisava de um banho frio.
-Ah, agora voc tem regras. - Rindo, ela tirou a camisa dele de dentro da cala. Enquanto suas mos acariciavam as costas dele, indo at a barriga, ele se esforava
para colocar a chave na fechadura.
- Deus me ajude. Miranda... Jesus. - Aquelas mos ocupadas agora haviam descido um pouco mais. - Olha s, eu disse no. - Olhos nos olhos, eles entraram juntos.
- Presta ateno. Se controla.
- No d. Se controla voc. - Ela o soltou apenas por tempo suficiente para endireitar-se, abraar a cintura dele com a perna, entranhar as mos no seu cabelo
e fundir sua boca na dele. - Faz amor comigo. Toca em mim. Eu quero as suas mos em mim.
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Elas j estavam fazendo isso. Ele no conseguiu impedir que suas mos se ajustassem quele bumbum bem torneado. Seu sangue gritava por ela, sua lngua se misturava
 dela. O resto de sanidade que lhe restava estava fraquejando.
- Voc vai se odiar e me odiar, amanh de manh.
-  E da? - Ela riu novamente, e seus olhos estavam
intensamente azuis quando se fixaram nos dele. Sacudiu o cabelo e Ryan foi tomado por um desejo avassalador. - Isso  agora. Embarca no momento comigo, Ryan. Eu
no quero viver o momento sozinha.
Seus olhares permaneceram fixos um no outro enquanto ele a carregava at o quarto. - Ento, vamos ver quanto tempo o agora dura. E no se esquea, dra. Jones...
- Ele segurou o lbio inferior dela com os dentes, mordeu, apertou, soltou. - Voc pediu.
Caram juntos na cama, o luar entrando pelas portas, a sombra de seus corpos. O peso dele a excitou, as linhas duras daquele corpo pressionando o seu no colcho.
As bocas encontraram-se novamente num beijo quase de cobia, violento, depois se engajando num emaranhado ardente, de mordidas suaves.
Ela queria tudo, e mais. Tudo, e o impossvel. E sabia que, com ele, teria.
Aconchegou seu corpo ao dele, sem querer ser passiva. Os movimentos brutos fizeram sua cabea girar, o ar saa-lhe permeado de gemidos e gargalhadas. Deus, ela estava
livre. E viva, to viva. Na sua pressa de sentir a carne, agarrou a camisa dele, arrebentando os botes da seda elegante.
- Isso, assim... - ela sussurrou quando ele arrancou a manga de sua blusa. - Rpido.
Ele no teria tanta vontade de diminuir a velocidade das aes quanto tinha de congelar o tempo. Suas mos rpidas e cuidadosas eram velozes ao tirar o suti dela,
depois as preencheu com os seios de Miranda.
Brancos como mrmore, delicados como gua.
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Quando o toque no foi suficiente, ele a girou, ficou em cima dela novamente e a devorou.
Ela gemeu, arqueando o corpo quando lbios, dentes e lngua cobriram seu corpo. Suas unhas afundaram nas costas dele, arranhando os msculos rgidos enquanto ondas
de prazer percorriam seu corpo. As sensaes a tomavam numa confuso de dores gloriosas, prazeres obscuros e nervos  flor da pele.
- Agora. Agora. Vem.
Mas a boca de Ryan passeava pelo torso dela. No ainda. Ainda no.
Ele puxou a cala impecvel de algodo dela pelos quadris e mergulhou a lngua no centro daquele calor ardente. O orgasmo foi instantneo, violento, e paralisou
os dois de tanto prazer. Ela soluou o nome dele, os dedos presos ao cabelo daquele homem, enquanto o alvio reconstrua a necessidade, e a necessidade crescia desesperadamente
em direo  exigncia.
O corpo dela era um milagre, uma obra de arte, tronco e pernas longas, a pele branca como o leite, os msculos tesos. Ele queria sabore-la, lamb-la, de cima a
baixo. Queria enterrar seu rosto naquela queda livre de cabelos at ficar surdo e mudo.
Mas o animal dentro dele clamava por liberdade.
Rolaram novamente, lutando sobre a cama, tentando um ao outro com mordidas e carcias.
A vista de Miranda embaou, os pulmes pegaram fogo enquanto outro orgasmo a convulsionava, percorrendo seu corpo em grandes choques de energia. Sua respirao era
uma srie de pequenos gritos queimando em seu peito, o corpo inacreditavelmente acordado em cada toque, cada afago.
O rosto dele parecia nadar sobre o dela, depois entrou em foco, cada feio distinta como se cravada em diamante. As respiraes misturadas, os quadris arqueados.
E ele mergulhou dentro dela.
Todo movimento cessou, no fosse aquele instante sensual e atemporal. Juntos, ele enterrado nas profundezas dela, admiravam
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um ao outro. Devagar, num nico movimento, ela levou as mos s costas dele e depois lhe agarrou os quadris.
Juntos, comearam a se movimentar, a velocidade crescente, os corpos deslizando de suor, prazer e mais prazer, prazer que derrubava os corpos e dominava as mentes.
Tudo, e mais, ela pensou, tonta ao se encaminhar para o pice. Tudo, e o impossvel. Encontrou o que queria ao grudar-se a ele e estilhaar-se.
Captulo Dezenove
O banho luminoso dos raios de sol a acordou. Durante um terrvel instante, ela teve a impresso de que seus olhos queimavam, e esfregou-os com a palma das mos at
que estivesse completamente acordada.
Descobriu que no estava em combusto espontaneamente. E que no estava sozinha na cama. O mximo que conseguiu fazer foi gemer e fechar os olhos novamente.
O que fizera?
Bem, era bastante bvio - na verdade, se a memria tinha alguma serventia, fizera-o duas vezes. No intervalo, Ryan lhe dera uma aspirina e um grande copo de gua.
Ela sups que essa pequena considerao da parte dele era o que permitia que sua cabea estivesse, no momento, fixada no pescoo.
Cuidadosamente, desviou o olhar. Ryan estava deitado de bru-os, o rosto enterrado no travesseiro. Imaginou que ele tambm no era to f do brilho do sol, mas nenhum
dos dois se lembrara de fechar as cortinas na noite anterior.
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Meu Deus do cu!
Ela tomara a iniciativa, agarrara-o, rasgara suas roupas, como se fosse uma maluca.
E, mesmo agora, em plena luz do dia, salivava diante da possibilidade de repetir a experincia.
Lentamente, desejando preservar a dignidade, pelo menos por tempo suficiente para tomar uma chuveirada, levantou-se da cama. Ele no moveu um msculo, nem fez um
rudo, e, graas a essa pequena bno, ela correu para o banheiro.
Por sorte, no o viu abrir os olhos e sorrir diante da viso de seu bumbum nu.
Falou sozinha durante o banho, ridiculamente agradecida pela ducha de gua quente. Fazia com que algumas dores fossem embora. No entanto, as mais profundas, as mais
doces que aceitara como um presente do sexo prazeroso e saudvel, essas permaneciam.
Tomou mais uma aspirina, por via das dvidas.
Quando saiu do banheiro, ele estava no terrao, conversando casualmente com o rapaz do servio de quarto. Como era tarde demais para voltar a se esconder l dentro,
sorriu palidamente para os dois.
- Buon giorno. O dia est lindo, si? Aproveite. - O garom pegou a conta assinada com um leve cumprimento de cabea. - Grazie. Buon appetito.
Ele os deixou a ss diante de uma mesa farta e um pombo que passeava pelo parapeito da varanda, avaliando gulosamente as ofertas.
- Oi, eu... - Ela enfiou as mos nos bolsos do robe, porque elas queriam flutuar sem destino.
- Vem tomar caf - ele convidou. Vestia cala cinza e camisa preta, roupa que fazia com que ele parecesse confortvel e cosmopolita. E que a fazia lembrar
que seu cabelo estava molhado e embaraado.
Ela quase se perdeu pensando nisso, mas respondeu com um aceno de cabea. Era uma mulher que encarava as coisas de frente.
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- Ryan, ontem  noite... eu acho que voc merece um pedido de desculpas.
- Jura? - Ele serviu duas xcaras de caf e sentou-se conforta-velmente  mesa.
- Eu bebi alm da conta. No  uma desculpa,  s um fato.
- Darling, voc tava derrubada. E uma graa tambm. - Ele acrescentou, observando-a enquanto passava geleia num croissant. - E incrivelmente gil.
Ela fechou os olhos, desistindo, e sentou-se. - Meu comportamento foi imperdovel e lastimvel, desculpe. Coloquei voc numa posio difcil.
- Eu me lembro de vrias posies. - Ele tomou um gole do caf, seduzido pelo desconforto que a deixava ligeiramente vermelha. - Nenhuma delas foi difcil.
Ela pegou seu caf e bebeu rapidamente, queimando a lngua.
- Por que isso merece desculpas? - ele perguntou, escolhendo um bolinho da cesta e colocando-o no prato. - Qual a funo de se arrepender? A gente machucou
algum?
- A questo ...
- A questo, se  que tem que ter uma,  que ns dois somos adultos saudveis, solteiros, livres e que tm uma atrao enorme um pelo outro. Noite passada,
a gente fez alguma coisa a respeito disso. - Ele cortou um pedao da omelete dourada. - Eu me diverti, e muito. - Cortou a omelete em duas partes e colocou uma no
prato dela. - E voc?
Ela se preparara para humilhar-se, para desculpar-se, para assumir total responsabilidade. Por que ele no a deixava fazer isso?
- Voc t deixando passar o que interessa.
- No, no t, no. Eu no concordo com o que voc t tentando enfatizar. Ah, olha s aquele seu olhar meio distante aparecendo de novo. Melhor. Agora, embora
eu aprecie o fato de voc ser sensvel o suficiente pra no colocar a culpa em mim por me
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aproveitar da situao, j que foi voc que arrancou a minha roupa, tambm no adianta se culpar.
- Eu t culpando o vinho - ela disse, inflexvel.
- No, voc j disse que isso no era desculpa. - Ele riu, pegou a mo dela e encerrou o assunto. - Eu queria transar com voc desde a primeira vez que eu
te vi, e passei a querer mais ainda quando te conheci melhor. Voc me fascina, Miranda. Agora, come, antes que fique tudo gelado.
Ela olhou para o prato. Era impossvel ficar irritada com ele.
- Eu no costumo fazer isso, sexo casual e sem compromisso.
- Voc chama isso de casual e sem compromisso? - Ele respirou profundamente. - Deus me ajude quando virar coisa sria.
Ela deixou que seus lbios esboassem um sorriso, cedeu. - Foi maravilhoso.
- Ainda bem que voc lembra. Eu no tinha certeza se a sua memria ia funcionar muito bem. Queria que a gente tivesse mais tempo aqui. - Ele brincou com o
cabelo molhado dela. - Florena faz bem pros amantes.
Miranda respirou fundo, olhou-o nos olhos e selou o que, para ela, era um compromisso sem precedentes. - O Maine  lindo na primavera.
Ele sorriu e acariciou o rosto dela. - Vou adorar experimentar.
A Senhora Sombria permanecia sob um nico feixe de
luz. Algum a observava no escuro. A mente serena, fria e clara, exatamente como quando cometera o assassinato.
Matar no era o plano. As foras norteadoras haviam sido o poder e a certeza do que devia ser. Se tudo houvesse ocorrido da maneira correta, se tudo tivesse corrido
bem, a violncia no teria sido necessria.
Mas no correra tudo bem, nem corretamente; portanto, ajustes haviam sido necessrios. A culpa pela perda de duas vidas era do
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ladro do Davi. Quem poderia ter antecipado, controlado o desenrolar dos fatos?
Fora um golpe do destino. Isso, um golpe do destino.
Mas matar no era to repugnante como se pensava. Tambm trazia o poder. Nada nem ningum poderia provar a existncia da Senhora Sombria e permanecer vivo. Isso
era um fato simples.
Mas esse assunto seria liquidado, resolvido, de maneira limpa, total e definitiva.
Quando chegasse a hora, estaria terminado. Com Miranda.
Era uma pena que uma mente to inteligente e brilhante tivesse de ser destruda. A reputao teria sido suficiente, antes. Agora, tudo tinha de desaparecer. No
havia espao para sentimentos na cincia, ou no poder.
Talvez um acidente, embora suicdio fosse melhor.
Isso, suicdio. Seria to... satisfatrio. Como era estranho no ter previsto como a morte podia ser satisfatria!
Daria certo trabalho, exigiria algum planejamento. Seria preciso... Um sorriso espalhou-se sorrateiramente em seu rosto, como aquele visto na face gloriosa do bronze.
Seria preciso pacincia.
Quando A Senhora Sombria foi deixada sozinha sob aquele nico feixe de luz, no havia ningum para ouvir a gargalhada silenciosa de uma pessoa condenada. Ou louca.
A primavera espraiava-se sobre o maine. havia uma suavidade imperceptvel uma semana antes. Ou, pelo menos, imperceptvel para Miranda.
Na colina, a casa antiga mantinha os fundos para o mar, as janelas douradas pela luz do sol poente. Era bom estar em casa.
Ela entrou e encontrou Andrew no gabinete, acompanhado de uma garrafa de Jack Daniels. Seu bom humor silencioso esvaiu-se.
Ele se levantou rpido, ligeiramente trpego. Ela percebeu que os olhos do irmo precisaram de alguns segundos para entrar em
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foco, que ele no se barbeava h cerca de um dia ou dois e que sua roupa estava amarrotada.
Ele estava, deu-se conta, bastante bbado, e, provavelmente, isso fazia alguns dias.
- Onde  que voc andou? - Ele deu alguns passos incertos, depois a abraou de maneira desleixada. - Eu tava preocupado com voc. Liguei pra todo mundo que
me passou pela cabea. Ningum sabia aonde voc tinha ido.
Apesar da aura de usque que o rodeava, ela sabia que a preocupao era verdadeira. E mesmo retribuindo o abrao, desejando aquela ligao, sua inteno de contar-lhe
tudo fraquejou. Quanto se podia confiar num bbado?
- Eu t de frias. Deixei um bilhete pra voc.
- , um bilhete que no dizia nada. - Ele se afastou, observou o rosto dela, depois acariciou-lhe a cabea com suas mos grandes. - Quando o papai veio pro
instituto, eu tive certeza de que a gente tava ferrado. Voltei pra casa assim que deu, mas voc j tinha sumido.
- Eles no me deram escolha. Ele foi muito duro com voc?
- Nada alm do esperado. - Ele deu de ombros. Mesmo com o usque atrapalhando seus instintos, ele percebeu que ela estava diferente. - O que  que t acontecendo,
Miranda? O que  que voc fez?
- Viajei uns dias. - Ela decidiu manter o que sabia em segredo, com pesar. - Encontrei o Ryan Boldari em Nova York.
Ela deu as costas, porque era pssima mentirosa, na melhor das circunstncias. E nunca mentira para Andrew. - Ele voltou pro Maine. Vai ficar aqui uns dias.
- Aqui?
- , eu... a gente se envolveu.
- Vocs... ah. - Ele passou a lngua sobre os lbios, tentando pensar. - Ok. Isso foi meio... rpido.
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- Nem tanto. A gente tem um monte de coisas em comum. - Ela no queria falar muito sobre aquilo. - Algum progresso nas investigaes?
- Ficamos meio encurralados. Ningum consegue achar a documentao do Davi.
Apesar de estar esperando por isso, sentiu uma presso no estmago. Passou a mo, nervosa, pelo cabelo e preparou-se para seguir com a farsa. - Como assim, ningum
consegue encontrar? Devia estar nos arquivos.
- Eu sei onde devia estar, Miranda. - Irritado, ele pegou a garrafa e serviu-se de mais uma dose. - No t l. No t em lugar nenhum do instituto. Eu procurei
em tudo. - Ele pressionou os olhos com os dedos. - A seguradora t dando pra trs. Se a gente no achar os papis, vai ter que assumir a perda. Voc fez os testes.
- Isso - ela disse com cautela. - Eu fiz os testes. Eu autentiquei a pea, e a documentao foi apropriadamente arquivada. Voc sabe disso, Andrew. Voc participou
de tudo.
- , eu sei, mas a papelada sumiu. A seguradora t rejeitando o nosso pedido e disse que s libera a grana se a gente tiver os documentos. A mame t ameaando
vir pra c pra ver por que a gente  to incapaz a ponto no s de perder uma obra de arte valiosa, como a documentao tambm. E o Cook t me perturbando.
- Desculpa se eu te deixei sozinho no meio dessa confuso. - Ainda mais agora que via como ele estava lidando com a situao. - Andrew, por favor. - Ela foi
at o irmo e tirou o copo da sua mo. - No d pra gente conversar enquanto voc t bbado.
Ele simplesmente sorriu, covinhas surgindo-lhe nas faces. - Eu ainda no t bbado.
- T, sim. - Ela passara por isso recentemente, era capaz de enxergar os sinais. - Voc precisa de um tratamento.
As covinhas sumiram. Jesus Cristo, foi tudo que lhe veio  mente. Era s o que faltava. - Eu preciso  de um pouco de cooperao e apoio. - Irritado, ele puxou o
copo de volta e deu mais um
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gole. - Talvez voc esteja mal porque me deixou sozinho no meio dessa confuso, mas foi exatamente isso que voc fez. E se eu quero tomar uns drinques depois de
um dia terrvel de negociaes com a polcia, dirigindo o instituto e batendo palmas pros nossos pais, isso no  da conta de ningum.
Sentiu o corao apertar enquanto olhava para ele. - Eu te amo. -As palavras do iam um pouco, porque ela sabia que nenhum deles as dizia com freqncia. - Eu te
amo, Andrew, e voc t se matando na minha frente. Isso  da minha conta.
As lgrimas em seus olhos e a voz chorosa encheram-no de culpa. - Tudo bem, eu vou me matar longe de voc. A no vai ser da sua conta. - Agarrou a garrafa e saiu.
Ele se odiava por isso, por ser causador daquela dor e daquele desapontamento nos olhos da nica pessoa com quem fora capaz de contar completamente. Mas, dane-se,
era a sua vida.
Bateu a porta do quarto, sem ligar para o cheiro de usque do porre da noite anterior. Sentou-se na poltrona e bebeu diretamente do gargalo.
Tinha o direito de relaxar, no tinha? Conclura seu trabalho, fizera a sua parte - para seu prprio bem -, portanto, por que tinha que sofrer para tomar uns drinques?
Ou uma dzia de drinques, pensou com um sorriso sarcstico. Quem estava contando?
Talvez os apages fossem um pouco preocupantes, aqueles espaos estranhos e vazios de tempo de que parecia no se lembrar. Provavelmente era estresse, e uma dose
de bebida forte era a melhor soluo para isso.
Ento, que assim fosse!
Disse a si mesmo que sentia falta da mulher, pensou que ficava cada vez mais difcil trazer uma imagem clara de seu rosto  mente ou de lembrar o tom exato da voz.
s vezes, quando estava sbrio, tinha lampejos da verdade. Ele no amava mais Elise - e talvez nunca a tivesse amado tanto quanto gostava de imaginar. Bebia para
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afastar essa verdade e para permitir-se a sensao de traio e desespero.
Comeava a enxergar o valor de beber sozinho, agora que Annie proibira sua entrada no bar. Sozinho, ele podia beber at cair, e quando casse, podia apagar. Isso
fazia com que um homem atravessasse a noite.
Um homem precisava atravessar a noite, pensou, a boca colada  garrafa antes de tomar mais um gole.
No era que precisasse beber. Ele tinha controle e pararia quando quisesse. Ele no queria, era s isso. Ainda assim, pararia, de uma vez s, apenas para provar
a Miranda, a Annie e a todo mundo que estavam todos enganados a seu respeito.
As pessoas sempre haviam estado enganadas a seu respeito, concluiu, cheio de ressentimento. A comear pelos pais. Nunca souberam quem ele era, o que queria, muito
menos de que precisava.
Pararia de beber, tudo bem. Amanh, pensou com mais uma risadinha, e levantou a garrafa.
Viu luzes invadirem o quarto. Faris, concluiu depois de avaliar longa e irregularmente, a mente indo e vindo, a boca entreaberta. A gente tem companhia. Provavelmente
Boldari.
Tomou outro longo gole e sorriu para si mesmo. Miranda tinha um namorado. Ele usaria isso. J fazia um bom tempo que no implicava com a irm por um motivo to interessante
quanto um homem.
Comearia agora, decidiu. Levantou-se, engasgando-se com a prpria risada, o quarto girando. Junte-se ao circo, conhea o mundo, pensou, e caminhou tropegamente
em direo  porta.
Descobriria quais as intenes do velho Ryan Boldari. Com certeza. Precisava mostrar quele nova-iorquino escorregadio que a frgil Miranda tinha um irmo mais velho
para cuidar dela. Tomou mais um gole considervel da garrafa enquanto se arrastava pelo corredor e, agarrando o corrimo no topo da escadaria, olhou para baixo.
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L estava sua irmzinha, bem ao p da escada, num beijo trri-do com Nova York. - Ei! - gritou, gesticulando com a garrafa, depois riu quando Miranda se voltou.
- O que  que voc t fazendo com a minha irm, sr. Nova York?
- Oi, Andrew.
- Oi, Andrew o escambau. Voc t dormindo com a minha irm, seu canalha?
- No agora. - Ele manteve o brao em volta dos ombros rgidos de Miranda.
- Bem, eu quero ter uma conversinha com voc, meu camarada. - Andrew comeou a descer, fez metade do percurso de p, o resto aos tropees. Era como se assistissem
a um pedregulho rolando morro abaixo.
Miranda deu um passo  frente e ajoelhou-se ao lado do corpo esparramado do irmo. Havia sangue no rosto dele, o que a apavorou. - Meu Deus, Andrew.
- Eu t bem. T tudo bem - ele resmungou, afastando as mos dela, que averiguavam se havia algum osso quebrado. - Foi s um tombo, mais nada.
- Voc podia ter quebrado o pescoo.
- Degrau  uma coisa perigosa - Ryan disse, suave. Agachou-se ao lado de Miranda, percebendo que o corte na testa de Andrew no era profundo, e que as mos
dela tremiam. - Por que a gente no sobe e limpa esse machucado?
- Merda. - Andrew passou os dedos na testa, observou a mancha de sangue. - Olha isso.
- Eu vou pegar a caixa de primeiros socorros.
Ryan olhou para Miranda. Ela estava plida novamente, mas seus olhos estavam embaados. - A gente vai cuidar disso. Vem, Andrew. Meu irmo tropeou no meio-fio no
dia da despedida de solteiro e ficou muito pior do que isso. -Ajudou Andrew a ficar de p, enquanto Miranda tambm se levantava. Mas, quando ela comeou a subir
com eles, Ryan fez um sinal de que no fosse.
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- Sem mulher. Isso  coisa de homem. Certo, Andrew?
- Com certeza. - Bbado, fez de Ryan seu melhor amigo. - As mulheres so a raiz de todo mal.
- Deus ama as mulheres.
- Eu tive uma por algum tempo. Ela me largou.
- Quem precisa delas? - Ryan endireitou Andrew para a esquerda.
- Esse  o esprito! No t enxergando porra nenhuma.
- Tem sangue escorrendo no seu olho.
- Graas a Deus; eu achei que tava ficando cego. Sabe de uma coisa, meu amigo Ryan Boldari?
- O qu?
- Eu t muito enjoado.
- ... - Ryan arrastou-o at o banheiro. - Com certeza.
Que famlia, Ryan pensou enquanto segurava a cabea de
Andrew e se indagava se haveria a possibilidade de uma pessoa vomitar os rgos. Mesmo que no houvesse, Andrew estava tentando.
Quando acabou, Andrew estava destrudo, branco de morte, tremendo. Foram necessrias trs tentativas para que Ryan conseguisse coloc-lo sentado no vaso para cuidar
da ferida em sua testa.
- Deve ter sido a queda - Andrew disse, fraco.
- Voc vomitou  bea - Ryan disse enquanto limpava o sangue e o suor da testa de Andrew. - Voc constrangeu a si mesmo e a sua irm, levou um tombo que podia
ter arrebentado uma poro de ossos, se no fosse o efeito do usque, alm de estar fedendo a botequim e de estar com uma cara pior ainda; com certeza, foi a queda.
Andrew fechou os olhos. Queria enroscar-se em algum lugar e dormir at morrer. - Talvez eu tenha bebido um pouco demais. No teria sido tanto se a Miranda no tivesse
me provocado.
- Pode guardar as suas desculpas esfarrapadas. Voc  um bbado. - Com descuido, Ryan passou antissptico na ferida e no sentiu pena quando Andrew prendeu
a respirao. - Pelo menos, se
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comporta como homem e assume a responsabilidade pelos seus atos.
- Vai se foder!
- Essa  uma resposta inteligente e original, meu irmo. Voc no vai precisar levar ponto, mas vai ficar com o olho roxo pra acompanhar o ferimento de guerra.
- Satisfeito, tirou a camisa destruda de Andrew pela cabea.
- Ei.
- Voc precisa de um banho, vai por mim.
- Eu s quero ir pra cama. Pelo amor de Deus, eu s quero deitar. Acho que t morrendo.
- Ainda no, mas t a caminho disso. - Irritado, Ryan o levantou, apoiando-se para sustentar o peso enquanto esticava o brao e abria a torneira do chuveiro.
Decidiu que daria trabalho alm do necessrio tirar a cala de Andrew, portanto enfiou-o debaixo d'gua ainda meio vestido.
- Jesus. Vou vomitar de novo.
- Ento, mira no ralo - Ryan pediu, mantendo-o firme, mesmo quando Andrew comeou a soluar feito criana.
Levou quase uma hora para que Ryan conseguisse colocar Andrew na cama. Quando desceu, notou que o vidro da garrafa quebrada na queda fora varrido e que a poro
de usque derramada sobre as paredes fora limpa.
Como no conseguisse encontrar Miranda dentro de casa, pegou o casaco e encaminhou-se para o jardim.
Ela estava  beira do penhasco. Observou sua silhueta ali, sozinha, alta, esguia, emoldurada pelo cu noturno, o cabelo solto ao vento e o rosto virado para o mar.
No era somente o fato de estar sozinha, pensou. Estava s. Pensou que jamais vira algum to s.
Foi at ela, envolveu-a com seu casaco.
Ela empertigou-se. De alguma maneira, as ondas incansveis do mar contra as pedras sempre a acalmavam. - Mil desculpas por ter te arrastado para essa confuso.
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Sua voz era fria, ele percebeu. Defesa automtica. Seu corpo estava rijo, ainda de costas para ele. - Eu no fui arrastado. Eu tava aqui. - Apoiou as mos sobre
os ombros dela, mas ela se afastou.
-  a segunda vez que voc tem que lidar com algum da famlia Jones completamente embriagado.
- Uma noite de loucura  totalmente diferente do que o seu irmo t fazendo consigo mesmo, Miranda.
- Por mais que isso seja verdade, no muda os fatos. A gente se comportou mal, e voc limpou a zona. Eu no sei se teria conseguido dar conta do Andrew hoje,
sozinha. Mas teria preferido assim.
- Que pena! - Aborrecido, ele a virou para que o olhasse de frente. - Porque eu tava aqui, e vou ficar aqui por um tempo.
- At a gente encontrar os bronzes.
- Isso. E se eu no tiver encerrado as coisas com voc at l... - Ele segurou o rosto dela, baixou a cabea e a beijou com raiva e sentimento de posse. -
Voc vai ter que lidar com isso.
- Eu no sei lidar com isso. - A voz dela se elevou, ficando mais alta que o rudo das ondas. - No t pronta pra isso, pra voc. Todo relacionamento que
eu tive na vida acabou mal. Eu no sei lidar com esse tipo de confuso emocional, ningum na minha famlia sabe.  por isso que se separam na primeira oportunidade.
- Voc nunca se relacionou comigo. - Isso foi dito com tamanha arrogncia que ela poderia ter gargalhado. Em vez disso, ela se virou e fixou o olhar na luz
firme e circular do farol.
Ele seria o primeiro a correr quando tudo terminasse, ela pensou. E agora, com ele, ela estava com muito medo de sofrer. No importava que compreendesse o motivo
de estar ali, qual era seu propsito inicial. Ela sofreria quando ele a deixasse.
- Tudo que aconteceu desde que eu te conheci  estranho pra mim. Eu no funciono bem sem diretrizes claras.
- Voc vem se comportando muito bem at agora.
- Dois homens morreram, Ryan. A minha reputao t em frangalhos, minha famlia mais dividida que nunca. Eu agi contra a lei, ignorei a tica e estou tendo
um caso com um criminoso.
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- Mas voc no t entediada, t?
Ela deixou escapar uma risada plida. - No. Eu no sei qual  o prximo passo.
- Eu posso te ajudar. - Ele pegou a mo dela e comeou a caminhar. - Amanh a gente pensa nos prximos passos. Amanh a gente fala sobre isso.
- Eu preciso colocar as coisas em ordem. - Ela olhou para trs, em direo  casa. - Eu vou dar uma olhada no Andrew, primeiro. Depois organizo as coisas.
- O Andrew t dormindo, e ele no vai acordar at amanh. Organizao requer a cabea limpa, foco. A sua t muito cheia pra ser clara e objetiva.
- Desculpe, mas organizao  a minha vida. Eu posso organizar trs projetos diferentes, fazer um resumo de uma palestra e dar uma aula ao mesmo tempo.
- Voc  uma mulher assustadora, dra. Jones. Ento, digamos que eu no esteja com clareza nem foco suficientes. E nunca entrei num farol. - Ele observou o
lugar enquanto se aproximavam, apreciando a maneira como sua luz cortava a escurido e deitava-se tremeluzente sobre a superfcie do oceano. - De quando  o farol?
Ela suspirou. Se fosse uma fuga, que fosse. - Ele foi construdo em 1853. A estrutura  a original, mas meu av reformou o interior nos anos quarenta, com a idia
fixa de usar o lugar como um estdio particular. Na verdade, segundo a minha av, ele usava o lugar pra manter casos ilcitos, porque ele se divertia em ter as mulheres
 vista de casa, e dentro de um smbolo to obviamente flico.
- Viva o vov!
- Ele era s mais um dos Jones emocionalmente debilitado. O pai dele, de novo segundo a minha av, que era a nica que falava sobre essas coisas, exibia a
amante em pblico e teve vrios filhos ilegtimos que se recusou a reconhecer. Meu av levou adiante essa cara de pau.
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- Tem muitos Jones em Jones Point.
Ela esperou cair a ficha do insulto, depois balanou a cabea. Em vez de sentir-se ultrajada, divertiu-se. - , acho que sim. Em todo caso, minha bisav escolheu
ignorar os hbitos dele e passou a maior parte da vida na Europa, se vingando, gastando todo o dinheiro. Infelizmente, ela escolheu voltar pra c num navio de luxo.
Conhecido como Titanic.
- Jura? - Ryan estava perto o suficiente para ver a ferrugem na fechadura da porta de madeira. - Legal.
- Bem, ela e os filhos conseguiram um bote salva-vidas e foram resgatados. Mas teve pneumonia por causa do frio e morreu poucas semanas depois. O marido curtiu
a fossa tendo um caso com uma cantora de pera logo depois. Ele morreu quando o marido da cantora de pera ficou aborrecido com a situao e incendiou a casa onde
eles costumavam se encontrar.
- Imagino que ele tenha morrido feliz. - Ryan pegou um canivete no bolso, escolheu um dos vrios acessrios e comeou a trabalhar na fechadura.
- No precisa. Eu tenho uma chave em casa, se voc quiser ver como  a dentro.
- Assim  mais divertido. E mais rpido. Viu? - Guardou o canivete e abriu a porta. - Nossa, mido - disse e retirou sua lanterna do bolso para iluminar o
lugar. - Ainda assim,  aconchegante.
As paredes eram revestidas de lambris de madeira, o que o remeteu  decorao dos quartos de recreao das casas de subrbio nos anos cinqenta. Cortinas de tecido
grosso, alm de uma pequena lareira no final do cmodo, repleta de cinzas.
Ele pensou que era uma pena que a pessoa responsvel pela decorao do lugar tivesse escolhido um acabamento de ngulos retos em vez de abaulados para as paredes.
- Ento era aqui que o vov entretinha as meninas?
- Acho que sim. - Ela puxou o casaco sobre os ombros para cobrir-se melhor. O ar estava frio ali dentro. - Minha av o detestava,
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mas continuou casada, criou meu pai, depois cuidou do marido nos dois ltimos anos de vida dele. Ela era uma mulher incrvel. Forte, teimosa. Ela me amava.
Ele se virou, passou as costas da mo no rosto dela. - Claro que ela te amava.
- No existe "claro" quando a gente fala de amor na minha famlia. - Percebendo o lampejo de carinho nos olhos dele, ela virou de costas. - Voc ia ver muito
melhor as coisas aqui  luz do dia.
Ele no disse nada por alguns instantes. Lembrou-se que um dia pensara que ela era uma mulher fria. Era raro estar to completamente errado ao analisar a personalidade
de algum. Ela lhe parecera assim, antes, e agora... Isso era algo em que se pensar mais tarde.
No era frieza o que morava nela, mas uma defesa muito bem construda contra o sofrimento de uma vida inteira. Por negligncia, indiferena, pela falta de calor
que circundava sua vida.
Ele cruzou o cmodo, satisfeito depois de vislumbrar uma lamparina e velas. Acendeu-as, apreciando o brilho fantasmagrico que tomou conta do ambiente. - Assustador.
- Guardou a lanterna e sorriu para ela. - Voc vinha aqui atrs de fantasmas quando era criana?
- Deixa de ser ridculo.
- Baby, voc teve uma infncia triste. A gente vai ter que compensar isso. Vem aqui.
- O que  que voc t fazendo?
- Subindo - disse, j subindo os degraus da escada em caracol.
- No mexe em nada. - Ela correu atrs dele, j que a luz escasseava, marcando as paredes de sombras e reflexos. - Hoje em dia  tudo automtico.
Ele encontrou um pequeno quarto inabitado, com pouco mais que um colcho velho e uma cmoda imunda. A av, concluiu, provavelmente saqueara todos os objetos de valor.
Melhor para ela.
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Ele deu uma volta, admirando a vista pela janela em forma de escotilha. O mar se revolvia, recortado pela luz do farol. Pequenas ilhas, como corcundas, podiam ser
vistas longe da costa. Viu as boias danando sobre a gua, ouviu seu rudo vago ao se baterem contra as ondas do mar.
- Que lugar incrvel. Drama, perigo e desafio.
- Raramente  calmo aqui - ela disse, atrs dele. - D pra ver a baa da outra janela. s vezes o mar fica parecendo um espelho. D a sensao de que a gente
pode andar nele, at a beira.
Ele olhou por cima do ombro. - De que jeito voc gosta mais?
- Sou f dos dois, mas acho que sou mais das guas revoltas.
- Espritos incansveis atraem espritos incansveis.
Ela fez uma careta, indo atrs dele enquanto movia-se pelo quarto. Ningum, ela pensou, a chamaria de esprito incansvel. Muito menos ela.
A dra. Jones era firme como uma rocha, pensou. E s vezes, muitas vezes, to sem graa quanto.
Com um leve tremor, seguiu-o  sala do comandante.
- Realmente incrvel. - Ele ignorou a ordem dela para que no tocasse naquilo que escolheu.
O equipamento era moderno e eficiente, e podia-se escutar seu rudo enquanto as luzes circulavam sobre o teto. O quarto era redondo, como deveria, e tinha um parapeito
estreito circundando-o do lado de fora. As grades de ferro estavam enferrujadas, mas ele as achou encantadoras. Quando saiu, o vento o esbofeteou como uma mulher
insultada, e ele riu.
- Fabuloso. Duvido que eu no trouxesse minhas mulheres pra c tambm.  romntico, sexy e um pouquinho assustador. Voc tem que ajeitar isso aqui - ele disse,
olhando para ela. - Aqui podia ser um estdio incrvel.
- Eu no preciso de um estdio.
- Precisaria, se prestasse ateno no seu talento, como devia.
- Eu no sou uma artista.
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Ele sorriu, entrou novamente e fechou a porta contra o vento.
- Acontece que eu sou um agente de arte excelente e estou te dizendo que voc . T com frio?
- Um pouco. - Ela se abraava por baixo do casaco. - E muito mido aqui.
- Vai dar mofo, se voc no fizer alguma coisa. Isso ia ser um crime. Eu tambm sou especialista em crime. - Ele esfregou os braos dela, para aquec-los.
- O barulho do mar  diferente daqui. Misterioso, quase ameaador.
- Numa tempestade fica mais ameaador ainda. A luz continua funcionando pra guiar os barcos e impedir que eles cheguem muito perto das pedras. Mesmo assim,
foram muitos os naufrgios no ltimo sculo.
- Os fantasmas dos marinheiros dos barcos afundados, chacoalhando os esqueletos, vm assombrar o litoral.
- Difcil.
- Eu consigo escutar os fantasmas. - Ele a envolveu com os braos. - Clamando por misericrdia.
- Voc ouve o barulho do vento,  isso - ela o corrigiu, mas ele conseguiu fazer com que ela tremesse. - Viu o suficiente?
- Nem pensar. - Ele baixou os lbios e encostou-os nos dela. - Mas quero ver tudo.
Ela tentou livrar-se. - Boldari, se voc acha que vai me seduzir num farol mido e imundo, voc realmente perdeu a noo.
- Isso  um desafio? - Ele mordiscou o pescoo de Miranda.
- No,  um fato. - Mas os msculos de suas coxas j se haviam afrouxado. Ele tinha a lngua mais tentadora. - Tem um quarto perfeito em casa, alis, vrios.
Quentinhos, com colches excelentes.
- A gente vai experimentar, mais tarde. Eu j te disse que voc tem um corpo delicioso, dra. Jones? - Suas mos j estavam ocupadas, explorando-o. Aqueles
dedos rpidos e sensveis abriram o boto da cala e fizeram deslizar o fecho ecler antes que ela pudesse protestar.
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- Ryan, aqui no  lugar pra...
- Era bom o suficiente pro seu av - ele lembrou a ela, depois deslizou os dedos para dentro dela, lentamente. Ela j estava excitada, molhada, e ele manteve
os olhos nos dela, vendo-os tornarem-se cegos, sombrios, desesperados. - Se entrega. Eu quero sentir o seu gozo, aqui. Quer ver o que eu fao pra te enlouquecer?
Seu corpo no lhe deu chance. Vibrava como uma mquina lubrificada em direo a um objetivo. Um longo e profundo tremor percorreu-lhe a pele, um sbito curto-circuito,
um leve choque nos nervos, depois uma onda lquida de prazer invadindo todo o seu corpo.
Sua cabea pendeu num gemido, e ele a moveu para que pudesse lamber a parte exposta de seu pescoo. - Ainda t com frio? - ele sussurrou.
- No. Meu Deus, no. - A pele dela estava em chamas, o sangue pulsando como um rio quente. Segurando os ombros dele para equilibrar-se, ela danava em suas
mos molhadas.
Agora, a boca mscula contra a sua, ela respondia ao chamado com sua prpria demanda. Tempo e lugar no representavam nada diante da necessidade.
Sua cala desceu at os ps, o casaco escorregou de seus ombros. Mole como cera derretida, ela moldou o corpo ao dele enquanto ele a empurrava de encontro  bancada
do equipamento que mandava, eficientemente, sua luz circular ao mar.
- Levanta os braos, Miranda.
Ela obedeceu, a respirao curta, enquanto ele tirava sua suter lentamente. Ele viu o prazer no rosto de Miranda, ao passo que usava os dedos para tocar-lhe os
mamilos atravs do tecido fino do suti.
- Sem vinho pra nublar as suas sensaes hoje  noite. - Os dedos dele passeavam suavemente sobre a seda branca. - Quero que voc sinta tudo, quero que voc
imagine o que vem depois. -
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Baixou uma das alas do suti com a ponta do dedo, depois a outra, e mordiscou-lhe os ombros nus.
Era como se estivesse sendo... provada, saboreada, ela pensou, os olhos pesadamente cerrados. A lngua de Ryan lambendo delicadamente a sua pele, os dentes roando,
as pontas dos dedos subindo e descendo, subindo e descendo pelas laterais do seu corpo, baixando aos poucos a pea de lingerie presa nos seus quadris.
Ele permaneceu, ntimo, entre suas pernas abertas, enquanto ela agarrava a borda da bancada, compreendendo o que significava estar completamente sob o controle de
outra pessoa. Querendo estar. Ardendo por estar completamente nas mos de outra pessoa.
Tudo que ele fazia era um choque, um salto nos rgidos padres de sua mente, que somente segundos depois seria desejada e bem-vinda novamente.
Uma parte de seu crebro enxergava sua imagem agora, quase nua, a pele eriada, o corpo arqueado, rendido ao homem que a manipulava, completamente vestido.
Mas, quando ele tirou seu suti e baixou aquela boca habilidosa at seus seios, ela no se importou.
Ele no sabia que ela poderia ser assim, ou quo poderosa a exci-tao que fazia com que aquela mulher forte e cautelosa se entregasse completamente a ele. Ela era
sua, toda sua, para que tivesse prazer com ela, para dar prazer a ela. Mas a emoo disso, em vez de sombria e limtrofe, era quase insuportavelmente doce.
A luz do grande farol a banhava, transformando sua pele em branco brilhante; depois ia embora, deixando-a ligeiramente dourada sob o reflexo das velas. O cabelo,
recentemente perseguido pelo vento, caa-lhe sobre os ombros como seda vermelha. A boca, suave e carnuda, se partia sob a sua.
O beijo se aprofundou, aqueceu, e eles mergulharam alm do desejo que haviam previsto. Por um momento, grudaram-se, tremeram. E tremeram.
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Era como um sonho em que o ar era doce e denso. Uma bala quente, derretida em fogo brando.
Nenhum deles prestou ateno ao frio nem  umidade. Desceram at o cho coberto de poeira, duro e frio, e deitaram juntos, como um casal numa cama de plumas.
Sem uma palavra, as mos seguras, ela tirou a camisa dele. E pressionou-lhe o corao com os lbios, permanecendo ali, porque sabia que de alguma forma ele lhe roubara
o seu.
Ele queria dar carinho a ela, a compaixo do acasalamento junto com o teso. Portanto, era suave com a boca, as mos, amando-a de uma maneira que transbordava emoo
e necessidade.
Um murmrio, um suspiro, um lento e longo balano de ondas mornas que ninavam, em vez de atacar.
E, quando ela estava enroscada em volta dele, a cabea encostada em seu pescoo, ele a acariciou, acalmou, deu-se de presente a mesma ternura.
Quando a colocou sobre si, acariciando seus quadris at que ela o tomasse, o tomasse profundamente, ela soube o que significava amar seu amante.
Captulo Vinte
Miranda acordou ao lado de Ryan pela segunda manh consecutiva, e em outro continente. Era uma experincia estranhamente excitante, que parecia despretensiosamente
incrvel tanto quanto absolutamente sofisticada.
Pecando com estilo.
Ela teve urgncia de passar os dedos no cabelo dele, brincar com eles no seu rosto, explorar a charmosa cicatriz acima do olho. Carcias leves, tolas, que poderiam
levar ao suave e preguioso sexo matinal.
Era estranho, todos esses sentimentos tomando conta dela, ganhando um espao que no sabia ter em seu ntimo, aquecendo pontos que assumira permaneceriam frios e
inabitados. Havia tanto mais dentro dela agora, pensou, depois sentiu a primeira pontada de desejo. Muito mais, o que a deixava completamente vulnervel.
E isso era apavorante.
Portanto, em vez de tocar naquilo que queria, saiu da cama e foi p ante p at o chuveiro, exatamente como fizera na manh ante-
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rior. Dessa vez, no entanto, mal tinha enfiado a cabea debaixo d'gua quando braos envolveram sua cintura.
- Por que voc faz isso?
Ela esperou at que seu corao voltasse para o lugar. - Faz o qu?
- Some da cama de manh. Eu j te vi nua.
- Eu no sumi. - Tentou se libertar, mas os dentes dele morderam suavemente seu ombro. - Eu s no queria te acordar.
- Eu sei reconhecer uma sada sorrateira. - Ele levantou a sobrancelha diante do resmungo dela. - E no adianta dizer "vou fazer caf", "vou colocar a chaleira
no fogo", porque no funciona. Eu nunca sa sorrateiramente da cama de uma mulher. Entrar, sim, sair, no.
- Muito engraado. Agora, se voc me d licena, estou tentando tomar banho.
- Eu vou te ajudar. - Mais do que interessado em prestar assistncia, ele pegou o sabonete, cheirou-o e comeou a pass-lo gentilmente nas costas dela. Que
eram, ele pensou, definitivamente excelentes.
- Eu j passei na matria "banho". Posso tomar um sozinha.
- Por qu? - Como a voz dela soasse deliciosamente puritana, ele a virou e abraou seu corpo molhado e escorregadio.
- Porque ... - Ela sentiu que enrubescia e detestou isso. -  ntimo.
- Entendi... - ele disse, a lngua na face dela. - E o sexo no  ntimo.
-  diferente.
- Ok. - Sorrindo com os olhos, ele passou suas mos ensaboadas sobre os seios dela. - A gente faz um acordo e conjuga os dois.
O que ela tinha em mente era algo bem diferente de uma higiene rpida e bsica.
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Quando j estava sufocada pelo vapor, e sob os efeitos eltricos posteriores, ele mordiscou seu pescoo. - Isso - disse - foi ntimo. Depois, suspirou: - Eu tenho
que ir  missa.
- O qu? - Ela balanou a cabea, certa de que havia gua em seus ouvidos. - Voc disse que tinha que ir  missa?
- Hoje  domingo de Pscoa.
- ,  domingo de Pscoa. - Esforando-se para acompanh-lo, afastou o cabelo molhado dos olhos. -
 meio estranho pensar nisso, dadas as circunstncias.
- Eles podem no ter tido o benefcio da gua encanada nos tempos da Bblia, mas, com certeza, faziam muito sexo.
Miranda imaginou que ele tinha um ponto de chegada, mas ainda sentia-se ligeiramente desconfortvel ao pensar em religio enquanto as mos molhadas de Ryan deslizavam
sobre o seu bumbum.
- Voc  catlico. - Ela balanou a cabea diante da sobrancelha arqueada dele. - J sei, meio irlands, meio italiano, o que mais voc pode fazer? Mas eu
no imaginava que voc era do tipo praticante.
- A maior parte do tempo, eu sou relapso. - Ele saiu do chuveiro, entregou uma toalha para ela e pegou outra para si. - E se voc contar pra minha me que
eu disse isso, digo que voc  uma mentirosa de marca maior. Mas  domingo de Pscoa. - Ele sacudiu rapidamente o cabelo, depois enrolou a toalha na cintura. - Se
eu no for  missa, minha me me mata.
- Entendi. Eu me sinto na obrigao de lembrar que a sua me no t aqui.
- Mas ela vai saber - ele disse com algum sofrimento. - Ela sempre sabe, e eu vou pro inferno, porque ela vai dar um jeito de fazer isso acontecer. - Ele
a observou alinhar as extremidades da toalha, dobr-la, depois acomod-la entre os seios. A eficincia do gesto no contribuiu em nada para diminuir sua sensualidade.
O cmodo cheirava a ela... sabonete com toques de madeira. De repente, ele no queria deix-la, nem mesmo por uma hora.
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Ao se dar conta disso, mexeu os ombros, como se precisasse desfazer-se de um peso desconfortvel.
- Por que voc no vai comigo? Pode usar suas orelhinhas de coelhinho da Pscoa.
- Alm de eu no ter essas orelhinhas, preciso organizar minhas idias. - Ela pegou um secador de cabelo no armrio ao lado da pia. - E eu preciso conversar
com o Andrew.
Comeou a pensar na possibilidade de ir  missa da tarde e arrancar a toalha dela. Mas deixou o pensamento de lado. - O que voc pretende contar pra ele?
- Nada de mais. - E isso a envergonhou. - Diante das circunstncias, enquanto ele... eu detesto quando ele bebe assim. Detesto. - Envergonhou-a a irregularidade
em sua respirao, tambm. - E ontem, por um minuto, detestei o meu irmo. O Andrew  tudo que eu tenho e tive dio dele.
- No. Voc teve dio do que ele tava fazendo.
- , voc tem razo. - Mas ela sabia qual era o sentimento que brotara quando levantara o olhar e o vira trpego no alto da escada. - Em todo caso, eu tenho
que falar com ele. Tenho que dizer alguma coisa. Nunca menti pra ele antes, sobre nenhum assunto.
No havia nada que Ryan compreendesse melhor que laos familiares, ou os emaranhados em que uma pessoa pode se meter por causa disso. - At comear a tratar desse
problema com a bebida, ele no  o homem que voc conhece ou em quem voc confia.
- Eu sei. - Isso massacrava seu corao.
No banheiro da prxima ala, onde o cheiro de vmito antigo ainda tomava conta do ar, Andrew debruava-se sobre a pia, esforando-se para encarar seu rosto no espelho.
Estava cinza, os olhos vermelhos, a pele plida. O olho esquerdo era puro hematoma e, logo acima, havia um corte fino, talvez de um centmetro. Ardia como se estivesse
com febre.
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No se lembrava de mais do que alguns fragmentos da noite anterior, mas as partes que lhe voltavam  memria faziam seu estmago revirar novamente.
Viu-se de p no topo da escadaria, acenando com a garrafa praticamente vazia, e gritando, cuspindo palavras enquanto Miranda o encarava.
E havia algo parecido com dio nos olhos dela.
Ele fechou os seus. Estava tudo bem, ele podia se controlar. Talvez tivesse ido um pouco alm da conta na noite anterior, mas no o faria outra vez. Tiraria uns
dias de folga do lcool, provaria a todos que era capaz disso. Andava estressado, s isso. Tinha motivos para estar estressado.
Tomou uma aspirina, fingiu que suas mos no tremiam. Quando deixou o frasco e os comprimidos carem no cho, no os pegou. Saiu do banheiro enjoado.
Encontrou Miranda no escritrio dela, vestida casualmente, com suter e legging, o cabelo preso no topo da cabea, trabalhando no computador com a postura impecvel.
Precisou de mais tempo do que gostaria para juntar coragem para entrar. Mas, quando o fez, ela olhou para ele e, rapidamente, salvou e fechou os documentos na tela.
- Bomdia. - Ela sabia que sua voz soava fria, mas no conseguiu foras para enternec-la. - Tem caf na cozinha.
- Desculpe.
- Tudo bem. Talvez seja bom colocar um gelo nesse machucado.
- O que voc quer mais? Eu j pedi desculpas. Bebi demais. Constrangi voc, agi feito um imbecil. No vai acontecer outra vez.
- No?
- No. - Enfureceu-o o fato de ela no amolecer nem um pouquinho. - Eu passei do limite, s isso.
- Uma dose  passar do limite pra voc, Andrew. Enquanto no aceitar isso, vai continuar constrangendo a si mesmo e as pessoas que se importam com voc.
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- Olha s, enquanto voc tava por a, tendo seu casinho com Boldari, eu fiquei aqui, cheio at as orelhas, dando conta das coisas. E uma parte dessas coisas
tem a ver com a sua cagada em Florena.
Muito lentamente, ela se levantou. - Desculpa, eu no entendi.
- Voc me ouviu, Miranda. Fui eu que tive que escutar nossa me e nosso pai reclamando da confuso com o seu bronze. E eu passei dias procurando a porcaria
dos documentos do Davi, sendo que a encarregada era voc. T levando a culpa disso tambm, porque voc t fora. Voc pode sair por a e passar o tempo trepando...
O estalo da mo dela no rosto dele deixou os dois chocados, sem flego. Miranda manteve os punhos fechados e afastou-se do irmo.
Ele permaneceu onde estava, perguntando-se por que o novo pedido de desculpas que ardia dentro de si no encontrava o caminho at sua boca. Portanto, sem dizer uma
palavra, virou-se e saiu do escritrio.
Ela ouviu a porta da frente bater minutos depois, olhou pela janela e viu o carro do irmo indo embora.
Por toda a sua vida, Andrew fora sua rocha, seu porto seguro. E agora, pensou, simplesmente porque era incapaz de compaixo suficiente, ela o atacara quando ele
precisava dela. Afastara-o.
No sabia se seria capaz de traz-lo de volta.
O fax tocou e comeou a imprimir uma mensagem com seus gemidos agudos. Massageando o pescoo para aliviar a tenso, Miranda foi at a mquina e esperou o papel deslizar
na bandeja.
Voc achou que eu no ia ficar sabendo? Divertiu-se em
Florena, Miranda? Eu sei aonde voc vai. Sei o que voc faz. Sei o
que voc pensa. Estou bem a, dentro da sua cabea, o tempo todo.
Voc matou o Giovanni. O sangue dele est nas suas mos.
Voc no v isso?
Eu vejo.
Enfurecida, Miranda amassou o papel e atirou-o longe. Pressionou os olhos com a ponta dos dedos, esperando que sumisse aquele
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halo vermelho de fria e de medo. Quando sumiu, ela caminhou lentamente, pegou a folha de papel e desamassou-a cuidadosamente.
Guardou-a na gaveta junto com as outras duas.
YAN VOLTOU COM FLORES TO VIVAS E COLORIDAS QUE ELA foi incapaz de no abrir um sorriso. Mas como este no envolvesse seus olhos, ele a segurou pelo queixo.
- O que foi?
- Nada. So lindas.
- O que foi que aconteceu? - ele repetiu e viu que ela se esforava para superar a relutncia habitual em dividir os problemas.
- Eu e o Andrew discutimos. Ele saiu. No sei pra onde ele foi, e sei que no tem nada que eu possa fazer.
- Voc tem que deixar seu irmo encontrar o prprio caminho, Miranda.
- Tambm sei disso. Tenho que colocar as flores na gua. - Num impulso, pegou o vaso favorito da av, levou-o para a cozinha e ocupou-se de fazer o arranjo
na mesa. - Eu avancei um pouco - ela disse. - Juntei algumas listas.
Ela pensou no fax, perguntou-se se deveria contar para ele. Mais tarde, decidiu. Mais tarde, quando tivesse pensado sobre o assunto
- Listas?
- Minhas listas organizando pensamentos, fatos e tarefas no papel. Vou pegar as cpias impressas pra poder estudar tudo direitinho.
- Tudo bem. - Ele abriu a geladeira, examinou o contedo. - Quer um sanduche? - Como ela j tivesse sado, deu de ombros e comeou a pensar no que um homem
criativo poderia juntar para se alimentar.
- A carne e o po esto no limite da validade - ele disse quando ela voltou. - Mas ou a gente arrisca ou morre de fome.
- Era pro Andrew ter feito compras. - Viu-o fatiar tomates nitidamente passados e fez uma careta. Ele parecia  vontade, total-
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mente em casa, concluiu. No somente se virando com os ingredientes da cozinha, como preparando comida.
- Imagino que voc saiba cozinhar.
- Ningum sai da nossa casa sem saber cozinhar. - Olhou na direo dela. - Imagino que voc no saiba.
- Sou tima cozinheira - ela respondeu, com uma ligeira irritao.
- Jura? Como  que voc fica de avental?
- Com cara de eficiente.
- Duvido. Por que voc no coloca o avental pra eu ver?
- Voc t fazendo o almoo. Eu no preciso de avental. E, s uma observao, voc  um pouco apegado a essa histria de refeies regulares.
- Comida  paixo. - Ele lambeu lentamente o suco do tomate que escorria em seu dedo. - Eu sou muito apegado a essa histria de paixes regulares.
- T vendo. - Ela se sentou e juntou as pontas das folhas de papel que trazia consigo. -Agora...
- Mostarda ou maionese?
- Tanto faz. Agora, o que eu fiz...
- Caf ou uma bebida gelada?
- Tanto faz. - Ela controlou a respirao, dizendo para si mesma que no era possvel que ele estivesse interrompendo seu pensamento s para irrit-la. -
Pra gente...
- O leite estragou - ele disse, cheirando a caixa que tirara da geladeira.
- Joga essa porcaria fora, ento, e senta. - Seus olhos faiscaram quando ela olhou para cima e o flagrou sorrindo. - Por que voc me provoca de propsito?
- Porque voc fica linda quando est corada de raiva. - Ele levantou uma lata de Pepsi. - Diet?
Ela teve que rir, e, quando o fez, ele sentou-se  mesa,  sua frente. - Assim  muito melhor - concluiu, puxou-a para perto de si
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- O sanduche. - No consigo me concentrar em nada que no seja voc, quando voc t triste.
- Ah, Ryan. - Como ela poderia defender seu corao contra
aqueles ataques de candura? - Eu no t triste.
- Voc  a mulher mais triste que eu conheo. - Ele beijou os dedos dela. - Mas a gente vai consertar isso. Ento, o que foi que voc conseguiu?
Ela se deu um momento para recobrar o equilbrio, depois pegou a primeira folha. - Primeiro eu fiz uma emenda na lista que voc tinha do pessoal que teve acesso
a um ou aos dois bronzes.
- Emenda.
- Me lembrei de um tcnico que foi a Florena pra trabalhar com o Giovanni em outro projeto naquela mesma poca. Ele s ficou uns dias, pelo que eu me lembro,
mas pra gente ser bem preciso, achei melhor incluir o nome dele. No tava nos relatrios que a gente viu, porque ele era, tecnicamente, empregado da filial de Florena,
e s temporariamente. Tambm inclu o tempo de servio, o que talvez influencie a lealdade, e os salrios, j que dinheiro sempre pode ser um motivo.
Ela tambm colocara os nomes em ordem alfabtica, ele percebeu. Por Deus. -A sua famlia paga bem. - Ele reparara nisso antes.
- Equipe de qualidade demanda reconhecimento financeiro apropriado. Na outra lista, eu fiz um estudo de probabilidades. Voc vai ver que o meu nome continua,
mas a probabilidade  baixa. Eu sei que no roubei os originais. Tirei o Giovanni, j que ele no poderia estar envolvido.
- Por que no?
Ela piscou os olhos. O sangue dele est nas suas mos. - Porque ele foi assassinado. Est morto.
- Desculpe, Miranda, isso s quer dizer que ele t morto. Ainda existe a possibilidade de ele estar envolvido, e de ter sido morto por inmeras razes.
332
- Mas ele tava fazendo os testes com os bronzes quando foi assassinado.
- Ele teria que fazer, pra ter certeza. Talvez ele tenha entrado em pnico, tenha pedido mais grana ou estivesse com raiva dos scios. O nome dele fica.
- No foi o Giovanni.
- Isso  emoo, no lgica, dra. Jones.
- Tudo bem. - O maxilar contrado, ela adicionou o nome de Giovanni. - Voc pode discordar, mas coloquei a minha famlia como baixa probabilidade. Na minha
opinio, ela no faz sentido aqui. Eles no tm motivo pra roubar de si mesmos. - Ele simplesmente olhou para ela, e, depois de um longo instante, ela afastou o
papel.
- Vamos fazer um grfico com a lista de probabilidades at agora. Eu fiz uma linha do tempo do dia em que o Davi chegou s nossas mos, e do tempo que ficou
no laboratrio. Sem as minhas anotaes e os meus relatrios, eu tive que tentar adivinhar a hora e as datas de cada teste, mas acho que t bastante prximo.
- Voc fez um grfico e tanto. - Ele se aproximou para admirar o trabalho. - Que mulher.
- No entendi o porqu do sarcasmo.
- Eu no t sendo sarcstico. T incrvel. Colorido. Voc colocou duas semanas. Mas no teria trabalhado nisso sete dias direto, durante vinte e quatro horas.
- Aqui. - Ela mostrou outro grfico e sentiu-se um pouco tola. - Aqui tem o tempo aproximado que o Davi ficou guardado no cofre do laboratrio. Pra chegar
a ele, seriam necessrios um carto-chave, liberao da segurana, a combinao e uma outra chave. - Ou - ela acrescentou, inclinando a cabea - um excelente ladro.
O olhar dele deslizou at ela, sombrio e debochado. - Eu estava em Paris nessa poca.
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- De verdade?
- No fao a menor idia, mas no seu estudo eu no conto, porque eu no teria nenhuma razo pra roubar uma cpia e ser sugado pra dentro dessa confuso, se
realmente tivesse pego o original.
Cabea inclinada, ela sorriu docemente. - Talvez voc tenha feito isso s pra me levar pra cama.
Ele levantou o olhar, sorriu. - Isso sim  um bom pensamento.
- Isso - ela respondeu prontamente -  sarcasmo. Aqui  a linha do tempo da Senhora Sombria. A gente tem os relatrios, e t tudo muito fresco na minha memria,
t bem preciso. Nesse caso, a procura dos documentos ainda t andando, e a autenticao ainda no  oficial.
- Projeto concludo. - Ryan leu e olhou para ela. - Esse foi o dia da sua demisso.
- Se voc prefere tratar as coisas com simplicidade, foi. - Ainda estava ferida no corao e no orgulho. - No dia seguinte, o bronze foi transferido pra Roma.
A troca teve que ser feita num curto espao de tempo, j que eu tinha feito os testes naquela tarde.
- A menos que a troca tenha acontecido em Roma.
- Como?
- Algum da Standjo acompanhou a transferncia?
- No sei. Algum da segurana, talvez a minha me. Deve ter tido algum documento pra assinar na sada e na chegada.
- Bem,  uma possibilidade, mas tambm s d algumas horas a mais, de todo modo. Eles j deviam estar preparados, a cpia pronta. O encanador ficou com a
estatueta uma semana, pelo menos foi o que ele disse. Depois o governo assumiu a responsabilidade, mais uma semana pra eles gastarem com a documentao e contratarem
a Standjo. A sua me te contrata e te chama pro trabalho.
- Ela no me chamou. Ela me deu uma ordem pra ir pra Florena.
334
- Humm. - Ele estudou o quadro. - Por que demorou seis dias entre o telefonema e a viagem? Pelo que voc diz, ela no me parece uma pessoa paciente.
- Me disseram, e eu planejei assim, pra ir no dia seguinte, dois dias depois, no mximo. Mas eu precisei me atrasar.
- Por qu?
- Fui assaltada.
- O qu?
- Um homem enorme, de mscara, apareceu do nada e encostou uma faca no meu pescoo. - As mos dela flutuaram at ali, como se quisessem confirmar que as gotas
de sangue derramadas eram somente uma lembrana ruim.
Ryan segurou os dedos de Miranda para afast-los da garganta e ver com os prprios olhos, apesar de saber que no havia marca alguma. Ainda assim, no gostava nem
de pensar na possibilidade. E seus olhos endureceram.
- Como foi que isso aconteceu?
- Eu tinha acabado de chegar de viagem. Saltei do carro na frente de casa, e l veio ele. Pegou a minha pasta, minha bolsa. Pensei que o cara ia me estuprar
e considerei minhas chances de lutar contra ele, contra aquela faca. Eu tenho certa fobia de faca.
Os dedos dela tremeram levemente, e ele os apertou. - Ele te cortou?
- Um pouquinho, s... s o suficiente pra me assustar. Depois ele me jogou no cho, furou os pneus do carro e sumiu.
- Ele te derrubou?
Ela piscou os olhos diante da frieza na voz dele, diante da ternura insuportvel daqueles dedos que acariciavam o seu rosto.
- Derrubou.
Ele ficou cego de fria s de pensar em algum pressionando o pescoo dela com uma faca, aterrorizando-a. - Voc se machucou muito?
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- No, nada. S uns hematomas e uns arranhes. - Como os olhos dela ardiam, baixou o olhar. Tinha medo de que as emoes que experimentava fossem aparentes,
o questionamento e a confuso de seus sentimentos por ele. Ningum alm de Andrew jamais a olhara com tamanha preocupao, tamanho cuidado.
- No foi nada - ela repetiu, depois o mirou, desprotegida, enquanto ele levantava seu queixo e beijava o rosto.
- No precisa ser delicado comigo. - Uma lgrima escapou-lhe dos olhos antes que pudesse impedir. - Eu no lido bem com isso.
- Vai ter que aprender. - Ele a beijou novamente, suavemente, depois limpou a lgrima com o polegar. - Voc j teve esse tipo de problema por aqui?
- No, nunca. - Ela soluou, depois estabilizou a respirao. - Por isso eu fiquei to chocada, eu acho; estava despreparada. Aqui  uma rea de muito pouco
crime. Na verdade, foi uma aberrao to grande que ficou passando no noticirio local durante dias.
- Nunca pegaram o cara?
- No. Eu no consegui fazer uma descrio muito detalhada. Ele tava de mscara, a nica coisa que deu foi pra dizer a altura dele, o tipo fsico.
- Diz pra mim.
Ela no queria lembrar o incidente, mas sabia que ele a pressionaria at que cedesse. - Branco, um metro e oitenta, noventa, olhos castanhos. Escuros. Braos longos,
mos grandes, canhoto, ombros largos, pescoo curto. Nenhuma cicatriz ou marca que eu pudesse ver, claro.
- Parece que voc prestou bastante ateno no cara, considerando a situao.
- No o suficiente. Ele no abriu a boca, nem uma palavra. Isso foi outra coisa que me apavorou. Ele fez tudo to rpido, foi to silencioso. E ele pegou
o meu passaporte e a minha carteira de
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motorista. Toda a minha identidade. Levei vrios dias, mesmo mexendo meus pauzinhos, pra conseguir os documentos novos.
Um profissional, Ryan concluiu. Com um propsito.
- O Andrew ficou revoltado - ela lembrou com um sorriso plido. - Passou uma semana fazendo a ronda em volta da casa com um taco de golfe, toda noite, na
esperana de que o cara resolvesse voltar e ele pudesse cair matando.
- Um bom sentimento.
- Essa  uma reao masculina. Eu teria preferido cuidar de tudo sozinha. Foi humilhante no ter lutado, ter ficado paralisada.
- Algum encostou uma faca no seu pescoo. Ficar paralisada foi uma escolha inteligente.
- Eu tava mais assustada que ferida - ela murmurou e olhou fixamente para a superfcie da mesa.
- Fico arrasado por voc. Ele no tentou entrar na casa?
- No, s agarrou a minha bolsa, a pasta, me deu um empurro e saiu correndo.
- Jias?
- No.
- Voc tava usando alguma?
- Estava com um colar de ouro e com o meu relgio, a polcia tambm me perguntou isso. Mas eu estava de casaco, acho que ele no viu.
- O mesmo relgio? - Ele levantou o pulso dela e examinou o Cartier de dezoito quilates. Qualquer idiota o venderia por mil pratas no mnimo, pensou. - Um
roubo desse tipo no parece coisa de amador que deixaria passar um artigo to fcil de vender. E ele no te forou a abrir a casa pra roubar objetos de qualidade.
- A polcia achou que era algum atrs de dinheiro vivo.
- Ele podia achar que voc tinha umas duzentas pratas, se estivesse com sorte. No o suficiente pra um assalto  mo armada.
- Tem gente que mata por um tnis de marca.
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- No esse tipo de ladro. Ele tava atrs da sua identidade, dar-ling, porque algum no queria que voc chegasse a Florena to cedo. Eles precisavam de
tempo pra trabalhar na cpia, e no podiam correr o risco de voc aparecer antes que tivessem tudo sob controle. Ento, contrataram um profissional. Algum que no
ia fazer besteira nem servio porco. E devem ter pago o suficiente pra ele no ser ganancioso.
A explicao era to simples, to perfeita, que ela simplesmente o encarou, perguntando-se por que ela mesma no associara os fatos. - Mas a polcia nunca sugeriu
essa possibilidade.
- Eles no tinham todas as informaes. A gente tem.
Lentamente, ela concordou com um gesto de cabea. E, devagar, a raiva comeou a crescer dentro de seu peito, subindo-lhe pela garganta. - Ele colou uma faca no meu
pescoo por causa de um passaporte. Foi tudo pra me atrasar. Pra terem mais tempo.
- Eu diria que a probabilidade de ser isso  bem alta. Me conta tudo de novo, tim-tim por tim-tim.  pouco possvel, mas talvez algum conhecido meu possa
descobrir quem  esse cara.
- Se eu puder - ela disse, sria -, no quero conhecer esse seu conhecido.
- No se preocupa, dra. Jones. - Ele virou a mo dela e beijou-lhe a palma. - Voc no vai conhecer.
NO HAVIA LUGAR ONDE FOSSE POSSVEL COMPRAR UMA garrafa de bebida no domingo de Pscoa. Quando se flagrou dirigindo a esmo, procurando uma, Andrew comeou a tremer.
No era que precisasse, disse para si mesmo. Queria uma, e isso era bem diferente. Queria apenas dois drinques para aliviar a tenso.
Droga, todo mundo o perseguia. Tudo caa sobre seus ombros. Estava de saco cheio disso. Que se danassem, todos, resolveu, socando o volante. Que se danassem todos.
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Continuou dirigindo. Rumaria para o sul, e no pararia at que estivesse bem e pronto. Tinha bastante dinheiro, o que no tinha era a droga do sossego.
No pararia at que pudesse respirar novamente, at que encontrasse uma porcaria de loja de bebidas que estivesse aberta num domingo de Pscoa.
Baixou o olhar, viu seu punho cerrado socando o volante ininterruptamente. Um punho ferido e sangrento que parecia pertencer a outra pessoa. Algum que o assustava
absurdamente.
Meu Deus, meu Deus. Ele estava com problemas. Com as mos tremendo, jogou o carro no meio-fio, e, deixando o motor ligado, apoiou a cabea no volante e rezou pedindo
ajuda.
Uma batida suave na janela fez com que desse um pulo e encarasse o rosto de Annie atravs do vidro. Com a cabea inclinada, ela fez um sinal circular com o dedo,
pedindo que ele abrisse a janela. S quando a viu percebeu que se dirigira  sua casa.
- O que  que voc t fazendo, Andrew?
- T s dando um tempo aqui.
Ela mudou a sacola que carregava de mo e observou o rosto dele. Estava pssimo, ela notou, ferido, com cor de doente, cansado.
- Voc brigou com algum?
- Minha irm.
Ela arqueou as sobrancelhas. - A Miranda te deu um soco no olho?
- O qu? No, no. - Constrangido, ele passou os dedos sobre o machucado. - Eu escorreguei na escada.
- Jura? - Seus olhos estreitados fixaram-se nos cortes recentes e no sangue seco nos ns dos dedos. - Voc socou os degraus?
- Eu... - Ele levantou a mo, a boca seca enquanto olhava para ela. Nem mesmo sentira dor. O que um homem era capaz de fazer quando parava de sentir dor?
- Posso entrar? Eu no bebi - disse rapidamente, ao ver a rejeio nos olhos dela. - Eu quero beber, mas no bebi.
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- Voc no vai beber na minha casa.
- Eu sei. - Ele manteve o olhar firme. - Foi por isso que eu vim pra c.
Ela o analisou por mais alguns instantes, depois fez um aceno positivo. - Ok.
Abriu a porta de casa, entrou e acomodou a sacola sobre a mesa, lotada de papis e formulrios, alguns descansando sob uma mquina de calcular.
- T fazendo minha declarao de imposto de renda - explicou. - Sa pra comprar isso. - Tirou um frasco de remdio extra-forte para dor de cabea da sacola.
- Voc tem um negcio, tem lucro envolvido, vai ter dor de cabea na hora de declarar.
- Eu j tenho essa dor de cabea.
- Imagino. Vamos tomar umas drogas. - Com um ligeiro sorriso, ela serviu dois copos d'gua. Abriu o frasco e tirou dois comprimidos para cada. Solenemente,
os engoliram.
Ela foi at o freezer e pegou um pacote de ervilhas congeladas.
- Bota isso na mo por enquanto. Vou limpar esses seus machucados.
- Origado. - Ele pode no ter sentido a dor quando socou o volante do carro, mas estava sentindo agora. Desde os punhos at as pontas dos dedos, suas mos
doam absurdamente. Mas ele conteve o grito enquanto segurava o pacote gelado sobre os ferimentos. J fizera estrago suficiente ao prprio ego e  prpria masculinidade
na frente de Annie McLean.
- Agora, o que foi que voc fez pra irritar a sua irm?
Ele quase no mentiu, inventou uma briga idiota entre irmos. Ego e masculinidade  parte, ele no conseguiria mentir para aqueles olhos silenciosos, perscrutadores.
- Eu devia estar completamente bbado, e humilhei a Miranda na frente do novo namorado.
- Miranda t com um namorado?
- , foi meio de repente. Tudo certo. Diverti o cara caindo da escada, depois vomitando tudo que tinha dentro do estmago.
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Ela sentiu uma pontada de compaixo, mas simplesmente inclinou a cabea. - Voc anda ocupado, Andrew.
- Ah, . - Ele jogou o pacote de ervilhas na pia e comeou a andar pela cozinha. Estava ansioso, nervoso. No conseguia ficar parado. Batia com os dedos nas
pernas, no rosto, uns nos outros enquanto vagava. - A, hoje de manh, eu resolvi piorar as coisas criticando os problemas dela no trabalho, com a famlia, me metendo
na vida sexual dela. - Ele passou os dedos sobre o rosto, lembrando-se do tapa que a irm lhe dera.
Flagrando-se dando um passo na direo dele, Annie virou-se e pegou um antissptico no armrio atrs de si. - Provavelmente o estopim fora o comentrio sobre a vida
sexual dela. As mulheres no gostam da participao dos irmos nessa rea.
- , talvez voc tenha razo. Mas a gente t cheio de problemas no instituto. Eu t debaixo de muito estresse.
Ela contraiu os lbios, olhou para a pilha de papis e formulrios na mesa, os envelopes com notas fiscais, os tocos de lpis e os rolos adicionais de fita para
a mquina de calcular. - Se voc t vivo, t debaixo de estresse. Pode beber at cair, mas quando acordar, o estresse vai estar no mesmo lugar.
- Olha s, pode ser que eu tenha realmente um problema. Eu vou dar conta disso. S preciso de um pouco de tempo, de um sossego pra minha cabea. Eu... - Pressionou
os olhos com a ponta dos dedos, tonto.
- Voc tem um baita problema e pode dar conta dele. - Ela foi at ele, pegou seus punhos e baixou-lhe as mos para que olhasse para ela. - Voc precisa de
um dia, porque  s hoje o que conta.
- At agora, hoje t um saco.
Ela sorriu, ficou na ponta dos ps e beijou-lhe o rosto. - E provavelmente vai piorar. Senta um pouco, eu vou cuidar dessa sua mo, garoto duro.
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- Origado. - Depois ele suspirou e repetiu: - Origado, Annie.
Ele a beijou no rosto, depois descansou a cabea de encontro  dela, sentindo-se confortado pelo gesto. Ela ainda segurava seus punhos, suavemente, e seus dedos
pareciam to competentes, to fortes, o cabelo era to perfumado. Beijou sua cabea, depois a testa.
Em seguida, de alguma maneira, sua boca estava sobre a dela, e o gosto de Annie invadia sua corrente sangnea como a luz do sol. Quando os dedos dela dobraram-se
dentro dos seus, ele os soltou, mas somente para segurar o rosto dela entre as mos, para traz-la para perto de si, segur-la ali enquanto seu calor o acalmava
como um blsamo faz com um ferimento.
Quantos contrastes, esse foi seu pensamento. O corpo firme, o cabelo suave, a voz sussurrada, a boca generosa.
A fora e a suavidade dela, to encantadoras e to familiares. E to necessrias para ele.
Ela sempre estivera presente. Ele sempre soubera que podia contar com ela.
No foi fcil libertar-se. No das mos dele - ela poderia ter se afastado facilmente. As mos dele eram suaves como as asas de um pssaro sobre seu rosto. A boca,
carente e terna.
Ela se perguntara, permitira-se a pergunta uma vez, se seria a mesma coisa. A sensao do corpo dele, o gosto. Mas isso j fora h muito tempo, antes de se convencer
de que sua amizade seria suficiente. Agora no era fcil desfazer-se daquele nico e longo beijo silencioso, de sua demanda, daquilo que fizera brotar.
Ela precisava de toda a sua fora de vontade para afastar o desejo sorrateiro que ele trouxera de volta. Um desejo, uma necessidade, disse para si mesma, que no
faria bem a nenhum dos dois.
Ele quase a derrubou, j tateava cegamente quando ela levantou as mos, em alerta. Ele deu um pulo atrs, como se tivesse levado outro tapa no rosto.
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- Meu Deus, desculpe, Annie, desculpe. - O que fizera? Como poderia arruinar a nica amizade sem a qual no julgava ser capaz de viver? - Eu no tinha inteno
de fazer isso. Foi um gesto impensado. Desculpe.
Ela esperou que ele se acalmasse, esperou que a culpa sumisse do rosto dele. - Eu expulsei um cara de quase cem quilos do bar ontem  noite porque ele achou que
podia me comprar junto com a cerveja e um galo na testa. - Ela agarrou o polegar da mo esquerda de Andrew e torceu-o levemente. Ele arregalou os olhos e prendeu
a respirao. - Eu podia fazer voc se ajoelhar, meu amigo, gemer de dor, se eu quisesse torcer esse dedo de verdade. A gente no tem mais dezessete anos, no 
mais idiota, nem um pouco inocente. Se eu no quisesse as suas mos em mim, voc j estaria no cho, conferindo os buracos do meu teto.
Gotas de suor brotaram na testa dele. - Ser que d pra soltar agora?
- Claro. - Atendendo ao pedido, ela soltou seu dedo e manteve a sobrancelha arrogantemente arqueada. - Quer uma Coca? Voc t um pouco suado. - Virou-se e
dirigiu-se  geladeira.
- Eu no quero estragar as coisas.
- Estragar o qu?
- A gente. Voc  importante pra mim, Annie. Sempre foi.
Ela ficou olhando fixamente dentro da geladeira. - Voc tambm. Eu te aviso quando voc estiver estragando as coisas.
- Eu queria falar sobre... antes.
Ele esperou que ela abrisse as duas garrafas. Era encantadora a sua economia de movimentos, pensou, a coluna ereta naquele corpo bem torneado. Ele notara aquelas
coisas antes? Notara o brilho dourado nos olhos dela? Ou simplesmente os arquivara para que viessem  tona em um momento como aquele?
- Por qu?
- Talvez seja bom encarar as coisas de frente. Coisas que no tinha percebido at pouco tempo que estavam presas em mim. -
343
Ele flexionou os dedos, sentiu dor. - No ando na melhor forma agora, mas tenho que comear de algum lugar. Em algum momento.
Ela colocou as garrafas na bancada, forou-se a se virar, a olh-lo nos olhos. E os seus nadavam em emoes que se esforara para manter trancadas durante anos.
-  doloroso pra mim, Andrew.
- Voc queria ter tido o beb. - Simplesmente respirar fazia seu peito doer. Nunca falara sobre o beb antes, no em voz alta. - Eu vi no seu rosto quando
voc me disse que tava grvida. Eu me apavorei.
- Eu era muito nova pra saber o que queria. - Ela fechou os olhos, porque era uma mentira. - , , eu queria ter o beb. Eu tinha essa fantasia idiota de
que eu ia te contar, e voc ia ficar felicssimo e me pegar no colo. Depois, a gente... bem, a gente s foi at a. Mas voc no me quis.
Sua boca estava seca como se tivesse engolido um punhado de areia, o estmago, revirado. Ele sabia que uma dose resolveria tudo. Maldizendo-se por pensar nisso naquele
momento, pegou uma das garrafas na bancada e virou o refrigerante, que lhe pareceu melado e doce demais. - Eu me preocupava com voc.
- Voc no me amava, Andrew. Eu era s a garota com quem voc se deu bem uma noite na praia.
Ele baixou a garrafa com violncia. - No foi assim. Que droga, Annie, voc sabe que no foi nada disso.
- Foi exatamente isso - ela disse, segura. - Eu era apaixonada por voc, Andrew, e eu sabia que voc no era apaixonado por mim quando a gente deitou naquele
lenol na areia. Eu no me importei. No esperava nada. Andrew Jones de Jones Point e Annie McLean da beira-mar? Eu era jovem, mas no idiota.
- Eu teria casado com voc.
- Teria? - Sua voz esfriou. - A sua oferta no foi nem um pouco segura.
- Eu sei. - E isso era algo que o atormentava, um pouquinho de cada vez, por quinze anos. - Eu no te dei o que voc precisava
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naquele dia. Se tivesse dado, talvez voc tivesse feito uma escolha diferente.
- Se eu tivesse te aceito ali, voc ia me odiar. Quando voc fez a oferta, em parte voc j me odiava. - Ela virou os ombros, pegou seu refrigerante. - E,
olhando pra trs, eu no posso te culpar. - A garrafa ficou parada a caminho de seus lbios enquanto ele se aproximava dela. O brilho de ira nos olhos dele fez com
que ela se apoiasse na bancada. Ele tirou a garrafa da mo dela, depois a segurou com firmeza pelos ombros.
- Eu no sei como teria sido, e isso  uma coisa que me perguntei mais de uma vez ao longo desses anos. Mas eu sei como era. Talvez eu no estivesse apaixonado
por voc, eu no sei. Mas fazer amor com voc foi importante pra mim. - E isso, deu-se conta, era outra coisa que nunca dissera em voz alta, algo que nenhum dos
dois encarara. - Por mais que eu tenha sido pssimo pra lidar com tudo depois, aquela noite foi importante. E, droga, Annie, droga - ele acrescentou, sacudindo-a
suavemente -, voc podia ter sido a mulher da minha vida.
- Eu nunca fui a mulher certa pra voc - ela disse num sussurro, com raiva.
- Como  que voc sabe? A gente nunca teve oportunidade de descobrir. Voc me disse que tava grvida e, antes de eu ter a chance de absorver a informao,
voc fez um aborto.
- Eu nunca fiz um aborto.
- Voc cometeu um erro - ele disse, devolvendo as palavras que ela uma vez jogara na sua cara. - E o consertou. Eu teria cuidado de voc, dos dois. - Uma
dor h muito tempo fragilmente enterrada veio  tona sob a forma de murros cegos no ar. - Eu teria feito o melhor por voc. - Seus dedos apertaram os braos dela.
- Mas no era o suficiente. Ok, a deciso era sua, era o seu corpo, sua escolha. Mas, caramba, era parte de mim tambm.
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Ela levantara as mos para afast-lo e agora as enroscava na camisa dele. O rosto de Andrew estava absolutamente plido, no fossem os hematomas, os olhos sombrios.
A dor no corao dela era pelos dois, agora. -Andrew, eu no fiz um aborto. Eu perdi o beb. Eu te disse isso, perdi sem querer.
Algo se iluminou no fundo dos olhos dele. Suas mos afrouxaram o aperto nos ombros dela e ele deu um passo atrs. - Voc perdeu sem querer?
- Eu te contei na poca.
- Eu sempre achei, deduzi que voc... - Ele se virou, foi at a janela. Sem pensar, abriu-a e, apoiando as mos no parapeito, respirou fundo. - Eu achei que
voc tinha me dito isso pra facilitar as coisas pra ns dois. Imaginei que voc no confiava em mim o suficiente pra te dar apoio, pra tomar conta de voc e da criana.
- Eu no teria feito um aborto sem te contar.
- Voc me evitou durante muito tempo depois disso. A gente nunca tocou no assunto, nunca parecia capaz de falar no assunto. Eu sabia que voc queria o beb,
e eu pensei, at hoje, pensei que voc tinha interrompido a gravidez porque eu no tinha te dado o suporte que voc precisava.
- Voc... - Ela precisou engolir o bolo que havia em sua garganta. - Voc queria o beb?
- Eu no sabia. - Mesmo agora ele no sabia. - Mas nunca me arrependi de nada na vida como no ter te segurado aquele dia na praia. Depois, as coisas foram
escapando, quase como se nunca tivessem acontecido.
- Me machucou. Eu tive que superar. Esquecer. Tive que esquecer voc.
Lentamente, ele fechou a janela novamente. - Voc conseguiu?
- Eu constru uma vida pra mim. Um casamento ruim, um divrcio terrvel.
- Isso no  resposta.
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Quando ele se virou, os olhos muito azuis nos seus, ela balanou negativamente a cabea. - No  uma pergunta justa, agora. No vou comear uma coisa com voc com
base no que j foi.
- Ento, talvez seja bom a gente prestar ateno em onde a gente t agora e comear a partir da.
Capitulo Vinte e Um
Miranda voltou a trabalhar no computador, revendo grficos, criando novos. Isso mantinha sua cabea ocupada, no fossem os momentos em que se flagrava olhando pela
janela, na esperana de que o carro de Andrew aparecesse.
Ryan estava no quarto, no seu celular. Ela imaginou que no queria vrias de suas ligaes constando da conta de telefone dela. Isso era algo com que no precisava
se preocupar.
Ele lhe abrira uma nova frente de preocupao. Se estivesse certo, o roubo rpido e rude em plena luz do dia no fora simplesmente uma obra do acaso, no fora coisa
de algum ladro itineran-te em busca de dinheiro vivo. Fora algo bem planejado, cuidadosamente orquestrado, parte de um plano completo. Ela fora um alvo especfico,
e o motivo oculto fora retardar sua viagem para a Itlia e seu trabalho no bronze.
Quem roubara a pea e a copiara j tinha a inteno de tirar-lhe o crdito. Seria algo pessoal ou a bola da vez?, perguntava-se.
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Acreditava que, assim como tinha poucos amigos verdadeiros, seriam poucos os inimigos de fato. Ela simplesmente evitava se aproximar o suficiente de qualquer pessoa,
a fim de criar relaes de uma espcie ou de outra.
Mas as mensagens chegando via fax eram pessoais, ela pensou, feitas para assustar. O silncio, a faca encostada na sua garganta. Fora aquilo tudo algo rotineiro
para seu atacante ou ele teria recebido instrues para deixar sua vtima paralisada de choque e pavor?
Custara-lhe uma grande parte da confiana, de seu senso de segurana, certamente de sua dignidade. E retardara sua viagem por quase uma semana. O atraso causara
uma situao desagradvel entre ela e a me, antes mesmo do comeo do trabalho.
Camadas, pensou, inteligentemente aplicadas para assegurar a inteno central. E no comeara com o assalto, mas antes, com o roubo do Davi.
O que andava acontecendo na sua vida na poca? O que ela estava esquecendo que poderia ligar uma coisa  outra?
Ela trabalhava na sua tese de doutorado, lembrou. Dividia seu tempo entre o instituto, os estudos, a tese. Sua vida social, nunca realmente glamorosa, era nenhuma
ento.
O que a circundava? Isso, deu-se conta, era mais difcil de ras-trear. Prestar ateno s pessoas  sua volta no era sua tarefa predileta. E algo que pretendia
mudar.
Por enquanto, fechava os olhos e tentava trazer o tempo de volta, as pessoas de volta.
Elise e Andrew estavam casados, e ainda profundamente apaixonados, pelo que parecia. No conseguia lembrar-se de nenhuma briga, nenhum desentendimento. O vcio de
Andrew era rotina, mas nada com que se preocupasse.
E ela fizera o possvel para dar ao casal o mximo de privacidade.
Giovanni e Lori se divertiam com um caso rpido, amigvel. Ela sabia que eles estavam dormindo juntos, mas, como isso no inter-
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feria na qualidade nem na quantidade do trabalho dos dois,
manteve-se de fora.
Sua me fora rapidamente ao instituto. Passara um dia ou dois, Miranda lembrava agora. No mais que isso. Haviam tido uma srie de reunies, um desconfortvel jantar
de famlia e mais nada.
Seu pai ficara somente o tempo necessrio para os testes iniciais do bronze. Estivera em apenas algumas das reunies e dera uma desculpa para evitar a reunio familiar.
Vincente e a mulher estiveram presentes em lugar de seu pai, mas nem suas personalidades vivazes haviam iluminado o evento. Se a memria tinha alguma serventia,
Gina aparecera no laboratrio uma vez.
De Richard Hawthorne, ela s lembrava vagamente, sempre enterrado nos livros ou debruado sobre a tela do computador.
Quanto a John Carter, sua presena fora constante, analisando projetos, preocupando-se com relatrios. Miranda esfregou as tmporas, com dificuldade para lembrar-se
de detalhes. Estivera ele um pouco fora do seu tom habitual, um tanto lento, insatisfeito? Uma gripe, lembrou-se. Ele estivera gripado, mas trabalhara mesmo assim.
Como ela poderia lembrar? Desconfortvel, deixou as mos penderem. A rotina, a rotina do trabalho sempre fora sua fora motriz. Tudo o mais eram fragmentos do momento
em que tivera aquela estatueta pequena e adorvel nas mos.
Ela vira a aquisio do Davi como mais um passo em sua carreira, e usara a autenticao da pea como base de um de seus escritos. Atrara grande ateno com isso
nos mundos acadmico e cientfico. Fora convidada a dar palestras e ganhara aclamao considervel.
Fora o verdadeiro incio de sua ascenso profissional, acreditava. Aquele pequeno bronze a destacara da multido e a colocara solida-mente na liderana.
Olhava cegamente para as palavras na tela do computador, um ligeiro zumbido em seus ouvidos.
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O Bronze Fiesole teria feito sua reputao subir aos cus. Teria consolidado seu nome como uma das maiores do mundo no seu campo. No apenas no mundo acadmico,
mas na imprensa tambm. Estamos falando de Michelangelo, de romance, de mistrio, de dinheiro. Ela fechou os olhos e esforou-se para lembrar.
As duas peas eram dela. As duas ofereciam solidez  sua reputao. E as duas haviam sido falsificadas. E se elas no fossem o alvo?
E se ela fosse?
Cruzou as mos, esperou que suas emoes se acomodassem. Havia uma lgica, havia uma razo. Era algo mais que plausvel.
Mas onde estava o motivo?
Que outras peas autenticadas por ela estariam sendo testadas novamente no instituto, sem muito comentrio? O Cellini. Sentiu o estmago revirar ao pensar nisso.
A esttua de Rodin, pensou, forando-se a manter a calma e a clareza. Havia o Rmulo e Remo com a loba.
Ela tinha que voltar ao laboratrio. Tinha que ter certeza de que nenhuma delas fora trocada por falsificaes.
Deu um salto ao ouvir o telefone tocar, e encarou o aparelho por vrios segundos antes de atender. - Al?
- Miranda, tenho notcias ruins pra dar pra voc.
- Me. - Ela passou a mo sobre o peito. Acho que tem algum tentando me machucar. Acho que esto tentando me destruir. Era verdadeiro. O bronze era verdadeiro.
- O que foi?
- Na noite de quinta-feira o laboratrio foi invadido. Destruram equipamentos, arquivos, relatrios.
- Destruram? - ela disse com dificuldade. Isso, estou sendo destruda.
- Giovanni... - A pausa foi longa, e, pela primeira vez em muito tempo, Miranda percebeu um toque de emoo na voz da me. - Giovanni foi assassinado.
- Giovanni. - Voc se importava. Meu Deus, voc se importava. Ela fechou os olhos e lgrimas brotaram. - Giovanni - repetiu.
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- Pelo que parece, ele deve ter resolvido aproveitar a calmaria do laboratrio no feriado pra trabalhar. No conseguimos identificar em que projeto ele estava
envolvido. A polcia...
Mais uma vez aquele embargo na voz, que, apesar de mais forte, continuava instvel. - A polcia est investigando, mas eles no tm nenhuma pista at agora. Tenho
tentado dar assistncia a eles durante esses dias. O enterro  amanh.
- Amanh?
- Achei melhor voc saber por mim. Conto com voc pra avisar o Andrew. Sei que voc gostava muito do Giovanni. Acho que todos ns gostvamos. No h necessidade
de voc vir para o enterro. Vai ser tudo muito simples e discreto.
- A famlia dele.
- J falei com a famlia. Apesar de termos arranjado tudo pra fazer doaes pra caridade em nome dele, acho que eles apreciariam flores.  um momento difcil pra
todos ns. Espero que voc possa deixar de lado as questes profissionais e mandar flores, ou algo do gnero, pra famlia.
- Claro. Mas eu poderia viajar hoje  noite.
- No  necessrio nem inteligente fazer isso. - A voz de Elizabeth estava novamente rascante. -A imprensa vai saber muito bem que vocs trabalharam juntos
no Bronze Fiesole. Esse assunto j rendeu o suficiente na mdia. A sua presena s ia trazer tudo  tona novamente. Pelo bem da famlia do Giovanni, o velrio e
o enterro vo ser discretos e distintos.
Ela se lembrou das ltimas palavras finais do fax anterior: O sangue dele est nas suas mos. Voc no v isso?- Voc t certa. Eu no faria nada alm de piorar
a situao. - Fechou os olhos, era melhor concentrar-se em manter a voz regular. - A polcia sabe o motivo da invaso no laboratrio? Alguma coisa foi roubada?
-  difcil dizer, mas parece que no levaram nada. Muita coisa foi destruda. O alarme foi desativado, de dentro. A polcia acha possvel que ele conhecesse
o invasor.
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- Eu gostaria que voc me mantivesse informada do andamento das investigaes. Ele era muito importante pra mim.
- Eu sei que vocs tinham uma relao ntima.
- Ns no ramos amantes, me. - Miranda disse isso como um suspiro. - Ns ramos amigos.
- Eu no tive a inteno de... - Elizabeth silenciou, mantendo-se assim por alguns segundos. - Pode deixar que mantenho voc informada. Se for sair da cidade,
avise ao Andrew onde voc est desta vez.
- Meu plano  ficar por aqui - Miranda disse. - E fazer jar-dinagem. - Ela sorriu um pouco ao perceber que no houve resposta. - As frias foradas vo me
dar tempo pra desenvolver um hobby. Dizem que faz bem pra alma.
- J ouvi falar. Que bom que voc est fazendo uso produtivo do seu tempo, em vez de se amofinar. Diga ao Andrew que quero um update das investigaes da
assim que for possvel. Talvez eu d um pulo rpido em casa, e gostaria de um relatrio sobre tudo que diz respeito ao Davi ordenado de maneira coerente.
Vou alert-lo. - Vou passar isso pra ele.
- timo. Tchau, Miranda.
- Tchau, me.
Colocou o fone no gancho cuidadosamente, depois ficou olhando para o aparelho at se dar conta de que Ryan estava atrs dela.
- Ela conseguiu me enganar por um minuto. At comecei a acreditar que era um ser humano. Ela pareceu triste de verdade quando me contou sobre o Giovanni.
Mas, antes de encerrar a ligao, ela voltou ao normal.  melhor eu ficar a distncia, porque a minha presena pode ser perturbadora.
Teve o instinto de enrijecer o corpo quando as mos dele tocaram seus ombros. Isso a enfureceu. Fechou os olhos e forou-se a relaxar sob o toque dele. - Fui instruda
a informar todos os meus passos pro Andrew, caso eu resolvesse sair da cidade de novo, e ela pediu pra eu avisar ao meu irmo que ele tem de passar todas
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as novidades das investigaes sobre o roubo daqui assim que for possvel.
- Ela t com muita coisa na cabea, Miranda. Todo mundo da sua famlia.
- E quando a sua famlia tem uma crise? Como eles fazem?
Ele se agachou, girou a cadeira dela at que o olhasse no rosto.
- A sua famlia e a minha so diferentes, e voc no pode esperar que reajam da mesma maneira.
- No. A minha me  a diretora, o tempo todo. O meu pai mantm a distncia e a apatia habituais, e o Andrew se afoga no lcool. E o que eu fao? Ignoro tudo,
dentro do possvel, e tento no deixar que essas coisas interfiram na minha rotina.
- No  isso que eu tenho visto.
- Voc tem visto uma mancha na tela, no o programa habitual. - Ela o afastou para poder se levantar. - Vou dar uma corrida.
- Miranda. - Ele a segurou pelo brao antes que ela pudesse sair correndo do quarto. - Se voc no se importasse, se eles no fossem importantes, voc no
estaria triste.
- Eu no t triste, Ryan. Estou resignada. - Ela se livrou das mos dele e foi trocar de roupa.
No corria com freqncia. Considerava andar mais eficiente e, certamente, um exerccio mais digno. Mas, quando a situao e as emoes se avolumavam tanto, corria.
Escolheu a praia sob a colina, porque a gua ficava prxima e o ar era fresco. Seguiu na direo norte, os ps fincando a areia enquanto as ondas atacavam calorosamente
o litoral escarpado, lanando gotas de gua salgada na luz do sol. Gaivotas pairavam no cu e se jogavam na gua, dando gritos agudos e fantasmagricos.
Quando seus msculos se aqueceram, tirou o casaco leve e deixou-o cair no cho. Ningum o roubaria. O ndice de criminalidade era baixo em Jones Point, pensou com
certo desconforto.
Boias cor de laranja pululavam na superfcie da gua em tom azul-escuro. Outras, altas, cinzentas, apodrecidas, deslizavam
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atravs de rudos esparsos e soturnos. Um pequeno per boiava inclinado como um bbado na gua, ignorado, j que nem ela nem Andrew velejavam. Mais ao longe, barcos
trafegavam e pessoas aproveitavam o domingo ensolarado de feriado.
Ela seguiu o curso da praia, ignorando a ardncia na batata das pernas e no peito, a trilha de suor entre os seios.
Um barco pesqueiro navegava ao sabor da corrente enquanto o marinheiro, de bon vermelho vivo, checava o produto de sua pesca. Ele levantou uma das mos e acenou.
E o simples gesto de um estranho fez com que seus olhos se enchessem de lgrimas. Com a viso turva, ela acenou de volta, depois parou, dobrou o corpo, as mos nos
joelhos, a respirao arfante saindo de seus pulmes.
No correra at muito longe, pensou, mas correra muito rpido. No medira o ritmo. Tudo estava acontecendo muito rpido. Ela mal conseguia acompanhar; ainda assim,
no se atrevia a desacelerar.
E, por Deus, ela nem mesmo sabia para onde estava indo.
Havia um homem em casa, um homem que conhecia h poucas semanas. Um homem que era um ladro, provavelmente um mentiroso e, sem dvida, perigoso. E, mesmo assim,
ela pusera parte de sua vida nas mos dele. Tornara-se ntima, mais ntima do que jamais se permitira ser de qualquer pessoa.
Olhou para trs e para frente, observou o foco de claridade que era o prdio branco do farol. Apaixonara-se por ele naquela torre. No importava que estivesse se
encaminhando para isso desde antes, fora l que se apaixonara. E ainda no tinha certeza de que aterrissaria em terra firme.
Ele a abandonaria assim que terminasse o que viera fazer. Seria sedutor e inteligente. No seria cruel. Mas voltaria para sua vida. A dela, dava-se conta, ainda
estaria uma baguna.
Eles podiam encontrar os bronzes, reconstruir sua reputao, resolver o quebra-cabea e, at mesmo, pegar um assassino. Mas sua vida continuaria uma baguna.
E, sem precedentes, sem frmula, sem dados, ela no era capaz de adivinhar quanto tempo levaria para se reestruturar.
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Seus ps estavam  beira de uma pequena piscina da gua calma e cristalina. Havia vida correndo sob ela, em cores e formas de outro mundo.
Quando era criana, sua av passeava com ela na praia - ou com os dois irmos juntos. Estudavam as pequenas piscininhas de mar  beira-mar, mas no como se fosse
uma aula disfarada.
No, lembrou-se, eles se acocoravam e apreciavam. Riam quando uma pequena pedra raspava seus ps, como se perturbada com sua presena.
Pequenos mundos, sua av as nomeava. Cheios de paixo, sexo, violncia e poltica - e muitas vezes mais sensveis que a vida levada na parte seca do planeta.
- Queria que voc estivesse aqui - Miranda murmurou. - Queria que eu ainda tivesse voc pra conversar.
Olhou novamente para o oceano, to distante do mundo ocupado aos seus ps, e deixou o vento sacudir seu cabelo, lamber seu rosto. O que devia fazer agora?, perguntou-se.
Agora que sabia o que era amar algum at que doesse, o que era preferir a dor ao vazio que lhe era to familiar que mal percebia?
Sentou-se na superfcie lisa de uma pedra, suspendeu os joelhos e apoiou a cabea neles. Isso, sups, era o que acontecia quando o corao tinha permisso para controlar
a mente, as aes, as decises. Com todo o resto ruindo em volta dela, estava sentada numa pedra, olhando para o mar e amofinando-se com um caso de amor destinado
a acabar.
Um passarinho pousou na beira da gua e montou guarda em busca de moluscos, mantendo a aparncia importante. Isso fez com que ela sorrisse. Aparentemente, at mesmo
os pssaros se preocupam com as aparncias. Olhem para mim, ele parecia dizer, sou muito legal.
- A gente veria como voc  legal se eu tivesse trazido um pedao de po - ela lhe disse. - Voc ia ficar louco pra engolir todas as migalhas antes que os
seus coleguinhas ficassem sabendo e resolvessem aparecer pra brigar por elas.
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- J ouvi dizer que gente que bebe muito comea a acreditar que pode se comunicar com os pssaros. - Andrew percebeu os ombros da irm enrijecerem, mas continuou
falando: - Voc deixou isso cair. - Colocou o casaco no colo dela.
- Fiquei com calor.
- Mas se voc ficar sentada aqui sem casaco, depois de correr, vai ficar resfriada.
- Eu t bem.
- Como voc quiser. - Foi preciso um bocado de coragem para que ele se sentasse na pedra ao lado dela. - Miranda, desculpe.
- Acho que j teve essa parte.
- Miranda. - Ele soube exatamente o quanto a afastara quando ela no deixou que pegasse a sua mo.
- Eu vim at aqui pra ficar um minuto a ss com voc.
E ele sabia o quanto ela podia ser teimosa quando se sentia atacada. - Eu queria dizer algumas coisas. Quando eu terminar, voc pode me dar outro tapa, se quiser.
Eu me excedi alm da conta hoje de manh. No tem desculpa pro que eu te disse. No queria escutar o que voc tava me dizendo, ento joguei sujo.
- Entendido. A gente t de acordo que  melhor cada um ficar fora das escolhas pessoais do outro.
- No. - Dessa vez ele ignorou a tentativa dela de se afastar e segurou sua mo. - No, a gente no t. A gente sempre contou um com o outro.
- Bem, eu no posso mais contar com voc, Andrew, posso? - Encarou-o, viu o quanto o rosto dele estava extenuado atrs dos culos escuros que usava. Poderia
lembrar uma caricatura, um personagem de fico, pensou. Em vez disso, era uma figura deplorvel.
- Eu sei que te desapontei.
- Eu posso cuidar de mim mesma. Voc decepcionou a si mesmo.
- Miranda, por favor. - Ele sabia que no seria fcil, mas no tinha se dado conta do quanto a rejeio dela o maltrataria. - Eu
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sei que tenho um problema. T tentando dar um jeito nisso. Eu... eu vou a uma reunio do AA hoje  noite.
Ele viu o brilho de esperana, de compaixo, de amor no olhar dela e sacudiu a cabea. - Eu no sei se  a coisa certa pra mim. Eu vou l ouvir, ver como eu me sinto.
-  um bom comeo, um passo.
Ele se levantou, olhou para o mar incansvel. - Quando eu sa, hoje de manh, fui atrs de uma bebida. No me dei conta disso, no foi uma coisa consciente. No
at eu comear a tremer, at me ver dirigindo em crculos, procurando por uma loja de bebida, um bar, qualquer lugar que estivesse aberto num domingo de manh.
Ele olhou para baixo, para as prprias mos, dobrou os dedos, sentiu as pequenas feridas. - Fiquei apavorado.
- Eu vou te ajudar, Andrew. Eu li tudo sobre o assunto. Freqentei um grupo de suporte pra parentes de alcolatras.
Ele se virou para olhar para a irm. Ela o observava, torcendo o casaco com as mos. E a esperana era mais profunda em seus olhos.
- Eu tive tanto medo de que voc comeasse a me odiar - ele disse.
- Eu quis te odiar. S que eu no consigo. - Ela secou as lgrimas. - Fiquei com tanta raiva de voc, com raiva de voc estar me fazendo querer me afastar.
Quando voc saiu, hoje, eu fiquei achando que voc ia voltar bbado, ou que, finalmente, ia ser idiota o suficiente pra dirigir de cara cheia e acabar se matando.
Eu teria te odiado por isso.
- Eu fui  casa da Annie. No sabia que eu ia parar l tambm, at estacionar em frente ao prdio dela. Ela... eu... droga. Eu vou ficar na casa dela uns
dias. Vou te dar alguma privacidade com o Ryan, dar um pouco de espao pra ns dois.
- Na casa da Annie? Voc vai ficar na casa da Annie?
- Eu no t dormindo com ela.
- Annie? - ela repetiu, embasbacada. - Annie McLean?
- Algum problema?
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Foi o tom defensivo dele que fez com que ela apertasse os lbios.
- No, nada, nenhum. Isso  uma coisa que eu gostaria de ver. Ela  uma mulher decidida, ambiciosa. E no vai aturar gracinha de voc.
- A Annie e eu... - Ele no tinha certeza de qual a melhor maneira de explicar. - A gente tem um passado. Talvez agora a gente consiga ter um presente.
- Eu achei que vocs eram s amigos.
Ele olhou para a praia, achando que poderia identificar o lugar onde dois adolescentes sem juzo haviam perdido a inocncia. - A gente era, depois deixou de ser.
No sei o que a gente  agora. - Mas descobrir, pensou, estava lhe dando uma direo, um propsito que ele no tinha havia muito tempo. - Eu vou dormir no sof dela
umas noites. Vou colocar os ps no cho de novo, no importa quanto isso me custe. Mas sempre existe a possibilidade de eu desapontar voc antes de conseguir.
Ela lera tudo que conseguira ter  mo sobre alcoolismo, os tratamentos, a recuperao. Sabia tudo sobre recada, comear de novo, falncia. - Voc no est me desapontando
hoje. - Estendeu a mo e apertou os dedos dele com fora. - Eu senti tanto a sua falta.
Ele a levantou da pedra e a abraou. Sabia que ela estava chorando, podia sentir pelos ligeiros tremores do corpo dela contra o seu. Mas ela no fez nenhum rudo.
- No desiste de mim, ok?
- Eu tentei, no deu certo.
Ele riu um pouco e apertou o rosto contra o dela. - Essa coisa que voc tem com o cara de Nova York...
- Como assim? Antes ele era Ryan, e agora  o cara de Nova York?
- Agora ele t mexendo com a minha irm, e estou guardando meu julgamento final. Essa coisa que voc tem - ele repetiu. - T sendo bom pra voc?
Ela se retraiu. - T sendo bom, hoje.
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- Tudo bem. Agora que a gente fez as pazes, por que no tomamos um drinque pra comemorar? - Suas covinhas saltaram no rosto. - Piada de bbado. Que tal um
rosbife?
- T muito tarde pra comear a preparar um rosbife. Mas eu fao um bolo de carne de macho pra voc.
- Ok, aceito.
Enquanto caminhavam de volta, ela se preparou, sabendo que teria de contar para ele e estragar o momento. - Andrew, a mame ligou mais cedo.
- Ser que ela no descansa nem na Pscoa, como todo mundo?
- Andrew. - Ela parou, manteve a mo no brao do irmo. - Algum invadiu o laboratrio em Florena. O Giovanni tava l, sozinho. Ele foi assassinado.
- O qu? O Giovanni? Meu Deus. - Ele se virou, foi at a beira d'gua, as marolas ensopando seus sapatos. - O Giovanni t morto? Assassinado? Caramba, o que
 que t acontecendo?
Ela no podia correr o risco de contar. A fora de vontade dele, as emoes, a doena... eram uma combinao muito instvel.
- Eu queria saber! Ela disse que o laboratrio foi vandalizado, os equipamentos e os relatrios, destrudos. E o Giovanni... eles acham que ele ficou trabalhando
at tarde, e a algum invadiu.
- Roubo?
- Eu no sei. No parece... Ela disse que acha que nada de valor foi roubado.
- No faz sentido. - Ele girou de volta, o rosto lgubre e abatido. - Algum invade a galeria aqui, leva um bronze de valor e no mata uma mosca pra entrar,
nem pra sair. Agora algum invade o laboratrio da Standjo, mata o Giovanni, detona tudo e no leva nada?
- Eu tambm no entendo. - Isso, pelo menos, era parcialmente verdade.
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- Qual  a ligao? - ele murmurou, e ela o olhou embasbacada.
- Ligao?
- No existe coincidncia a. - Revirando as moedas no bolso, ele comeou a andar de um lado para outro. - Duas invases, em duas semanas, em divises diferentes
da mesma empresa. Uma lucrativa e silenciosa, a outra, violenta e sem razo aparente. Sempre tem uma razo. O Giovanni trabalhava nos dois lugares ao mesmo tempo.
- Por trs das lentes escuras, seus olhos se estreitaram. - Ele participou do trabalho com o Davi, no foi?
- Ah... , participou.
- O Davi  roubado, os documentos desaparecem, e agora o Giovanni t morto. Qual  a ligao? - Ele no esperava uma resposta, e ela estava muito atordoada
para tentar uma mentira.
- Vou passar isso pro Cook, seja l pro que for. Talvez eu deva ir a Florena.
- Andrew. - A voz dela queria falhar. Ela no o colocaria em risco, no o deixaria aproximar-se de Florena. Ou da pessoa que matara Giovanni. - No  uma
boa idia, agora. Voc precisa ficar perto de casa, reconstruir o seu dia a dia e a sua estabilidade. Deixa a polcia fazer o trabalho dela.
- De qualquer maneira, talvez seja mesmo melhor tentar descobrir as coisas aqui mesmo - concluiu. - Vou ligar pro Cook, dar algum material pra ele se distrair,
alm do domingo de Pscoa.
- Eu j vou. - Ela forou um sorriso. - Pra preparar o seu bolo de carne de Pscoa.
Ele estava distrado o suficiente para no perceber quo rapidamente o sorriso se desfez no rosto dela. Mas viu Ryan no caminho do penhasco. Orgulho, ego, vergonha
e resistncia fraternal foram sentimentos que cresceram dentro dele muito rapidamente.
- Boldari.
- Andrew. - Ryan decidiu evitar uma intil disputa de territrio e se retraiu.
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Mas Andrew j estava preparado. - Talvez voc pense que, j que ela  uma mulher adulta e a famlia  to zoneada, no tem ningum pra tomar conta dela, mas voc
t enganado. Se machucar a minha irm, seu filho da me, eu te arrebento. - Seus olhos eram duas nesgas quando Ryan sorriu para ele. - Eu disse alguma coisa engraada?
- No.  que a ltima parte do que voc falou foi muito parecida com o que eu disse pro marido da minha irm, Mary Jo, quando peguei os dois se agarrando
no carro dele. Mas eu arrastei o cara pra fora e dei uns socos, primeiro, pra desgosto da Mary Jo.
Andrew girou nos calcanhares. - Voc no  o marido da minha irm.
- Nem ele, na poca. -As palavras lhe escaparam desinibidas, antes que se desse conta de seu potencial significado. O humor fugiu-lhe dos olhos, cedendo lugar
para o desconforto. - O que eu quis dizer foi...
- ? - Divertindo-se, Andrew fez um aceno positivo. - O que foi que voc quis dizer?
Um homem era capaz de pensar um bocado no espao de tempo necessrio para um pigarro. - Eu quis dizer que tenho uma afeio enorme e muito respeito pela sua irm.
Ela  uma mulher muito bonita, interessante e atraente.
- Voc  rpido, Ryan. - Parecia que o assunto voltara a girar em torno de Ryan por enquanto. - Parece equilibrado. - Os dois olharam na direo de Miranda,
de p na praia, vendo as ondas se formarem.
- E ela no  to forte quanto pensa que  - Andrew acrescentou. - Ela no se aproxima de muitas pessoas, porque, quando isso acontece, se sente frgil, exposta.
- Ela  importante pra mim.  isso que voc quer ouvir?
- . - Particularmente, Andrew pensou, j que fora dito de maneira bastante acalorada e com alguma relutncia. - Serve.
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Alis, obrigado pelo que voc fez, ontem  noite, e por no ter jogado na minha cara, hoje.
- Como  que t o olho?
- Doendo pra cacete.
- Acho que isso  castigo suficiente.
- Talvez. - Ele se virou e comeou a subir a trilha. - A gente vai fazer bolo de carne - disse de longe. - V se voc consegue faz-la vestir o casaco, por
favor.
- Ok - Ryan murmurou. - Acho que vou fazer isso. - Comeou a descer, escolhendo o caminho por entre as pedras, escorregando um pouco no cascalho. Ela vinha
subindo, firme como uma cabrita monts.
- Esse sapato no  bom pra esse tipo de coisa.
- Nem precisa me dizer. - Ele a segurou junto ao corpo. - Seu brao t gelado. Por que voc no veste o casaco?
- O sol t quentinho. O Andrew est indo a um encontro do AA, hoje  noite.
- Que timo. - Ele encostou os lbios na testa dela. -  um bom comeo.
- Ele vai conseguir. - A brisa tirou alguns fios do cabelo dela do elstico, forando-a a afast-los do rosto. - Eu sei que vai. Ele vai ficar na casa de
uma amiga uns dias, pra ganhar um tempo pra se estabilizar. E acho que ele no t muito confortvel de dormir debaixo do mesmo teto que a gente.
- Conservadorismo ianque.
- No vamos chover no molhado. - Ela respirou fundo. - Ah, e tem outra coisa. Contei pra ele do Giovanni. Ele ligou as coisas.
- Como assim ligou as coisas?
- Nos ltimos anos ele vem queimando os neurnios, e quase me esqueci de que ele era to inteligente. Ele juntou as coisas em dois segundos. A invaso daqui
e a de Florena. Vai falar com o detetive Cook sobre isso.
- timo, vai trazer a polcia.
-  a coisa mais razovel a se fazer.  muita coincidncia pra ele. - Falando rpido, ela repetiu o que o irmo dissera. - Ele vai explorar o assunto. Eu
no falei o que sei nem do que suspeito. No posso arriscar o estado dele agora que ele tem que se concentrar em se recuperar, mas tambm no posso continuar mentindo
pra ele. No por muito tempo.
- Ento, a gente tem que trabalhar rpido. - Ele no tinha nenhuma inteno de formar uma equipe, nem de dividir os bron-zes. Uma vez que os recuperasse,
Ficaria com eles. - O vento t aumentando - comentou, e envolveu-a nos braos durante a subida. - Ouvi rumores de que ia ter bolo de carne.
- Voc vai ser alimentado, Boldari. E prometo que o meu bolo de carne  feito com muita paixo.
- Em algumas culturas, bolo de carne  considerado um afrodisaco.
- Jura? Estranho isso nunca ter aparecido num dos meus cursos de antropologia.
- S funciona se for servido com pur de batata.
- Ento, s nos resta comprovar essa teoria.
- No pode ser pur de pacote.
- Por favor, no me ofende.
- Eu acho que sou louco por voc, dra. Jones.
Ela riu, mas a fragilidade de que seu irmo falara estava  vista.

 PARTE TRS

O Preo
A ira  cruel, e a raiva, ultrajante; mas quem  capaz de se interpor  inveja?

PROVRBIOS
Captulo Vinte e Dois
O silncio do campo manteve Ryan acordado e fez com que pensasse em Nova York. No conforto e no rudo constante do trfego, no ritmo que adentrava o sangue, de maneira
que a pessoa acelerava o passo para chegar  prxima esquina, chegar ao sinal de trnsito a tempo, manter-se em movimento.
Lugares muito prximos do mar fazem com que voc diminua a velocidade. E, uma vez diminuindo a velocidade, voc pode acabar acomodado e enraizado antes de se dar
conta do que est acontecendo.
Ele precisava voltar para Nova York, para a sua galeria, a qual j deixara nas mos de outrem por muito tempo. Claro, ele o fazia com freqncia, mas isso quando
estava viajando, indo de um lugar a outro. No quando estava... plantado daquela maneira.
Precisava levantar acampamento, e rpido.
Ela dormia ao lado dele, a respirao acompanhando o vai e vem contnuo das ondas do mar em mar baixa. No se aninhara contra seu corpo, mantinha-se no seu espao,
deixando-o com o dele. Disse
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a si mesmo que gostava disso. Mas no era verdade. Incomodava-o o fato de que ela no se grudava a ele, ou pelo menos fingia tentar segur-lo.
Seria to mais fcil resistir a ela se o fizesse.
No conseguia concentrar-se, assim. Ela era uma distrao constante do que tinha para fazer, simplesmente por estar ao alcance da mo. Era uma mulher absolutamente
deliciosa de tocar, no mnimo porque sempre se surpreendia de alguma maneira com carcias ligeiras.
E como ele queria faz-lo, excit-la e acord-la com carcias ligeiras, mordidas e beijos silenciosos at que estivesse pronta, escorregadia, com sede dele, levantou-se.
Sexo devia ser uma forma simples de entretenimento, no uma obsesso, pelo amor de Deus.
Vestiu uma cala branca larga, encontrou seu charuto e seu isqueiro, abriu silenciosamente as portas da varanda e saiu.
Respirar profundamente era como beber um vinho branco gelado e doce, pensou. Poderia tornar-se um hbito casual, facilmente aceito como se no tivesse importncia,
como se fosse algo gratuito. A altura proporcionava uma viso total do mar, da nesga de terra firme onde ficavam o farol e sua lana de luz brilhante.
O lugar guardava uma sensao de tempo e tradio, de segurana tambm tida como gratuita por aqueles que o viam todos os dias. As coisas mudavam lentamente ali,
se  que algum esforo era feito para que mudassem de fato.
Ali, voc podia ter a mesma vista uma manh aps a outra, pensou. Uma disposio similar de barcos espalhados sobre o mesmo mar agitado, e tudo isso com o pulsar
das ondas de pano de fundo. Ele conseguia ver as estrelas, brilhantes e claras como pequenos broches sobre veludo. A lua estava indo embora, perdendo o contorno.
Ele estava com medo de perder o seu.
Irritado consigo mesmo, acendeu o charuto, soltou uma baforada ao vento que nunca parecia descansar.
369
No estavam indo a lugar algum, refletiu. Miranda podia criar grficos, calcular linhas de tempo, introduzir dados at gerar pilhas de documentos. Nada disso os
fazia entrar no corao e na mente das pessoas envolvidas. No alcanava a cobia, a raiva, o cime, a inveja, o dio. Um grfico no ilustraria por que uma pessoa
tirava a vida de outra por um pedao de metal.
Ele precisava conhecer os jogadores, entend-los, e mal havia comeado.
Pensou que j a conhecia. Era uma mulher eficiente, encoberta por uma casca de praticidade, uma natureza altiva e arredia que poderia ser desvendada se usada a chave
correta, e exposta ao calor e s necessidades escondidas sob a superfcie. Sua criao fora privilegiada e fria. Reagira distanciando-se das pessoas, ensimesmando-se,
estabelecendo seus objetivos e buscando um caminho reto, linear, para atingi-los.
Sua fragilidade era o irmo.
Haviam ficado presos um ao outro, ligando-se inicialmente por autodefesa, rebelio ou afeto verdadeiro. No importava o que criara o elo; ele existia, era real,
forte e os unia. O resultado era lealdade e amor. Vira com os prprios olhos a reao que o alcoolismo de Andrew, sua imprevisibilidade, havia despertado nela. Deixara-a
instvel, irada, confusa.
E vira tambm a esperana e a felicidade nos olhos dela durante o jantar que haviam compartilhado naquela noite. Ela acreditava que ele estava caminhando para voltar
a ser o irmo que conhecia. Precisava acreditar, precisava ter aquela f. Ele no suportava a idia de abalar sua crena.
Portanto, manteria suas suspeitas para si. Sabia o que o vcio, qualquer tipo de vcio, era capaz de fazer com um homem. Era capaz de faz-lo considerar possibilidades,
agir de uma maneira nunca antes imaginada.
Andrew dirigia o instituto, tinha poder, liberdade de movimento suficiente dentro da empresa para ter trocado o primeiro bronze.
370
O motivo poderia ter sido dinheiro, o simples desejo de posse ou a redeno  chantagem. Ningum estava em melhor posio para orquestrar os roubos e as falsificaes
melhor que um dos Jones.
Considerou Charles Jones. Fora ele o descobridor do Davi. No seria impensvel supor que ele o queria para si. Mas teria precisado de ajuda. Andrew? Possivelmente.
Giovanni, s uma possibilidade. Ou qualquer membro da equipe absolutamente confivel.
Elizabeth Jones. Orgulhosa, fria, motivada. Baseara a vida na arte, na cincia da arte, em lugar da beleza. Ela e o marido haviam deixado a famlia  margem para
que pudessem concentrar energia, tempo e esforo na busca pelo prestgio. O prprio. Uma esttua de valor inestimvel no seria o trofu perfeito para uma vida de
dedicao?
Giovanni. Um empregado de confiana. Um cientista brilhante, de outra maneira no faria parte do time de Miranda. Sedutor, pelo que se dizia. Um homem solteiro que
gostava de flertar com as mulheres. Talvez tivesse flertado com a pessoa errada, ou tivesse desejado mais do que sua posio
que a Standjo oferecia.
Elise. Ex-mulher. Ex-mulheres eram muitas vezes vingativas. Fora transferida do instituto para a Standjo, em Florena. Ocupava posio de confiana e poder. Poderia
muito bem ter usado Andrew, depois t-lo descartado. Como gerente do laboratrio, teria acesso a todos os dados. Teria em suas mos os dois bronzes. Cobiara-os?
Richard Hawthorne. Rato de biblioteca. guas paradas muitas vezes so profundas e violentas. Ele conhecia seu histrico, sabia como pesquisar. Esse tipo normalmente
passava despercebido, ofuscado pelos mais exuberantes, mais exigentes. Isso podia destruir um homem aos poucos.
Vincente Morelli, amigo e associado de longa data. Casado com uma mulher muito jovem, muito exigente. Dedicara anos de sua vida, de trabalho, de sua capacidade,
ao instituto e  Standjo. Por que no ganhar mais que seu salrio e um tapinha nas costas, pelo servio prestado?
371
John Carter, com seus sapatos velhos e gravatas ridculas. Firme como uma rocha. Por que no to obstinado? Estava no instituto h mais de quinze anos, trilhando
lentamente seu caminho. Obedecendo a ordens, prendendo-se  rotina. Talvez at ainda estivesse obedecendo a ordens.
Qualquer um poderia ter planejado tudo, concluiu. Mas no acreditava que nenhum deles, sozinho, pudesse ter feito as trocas sem deixar vestgios. Havia uma equipe,
engrenagens associadas. E uma mente fria e calculista por trs de tudo.
Ele precisaria de mais que relatrios de pessoal e grficos para desvendar essa mente.
Observou uma estrela cadente riscando o cu com um arco de luz em direo ao mar. E comeou a articular seu plano.
- Como assim voc vai ligar pra minha me?
- Eu ia ligar pro seu pai - Ryan disse, olhando por cima do ombro dela para descobrir o que fazia no computador -, mas tive a impresso de que a sua me 
mais envolvida no trabalho. O que  que voc t fazendo a?
- Nada. Por que voc vai ligar pra minha me?
- O que  isso? Um site de jardinagem?
- Eu preciso de alguns dados, s isso.
- Sobre flores?
- . - Ela j imprimira vrias informaes sobre tratamentos de solo, colheitas, estaes de plantio, portanto fechou a pgina da internet. - Minha me?
- Eu te explico em um minuto. Por que voc precisa de tantos dados sobre flores?
- Porque vou fazer um jardim, e no sei nada sobre o assunto.
- Ah, ento voc t atrs de uma abordagem cientfica. - Ele inclinou o corpo e beijou-lhe o topo da cabea. - Voc  realmente uma graa, Miranda.
372
Ela tirou os culos e colocou-os sobre a mesa. - Adoro saber que eu te divirto. Agora, ser que d pra voc responder  minha pergunta?
- Sua me? - Ele se sentou sobre a mesa, de frente para ela. - Vou ligar pra dizer pra ela quais so as minhas condies para o emprstimo dos Vasari, de
um Rafael e de um Botticelli.
- Rafael e Botticelli? Voc nunca concordou em emprestar nada pra gente, a no ser os Vasari.
- Novo acordo. Cinco quadros, e talvez eu deixe sua me me convencer a deixar tambm uma escultura de Donatello, trs meses de emprstimo, com a Galeria Boldari
e todo o material de publicidade, e os rendimentos arrecadados indo pro Fundo de Doaes para as Artes.
- Arrecadaes?
- Vou chegar l. A razo de eu ter escolhido o Instituto de Histria da Arte da Nova Inglaterra foi a reputao dessa instituio, a dedicao no s em expor
arte, como pra ensinar, restaurar, estudar e preservar. Fiquei muito impressionado quando vim aqui h algumas semanas e fiz um tour pelas instalaes com a dra.
Miranda Jones.
Ele soltou o cabelo dela, deixando-o cair sobre seus ombros, como ele mais gostava. E ignorou a reclamao. - Fiquei particularmente intrigado com a idia de ter
uma exposio sobre a histria e progresso da Renascena italiana - continuou -, mostrando as questes religiosas, sociais e polticas.
- Ficou? - ela murmurou. - Jura?
- Fiquei arrebatado. - Ele brincou com os dedos dela e percebeu que Miranda tirara o anel que ele colocara em sua mo. O fato de que a falta do objeto fizesse
com que suas sobrancelhas estreitassem era algo para pensar depois. - Fiquei impressionado com essa exposio e com a idia de fazer um display parecido, depois
dos trs meses, na minha galeria em Nova York.
- Entendi. Uma parceria.
373
- Exatamente. A gente concordou, e, quando comeou a discutir o que fazer, voc deu a idia de criar um fundo de arrecadaes no instituto pro Fundo de Doaes
para as Artes. Como a Galeria Boldari tem patrocinadores constantes, eu topei. Foi muito esperto da sua parte me seduzir com essa isca.
- Foi - ela resmungou -, no foi?
- Estou pronto pra seguir com esse projeto conjunto o mais rpido possvel, mas como me disseram que a dra. Jones t de frias, fiquei preocupado. No posso
fazer isso com outra pessoa. E esse atraso me fez pensar na possibilidade de trabalhar com o Instituto de Arte de Chicago.
- Ela no vai dar a mnima pra isso.
- Eu no pensei que ela fosse. - Retirou os grampos da mo dela, antes que prendesse novamente o cabelo, jogando-os descuida-damente para trs.
- Que droga, Ryan...
- No interrompe. A gente precisa de voc de volta no instituto. A gente precisa que a pessoa que t por trs das falsificaes saiba que voc voltou ao trabalho.
A, quando a gente tiver organizado, vai precisar de todas as pessoas que tiveram alguma conexo com os bronzes aqui, juntas, no mesmo lugar.
- Talvez voc at consiga a primeira parte. Uma exposio como a que voc descreveu pode dar muito prestgio.
Ela teria se levantado para pegar os grampos, mas ele acariciava seu cabelo novamente, apreciando a expresso no seu rosto enquanto juntava e torcia suas mechas.
- A minha me gosta do poder que o prestgio d. Obviamente a segunda parte viria logo depois. Mas no sei como voc espera conseguir a ltima parte.
- Vou te dizer. - Ele riu e acariciou o rosto dela com os dedos. - A gente vai dar uma festa. Uma baita festa.
- Uma festa? Pra arrecadar fundos?
- Isso. - Ele se levantou e comeou a remexer as prateleiras dela, as gavetas. - E a festa vai ser em homenagem ao Giovanni. Uma espcie de memorial.
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- Giovanni. - O nome congelou-lhe o sangue. - Voc vai usar o Giovanni pra isso? Ele t morto.
- Voc no pode mudar isso, Miranda. Mas a gente vai dar um jeito pra que o assassino, seja quem for, comparea. E a gente vai ficar um passo mais perto dos
bronzes.
- No t entendendo.
- Eu ainda estou trabalhando nos detalhes. Voc no tem um bloco de desenho?
- Tenho, claro. - Oscilando entre a irritao e a confuso, ela se levantou e pegou o bloco em um dos armrios.
- Eu devia ter imaginado. Traz o bloco aqui e pega uns lpis tambm.
- Levo pra onde?
- Pra varanda dos fundos. Voc pode ficar planejando o seu jardim enquanto eu dou uns telefonemas.
- Voc acha que eu vou ficar desenhando um jardim no meio disso tudo?
- Vai te relaxar. - Ele escolheu alguns lpis na mesa dela, guardou-nos no bolso da camisa, pegou os culos de Miranda e enfiou-os no bolso dela. - E voc
vai fazer um jardim melhor, se souber que tipo de planta vai querer ver. - Pegou a mo dela e a arrastou para fora do quarto.
- Quando  que voc teve todas essas idias?
- Ontem  noite. No consegui dormir. A gente anda dando voltas em vez de agir. E permitindo que algum comande o show, e t na hora de a gente comear a
dar as cartas.
- Isso tudo  muito interessante e metafrico, Ryan, mas criar um fundo em nome do Giovanni no garante que o assassino vai aparecer. E, com certeza, no
vai trazer os bronzes pra nossas mos.
- Um passo de cada vez, baby. Voc t agasalhada o suficiente?
375
- No enche. Sentar l fora e desenhar no vai me relaxar. Se a gente vai montar essa exposio, eu devia estar trabalhando nela.
- Voc vai se enfiar no trabalho daqui a pouco.
Resignada, ela foi para a varanda. O ms de abril comeava de
maneira suave, trazendo uma brisa agradvel ao cu ensolarado. Isso poderia mudar num instante, ela sabia, e surpreender a todos com uma neve de primavera e ventos
fortes. Era parte do charme e dos caprichos das estaes na costa, supunha.
- Senta. - Ele lhe deu um beijo fraternal na testa. - Eu cuido dessa parte.
- Ento t. No vou esquentar minha cabecinha.
Ele riu e pegou o celular. - A nica coisa que merece diminu-tivo em voc, dra. Jones,  a tolerncia. Mas, de alguma forma, acho isso charmoso. Qual  o telefone
da sua me?
Ela ordenou seus pensamentos, aceitou o fato de que ele era habilidoso, sedutor e irritante por natureza - muitas vezes sendo tudo isso ao mesmo tempo. - Esse 
o nmero dela - disse, depois de recit-lo. - Com a diferena de horrio,  mais provvel que a minha me se encontre nesse telefone.
Enquanto ele teclava os nmeros, ela apreciava o gramado. Ele seduziria Elizabeth, Miranda concluiu. Seu talento com as mulheres era indiscutvel, e algo que no
competia a ela considerar muito profundamente. Ele saberia exatamente como apelar. Com o tempo, duvidava que houvesse uma s mulher no planeta que ele no fosse
capaz de convencer a comer nas suas mos talentosas.
Ela suspirou ao ouvir a maneira com que a voz dele pronunciava o nome da sua me, assim que a conexo se estabeleceu. Depois, parou de prestar ateno.
O azul tremeluzente do cu, os espasmos de mar e pedras que brilhavam sob o sol s faziam seu gramado parecer mais desprezvel. A tinta descascada na grade da varanda
era visvel, assim como o
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mato ressecado pelo inverno que brotava na superfcie lascada das rochas que acompanhavam o caminho para os penhascos.
Sua av cuidara da casa e da terra como uma me cuida dos filhos, lembrou. Agora, ela e Andrew abandonavam a propriedade, ignoravam os pequenos detalhes, davam as
costas para o que consideravam a mais tediosa das responsabilidades.
Reparos importantes e manuteno eram mais simples. Bastava contratar algum que fizesse o servio. Achava que ela e Andrew nunca haviam cortado a grama, retirado
folhas mortas, aparado um arbusto ou arrancado um tufo de erva daninha.
Seria uma boa mudana, pensou. Algo que poderiam compartilhar. O trabalho braal, a satisfao de ver as melhorias, isso seria uma boa terapia para ele. E para ela.
De um jeito ou de outro, o ciclo da vida pelo qual estava passando chegaria ao fim. Quando isso acontecesse, precisaria de algo para preencher o vazio.
Trazendo a ateno de volta, tentou se lembrar da aparncia do jardim lateral quando era criana e sua av ainda estava firme e forte para cuidar dele.
Flores lindas, tons de roxo e vermelho profundos. Um pouco de amarelo amanteigado nas margaridas, cujos caules se curvavam sob o peso dos botes. Seu lpis comeou
a mover-se enquanto ela trazia as recordaes de volta. Chumaos verdes de caules longos, cujas terminaes eram copos-de-leite. Havia um perfume, tambm, de flores
que pareciam cravos com pendes brancos e vermelhos, de fragrncia forte e apurada.
Trombetas azuis. Sim, e antrios. Estava ridiculamente excitada por ser capaz de nomear aquela variedade de flores.
Ryan fazia seu nmero ao telefone com Elizabeth e observava a filha. Estava relaxando, percebeu, sorrindo um pouco enquanto desenhava. Movimentos rpidos, do tipo
que requisitava talento natural e bom olho.
O cabelo dela estava bagunado, os dedos esticados, as unhas bem-feitas e curtas sem esmalte. Tirara os culos do bolso e os colo-
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cara no rosto. A suter pendia-lhe nos ombros, a cala da cor de argila.
Ele pensou que ela era a mulher mais deslumbrante que j conhecera.
E porque pensara isso, perdeu o fio da meada, virou-se e foi at o final do jardim.
- Por favor, pode me chamar de Ryan. Espero poder te chamar de Elizabeth. Com certeza voc sabe o quanto a sua filha  brilhante e encantadora, mas preciso
lhe dizer que ela me causou uma tremenda boa impresso. Quando soube que ela estava de frias, bem, desapontamento  uma palavra fraca pra descrever meu sentimento.
Ele a escutou por alguns instantes, sorrindo para si mesmo. Perguntou-se se Miranda sabia que sua voz tinha o mesmo tom aristocrtico quando tentava disfarar a
irritao.
- Ah, claro, no tenho dvidas de que existem pessoas na equipe do instituto capazes de pegar a idia original e acrescentar muito a ela. Mas no tenho interesse
de trabalhar com o segundo time. Apesar de Lois Berenski, do Instituto de Arte de Chicago, voc conhece a Lois, imagino... Isso. Ela  muito competente e est bastante
interessada nessa proposta. Prometi dar uma resposta em quarenta e oito horas. Por isso tomei a liberdade de perturbar voc em casa. Minha preferncia  o instituto,
com Miranda, mas, se isso for impossvel antes da minha data limite, eu vou...
Ele silenciou, sorrindo francamente, agora que Elizabeth comeava a mostrar suas garras na negociao. Encontrou uma posio confortvel passando uma das pernas
por cima da grade da varanda e montando nela como se fosse uma sela, enquanto o seu olhar desviava-se para a costa, as gaivotas, permitindo a Elizabeth que fizesse
propostas e mais propostas, at que ele conseguisse o que queria.
Desligou, jogou uma azeitona na boca. - Miranda?
Ela ainda desenhava, rabiscando seu terceiro ngulo para o jardim desejado. - Hummm.
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- Atende o telefone.
- O qu? - Levantou o olhar, ligeiramente irritada com a interrupo. - No t tocando.
Ele piscou. - Espera tocar - disse para ela, depois sorriu quando o aparelho da cozinha deu sinal de vida. - Deve ser a sua me. Se eu fosse voc, fingiria surpresa,
e um pouquinho de relutncia.
- Ela concordou?
- Atende o telefone e voc descobre.
Ela levantou e apressou-se em direo  cozinha, tirou o fone do gancho. -Al?... Ah, oi, me. - Levou a mo ao corao acelerado e escutou.
O pedido chegou como uma ordem, mas isso era de esperar. Mais, foi descrito como fato consumado. Suas frias deviam ser interrompidas imediatamente, ela devia contatar
a Galeria Boldari e acordar o prosseguimento do novo projeto. Sua agenda deveria ser ajustada, isso deveria ser uma prioridade, e a exposio seria concebida, planejada,
organizada e finalizada no segundo final de semana de maio.
- Mas no chega a um ms. Como...
- Eu sei que o tempo  curto pra uma coisa dessa monta, mas o sr. Boldari tem outros compromissos conflitantes. Ele vai trabalhar com Andrew na publicidade
da festa de lanamento. O Vincente vai participar. Sua nica preocupao nas prximas semanas  a exposio. Ele espera muito de voc, Miranda, e eu tambm. Voc
entendeu?
- Claro. - Tirou os culos sem prestar ateno, enrolou-os na cordinha e guardou-os no bolso. - Vou comear agora mesmo. O Giovanni...
- O enterro foi comovente. A famlia agradeceu pelas flores. Vou estar em contato direto com voc por conta dessa exposio, Miranda, e espero organizar a
minha agenda pra poder estar presen-
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te na primeira semana de maio, se for possvel, pra supervisionar os toques finais. No deixe de me mandar os relatrios.
- Voc vai receber tudo. Tchau... Feito - Miranda sussurrou ao desligar o telefone. - Simples assim. Como se nada tivesse acontecido.
- Eu no mencionei o Giovanni - Ryan disse para ela. - Isso no pode partir de mim. Voc vai ter a idia amanh, e depois de passar a sugesto para mim e
ter certeza de que eu concordo, vai mandar um memorando pra ela.
Ele acomodou seu prato na bancada, escolheu um biscoito para ela e o cobriu com uma fatia de queijo. - Da, vai aparecer a idia de que todos os membros importantes
de todas as organizaes Jones devero comparecer ao evento, numa demonstrao de harmonia, apoio e respeito.
- Eles vo vir - ela murmurou. - A minha me vai fazer isso acontecer. Mas no vejo o bem disso.
- Logstica. Todo mundo ligado, no mesmo lugar, na mesma hora. - Ele sorriu e comeu mais um pedao de queijo. -T louco pra isso acontecer.
- Eu tenho que arregaar as mangas. - Passou as mos no cabelo. - Tenho uma exposio pra planejar.
- Vou pra Nova York amanh.
Ela parou a caminho da porta e olhou para trs. -Ah, voc vai?
- Vou. De manh. Vai ser um prazer ver voc de novo, dra. Jones.
Captulo Vinte e Trs
bom ter voc de volta. - Lori havia colocado um caf fresqussimo sobre a mesa de Miranda.
- Tomara que voc ainda ache isso no fim da semana. Eu vou te deixar esgotada.
- Eu agento. - Lori levou a mo ao brao de Miranda. - Sinto muito pelo Giovanni. Eu sei que vocs eram amigos. Todo mundo gostava muito dele.
- Eu sei. - O sangue dele est nas suas mos. - Ele vai fazer falta. Preciso trabalhar, Lori. Tenho que mergulhar nessa exposio.
- Tudo bem. - Ela foi at a cadeira, apoiou o lpis sobre o laptop. - Por onde a gente comea?
Cuide do que tem que ser feito, Miranda disse para si mesma. Um passo de cada vez. - Marca com o pessoal da carpintaria, eu quero o Drubeck. Ele fez um bom trabalho
na exposio do Flemish alguns anos atrs. Preciso falar com o departamento jurdico, ver os contratos, e a gente vai precisar fazer alguma pesquisa. Quero algum
que consiga checar dados com rapidez. Preciso de uma hora
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e meia com o Andrew, e quero ser informada assim que o sr. Boldari chegar. Marca um almoo no salo VIP, marca pra uma da tarde, pro Andrew poder almoar com a gente.
Checa o pessoal da restaurao. Quero saber quando os trabalhos que esto em curso vo ser completados. E convida a sra. Collingsforth. Ela  minha convidada pra
um ch, qualquer dia da semana, mais uma vez no salo VIP.
- Vai pedir emprestada a coleo dela?
O desejo aguou os olhos de Miranda. - Acho que consigo fazer com que ela goste de ver seus quadros nessa exposio, com uma placa bonita de metal, de bom gosto,
dizendo "emprstimo da coleo de...".
E se no fosse capaz de convencer a sra. Collingsforth, Miranda pensou, empurraria Ryan para cima dela.
- Preciso das medidas da Galeria Sul. Se no estiverem aqui no relatrio, me arruma uma trena. Quero isso hoje. Ah, e quero ver um decorador.
Lori fez uma pausa com o lpis. - Um decorador?
- Eu tenho uma idia pra... atmosfera. Preciso de algum criativo, eficiente e que saiba receber ordens em vez de dar. - Miranda tamborilou na mesa. Ah, sim,
ela sabia o que queria, tim-tim por tim-tim. - Vou precisar de um quadro-negro aqui, e de um l na minha casa. Manda um memorando pro Andrew, pedindo pra ele me
copiar em todos os passos da publicidade e da concepo do fundo de arrecadao. Ligaes do sr. Boldari devem ser passadas a qualquer hora e os desejos dele devem
ser satisfeitos sempre que possvel.
- Claro.
- Pronto.
- Daqui a quatro semanas, pode me pedir um aumento.
Lori sorriu. - Duplamente pronta.
- Vamos comear.
- S uma coisa. - Lori fechou sua agenda. - Tem um recado na sua secretria eletrnica. Deixei gravado. Era em italiano. No entendi a maior parte.
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Ela se levantou, foi at a mquina de Miranda e apertou o boto para rebobinar as mensagens. Imediatamente, a sala foi invadida por uma enchente de palavras em um
italiano excitado, passional. Parcialmente irritada, Miranda apertou o stop, preparou a mente para a traduo e voltou a gravao.
Dra. Jones, eu preciso falar com voc. Tentei fazer isso aqui. Ningum mais vai acreditar em mim. Meu nome  Rinaldi, Cario Rinaldi. Eu encontrei a esttua. Segurei-a.
Eu sei que ela  verdadeira. Voc tambm sabe. Os jornais dizem que voc acreditou nela. Ningum quer me ouvir. Ningum d ateno a um homem como eu. Mas voc 
importante. Voc  uma cientista. Eles vo escutar. Por favor, liga pra mim. A gente se fala. A gente sabe a verdade. A sua me, ela me expulsou do escritrio dela.
Me expulsou como se eu fosse um pedinte ou um ladro. No governo, eles acham que eu ajudei a fazer uma fraude. Isso  mentira. Voc sabe que isso  mentira. Por
favor, a gente tem que contar a verdade pra todo mundo.
Ele ditou um nmero de telefone, duas vezes, e repetiu seu apelo. E agora estava morto, Miranda pensou ao final da mensagem. Pedira ajuda, mas ela no estava l.
Agora estava morto.
- O que ? - Preocupada com a expresso devastada de Miranda, Lori estendeu a mo para toc-la no brao. - O meu italiano se limita ao cardpio de massas.
Notcia ruim?
- No - Miranda murmurou. - Notcia velha, e eu cheguei tarde demais.
Apertou o boto para apagar a mensagem, mas sabia que a mensagem do morto ficaria em sua cabea por um longo tempo.
Era bom estar de volta ao ritmo, ter tarefas e objetivos
especficos. Ryan estivera certo quanto a isso, ela concluiu. Precisava de ao.
Estava no setor de restaurao, checando pessoalmente o progresso do Bronzino, quando John Carter entrou.
383
- Miranda. Ando tentando te encontrar. Bem-vinda de volta.
- Obrigada, John. Estou feliz de ter voltado.
Ele tirou os culos, limpou-os no jaleco. - Que notcia horrvel a histria do Giovanni! No consigo acreditar.
Ela teve uma lembrana rpida, o corpo estendido, o olhar fixo, o sangue.
- Eu tive que fazer o pronunciamento ontem. O laboratrio parecia um necrotrio. - Ele respirou fundo, depois exalou. - Vou sentir falta da maneira como ele
animava isso aqui quando ficava uns dias pra trabalhar. A gente teve algumas idias, mas a que todo mundo preferiu foi a de plantar uma rvore no parque. Vrias
pessoas almoam l quando o tempo t bom, e a gente achou que podia ser uma homenagem bacana.
- Acho adorvel, John. Ele ia adorar.
- Queria saber a sua opinio, antes. Voc ainda  a diretora do laboratrio.
- Eu apoio. Espero que o fato de eu ser diretora no me impea de contribuir pro fundo.
- Todo mundo sabe que vocs eram amigos, isso vem em primeiro lugar.
- Voc... voc ficava com ele quando vinha pra c, e quando voc ia pra Standjo.
- , ele costumava dizer que eu era um graveto. - Carter sorriu, nostlgico. - Ele queria dizer "um espeto", mas eu me divertia com isso, nunca corrigi. Ele
me convencia a sair pra tomar uma garrafa de vinho ou pra jantar. Dizia que ia me tirar da rotina e que ia me ensinar a paquerar as mulheres bonitas. Depois, pedia
pra ver as fotos mais recentes dos meus filhos.
A voz dele ficou embargada, os olhos brilharam, molhados, ele se virou e deu um pigarro. - Bem, ento eu vou... vou providenciar a rvore.
- Faz isso. Obrigada, John. - Ela tambm se virou, envergonhada por deixar que as suspeitas de Ryan a fizessem duvidar do sofrimento do homem.
384
- Enquanto isso, ah, espero que voc volte logo pro laboratrio. Voc faz falta.
- Vou dar uma passadinha l, mas esse projeto vai ser prioridade nas prximas semanas.
- Exposio nova sobre o Renascimento. - Ele forou um sorriso mais uma vez, quando ela voltou o olhar para ele. - Se voc conseguir botar um sangue novo
por aqui, vai ser uma injeo de nimo. Uma exposio desse porte  tudo o que a gente precisa pra esquecer o trauma das invases. Foi uma tima idia.
- ... - Ela silenciou ao ver o detetive Cook entrar. - Desculpe, John,  melhor eu cuidar desse assunto.
- ... no sei por qu... - Ele baixou a voz at quase um sussurro. - Mas ele me deixa nervoso. Parece que ele suspeita de todo mundo.
Com um ligeiro aceno de cabea para Cook, ele saiu, os sapatos sujos mal fazendo barulho.
- Detetive? Posso fazer alguma coisa por voc?
-  uma pintura e tanto essa que voc tem aqui, dra. Jones. - Em vez de tirar o que pareciam culos para perto, ele apertou os olhos. -  a original, no
?
- ,  um Bronzino. Sculo dezesseis, um artista renascentista italiano. O instituto tem muito orgulho de ter essa pea. Os seus donos emprestaram pra exposio.
- Se voc no se importar, eu gostaria de perguntar: o que ela t fazendo aqui?
O restaurador mal olhou para ele, por trs das lentes de aumento dos culos. - O quadro era parte de uma coleo muito malcui-dada de um recluso da Gergia - Miranda
disse. - Essa pintura, assim como vrias outras, sofreu alguns estragos... poeira, umidade, luz solar, durante um tempo, infelizmente. Ela foi limpa.  um processo
lento, delicado. A gente no pode correr o risco de estragar o trabalho. Demora e demanda muita habilidade. Agora estamos tentando restaurar um pouco do estrago
na pintura. A gente s usa
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materiais que existiam na poca em que o quadro foi feito, pra preservar a integridade da pea. Isso requer pesquisa, talento e pacincia. Se a gente tiver feito
um bom trabalho, o quadro vai ficar do jeito que foi pintado pelo artista.
- Parece at trabalho de polcia.
- ?
-  um processo lento, delicado, a gente no pode correr o risco de estragar o caso. A gente s usa informaes procedentes. Precisa fazer pesquisa, precisa
ter certo talento - disse com um sorriso plido. - E um bocado de pacincia. Se fizer tudo direitinho, consegue pintar o quadro todo no final.
- Uma analogia muito interessante, detetive. - E que a deixava incrivelmente nervosa. - E voc est conseguindo pintar o quadro todo?
- S uns pedaos aqui e ali, dra. Jones. S uns pedaos aqui e ali. - Ele enfiou a mo no bolso e pegou um pacote de chiclete. - Quer um?
- No, obrigada.
- Estou tentando parar de fumar. - Tirou um pedao, embrulhou no papel laminado e guardou de novo no bolso. - Ainda me deixa louco. At t com esse adesivo,
mas no  tudo que falam, vou te confessar. Voc fuma?
- No, no fumo.
- Garota esperta. Eu fumava dois maos por dia. A comeou a no poder fumar aqui, no poder fumar ali. Voc d uns tragos dentro de um armrio ou do lado
de fora, na chuva. Acaba se sentindo um criminoso. - Sorriu novamente.
Miranda queria mudar o peso do corpo de um p para outro, e, em vez disso, imaginou-se batendo o p no cho, estalando os dedos. - Com certeza,  um hbito difcil
de deixar.
-  um vcio, no  um hbito.  difcil encarar um vcio. Pode levar a vida toda, pode destruir a sua vida, te levar a fazer coisas que no faria se no
fosse isso.
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Ele sabia sobre o alcoolismo de Andrew. Ela via isso nos olhos dele e imaginou que essa era exatamente a inteno do detetive.
- Eu nunca fumei - disse sem emoo. - Voc quer ir at o meu escritrio?
- No, no, no vou te prender. - Respirou o ar que cheirava a tinta, terebintina e produtos de limpeza. - Nem achei que ia esbarrar com voc, j que me disseram
que estava fora. De frias?
Ela comeou um movimento de anuncia. No saberia dizer se foi o instinto ou simplesmente medo que fez com que parasse.
- Imagino que voc saiba que me mandaram tirar frias, detetive, por causa da invaso aqui e de algumas dificuldades depois da minha ida a Florena, no ms
passado.
Ela era rpida, ele pensou, e no era fcil de derrubar. - Ouvi falar algo a respeito, sim. Outra pea de bronze, no  isso? Voc teve problemas com a autenticao.
- Eu no. Outras pessoas tiveram. - Ela se afastou do quadro, consciente de que os ouvidos estavam abertos.
- Causou problemas, de toda forma. Dois bronzes. Engraado, voc no acha?
- No acho nada engraado ter a minha reputao em jogo.
- Entendo. Mas, mesmo assim, voc s ficou fora alguns dias.
Dessa vez, ela nem mesmo hesitou. - Era pra demorar mais
tempo, mas a gente vai comear uma exposio importante que tem a ver com a minha rea de conhecimento.
- Tambm fiquei sabendo disso. E soube do cara l da Itlia. O assassinato. Terrvel.
O sofrimento apareceu nos olhos dela, fazendo com que desviasse o olhar. - Ele era um amigo. Um grande amigo.
- Tem alguma idia de quem tirou seu amigo do caminho?
Miranda voltou a olhar para ele. - Detetive Cook, se eu soubesse quem esmagou o crnio do meu amigo, estaria em Florena, contando pra polcia.
Cook moveu o chiclete dentro da boca com a lngua. - No sabia que eles haviam deixado vazar a fratura no crnio.
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- Minha me foi avisada - ela disse, com a mesma frieza na voz -, assim como a famlia do Giovanni. - Ela s podia rezar para que fosse verdade. - Voc t investigando
o assassinato ou o roubo aqui no instituto?
- S curiosidade. Policiais so mesmo curiosos. - Espichou as mos. - Vim aqui porque o seu irmo tem uma teoria sobre a possibilidade de os dois incidentes
estarem relacionados.
- , ele me falou. Voc v alguma ligao?
- s vezes a gente no consegue enxergar at ficar cara a cara. Voc tambm autenticou o, ah... - Ele pegou seu bloco de anotaes, passou os olhos nele para
refrescar a memria. - Bronze do Davi, sculo dezesseis, no estilo de Leonardo.
Apesar de sentir as palmas das mos umedecerem, ela resistiu  tentao de esfreg-las na cala. - Isso.
- Parece que ningum conseguiu encontrar a documentao da pea, os relatrios, as fotos.
- Andrew me disse isso tambm. S posso induzir que o ladro tenha levado os documentos junto com o bronze.
- Faz sentido, mas ele teria que saber onde procurar, no? A interrupo na imagem das cmeras s dura... - Passou as pginas novamente. - Dez minutos, mais
ou menos. Ele teria de ser rpido e escorregadio pra acrescentar uma viagem at o laboratrio a fim de buscar os relatrios. Eu fiz o percurso o mais rpido que
pude. Leva um minuto. No parece muito, mas se voc pensar na diferena entre oito e dez minutos  bastante coisa.
Ela no poderia permitir que seu olhar titubeasse, que sua voz enfraquecesse. - Tudo que eu posso dizer  que os relatrios ficavam arquivados, e agora esto desaparecidos
junto com o bronze.
- Voc tem muita gente trabalhando sozinha aqui, de noite, at tarde? Feito seu amigo de Florena?
- s vezes, apesar disso s acontecer com a equipe mais antiga. A segurana no permite que ningum entre depois que o prdio fecha.
- Como voc e o seu irmo fizeram, uma semana depois do assalto.
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- Como assim?
- Peguei uma declarao do seu segurana noturno, e ele disse que no dia 23 de maro, mais ou menos s duas e meia da manh, voc ligou e avisou que ia trabalhar
no laboratrio com o dr. Andrew Jones. Essa informao procede?
- Eu no discutiria a informao.
- Voc trabalha muito tarde.
- No habitualmente. - Seu corao pulava dentro do peito, mas as mos estavam firmes quando ela recolocou um grampo frouxo no cabelo. -A gente resolveu vir
e trabalhar um pouco no silncio. Isso  um problema, detetive?
- No pra mim. S quero organizar as informaes. - Ele guardou o bloco, passou os olhos pelo ambiente mais uma vez. - Voc sabe que  difcil ver alguma
coisa fora do lugar aqui. Voc e seu irmo so muito ordeiros.
- Em casa, ele deixa as meias espalhadas no cho da sala e nunca guarda as chaves no mesmo lugar. - Estaria ficando boa nisso?, perguntou-se. Estaria, de
alguma maneira escusa, finalmente comeando a gostar de brincar com a polcia?
- Aposto que voc, sim... mantm tudo no lugar, eu quis dizer. Aposto que coloca tudo no mesmo lugar, sempre. Coisa de rotina. Hbito.
- Voc pode chamar isso de vcio. - Sim, deu-se conta, de alguma maneira escusa, ela estava gostando disso. Gostando do fato de que estava se segurando. -
Detetive, eu tenho uma reunio daqui a pouco, e o meu tempo est apertado.
- Eu no tinha a inteno de te segurar por tanto tempo. Agradeo pela ateno e pela explanao - acrescentou, gesticulando em direo ao quadro. - Parece
que d um trabalho danado. Quase mais fcil pintar de novo.
- A no seria um Bronzino.
- Muita gente no saberia a diferena. Voc saberia. - Ele acenou para ela com a cabea. -Aposto que voc pode identificar uma falsificao s de bater o
olho numa pea.
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Ela se perguntou se o sangue teria de fato sumido de seu rosto ou se era somente uma sensao. Ele chegara muito perto e muito rpido, enquanto ela se congratulava
por fazer a sua parte com tanta perfeio.
- Nem sempre. Uma avaliao visual no , no pode ser conclusiva, quando a cpia  bem executada.  preciso fazer testes de laboratrio.
- Como os que voc faz aqui, os que foi fazer em Florena ms passado.
- Exatamente. - A trilha de suor que percorreu sua espinha era fria como o gelo. - Se voc tiver interesse, posso fazer uma demonstrao. Mas no agora -
ela disse olhando para o relgio. - Eu realmente... - Ela silenciou, devorada por uma onda de alvio quando Ryan passou pela porta.
- Miranda. Que bom ver voc de novo. O seu assistente me disse que talvez eu te encontrasse aqui. - Com suavidade, ele pegou a mo dela, levou at os lbios.
- Desculpe, eu me atrasei um pouco. O trfego.
- Tudo bem. - Ela ouviu as palavras, mas no conseguiu sentir a boca se mexendo. - Eu fiquei presa tambm. Detetive Cook...
- Ah, sim, a gente se conheceu, no foi? - Ryan estendeu a mo. - Na manh seguinte ao roubo. Algum progresso?
- A gente t trabalhando pra isso.
- Tenho certeza. Eu no quis interromper. Quer que eu espere no seu escritrio, Miranda?
- Quero. No. A gente encerrou por enquanto, detetive?
- Sim, senhora. Fico feliz de saber que voc no se deixou abalar pelo assalto aqui, sr. Boldari. Nem todo mundo emprestaria para uma galeria de arte que
teve a segurana ameaada.
- Eu confio plenamente na dra. Jones, e no instituto. Tenho certeza de que a minha propriedade vai estar bem protegida.
- Ainda assim, no seria mal acrescentar alguns homens.
- Estamos providenciando isso - Miranda disse a Cook.
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- Eu podia te dar os nomes de alguns policiais que dobram o turno fazendo segurana particular.
-  muita gentileza sua. Pode passar os nomes pra minha assistente.
- Sem problemas, dra. Jones. Sr. Boldari. - Havia algo entre aqueles dois, Cook pensou ao se dirigir para a porta. Talvez fosse apenas sexo. E talvez fosse
algo mais.
E havia algo estranho, definitivamente, com aquele Boldari. Talvez tudo sobre ele indicasse limpeza total, mas havia algo estranho.
- Ryan...
Ele interrompeu Miranda com um aceno quase invisvel de cabea. - Sinto por voc no ter recuperado a sua pea.
- Ns no desistimos. Marquei um almoo na rea VIP. Achei que assim a gente teria tempo pra discutir os planos pra exposio.
- Perfeito. - Ele ofereceu o brao a ela. - Estou ansioso pra ouvir mais detalhes do que voc pensou. - Conduziu-a pelo hall e subiram as escadas, mantendo
uma conversa despretensiosa at que estivessem sozinhos, em segurana, no pequeno e elegante salo. - Ele tava te importunando h muito tempo?
- Pareceu uma eternidade. Falou de falsificaes, queria saber se eu era capaz de detectar uma s de olhar.
- Jura? - A mesa j estava preparada para trs, com torradi-nhas e pats de aperitivo. Ele pegou uma. - Ele  um policial astuto, apesar da rotina do Columbo
andar meio devagar.
- Columbo?
- Delegado Columbo. - Ryan mordeu a torrada. - Peter Falk, charuto barato, casaco de chuva amarrotado. - Ela olhou para ele com a expresso vazia, e Ryan
balanou a cabea. - A sua educao em cultura  bem fraca. Mas no importa. - Ele dispensou o assunto. - Ele at pode vir a ser uma ajuda, antes de isso tudo acabar.
- Ryan, se ele fizer a ligao, se ele for atrs desse ngulo, pode acabar chegando a voc. Voc tem as cpias.
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- Isso no vai faz-lo chegar a mim, nem a voc. E em um ms, talvez em alguns dias, eu no vou mais ter as cpias. Vou ter as peas verdadeiras. E ns dois vamos
limpar a reputao.
Ela pressionou os olhos com os dedos, tentando trazer de volta aquela sensao momentnea de satisfao que experimentara. Simplesmente no estava ali. - No consigo
ver como isso pode funcionar.
- Voc tem que confiar em mim, dra. Jones. Esse  o meu campo de expertise. - Ele gesticulou em direo ao outro lugar  mesa. - Quem vem encontrar a gente?
- Andrew.
- Voc no pode contar pra ele, Miranda.
- Eu sei. - Ela juntou as mos e quase torceu os dedos. - Ele t tentando colocar a vida no lugar. Eu no vou aumentar o estresse dele contando que me envolvi
num plano de roubo.
- Se as coisas andarem de acordo com o planejado, vai ter um roubo - ele acrescentou, pegando as mos dela, na tentativa de acalm-la -, e tudo que a gente
t fazendo  devolver o que foi roubado. Ento, por que no dizer que a gente t envolvido num projeto de recuperao?
- Isso no faz com que deixe de ser crime. No faz com que eu me sinta menos culpada quando o Cook me olha com aquela cara de co farejador e me pergunta
sobre falsificaes.
- Voc conseguiu lidar com ele.
- E tava comeando a gostar - ela resmungou. - No sei o que t acontecendo comigo. Cada passo que eu dou ou planejo  fora da lei.
- Dentro, fora. - Ele deu de ombros. - Essa fronteira muda com muito mais freqncia do que voc imagina.
- No a minha, Boldari. Minha fronteira sempre ficou firme no mesmo lugar. - Ela se virou. - Tinha uma mensagem na secretria eletrnica aqui do escritrio.
Do Cario Rinaldi.
- Rinaldi? - Ele baixou a torrada que acabara de preparar. - O que ele queria?
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- Ajuda. - Ela fechou os olhos. No estava ajudando ningum, a no ser a si mesma. O que isso fazia dela? - Ele me pediu ajuda. Ningum acreditava nele e
na autenticidade do bronze. Ele deve ter procurado a minha me, porque disse que foi expulso do escritrio dela. Disse que eu era a nica pessoa que podia ajudar
a provar que o bronze era verdadeiro.
- E  isso que voc vai fazer.
- Ele t morto, Ryan. Ele e o Giovanni esto mortos. No tem nada que eu possa fazer pra ajudar.
- Voc no  responsvel pelo que aconteceu com eles. No  - ele insistiu, puxando o rosto dela para encar-la. - Agora, faz a seguinte pergunta... - Segurou
os ombros dela com firmeza, manteve os olhos nos dela. - Voc acha que um dos dois ia querer que voc parasse, antes de encerrar essa histria? At voc poder provar
que o bronze  verdadeiro? At, ao provar isso, ser capaz de apontar o dedo pro assassino?
- Eu no sei. No posso saber. - Ela respirou fundo, deixou o ar sair devagar. - Mas eu sei que no vou conseguir viver bem comigo mesma, a menos que termine
essa histria. Um me pediu ajuda, o outro me fez um favor. Eu no posso parar at isso acabar.
- A fronteira mudou de lugar, Miranda. Quem matou os dois fez com que mudasse.
- Eu quero vingana. - Ela fechou os olhos. - Fico esperando ter vergonha disso, mas no tenho. No posso.
- Darling, voc sempre questiona cada emoo humana que sente?
- Acho que venho sentindo mais coisas ultimamente. Isso dificulta na hora de buscar um padro lgico.
- Voc quer pensar num padro lgico? Vou te ajudar. Quero ouvir seus planos pra exposio.
- No, voc no quer.
- Claro que quero. A Galeria Boldari t emprestando peas muito importantes pra vocs. - Ele levou a mo aos lbios dela. - Quero saber o que pretende fazer
com elas. Isso  negcio.
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- Ryan. - Ela no tinha certeza do que queria dizer, e tambm no teve chance de faz-lo, porque Andrew abriu a porta e entrou.
- As coisas esto andando rpido - ele comentou, atento  maneira que Ryan mordiscava os dedos da irm.
- Oi, Andrew. - Ryan baixou a mo de Miranda, mas a manteve dentro da sua.
- Por que vocs no me contam o que t rolando por aqui?
- Com prazer. A gente resolveu ir adiante com aquele plano de emprstimo entre a minha galeria e a empresa de vocs. E expandir essa idia. Tem a vantagem
de levantar um bom dinheiro pro Fundo de Doaes para as Artes e trazer Miranda de volta.
Ryan virou-se para a mesa, levantou a jarra e serviu trs copos d'gua. - A sua me tava muito entusiasmada com o projeto.
- , eu falei com ela. - O que explicava parcialmente seu mau humor, sups. - Ela me disse que voc ligou de Nova York.
- Disse? - Com um sorriso, Ryan distribuiu os copos. - Ela deve ter imaginado que eu estivesse l. Por que no deixar que ela e todo mundo pense isso? Muito
menos complicado. Eu e Miranda preferimos resguardar o nosso relacionamento extraprofissional.
- Ento, vocs no deviam passear pelo prdio de mos dadas. A rede de fofocas j comeou a trocar informaes.
- Isso no  um problema pra mim,  pra voc? - ele perguntou para Miranda, e continuou falando ainda mais suavemente, antes que ela pudesse responder. -
Miranda ia comear a me contar os planos pra exposio. Eu tambm tenho algumas idias, e pensei em algumas coisas pra festa de abertura. Por que a gente no senta
e conversa sobre isso tudo?
Concluindo que assim seria melhor, Miranda se colocou entre eles. - Isso vai ser um evento importante pra ns, pra mim particularmente. Fico feliz que Ryan queira
ir adiante. Isso me trouxe de volta, e eu preciso estar aqui. Alm disso, eu passei anos sonhando e desejando uma exposio desse porte. Essa  uma das razes pra
eu fazer tudo com rapidez. T na minha cabea h muito tempo.
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Ela levou a mo ao brao do irmo. - Depois do que aconteceu em Florena, a mame nunca me daria uma oportunidade, se no fosse a insistncia do Ryan de trabalhar
comigo.
- Eu sei. Eu sei. Talvez eu ande demorando um pouco pra mudar os comandos ultimamente.
- Mas t tudo bem?
- Eu no bebi. Terceiro dia - ele disse, com um sorriso plido. E depois de duas noites de tremedeiras, suores e desespero. - Eu no quero entrar em detalhes
com voc, Miranda.
- Tudo bem. - Ela deixou a mo cair. Parecia que os dois tinham seus segredos, agora. - Vou avisar que estamos prontos pra almoar.
No  justo, no est certo. ela no tinha nada que voltar, assumir as rdeas de novo. Ela no vai arruinar os meus planos. Eu no vou permitir. So anos de espera,
anos de sacrifcio. A Senhora Sombria  minha. Ela veio para mim, e naquele sorriso escorregadio eu vi um esprito livre, uma mente que pode esperar, assistir, planejar
e acumular poder como se fosse dinheiro num cofre. E naquele sorriso eu vi, finalmente, o caminho para destruir todos os meus inimigos. Para pegar o que era meu,
o que sempre foi meu.
Eu tinha acabado com ela. Eu j tinha conseguido.
A mo que escrevia comeou a tremer, usando a caneta como uma lmina para atacar a pgina do dirio ferozmente, at que o ambiente fosse preenchido por sua respirao
entrecortada. Gradualmente, todo o movimento foi parando, e a respirao ficou mais lenta, mais profunda e equilibrada, quase como se num transe.
O controle estava indo embora, escorregando daqueles dedos competentes, deixando aquela mente forte e calculista. Mas poderia voltar de uma hora para outra. O esforo
era doloroso, mas podia ser feito.
Isso  s um adiamento, algumas semanas para o olho do furaco. Eu vou encontrar uma maneira de fazer com que ela pague, com que
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todos paguem pelo que me negaram. A Senhora Sombria ainda  minha. Ns matamos juntas.
Miranda tem a cpia.  a nica explicao. A polcia no encontrou a arma. To corajoso da parte dela ir a Florena, to pouco a cara dela, encontrar uma maneira
de roubar o bronze. Nunca pensei que ela pudesse fazer esse tipo de coisa. Ento no previ, no pensei nessa possibilidade.
No vou cometer esse erro novamente.
Ela ficou ali parada, olhando para o Giovanni? Havia horror e medo nos olhos dela? Ah, eu espero. O medo vai fazer com que fique parada, como um co de caa  espreita?
Vai, eu sei que vai; ela voltou correndo para o Maine. Ser que ela olha nervosamente para trs quando atravessa os corredores do instituto? Ela sabe, intimamente,
que o tempo dela  curto?
Que ela tenha esse adiamento, que conquiste o poder que no fez nada para ter. Ser ainda mais doce quando tudo lhe for tirado de uma vez por todas.
No planejei tirar a vida dela tambm. Mas os planos mudam.
Quando estiver morta, a reputao destruda pelo escndalo, vou chorar em seu tmulo. Sero lgrimas de triunfo.
Captulo Vinte E Quatro
O bigode falso dava coceira e provavelmente era desnecessrio. Assim como as lentes de contato, que transformavam seus olhos castanhos em um mel indistinto, e a
peruca loura que prendera num rabo de cavalo. Seu rosto e qualquer parte exposta da pele haviam sido cuidadosamente clareados, trazendo  sua tez dourada os tons
plidos e sem cor de um homem que prefere passar a vida longe do sol.
Trs brincos brilhavam em sua orelha, culos de armao de ao e lentes pequenas e rosadas acomodadas sobre o nariz. Ele gostava do brilho com que as lentes coloriam
as coisas.
Escolhera o guarda-roupa com cuidado. Cala comprida vermelha, apertada, camisa de flanela alaranjada e mangas soltas, botas pretas de couro e salto baixo.
Afinal, ele no queria ser sutil.
Parecia um desses tipinhos ultramodernos, fanticos por arte,  beira do mau gosto. J vira uma infinidade deles ao longo de sua carreira e sabia como andavam, conhecia
seus jarges.
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Conferiu o rosto no espelho retrovisor do sed pequeno que alugara numa espelunca. No era nenhum prazer dirigir aquele carro, mas rodara com ele os sessenta e poucos
quilmetros de estrada at a Fundio Pine State. Tinha esperana de que o levasse de volta  costa quando terminasse.
Saltou do carro com seu portflio barato de capa de couro falso. Ali dentro havia dezenas de rascunhos - a maioria emprestada por Miranda, por assim dizer.
A cpia do Davi deveria ter sido feita em outro lugar, pensou. Em algum lugar nas proximidades, devido s limitaes de tempo. E aquela era a fundio mais perto
do instituto. A mesma que a equipe e estudantes usavam habitualmente, segundo suas pesquisas.
Pegou algumas balas de hortel para mascar enquanto analisava a fundio. O lugar era uma mancha na paisagem da colina, concluiu. Uma construo feia de tijolos
e metal, pontiaguda, espalhada para os lados, com chamins que exalavam fumaa; perguntou-se o quanto atendiam s normas ambientais de construo, depois lembrou
que isso no era problema seu nem sua misso.
Jogando o rabo de cavalo para trs, pendurou o portflio no ombro e dirigiu-se ao prdio de metal com janelas empoeiradas.
Com os saltos das botas, um rudo a mais nas passadas era natural.
Dentro do prdio, havia uma grande bancada com prateleiras lotadas de fichrios, potes plsticos repletos de pregos e parafusos, e grandes objetos de metal que desafiavam
os poderes de definio. Sentada num banco alto, uma mulher folheava uma revista com dicas para a casa.
Ela levantou o olhar at Ryan. Suas sobrancelhas arquearam-se imediatamente, os olhos percorrendo o visitante de alto a baixo. O ligeiro sorriso no foi muito bem
disfarado. - Precisa de alguma ajuda?
- Meu nome  Francis Kowowski. Eu estudo no Instituto de Histria da Arte da Nova Inglaterra.
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Ela prendia escancaradamente o riso, agora. Sentiu o perfume dele e pensou em papoulas. Pelo amor de Deus, que tipo de homem queria cheirar a papoulas? - Ah, ?
- . - Ele foi  frente, fazendo com que o entusiasmo fosse visvel em seus olhos. - Vrios colegas meus fundiram bronzes aqui. Essa  a minha arte. Eu sou
escultor. Acabei de ser transferido pro instituto.
- Voc no  um pouco velho pra ser estudante?
Ele fingiu rubor. - S agora eu consegui ter dinheiro pra perseguir meu desejo, entende? - Ele parecia arrasado, constrangido, e tocou o corao da balconista.
- , eu sei,  difcil. Voc trouxe alguma coisa pra fundir?
- Eu no trouxe o modelo, s os desenhos. Quero ter certeza de que vai ficar exatamente como nas minhas especificaes. - Como se ganhasse confiana, rapidamente
abriu o portflio. - Um dos alunos me falou que vocs fizeram um bronze pequeno aqui... mas eu no consigo lembrar quem fundiu. Aqui tem um desenho da pea.  um
Davi.
- Como o Davi do Golias, certo? - Ela inclinou a cabea, virando o desenho para si. - O desenho  muito bom.  seu?
- . - Ele lanou um olhar rutilante para ela. - Eu queria achar quem fez a fundio dessa esttua e combinar de fazer a minha. Tem mais ou menos uns trs
anos, pelo que o meu amigo me falou.
- Trs anos? - Ela contraiu os lbios. - Isso  tempo  bea.
- Eu sei. - Ele tentou um olhar desolado novamente. -  importantssimo pra mim descobrir isso. O meu amigo disse que a pea ficou linda. O bronze ficou perfeito,
e a pessoa que fez o trabalho usou uma frmula renascentista, o cara realmente sabia o que tava fazendo. A escultura ficou com qualidade de museu.
Ele pegou outro desenho, mostrou A Senhora Sombria para ela.
- Trabalhei duro nessa pea. Ela consumiu todas as minhas energias. Quase a minha vida, se voc quer saber. - Os olhos dele brilhavam enquanto ela analisava
o desenho.
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-  linda. Realmente linda. Voc devia vender esses desenhos,
garoto. Srio.
- Eu ganho algum fazendo retratos - ele murmurou. - No
 o que eu quero fazer.  s pra comer.
- Aposto que voc vai fazer um baita sucesso.
- Obrigado. - Deliciado, ele deixou as lgrimas inundarem
seus olhos. -  tanta ralao, j me desapontei tantas vezes. Tem horas que d vontade de desistir, mas de alguma forma...
Ele levantou a mo, como se derrotado. Ela tirou um leno de papel de uma caixa e ofereceu-o a ele, com simpatia.
- Obrigado. Desculpe. - Passou suavemente o papel nos olhos, debaixo das lentes coloridas. - Mas eu sei que posso fazer isso. Eu tenho que fazer isso. E para
esse bronze eu preciso do melhor. Economizei dinheiro suficiente pra pagar o que voc quiser cobrar. Pago a mais, se tiver que pagar.
- No se preocupe com isso. - Ela deu um tapinha na mo dele, depois virou-se para o computador. - Trs anos atrs. Deixa ver o que consigo descobrir. Pode
ser que tenha sido o Whitesmith. Ele faz muita coisa pros alunos.
Ela comeou a clicar com as unhas grandes e vermelhas. Piscou para ele. - Vamos ver se eu consigo algum de primeira.
- Eu te agradeo tanto. Quando eu tava a caminho daqui, sabia que ia ser um dia especial pra mim. Alis, adorei as suas unhas. Essa cor fica maravilhosa com
a sua pele.
No levou dez minutos.
- Aposto que foi ele. Pete Whitesmith, exatamente como eu imaginei. Ele  o melhor por aqui, e em muitos lugares, se voc quer saber. Fez um trabalho pra
esse garoto... eu lembro dele. Harrison Mathers. Ele tambm era muito bom. No to bom quanto voc - acrescentou, sorrindo maternalmente para Ryan.
- Ele fez muita coisa aqui? O Harrison?
- Fez. Vrias peas. Vivia atrs do Pete. Garoto nervoso. Aqui tem um bronze pequeno de um Davi com um estilingue.  esse.
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- Incrvel. Lindo. Whitesmith. Ele ainda trabalha aqui?
- Claro, ele  fundamental. Vai l na fundio. Diz pro Pete que a Babs o mandou te tratar bem.
- Eu no sei como te agradecer.
- Quanto voc cobraria pra fazer um desenho dos meus fdhos?
- Pra voc, nada. - Sorriu amplamente para ela.
- Claro que eu lembro. - Whitesmith esfregou o
rosto na aba do bon azul. Ele tinha um rosto que merecia ser entalhado em mrmore, absolutamente anguloso e com linhas bem marcadas. Sua constituio era como a
de um projtil, mais largo embaixo e estreito nos ombros. Sua voz ecoava acima do rugido dos fornos, do tilintar do metal.
- A pea era essa?
Whitesmith encarou o desenho que Ryan lhe mostrou. - Isso. O Harry foi extremamente especfico com essa. Tinha a frmula do bronze por escrito, queria que eu acrescentasse
um pouco de chumbo pra curar mais rpido, no mais era a frmula antiga. Eu vou fazer um intervalo, vamos levar isso l pra fora.
Agradecido, Ryan o seguiu para longe do calor e do barulho.
- Eu trabalho com fundio h vinte e cinco anos - Whitesmith disse, acendendo seu Camel do intervalo e soltando a fumaa no ar levemente gelado. - Eu vou
te dizer, essa pea era uma coisa preciosa. Nossa. Uma das minhas favoritas.
- Voc fez outras pra ele tambm?
- Claro. Umas quatro, talvez cinco, num perodo de dois anos. Mas essa foi a melhor de todas. Eu tive certeza de que a gente tinha uma coisa especial quando
ele trouxe o molde e a cpia de cera. Agora, pensando nisso... - E ele pensou, dando uma longa tragada no cigarro, soltando a fumaa. - Foi a ltima pea que eu
fiz para ele.
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- Foi?
- Isso. No lembro de ver mais o jovem Harry depois disso. Os alunos do instituto... - Levantou os ombros estreitos. - Eles vm e vo.
- Ele trabalhava com mais algum?
- No. Pelo que eu me lembro, fiz todos os trabalhos dele. Ele tinha interesse no processo. Nem todos os alunos davam importncia pra isso. S ligam pro que
acham que  arte. - Fez uma ligeira careta. - Vou te falar, camarada, o que eu fao  arte, sim. Um bom fundidor  um artista.
- Concordo totalmente. Por isso eu tava to desesperado pra te encontrar, o artista que trabalhou nesse Davi incrvel.
- , com certeza. - Obviamente satisfeito, Whitesmith inalou a fumaa. - Alguns desses tipinhos artistas so uns malcriados, uns bons filhos da me. Acham
que um cara feito eu  s uma ferramenta. Eu sou um artista e um cientista. Voc faz uma escultura digna de prmio aqui, tem que me agradecer. Mas a maioria nem
se toca.
- Conheci um fundidor de Toledo. - Ryan suspirou, vigoroso. - Achava aquele homem um deus. Espero que Harrison tenha apreciado seu trabalho como devia.
- Ele era tranqilo.
- Imagino que ele tenha usado um molde flexvel pro Davi.
- , usou. Silicone. Tem que ser cuidadoso. - Whitesmith sacudiu o cigarro, enftico, depois o prendeu entre o polegar e o indicador, jogando-o longe num
arco comprido. - Pode distorcer, encolher. Mas o garoto sabia o que tava fazendo. Usou cera pra fazer o molde. J eu posso trabalhar com tudo, cera, areia, gesso.
Uso o acabamento e as ferramentas que o cliente escolher. E fico trabalhando at acabar. Tambm no gosto que me apressem.
- Ah, o Harry te apressava?
- Nessa ltima pea, ele me torrou a pacincia. - Whitesmitn riu. - Parecia que era o Leonardo da Vinci com prazo de entrega,
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cacete. - Depois encolheu os ombros. - O garoto era tranqilo. Tinha talento.
Apesar de saber que seria difcil, Ryan tirou o desenho da Senhora Sombria. - O que  que voc acha?
Whitesmith pressionou os lbios. - Isso sim  uma guria sexy. No me importaria de fundir essa, no. O que  que voc t usando nela?
Um pouco de conhecimento, Ryan pensou, poderia ser uma coisa perigosa. Ou poderia ser o suficiente. - Cera com preenchimento de gesso.
- Bom. D pra trabalhar bem com isso. Trabalhar bem o gesso aqui, tambm. No  legal dar bolha na cera, parceiro.
- No, com certeza. - Ryan guardou o desenho novamente. O homem era bastante firme, pensou, muito cooperativo para que o envolvesse. - Ento, o Harry nunca
trouxe ningum aqui?
- No que eu lembre. - Os olhos de Whitesmith estreitaram. - Por qu?
- Eu s fiquei pensando se o meu amigo que me falou da estatueta e voc tinham se conhecido atravs dele. Ele falava to bem do seu trabalho.
- E quem era esse?
- James Crispin - Ryan improvisou. - Ele  pintor, no teria vindo aqui se no fosse com o Harry. Eu pesquisei a frmula - acrescentou. - Se trouxer junto
com a cera e o molde, voc faz esse trabalho?
-  pra isso que estou aqui.
- Eu agradeo. - Ryan estendeu a mo. - E dou notcia.
- Gostei da cara da sua senhora a. - Whitesmith acrescentou, com um aceno positivo de cabea na direo do portflio de Ryan ao voltar-se para a porta da
fundio. - No  sempre que a gente tem a chance de trabalhar com uma coisa to sofisticada assim. Vou cuidar dela como se deve.
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- Obrigado. - Assoviando baixinho, Ryan voltou para o carro. Parabenizava-se pela manh de trabalho fcil e bem-sucedido, quando outro carro entrou no estacionamento.
Cook saltou, esticou as costas, olhou para Ryan com suavidade.
- Bom-dia.
Ryan fez um gesto de cabea, ajustou os culos de lentes rosa e entrou atrs do volante de seu carro alugado enquanto Cook caminhava em direo  fundio.
Perto, muito perto, Ryan pensou. Mas no houve uma fagulha sequer de reconhecimento nos olhos do policial. Por enquanto, ele ainda estava um pequeno passo  frente.
Quando voltou para casa, ele tirou o bigode, a peruca
e, aliviado, as lentes de contato. A precauo acabara sendo necessria, no final das contas, pensou ao tirar a camisa ridcula.
Aparentemente, Cook estava com a falsificao na cabea.
Tudo bem. Quando o trabalho chegasse ao fim, ter a investigao de Cook aproximando-se de quase toda a verdade seria uma vantagem.
Por enquanto era somente ligeiramente enervante.
Removeu a maquiagem do rosto, do pescoo, das mos, preparou uma xcara de caf e acomodou-se para trabalhar.
Eram oito os estudantes que haviam utilizado a fundio naquelas duas semanas crticas. Ele j eliminara trs, j que seus projetos eram muito grandes.
Agora, graas aos bons e velhos Babs e Pete, chegara quele que queria. No foi preciso muito tempo para voltar aos relatrios que j acessara no instituto. E l
ele encontrou a turma de Harry no final do semestre. Bronzes Renascentistas, a Forma Humana.
E Miranda dera o curso.
Ele no imaginara isso, deu-se conta. Gostaria de ter visto outro nome. O de Carter, o de Andrew, qualquer um em quem pudesse se
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concentrar em desmascarar. O Davi era dela, A Senhora Sombria era dela. Ela era a chave, o centro, e ele estava comeando a acreditar que era tambm o motivo.
Um de seus alunos fundira um bronze do Davi. O bronze do Davi, Ryan no tinha dvidas.
Foi adiante, procurando as notas finais. Ela era dura, pensou com um sorriso. Miranda no dava notas mximas como se fossem balas. Somente quatro de seus vinte alunos
haviam conseguido uma, algumas beirando a mdia e um punhado de notas fracas.
E um curso incompleto.
Harrison K. Mathers. Curso incompleto, sem projeto final. Desistncia.
Agora, por que voc faria isso, Harrison K., Ryan ponderou, quando se deu ao trabalho de fundir o bronze dias antes do prazo final, a no ser que no estivesse preocupado
com notas?
Checou o histrico de Harrison, notou que ele freqentara doze cursos no instituto, durante um perodo de dois anos. As notas eram admirveis... at o ltimo semestre,
quando teve uma queda drstica.
Pegou seu celular e ligou para o nmero listado nas informaes pessoais de Harrison.
- Al?
- Oi, aqui  Dennis Seaworth, da secretaria do Instituto de Histria da Arte da Nova Inglaterra. Eu gostaria de falar com Harrison Mathers.
- Aqui  a sra. Mathers, me dele. O Harry no mora mais aqui.
- Ah... Ns estamos fazendo uma nova listagem de alunos, buscando pessoas interessadas nos prximos cursos. Ser que a senhora poderia me colocar em contato
com ele?
- Ele se mudou para a Califrnia. - A voz dela soou vulnervel. - Ele nunca terminou as aulas no instituto.
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- , ns temos o histrico dele aqui. Gostaramos de descobrir se algum de nossos antigos alunos estava insatisfeito com o nosso programa.
- Se descobrir, me avise. Ele estava indo to bem. Ele adorava.
-  bom saber. Ser que eu consigo falar com ele?
- Com certeza. - Ela recitou um nmero com cdigo de rea de San Francisco.
Ryan ligou o nmero da Costa Oeste e foi informado por uma gravao que a linha havia sido desligada.
Bem, pensou, uma viagem  Califrnia lhe daria a oportunidade de ver o irmo, Michael.
- Harrison Mathers.
Com os planos recentes para a exposio ainda povoando sua cabea, Miranda franziu o cenho para Ryan. - E?
- Harrison Mathers - ele repetiu. - Me fala dele.
Ela tirou o casaco, pendurou-o no armrio da entrada. - Eu conheo um Harrison Mathers?
- Ele foi seu aluno alguns anos atrs.
- Voc tem que me dar alguma coisa alm do nome, Ryan. Eu tive centenas de alunos.
- Voc deu aula de bronzes renascentistas pra ele, h trs anos. Ele no terminou o curso.
- No terminou? - Ela se esforou para reordenar os pensamentos. - Harry. - O nome lhe voltou com uma mistura de prazer e pesar. - , ele fez o curso. J
estudava no instituto fazia alguns anos, eu acho. Era talentoso, muito inteligente. Comeou muito bem comigo, tanto na teoria quanto nos desenhos.
Ela girou o pescoo enquanto entrava no gabinete. - Eu me lembro que ele comeou a faltar s aulas, ou ento aparecia com uma cara de quem passou a noite em claro.
Andava distrado, o rendimento dele caiu.
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- Drogas?
- Eu no sei. Drogas, problemas de famlia, namorada. - Ela deu de ombros. - Ele s tinha dezenove, vinte anos. Pode ter sido qualquer coisa. Eu falei com
ele, avisei que precisava se concentrar no trabalho. Ele melhorou, mas no foi grande coisa. Depois ele parou de aparecer, logo antes do final do curso. Nunca entregou
o projeto final.
- Ele tinha uma pea fundida. Na Fundio Pine State. Segunda semana de maio. Uma estatueta de bronze.
Ela o encarou. Depois, sentou-se na poltrona. - Voc t querendo me dizer que ele est envolvido nisso tudo?
- Estou te dizendo que ele tinha uma estatueta, um Davi com estilingue. Um projeto que ele nunca entregou. Ele tava l enquanto o Davitstava sendo testado
e abandonou as aulas logo depois. Ele foi alguma vez ao laboratrio?
O enjoo e o desconforto estavam de volta ao estmago dela. Lembrou-se de Harry Mathers. No muito bem, no com clareza, mas bem o suficiente para que doesse. -A
turma toda foi levada ao laboratrio. Todo aluno passa pelo laboratrio, pelo centro de pesquisa, de restaurao. Faz parte do programa.
- Com quem ele andava?
- No sei. No me envolvo com a vida particular dos meus alunos. S me lembro dele com tanta clareza porque tinha um talento genuno, e me deu a impresso
de jogar tudo fora no final.
Sentiu uma dor de cabea se insinuando atrs de seus olhos. Estranhamente, esquecera-se de tudo durante horas daquele dia que no fosse a exposio - que no fosse
a excitao de planej-la.
- Ryan, ele era um menino. No pode estar por trs de uma falsificao como essa.
- Quando eu tinha vinte anos, roubei um vitral de Nossa Senhora, do sculo treze, de uma coleo particular em Westchester, depois sa pra comer uma pizza
com Alice Mary Grimaldi.
- Como  que voc pode ficar se gabando de uma coisa dessas?
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- Eu no t me gabando, Miranda. S atestando um fato, e lembrando que idade no tem nada a ver com certos tipos de comportamento. Agora, se eu quisesse me
gabar, te contaria sobre o cavalo Tang que roubei do Metropolitan alguns anos atrs. Mas eu no vou fazer isso - acrescentou. - Porque te aborrece.
Ela simplesmente olhou para ele. -  essa a sua maneira de tentar aliviar o clima?
- No funcionou, n? - E, como ela subitamente parecia to cansada, ele caminhou at a garrafa de vinho branco que j abrira e serviu uma taa para ela. -
Vamos tentar isso, ento.
Em vez de beber, ela transferiu a taa de uma mo para outra.
- Como  que voc descobriu isso tudo sobre o Harry?
- S pesquisa bsica, um trabalho rpido de campo. - O olhar triste que apareceu no rosto dela o distraiu. Ele se sentou no brao da poltrona e comeou a
massagear o pescoo e os ombros dela. - Eu vou ter que sair da cidade por uns dias.
- O qu? Pra onde?
- Nova York. Tem uns detalhes que tenho que resolver, vrios envolvendo o transporte das peas para a exposio. Tambm preciso ir a San Francisco e encontrar
o seu jovem Harry.
- Ele t em San Francisco?
- De acordo com a me, mas o telefone dele foi desligado.
- Voc descobriu tudo isso hoje?
- Voc tem o seu trabalho, eu tenho o meu. Como vo as coisas?
Ela passou as mos no cabelo, nervosa. Aqueles dedos de ladro
eram mgicos e relaxavam msculos que ela nem se dava conta de estarem tensos. - Eu... eu escolhi um tecido para o revestimento, e trabalhei com o carpinteiro em
algumas plataformas. Os convites chegam hoje. J aprovei.
- timo, a gente t em dia.
- Quando voc viaja?
- Amanh, no primeiro horrio. Volto em uma semana, mais ou menos. A gente fica em contato. - Sentindo que Miranda
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comeava a relaxar, fez um cafun no cabelo dela. - Talvez voc queira ver se o Andrew no volta pra c, pra voc no ficar sozinha.
- Eu no me importo de ficar sozinha.
- Eu me importo. - Ele a levantou, escorregou para o assento da poltrona e colocou-a em seu colo. Como ela no estava bebendo o vinho, ele tirou a taa de
sua mo e colocou-a na mesinha ao lado. - Mas j que ele no t aqui agora... - Segurou-a pelo pescoo e puxou a boca de Miranda ao encontro da sua.
Quisera que fosse s isso, um beijo, um momento suave. Mas o gosto dela aqueceu-o mais do que esperava. O cheiro rascante de madeira da pele dela era mais provocante
do que devia. Flagrou-se mordiscando-lhe o lbio inferior, e ela sentiu um arrepio.
E, quando os braos dela o envolveram com fora, e a boca moveu-se com urgncia sob seu comando, ele perdeu o controle, escorregou para dentro dela, cercou-se dela.
Curvas, linhas, cheiros, sabores.
Suas mos, ocupadas, abriram os botes da blusa dela, passearam pelos ombros desnudos, buscando hipnoticamente o espao entre seus seios.
Suspiros, gemidos, tremores.
- Eu no canso de voc. - Suas palavras eram mais irritadas que satisfeitas. - Eu sempre acho que sim, depois basta olhar pra voc pra te querer mais.
E ningum a quisera dessa maneira. Miranda teve a impresso de uma queda, profunda, muito profunda, um mergulho nas guas quentes de um poo de sensaes. Somente
sentimentos. Nada de pensamentos, nada de razo. S necessidade, bsica, como respirar.
Os dedos dele brincavam sobre seus seios, asas de seda em movimento. A lngua os seguia enquanto ele a mudava de posio, acariciando-a at que sua boca se fechasse,
quente, sobre ela e o tremor em sua barriga espelhasse a dor do prazer. Ele mordiscou o mamilo dela, uma mordida leve, uma dor ligeira e agradvel.
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Ardendo de desejo, ela arqueou as costas, entregando-se a ele, ao momento, deliciando-se com seu foco nico.
De alimentar-se dela.
Com a mesma concentrao, ela passou as mos sobre ele, acariciando, deslizando, sedentas, buscando seu caminho at a carne sob a camisa. Experimentou a textura
da pele, e os dois rolaram da poltrona para o tapete.
Suas pernas se abriram, prendendo-o num V ertico, os quadris arqueados para que o calor de um corpo pressionasse o do outro, cada movimento uma tortura para ambos.
Ele precisava estar dentro dela, preench-la, enterrar-se nela. A necessidade primitiva de possuir, de ser possudo, fez com que os dois se atrapalhassem com as
roupas, em busca de ar enquanto rolavam pelo cho.
Depois ela montou sobre ele, seu corpo inclinou-se para frente, as palmas das mos pressionando-lhe o peito para que as bocas pudessem juntar-se novamente. Lentamente,
bem lentamente, ele levantou os quadris. Olhos nos olhos, embaados, tomados. Finalmente, ela debruou-se nele, tomou-o para si, abraou-o, os msculos tesos e trementes.
Ela girou, o corpo arqueado para trs, o cabelo flutuando como uma chuva selvagem vermelha sobre seus ombros, os olhos semicerrados de tanto prazer. A velocidade
comandava agora. Energia, ondas eltricas de poder percorrendo a corrente sangnea, chicoteando o corao, alimentando o corpo at sua exploso.
Mais rpido, mais forte, mais profundo, os dedos dele cravando seus quadris, sua respirao arfante. O orgasmo percorreu seu corpo, o pice a enlouquecendo de prazer.
Ele estava dentro dela, mantendo-a presa, enquanto a levava  loucura com movimentos firmes e fortes.
Um rugido tomou conta de sua cabea, como um mar em dia de vendaval, e a onda seguinte, abrasadora, a arrebatou.
Ela pensou ter ouvido algum gritar.
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E ele a viu, naquele momento desprendido da razo, o cabelo jogado, o corpo arqueado, os braos levantados, os olhos semicerra-dos, os lbios curvados num sorriso
de sabedoria feminina.
Ela no tem preo, era to sedutora e magnfica quanto A Senhora Sombria, e to poderosa quanto. Quando seu prprio corpo foi tomado pela descarga do orgasmo, ele
s teve um pensamento.
Ali estava seu destino.
Depois, sua mente clareou quando a mesma onda o pegou e o levou ao limite.
- Meu Deus! - Foi o mximo que conseguiu dizer. Nunca antes se perdera to profundamente com uma mulher, ou se sentira to preso a ela. Apesar de ainda tremer,
ela parecia derreter-se sobre ele, o corpo escorregando at que seus sussurros fossem abafados no pescoo dele.
- Miranda. - Ele disse seu nome uma vez, passando-lhe a mo pelas costas. - Jesus, eu vou sentir a sua falta.
Ela manteve os olhos fechados, no disse uma palavra. Mas abandonou-se, entregou-se, porque uma parte dela no acreditava que ele voltaria.
Ele j tinha ido embora quando ela acordou na manh
seguinte, deixando somente um bilhete no travesseiro ao seu lado.
Bom-dia, dra. Jones. Eu fiz caf. Est fresco, a no ser que voc durma demais. Os ovos acabaram. Eu te ligo.
Embora isso fizesse com que se sentisse tola como uma adolescente, ela leu o bilhete meia dzia de vezes, depois levantou-se e guardou-o na caixa de jias, como
se fosse uma declarao de devoo indubitvel.
O anel que ele colocara em seu dedo, o anel que guardava tolamente numa caixinha forrada de veludo, no estava l.
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O avio pousou s nove e meia, e ryan chegou a sua galeria s onze. Era uma frao do tamanho do instituto, parecendo-se mais com uma suntuosa casa do que uma galeria.
O teto era alto, os corredores, amplos, e as escadas, curvas, dando ao espao uma sensao arejada e fluida. Os tapetes que ele escolhera para espalhar sobre o piso
de mrmore e madeira eram trabalhos de arte, assim como os quadros e as esculturas.
Seu escritrio era no quarto andar. Era pequeno, porque ele queria destinar cada pequeno espao ao pblico. Mas era bonito, bem decorado e equipado, bastante confortvel.
Passou trs horas  mesa, atualizando o trabalho com seu assistente, reunindo-se com o diretor da galeria, aprovou compras e vendas, e organizou o esquema de transporte
e segurana apropriados para as peas que viajariam para o Maine.
Arranjou tempo para dar entrevistas  imprensa e falar sobre a exposio por vir, e sobre a arrecadao de fundos, decidiu experimentar um smoking novo e ligou para
a me para dizer que comprasse um vestido.
Mandaria toda a famlia para a noite de gala no Maine.
O prximo item da agenda era um telefonema para seu primo, agente de viagens.
- Joey,  Ry.
- E a, meu viajante favorito. Como  que voc vai?
- Tudo bem. Preciso de um voo pra San Francisco, depois de amanh, a volta em aberto.
- Sem problemas. Que nome voc quer usar?
- O meu.
- Que mudana! Tudo bem, vou te encaixar e passo um fax com o itinerrio. Onde voc t?
- Em casa. E voc pode marcar tambm a ida da minha famlia pro Maine. - Informou as datas ao primo.
- Anotei. Tudo primeira classe, certo?
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- Lgico.
-  sempre um prazer fazer negcio com voc, Ry!
-  bom ouvir isso, porque preciso te pedir um favor.
- Manda.
- Vou te dar uma lista de nomes. Preciso descobrir que tipo de viagem esse pessoal fez. Nos ltimos trs anos e meio.
- Trs anos e meio! Jesus Cristo, Ry.
- Pode se concentrar nos voos internacionais, indo e vindo da Itlia, principalmente. Pronto pra eu te passar os nomes?
- Olha s, Ry, eu te amo como se voc fosse meu irmo. Esse tipo de coisa vai levar dias, talvez semanas, e  um risco. No  s apertar uns botes e conseguir
esse tipo de informao. As companhias areas no tm autorizao pra sair entregando tudo.
Ele j ouvira essa lenga-lenga antes. - Eu t com ingressos pra temporada toda dos Yankees. Salo VIP, com acesso aos vestirios.
Houve um breve silncio. - Me passa os nomes.
- Sabia que podia contar com voc, Joey.
Quando terminou, recostou-se na cadeira. Pegou o anel que dera para Miranda no bolso, observou seu brilho sob a luz que entrava pela janela s suas costas.
Pensou que pediria ao seu amigo joalheiro que retirasse as pedras e fizesse um par de brincos para ela. Brincos eram mais seguros que um anel. Mulheres, mesmo as
inteligentes, prticas, poderiam ter uma interpretao errada das coisas com um anel.
Ela apreciaria o gesto, pensou. E ele ficaria devendo alguma coisa a ela, no final das contas. Mandaria fazer os brincos, depois os mandaria para ela, quando ele
- e os bronzes - estivesse a uma distncia confortvel.
Imaginou que, depois que ela tivesse conseguido pensar em tudo calmamente, concluiria que ele agira da nica maneira lgica. Ningum poderia esperar que ele sasse
de seu ltimo trabalho de mos abanando.
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Guardou o anel no bolso novamente, na tentativa de parar de pensar em como ficaria na mo dela.
Ela teria aquilo de que precisava, lembrou a si mesmo, e, quando tirou os dedos do bolso, ainda brincavam com o anel. Provariam que o bronze era verdadeiro, revelariam
uma falsificao, um assassino, e ela voltaria  luz dos refletores com a reputao brilhando como ouro.
Ele tinha vrios clientes que pagariam uma boa quantia por um prmio como A Senhora Sombria. S precisaria escolher o vencedor de sorte. E esse dinheiro cobriria
seu tempo, suas despesas, os problemas, e ainda proporcionaria um bnus como uma cereja em cima do bolo.
A menos que decidisse mant-la consigo, ela seria, sem dvida, o prmio de sua coleo particular.
Mas... negcios so negcios. Se encontrasse o cliente certo - e recebesse a quantia certa -, poderia comear uma galeria nova em Chicago, Atlanta ou... no Maine.
No, teria que se afastar do Maine, depois que tudo terminasse.
Uma pena, pensou. Aprendera a adorar aquele lugar, perto do mar, das montanhas, perto do perfume da gua salgada e dos pinheiros. Sentiria falta.
Sentiria falta dela.
Nada podia ser feito, disse a si mesmo. Tinha de encerrar muito bem uma fase de sua vida e comear uma nova. Como um corretor de arte absolutamente legtimo. Manteria
a palavra dada  famlia, e manteria a palavra dada a Miranda. Mais ou menos.
Todo mundo voltaria para o lugar ao qual pertencia.
Era culpa sua ter deixado seus sentimentos se misturarem um pouco. Muito disso, ele tinha certeza, se dera devido ao fato de estarem os dois praticamente vivendo
juntos por semanas.
Ele gostava de acordar ao lado dela, um pouco demais at. Gostava de sentar-se com ela  beira do penhasco, ouvindo aquela voz rouca, conquistando um daqueles raros
sorrisos que ela dava.
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Aqueles que tomavam os olhos e mandavam a tristeza do olhar embora.
O fato era - o verdadeiro e preocupante fato - que no havia nada nela que no o atrasse.
Era bom que os dois tivessem os seus espaos novamente. Olhariam em perspectiva, veriam as coisas com alguma distncia.
Mas ele se perguntou por que, quase se convencendo de que era verdade, sentia um aperto to desagradvel no corao.
Ela tentou no pensar nele. No se perguntar se ele
pensara nela. Era mais produtivo, disse para si mesma, focar completamente, exclusivamente, no trabalho.
Era provavelmente tudo o que tinha, por algum tempo. Quase conseguiu. Durante a maior parte do dia, cuidou de vrios detalhes que requeriam sua ateno e sua habilidade.
Se sua mente vagasse de vez em quando, era suficientemente disciplinada para traz-la de volta  tarefa que tinha nas mos.
Se uma nova onda de solido a acometesse num nico dia, ela aprenderia a se ajustar. Tinha de aprender.
Miranda estava prestes a encerrar o dia e levar o resto do trabalho para casa quando o computador acusou o recebimento de um e-mail. Preparou uma longa mensagem
sobre comprimento de tecidos solicitados para o decorador que contratara, com cpia para Andrew e o responsvel pelos pedidos.
Passou os olhos pela mensagem mais uma vez, fez pequenas alteraes, depois apertou o boto de enviar e receber. O e-mail novo na caixa postal apareceu na tela sob
o ttulo: uma morte na famlia. Desconfortvel, leu o contedo.
Voc est com a falsa Senhora Sombria. A mo dela est cheia de sangue. Ela quer que seja o seu. Admita seu erro, pague o preo e fique viva. Faa o que est fazendo,
e nada far com que ela pare. Ela se transforma na arte de matar.
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Miranda olhou para a mensagem, lendo cada palavra repetidamente, at dar-se conta de que estava enroscada na cadeira, ninando-se.
Queriam que ela tivesse medo, que ficasse aterrorizada. E, por Deus, ela estava.
Sabiam que ela estava com a cpia. O que s poderia querer dizer que fora vista com Giovanni ou que ele contara a algum. Algum que o matara e queria v-la morta.
Esforando-se para manter o controle, analisou o endereo para resposta. Perdido 1. Quem seria Perdido 1? A uri era uma rota padro que todas as pessoas na Standjo
utilizavam para correspondncia eletrnica. Ela fez uma rpida busca por nomes, mas no encontrou nada. Depois, apertou o boto Responder.
Quem  voc?
S escreveu isso e enviou. Bastaram alguns segundos para que a mensagem voltasse. No era um usurio conhecido.
Ele fora rpido, concluiu. Mas arriscara-se a mandar a mensagem. O que podia ser enviado podia ser rastreado. Imprimiu uma cpia e salvou o recado em um arquivo.
Olhou rapidamente para o relgio e viu que eram quase seis horas. No havia ningum para ajud-la agora. Ningum esperava por ela.
Estava s.
Captulo Vinte e Cinco
Ento, teve notcias do Ryan?
Miranda checou os itens da lista na sua prancheta enquanto supervisionava a equipe de manuteno que removia os quadros selecionados das paredes da Galeria Sul.
- Tive. O escritrio dele me mandou um fax detalhando a agenda das entregas. Todos os itens vo chegar na prxima quarta-feira. Vou mandar uma equipe de segurana
encontrar com eles no aeroporto.
Andrew analisou o perfil da irm por um momento, depois encolheu os ombros. Os dois sabiam que no fora essa a pergunta, Ryan viajara havia uma semana.
Enfiou a mo no saco de biscoitos nos quais se viciara. Comia aos montes. Davam-lhe sede e, quando ele tinha sede, bebia litros d'gua. Depois, urinava como um cavalo
de corrida.
Colocara na cabea que todo aquele lquido levava embora as toxinas do seu corpo.
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- A srta. Purduc e Clara esto cuidando do buf - disse para ela. - A gente no tem o nmero final de presenas, mas elas querem aprovar o cardpio. Eu queria
que voc desse uma olhada nisso, antes da gente assinar contrato.  o seu show, na verdade.
-  o nosso show. - Miranda corrigiu-o, ainda conferindo sua lista. Queria tanto os quadros quanto as molduras limpos antes da inaugurao, e mandara um memorando
para a restaurao pedindo prioridade.
-  melhor ser bom. O fechamento desta galeria gerou um monte de reclamao dos visitantes.
- Se eles voltarem daqui a umas semanas, vo achar que valeu a pena. - Ela tirou os culos e esfregou os olhos.
- Voc anda trabalhando demais.
- Tem muita coisa pra fazer, e no tanto tempo. De qualquer jeito, eu gosto de ficar ocupada.
- . - Ele sacudiu os biscoitos. - Nem eu nem voc andamos atrs de tempo livre agora.
- Voc t bem?
- Esse  o cdigo pra perguntar se eu t bebendo? - As palavras saram de sua boca num tom que ele no intencionara. - Desculpe. - Seus dedos mergulharam
no saco novamente. - No, eu no t bebendo.
- Eu sei. No era um cdigo.
- T lidando com o problema.
- Eu fiquei feliz de voc ter voltado pra casa, mas no quero que sinta que  sua obrigao ficar l comigo, se preferir ficar na Annie.
- O fato de eu ter descoberto que quero ficar com a Annie faz com que seja mais difcil dormir no sof da casa dela. Se  que voc me entende.
- Entendo. - Ela foi at ele e mergulhou a mo no saco de biscoitos.
- Alguma idia de quando o Ryan volta?
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- No exatamente.
Ficaram algum tempo em silncio, comendo biscoitos e pensando no aborrecimento da frustrao sexual. - Quer sair pra beber mais tarde? - Andrew sorriu para ela.
- Foi s uma piada sem graa.
- R, r. - Enfiou a mo no saco, pegou uns restos de sal, suspirou. - Tem mais biscoito?
A primeira parada de ryan em san francisco foi na sua galeria. Escolhera um antigo armazm  beira-mar porque queria bastante espao, e resolvera separar sua galeria
das dezenas que existiam no centro da cidade.
Dera certo, e fizera de seu espao um lugar mais exclusivo, especial, permitindo que artistas novos tivessem a oportunidade de expor numa galeria de primeira.
Escolhera uma ambientao casual, em vez da elegncia que criara para Nova York. Os quadros eram iluminados contra paredes de tijolos aparentes ou madeira, e as
esculturas freqentemente colocadas em colunas de metal rstico. Grandes janelas sem cortinas ofereciam a vista da baa e do trfego de turistas.
No segundo andar havia um caf onde os artistas e o os amantes da arte desfrutavam de cappuccinos fumegantes e outras bebidas, em mesinhas reminiscentes de uma trattoria,
enquanto apreciavam a galeria principal l embaixo ou olhavam para os estdios do terceiro piso.
Ryan sentou-se a uma das mesas e sorriu para o irmo Michael.
- E a, como vo os negcios?
- Lembra daquela escultura de metal que voc me disse que parecia a lataria de um trem?
- Acho que a minha opinio foi de que parecia a lataria de um trem de circo.
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- Isso, exatamente essa. A gente vendeu ontem por vinte mil e uns quebrados.
- Tem muita gente com mais dinheiro que gosto. Como t a famlia?
- Voc vai ver com os prprios olhos. T todo mundo te esperando pra jantar.
- Eu vou. - Ele recostou, analisando o irmo, que pedia um caf
para dois.
- Combina com voc - Ryan comentou. - Casamento, famlia, a casa no subrbio.
-  melhor que combine. Eu quero que dure. E  bom para voc, porque tira a Mama da sua cola.
- No ajuda muito. Estive com ela, ontem. Fui encarregado de te dizer que ela precisa de fotos novas das crianas. Como  que ela vai se lembrar da cara delas
se voc no manda fotos?
- A gente mandou milhares, no ms passado.
- Voc vai poder entregar a prxima leva pessoalmente. Eu quero que toda a famlia v pra abertura da exposio do instituto. Voc recebeu o memorando, no
recebeu?
- Recebi, sim.
- Algum problema de agenda?
Michael refletiu enquanto o caf era servido. - Nada que eu lembre. A gente deve conseguir ir. As crianas adoram ir pra Nova York e ver a famlia, brigar com os
primos, ganhar doces do papai. E eu vou poder conhecer essa Ph.D. de quem a mame tanto fala. Como ela ?
- Miranda? Inteligente, muito inteligente. Capaz.
- Inteligente e capaz? - Michael deu um gole no caf, percebendo que Ryan tamborilava levemente na mesa. Ele no era muito dado a movimentos inteis, pensou.
A mulher inteligente e capaz estava na cabea do irmo... e nos nervos. - A mame disse que ela  linda, tem cabelos ruivos, cheios.
- , ela  ruiva.
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- Voc normalmente gosta das loiras. - Ryan arqueou a sobrancelha, e Michael riu. - Anda, Ryan, conta. Qual  o caso?
- Ela  bonita.  complicada.  complicado - concluiu e, finalmente, deu-se conta de que estava batendo com os dedos. -A gente t trabalhando junto em vrios
nveis.
Agora foi a vez de Michael arquear a sobrancelha. - Ah, ?
- Eu no quero falar disso, agora. - Sentir a falta dela era como uma ardncia na boca do estmago. - Vamos deixar assim: a gente t trabalhando em vrios
projetos, a exposio  um deles. E tambm temos uma relao pessoal. Um gosta da companhia do outro.  isso.
- Se fosse s isso, voc no ia estar com esse ar preocupado.
- Eu no t preocupado. - Ou no estivera, at que ela se infiltrasse no seu pensamento novamente. -  complicado.
Michael resmungou em concordncia e concluiu que gostaria de contar  mulher que Ryan fora completamente fisgado por uma Ph.D. ruiva do Maine. - Voc sempre conseguiu
sair com facilidade das complicaes.
- . - Como era melhor pensar que sim, Ryan concordou. - Em todo caso, esse  s um dos motivos de eu estar aqui. Estou procurando um artista. Tenho o endereo,
mas achei que voc podia conhecer. Harrison Mathers. Escultor.
- Mathers. - Michael franziu a testa. - Assim, de cara, no. Posso dar uma olhada, uma pesquisada nos arquivos pra ver se a gente j exps alguma coisa dele.
- Vamos fazer isso. No sei se ele ainda mora nesse endereo.
- Se ele t em San Francisco, e se tenta vender arte, a gente vai encontrar. Voc j viu o trabalho dele?
- Acho que sim - Ryan murmurou, pensando no Davi de bronze.
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O ltimo endereo conhecido de mathers era um apartamento no terceiro andar de um prdio sem elevador, do lado ruim da cidade. Caa uma chuva leve quando Ryan se
aproximou do edifcio. Um pequeno grupo de homens jovens se amontoava na entrada, os olhos vasculhando a rua, em busca de confuso.
Na parede externa do hall ftido, numa fileira de caixas de correio incrivelmente pequenas, Ryan viu a inscrio "H. Mathers" na caixa referente ao 3B.
Subiu as escadas sob um terrvel cheiro de urina e vmito velho.
Na porta do 3B algum havia pintado um excelente estudo de castelo medieval, com torrees e pontes levadias. Lembrava um conto de fadas sombrio, Ryan pensou, onde
se v um nico rosto na janela do alto olhando para fora e gritando de terror.
Harry, divertiu-se, tinha talento, alm de excelente noo de sua circunstncia atual. Sua casa podia ser seu castelo, mas ele era um prisioneiro aterrorizado dentro
dela.
Bateu e esperou. Quase imediatamente a porta atrs dele foi aberta. Ryan girou nos calcanhares e olhou para trs.
A mulher era jovem, e talvez fosse atraente se no tivesse o rosto pintado para o trabalho noturno. Era uma maquiagem de prostituta, pesada nos lbios e nos olhos.
Os olhos, sob o peso da sombra e dos clios, eram de um azul gelado. O cabelo era castanho e curto como o de um menino. Ele imaginou que ela usava peruca nas horas
de trabalho.
Apesar de prestar ateno em tudo, assim como no corpo luxuriante descuidadamente coberto por um robe curto e florido, seu foco estava centrado na enorme .45 preta
na mo dela. A boca era muito larga e estava apontada direto para o seu peito.
Ele decidiu que era melhor manter os olhos nos dela, as mos  mostra e uma explicao simples.
- Eu no sou da polcia. No quero vender nada. S t procurando o Harry.
422
- Achei que voc era o outro cara. - O sotaque era nitidamente do Bronx, mas isso no fez com que se sentisse mais seguro.
- Vamos dizer que, diante das circunstncias, ainda bem que no. Voc poderia apontar essa arma pra outro lugar?
Ela o observou por um momento, depois deu de ombros. - T, claro. - Baixou-a e recostou na maaneta da porta. - No gostei da cara do outro sujeito. Tambm no gostei
do jeito dele.
- Enquanto voc t segurando essa arma, me comporto do jeito que voc quiser.
Ela riu do comentrio, um flash rpido que quase suplantou a maquiagem de boneca de sex shop. - Voc  tranqilo, Escorregadio. O que  que voc quer com o Rembrandt?
- Conversar.
- Bem, ele no t a, e no aparece j faz uns dias. Foi isso que eu disse pro outro cara.
- Entendi. Voc sabe onde o Harry t?
- Eu cuido da minha vida.
- Com certeza. - Ryan mostrou a palma de uma das mos, levou a outra lentamente at a carteira. Viu os lbios dela se contrarem ao perceber que ele tirava
uma nota de cinqenta. - Voc tem um minuto?
- Talvez. Mais cinqenta e eu te dou uma hora. - Mas ela balanou a cabea. - Escorregadio, voc no me parece do tipo que paga por uma festinha.
- Uma conversa - ele disse novamente, e mostrou a nota de cinqenta.
Bastaram trs segundos para que ela estendesse a mo e pegasse o dinheiro com a ponta das unhas pintadas de um vermelho fatal.
- Tudo bem, pode entrar.
O quarto tinha uma cama, uma cadeira, duas mesas de brech e uma arara de metal cheia de trajes coloridos de tecido barato. Ele estivera certo quanto  peruca,
pde comprovar. Duas, uma comprida,
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encaracolada e loura, a outra, negra e lisa, descansavam sobre cabeas de isopor.
Sobre uma pequena escrivaninha havia um espelho de camarim e uma infinidade de cosmticos.
Apesar de quase vazio, o quarto era arrumado como os relatrios de um contador.
- Por cinqenta - ela disse para ele - voc pode tomar uma cerveja.
- Eu agradeo. - Enquanto ela se encaminhava para o fogo de duas bocas e a pequena geladeira que constituam sua cozinha, Ryan foi at um drago de bronze
que decorava uma de suas mesas insignificantes.
- Essa pea  muito bonita.
- ,  arte de verdade. Rembrandt que fez.
- Ele tem talento.
- Imagino. - Ela sacudiu os ombros, no se importou em ajeitar o robe. Ele tinha o direito de olhar a mercadoria, ela pensou, caso quisesse investir mais
cinqenta. - Eu comentei que tinha gostado, e a gente combinou uma troca. - Ela sorriu e deu uma garrafa de Budweiser para ele.
- Vocs so amigos?
- Ele  legal. No tenta me dar golpinho pra vir de graa. Uma vez, tinha um cara aqui que queria me usar de saco de pancada, em vez de usar o colcho. O
garoto veio correndo bater na porta quando ouviu que eu tava com problemas. Gritou que era da polcia. - Ela riu, dando um gole na cerveja. - O desgraado saiu pela
janela com a cala nos tornozelos. O Rembrandt  legal. Fica meio deprimido, fuma muita maconha. Coisa de artista, eu acho.
- Ele tem muitos amigos?
- Escorregadio, ningum nesse prdio tem muitos amigos. Ele est aqui h uns dois anos; agora,  a primeira vez que eu vejo duas pessoas virem bater na porta
dele no mesmo dia.
- Me fala do outro cara.
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Ela guardou a nota de cinqenta no bolso do robe. - Grande. Feio. Cara de mau. Olhou pra mim como se eu fosse um pedao de carne, um brao, sabe? E dava pra ver
que ele gosta de dar porrada. Disse que queria comprar uma das esttuas do Rembrandt, mas aquele cara no era um amante da arte. Me deu uma bronca quando eu falei
que ele no tava em casa e que no sabia onde ele tava.
Ela hesitou um momento, depois encolheu os ombros novamente. - Ele tava armado. Tinha um volume debaixo da jaqueta. Eu fechei a porta na cara dele e peguei minha
amiga no armrio. - Ela inclinou a cabea em direo  bancada mnima da cozinha, onde deixara sua arma. - Vocs no se encontraram por uma questo de minutos, por
isso achei que era ele de novo.
- Ele era muito grande, o outro cara?
- Um metro e noventa, talvez dois. Braos de gorila e umas mos enormes. Uns olhos de dar medo, gelados, sabe? Um cara desses aparece na minha frente, eu
passo.
- Faz bem. - A descrio era muito prxima da do homem que atacara Miranda. Harrison Mathers tinha muita sorte de no estar em casa.
- Ento, o que  que voc quer com o Rembrandt?
- Eu sou negociante de arte. - Ryan tirou um carto do bolso, entregou-o a ela.
- Chique.
- Se voc souber do Harry, ou se ele voltar, d meu carto pra ele, por favor. Diz que eu gosto do trabalho dele. Queria falar sobre isso pessoalmente.
- Claro. - Ela passou o dedo pelo alto-relevo, depois levantou o drago e colocou o carto debaixo de seu rabo de serpente. - Sabe, Escorregadio... - Ela
estendeu a mo e passou uma de suas unhas assassinas sobre a camisa dele. - T frio, t chovendo l fora. Voc quer... conversar um pouco mais? Eu te dou um desconto.
Ele teve uma forte atrao por uma jovem do Bronx, uma vez. Esse sentimento fez com que tirasse mais uma nota de cinqenta da
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carteira. - Isso  pela ajuda, e pela cerveja. - Virou-se para a porta, olhando uma ltima vez para o drago. - Se voc ficar apertada de dinheiro, leva isso pro
Michael, na Galeria Boldari,  beira-mar. Ele vai pagar bem por essa pea.
- T bom. Vou ficar com isso na cabea. Volta outra hora, Escorregadio. - Ela o brindou com a cerveja. - Eu te devo um passeio de graa.
Ryan cruzou o corredor, forou a fechadura e entrou no apartamento de Harry antes que sua segunda nota de cinqenta estivesse guardada.
O ambiente era uma rplica em tamanho do outro no qual entrara. Ryan duvidou que os tanques para fundir metal tivessem passado pela aprovao do proprietrio. Havia
vrias peas em diferentes estgios. Nenhuma delas mostrava o talento ou a inspirao do drago que dera  prostituta em troca de sexo. Seu corao estava nos bronzes,
Ryan concluiu ao analisar o pequeno nu na pia manchada do banheiro.
Um autocrtico, pensou. Artistas podiam ser to pateticamente inseguros.
Conseguiu dar uma busca em todo o apartamento em menos de quinze minutos. Havia um colcho no cho, com um emaranhado de lenis e cobertas, uma cmoda marcada de
cigarro e gavetas emperradas.
Vrios blocos de desenho, a maioria usada, estavam empilhados no cho. Miranda estava certa, Ryan divertiu-se ao passar as pginas, ele tinha mo boa.
As nicas coisas no apartamento que pareciam bem cuidadas eram os materiais de trabalho, arrumados em prateleiras de metal cinza e guardados em embalagens de leite.
Na cozinha havia uma caixa de cereal, seis latinhas de cerveja, trs ovos, bacon defumado e seis pacotes de comida congelada. Tambm encontrou quatro baseados bem
apertados, escondidos numa lata de ch.
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Encontrou sessenta e trs centavos e uma barra de chocolate velha. No havia cartas, bilhetes, nem dinheiro. Localizou a ltima notificao de desligamento da linha
telefnica juntamente com outras latas vazias.
No havia uma pista sobre o paradeiro de Harry nem o motivo de seu sumio, nem de quando pretendia voltar.
Ele voltaria, Ryan refletiu, dando mais uma olhada pelo quarto. No abandonaria seus materiais nem seu suprimento de drogas.
E, quando voltasse, telefonaria assim que pusesse as mos no seu carto de visita. Artistas famintos podem ser temperamentais, mas tambm so previsveis. E todo
filho ou filha da me tinha fome de algo mais que comida.
- Volta logo, Harry - Ryan murmurou e deixou o apartamento.
Captulo Vinte E Seis
Miranda olhou para o fax que acabara de sair da mquina. Todo em maisculas, como se o remetente gritasse as palavras.
eu no odeio voc desde sempre. mas sempre a observei. ano aps ano. voc se lembra da primavera em que se formou na faculdade - com honra,  claro - e teve um caso
com o advogado? greg rowe era o nome dele, e ele saiu fora, te largou porque voc era muito fria e no prestava ateno suficiente s necessidades dele. lembra disso,
miranda?
ele disse para os amigos que voc era uma porcaria. aposto que voc no sabia disso. bem, agora sabe.
eu no estava muito longe. no estava muito longe mesmo.
alguma vez voc sentiu que eu observava voc?
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sente agora?
no h muito tempo de sobra. voc devia ter
feito o que lhe foi indicado. devia ter aceito a maneira
como as coisas so. a minha maneira. talvez o giovanni estivesse vivo, se voc tivesse escutado.
voc alguma vez pensou nisso?
eu no odeio voc desde sempre, miranda. mas
agora  assim.
voc sente o meu dio?
vai sentir.
O papel tremia em sua mo enquanto lia. Havia algo terrivelmente infantil nas letras garrafais, nas provocaes violentas. Isso tinha a inteno de ferir, de humilhar
e assustar, disse para si mesma. No poderia permitir que tivesse sucesso.
Mas, quando o interfone tocou, ela arquejou e seus dedos agarraram e amassaram o fax.
Colocou o papel na mesa, ajeitando ridiculamente as pontas amassadas enquanto atendia ao chamado de Lori.
- Oi?
- O sr. Boldari est aqui, dra. Jones. Perguntou se voc tem um minuto pra ele.
Ryan. Ela quase disse seu nome em voz alta, pressionou os lbios com os dedos para manter a palavra apenas em sua cabea. - Pede pra ele esperar, por favor.
- Claro.
Ento ele estava de volta. Miranda esfregou as mos nas faces para trazer a cor de volta a elas. Tinha seu orgulho, pensou. Tinha direito ao seu orgulho. No sairia
correndo em direo  porta para se jogar nos braos dele como uma amante maluca.
Ele estivera fora por quase duas semanas e no telefonara para ela uma s vez. Ah, houve contato, ela pensou enquanto pegava seu p compacto e usava o pequeno espelho
para ajeitar o cabelo, passar
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batom. Memorandos, fax e e-mails, todos enviados por algum do escritrio e assinados em seu nome.
Ele no se dera ao trabalho de se afastar gentilmente quando seu interesse por ela terminara. Mandara a equipe do seu escritrio fazer isso.
No faria uma cena. Eles ainda tinham negcios juntos, em vrios nveis. Ela iria at o fim.
Ele no teria a satisfao de saber que precisava dele. Que precisara dele todos os dias e noites daquelas duas semanas.
Firmou-se, destrancou a gaveta para guardar o ltimo fax junto com os outros. Eles chegavam diariamente agora, alguns s com uma linha, outros longos como o de hoje.
A impresso do e-mail estava com eles, apesar de Perdido 1 nunca mais t-la contatado.
Trancou a gaveta, guardou a chave, depois foi at a porta.
- Ryan. - Sorriu educadamente. - Desculpa fazer voc esperar. Por favor, entra.
 sua mesa, Lori olhou de um rosto para outro, pigarreou.
- Seguro as ligaes pra voc?
- No, no precisa. Voc quer um...
Ela nunca concluiu a frase. Quando fechou a porta atrs deles, ele a encurralou e apertou sua boca  dela num beijo faminto que chacoalhou a parede que ela construra
com tanto cuidado.
Com os punhos cerrados, Miranda manteve os braos nas laterais do corpo e no correspondeu a nada, nem mesmo com a emoo da resistncia.
Quando ele se afastou - os olhos estreitos em suspeita -, ela inclinou a cabea e mudou de posio. - Como foi sua viagem?
- Longa. Aonde voc foi, Miranda?
- Fiquei aqui, imagino que voc queira ver o design final. Eu tenho os desenhos. Te levo l embaixo com prazer e mostro o que j t concludo. Acho que voc
vai gostar.
Ela foi at os desenhos e comeou a desenrolar um canudo enorme.
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- Isso pode esperar.
Ela olhou para cima, inclinou a cabea. - Voc tinha alguma outra coisa em mente?
- Completamente. Mas obviamente isso tambm pode esperar. - Seus olhos permaneceram estreitos enquanto ia at ela, como se a estivesse vendo pela primeira
vez e absorvendo os detalhes. Quando estavam frente a frente, olho no olho, ele segurou o queixo dela e acariciou seu rosto com os dedos.
- Senti sua falta. - Ele disse isso com um toque de confuso na voz, como se tivesse acabado de resolver um enigma complexo.
- Mais do que eu pretendia, mais do que eu esperava.
- Jura? - Ela se afastou, porque o toque dele a desestruturava.
- Foi por isso que voc me ligou tantas vezes?
- Foi por isso que eu no liguei. - Ele enfiou as mos nos bolsos. Sentiu-se um tolo. E sentia um nervosismo na boca do estmago que o informava de que um
homem podia experimentar emoes mais alarmantes que tolas. - Por que voc no me ligou?
Ela balanou a cabea. Era uma viso estranha, pensou. Ryan Boldari desconfortvel. - , os seus assistentes foram bastante eficientes, me dando seu itinerrio.
Como tudo aqui estava andando dentro dos prazos combinados, no tinha nenhuma razo pra eu te incomodar. E como voc parece ter resolvido cuidar da outra parte dos
nossos negcios sozinho, no tinha nada que eu pudesse fazer.
- No era pra voc ter tanta importncia na minha vida. - Ele balanava sobre os calcanhares enquanto falava, como se buscasse equilbrio. - Eu no quero
que voc tenha tanta importncia. Me atrapalha.
Ela virou de lado, esperando ter sido rpida o suficiente para que ele no visse a dor que sabia estar estampada em seus olhos. Algo to potente, to agudo, seria
visvel. - Se voc queria terminar nosso relacionamento pessoal, Ryan, podia ter feito isso de maneira menos radical.
Ele apoiou as mos nos ombros dela, apertou-os e virou-a com raiva quando ela quis se afastar. - Eu t com cara de quem queria
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terminar alguma coisa? - Arrastou-a para si e cobriu-lhe a boca com a sua mais uma vez, segurando-a ali, enquanto ela lutava para se libertar. - Esse foi um beijo
de quem quer terminar alguma coisa?
- No brinca comigo assim. - Ela parou de lutar e sua voz estava embargada e frgil. Podia desprezar-se por isso, mas no podia mudar o que sentia. - Eu no
tenho ferramentas pra esse tipo de jogo.
- Eu no sabia que podia te machucar. - E sua raiva evaporou; ele apoiou sua testa na dela. As mos, que apertavam os ombros dela, afrouxaram e passearam
suavemente pelos seus braos. - Talvez eu quisesse ver se podia. Isso no  uma boa desculpa.
- Eu no achei que voc fosse voltar. - Desejando alguma distncia e o controle que imaginava vir com ela, Miranda livrou-se dos braos dele. - As pessoas
se afastam de mim com uma facilidade incrvel.
Ele via agora que danificara algo muito frgil, e algo que no reconhecera como precioso. No somente a confiana dela, mas sua crena neles dois. Ele no pensou
num plano, nem calculou possibilidades, simplesmente olhou para ela e disse: - Estou no meio do caminho pra amar voc. Talvez mais. E isso no  fcil.
Os olhos dela endureceram e o rosto empalideceu. Ela apoiou a mo na beirada da mesa ao perceber que precisava equilibrar-se.
- Eu... Ryan... - Nenhum esforo faria com que alcanasse as palavras que flutuavam em crculos em sua cabea e as transformasse em pensamentos coerentes.
- No tem uma resposta lgica pra isso, tem, dra. Jones? - Ele foi at ela, pegou-lhe as mos. - O que a gente vai fazer com essa situao?
- Eu no sei.
- Seja o que for, no quero fazer isso aqui. Voc pode sair?
- Eu... posso, acho.
Ele sorriu, passou os lbios sobre os dedos dela.
- Ento, vem comigo.
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Foram para casa.
Ela imaginou que ele gostaria de ir para algum lugar calmo, onde pudessem conversar, falar sobre essas emoes que eram to obviamente estrangeiras para os dois.
Talvez um restaurante, ou o parque, j que a primavera estava to bonita no Maine.
Mas ele cruzou a estrada do litoral, e nenhum dos dois abriu a boca. Ela observou a estrada se estreitar, a gua, singelamente azul sob o sol, nas laterais da estrada.
Na praia rochosa a leste, uma mulher olhava um menino que brincava nas ondas e jogava migalhas de po para as gaivotas gulosas. A estrada tinha uma curva prxima
o suficiente para que Miranda visse o sorriso amplo e feliz no rosto dele enquanto os pssaros voavam baixo para comer o banquete.
Acima deles, as velas vermelhas de uma escuna capturavam o vento, e o barco navegava com agilidade em direo ao sul.
Ela se perguntou se j fora inocentemente feliz como aquele garoto, ou to pacificamente confiante quanto uma escuna.
Do outro lado, as rvores vestiam-se do verde de abril, mais nvoa que textura. Era o visual de que mais gostava, deu-se conta, aquele comeo delicado. Estranho
que nunca tivesse sabido disso a seu respeito. Enquanto a estrada subia, as rvores se moviam, sacudindo suavemente sob o cu delicado da primavera, decorado com
nuvens brancas, inofensivas, como o algodo.
E ali,  beira daquela colina onde ficava a casa antiga, via-se um sbito mar de tons amarelos, alegres. Um oceano de narcisos, uma floresta de girassis, todos
plantadas antes de ela nascer.
Ele a surpreendeu ao parar o carro e sorrir. - Isso  incrvel.
- Minha av plantou tudo. Ela dizia que amarelo  uma cor simples, e faz as pessoas sorrirem.
- Eu gosto da sua av. - Saltou do carro num impulso, foi at a beirada e pegou um punhado de flores para ela. - Acho que ela no ia se importar - disse ao
entrar novamente no carro e entregar o buqu para Miranda.
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- Acho que no. - Mas flagrou-se com vontade de chorar.
- Eu te dei narcisos uma vez. - Passou a mo no rosto dela at que ela se virasse e olhasse para ele. - Por que essas no fazem voc sorrir?
Com os olhos fechados, ela encostou o rosto nas flores. Seu perfume era extremamente doce. - Eu no sei o que fazer com o que estou sentindo. Eu preciso de etapas,
preciso de etapas razoveis, compreensveis.
- Voc nunca tem vontade de tropear e ver onde voc cai?
- No. - Mas ela sabia que isso era exatamente o que fizera. - Eu sou covarde.
- Voc  tudo, menos covarde.
Ela sacudiu violentamente a cabea. - Quando eu entro no terreno das emoes, sou covarde, e tenho medo de voc.
Ele deixou a mo cair, mudou de posio e segurou o volante com as duas mos. Excitao e culpa ardiam dentro dele. - Essa  uma coisa perigosa de se dizer pra mim.
Sou capaz de usar isso, de me aproveitar.
- Eu sei. Assim como voc  capaz de parar o carro no meio da estrada e colher narcisos. Se pelo menos voc s fosse capaz de uma dessas coisas, eu no teria
medo.
Sem dizer nada, ele religou o carro, dirigiu devagar pela estradi-nha sinuosa de subida e estacionou em frente  casa. - Eu no quero recuar e fazer disso entre
a gente s um negcio. Se voc acha que essa  uma opo, t enganada.
Ela deu um pulo quando a mo dele segurou seu queixo.
- Completamente enganada - ele acrescentou, e a ameaa velada em sua voz fez com que o pulso dela disparasse de excitao.
- No importa o que eu sinta, no vou ser pressionada. - Ela levou a mo ao quadril de Ryan e o empurrou. - E mantenho minhas escolhas em aberto.
Ao dizer isso, abriu a porta e saltou do carro, sentindo falta do sorriso iluminado dele. E do calor de seus olhos.
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- A gente vai ver, dra. Jones - ele murmurou e a seguiu pela escadaria.
- Seja qual for nossa relao pessoal, temos prioridades. E precisa repassar os planos da exposio.
- Vamos fazer isso. - Ryan sacudiu umas moedas no bolso enquanto Miranda destrancava a porta da frente.
- Eu preciso que voc me d mais detalhes do que imagina que vai acontecer quando a gente juntar todo mundo.
- Vou te passar.
- Precisamos falar sobre tudo isso, passo a passo. Preciso ter tudo organizado na minha cabea.
- Eu sei.
Ela fechou a porta. Ficaram olhando um para o outro em silncio no hall. A garganta dela secou quando ele tirou o casaco, encarando-a.
Como caa e caador, ela pensou, e perguntou-se por que essa sensao era to prazerosa. - Eu tenho uma cpia da planta aqui. No meu escritrio. Toma. Aqui t toda
a documentao. As cpias esto l em cima.
- Claro que voc tem tudo. - Ele deu um passo  frente. - Eu no esperaria menos. Voc sabe o que eu quero fazer com voc, dra. Jones? Aqui? Agora? - Aproximou-se
ainda mais, parou antes de toc-la, mesmo podendo sentir a urgncia do desejo pulsando em cada clula dela.
- A gente ainda no resolveu nada nessa rea. E precisamos cuidar dos negcios. - O corao de Miranda batia desgovernado, pressionava-lhe as costelas, como
um convidado rude e inconveniente batendo a uma porta trancada. - Eu tenho as cpias aqui - ela repetiu. - Eu pude trabalhar nelas quando no estava... l. Meu Deus.
Jogaram-se um no outro. As mos atrapalhando-se com as roupas, as bocas se batendo, depois fundindo-se. O calor subiu como um vulco em erupo, queimando-os com
seus vapores.
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Ela puxou a camisa dele com desespero. - Meu Deus, detesto isso.
- Nunca mais visto.
- No, no. - Deixou escapar uma gargalhada entrecortada.
- Detesto ser to carente. Toca em mim. Eu no agento mais.
Toca em mim.
- Estou tentando. - Ele arrancou o fecho do cashmere que ela vestia sob o blazer. - Voc escolheu logo hoje pra vestir essa porcaria de roupa complicada.
Conseguiram chegar ao p da escada, tropearam. O colete saiu voando. - Espera. Eu tenho que... - Seus dedos mergulharam no cabelo dela, soltando os grampos e os
cachos vermelhos volumosos.
- Miranda. - Sua boca estava sobre a dela novamente, oceanos de desejo explodindo naquele encontro de lbios.
Ele engoliu os gemidos dela, os prprios, alimentou-se deles enquanto subiam mais dois degraus. Ela puxava sua camisa, esforava-se para arranc-la pelas mangas,
sem flego, soluando por mais, at que finalmente, finalmente, suas mos encontraram a carne.
Seus msculos tremeram ao toque das mos dela. Miranda podia sentir as batidas do corao dele, to selvagem quanto o dela. Era apenas sexo. No resolvia nada, no
provava nada. Mas, por Deus, ela no se importou com isso.
Sua camisa engomada ficou presa em seus punhos, e, por um momento, Miranda estava presa, excitada, impotente ao ser empurrada por ele contra a parede e t-lo alimentando-se
de seus seios.
Ele queria uma guerra depravada, primitiva, selvagem. E encontrou isso em si mesmo, diante da resposta e da demanda feroz dela. Seus dedos apressaram-se para baixo,
desabotoando a cala masculina, deslizando sobre a pele dela, dentro dela, de maneira que fazia com que avanasse com os quadris. Ela gozou violentamente, engasgando
ao falar o nome dele enquanto o corpo tremia em choques de prazer.
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Sua boca percorria o rosto dele, o pescoo, as mos agarravam-lhe os quadris, rasgavam-lhe a roupa, enlouquecendo-o. Ele mergulhou para dentro dela ali mesmo onde
estavam, empurrando-lhe a mo contra a parede, penetrando-a cada vez mais profundamente.
Ela se agarrava a ele agora, suas unhas arranhando-lhe as costas. Os rudos que fazia, grunhidos primitivos, gritos desenfreados, gemidos roucos, faziam-no arder.
Quando ela parou, ele a levantou pelos quadris, cego e surdo para tudo que no fosse o desejo irracional de possuir, possuir e possuir. Cada carcia violenta era
uma possesso.
Minha.
- Mais - ele disse, arfante. - Fica comigo. Volta.
- Eu no agento. - As mos dela escorregaram por seus ombros suados. A mente e o corpo exauridos.
- Mais um pouquinho.
Ela abriu os olhos, viu-se presa aos dele. To intensos, to quentes, o dourado profundo brilhando como uma queimadura de sol, focados exclusivamente nela. Sua pele
se arrepiou novamente, pequenos estremecimentos de desejo tomaram as extremidades de seu corpo e se espalharam. Depois, esses estremecimentos trans-formaram-se em
desejo profundo, cru, um desejo pulsante que fazia com que cada respirao se tornasse um gemido. O prazer tinha garras, e elas a rasgavam, ameaavam deix-la aos
pedaos.
Quando ela gritou, ele enterrou o rosto em seu cabelo e desmoronou.
Era como se tivesse sobrevivido a um acidente de trem, Ryan concluiu. Sobrevivido por um triz. Estavam espalhados no cho, os corpos unidos e dormentes, a mente
entorpecida. Ela se encontrava deitada sobre ele simplesmente porque era assim que haviam chegado ao cho - seu diafragma sobre a barriga dele, a cabea para baixo,
de frente para o tapete persa.
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De poucos em poucos minutos, a barriga dela estremecia; portanto, ele sabia que ainda estava viva.
- Miranda - ele conseguiu dizer, dando-se conta subitamente de que sua garganta estava seca. A resposta dela foi algo entre um grunhido e um gemido. - Voc
acha que consegue levantar?
- Quando?
Ele riu um pouco e acariciou-lhe o bumbum. - Agora seria timo. - Como ela no se moveu, ele rosnou: - gua. Eu preciso de gua.
- No d pra voc simplesmente me empurrar?
No era to simples assim, mas ele conseguiu sair debaixo do corpo lnguido dela. Apoiou uma das mos na parede para manter o equilbrio enquanto descia a escada.
Na cozinha, nu, bebeu dois copos d'gua de uma vez, depois tomou outro. Mais firme, olhou para trs e abriu um sorriso ao ver as roupas e as flores espalhadas pelo
cho.
Ela ainda estava no topo da escada, deitada de costas agora, os olhos fechados, um brao sobre a cabea, os cabelos vermelhos gloriosos indo de encontro ao tapete
da mesma cor.
- Dra. Jones. O que uma revista de arte diria sobre isso?
- Humm.
Ainda sorrindo, ele agachou, tocou-lhe a lateral do seio com o copo, pedindo ateno. - Toma, voc provavelmente t precisando disso.
- Humm. - Ela conseguiu se sentar, pegou o copo com as duas mos e bebeu at a ltima gota. - A gente nem conseguiu chegar ao quarto.
- Tem sempre a prxima vez. Voc t bem relaxada.
- Parece que eu t drogada. - Ela piscou, focando no quadro pendurado na parede atrs dele, e encarou o suti branco que pendia como uma celebrao do canto
superior da moldura. - Aquilo  meu?
Ele olhou para trs, passou a lngua sobre os dentes. - Acho que eu no estava vestindo um.
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- Meu Deus!
Ele teve de parabeniz-la pela recuperao rpida, j que se levantou de uma s vez e puxou a pea de vestirio de volta. Com os olhos bem abertos agora, e pequenos
arquejos de sofrimento saindo de sua garganta, ela comeou a correr para juntar as roupas, na tentativa de salvar as flores esmagadas por eles.
Ryan encostou as costas na parede e assistiu ao show.
- No sei onde foi parar uma das minhas meias.
Ryan sorriu quando ela olhou para ele, roupas emboladas de encontro ao peito. - Voc ainda t com ela.
Ela olhou para baixo, viu a meia tradicional, com estampa de losangos, no seu p esquerdo. - Ah.
- Voc t uma graa assim. Tem uma cmera?
Como o momento parecia propcio, ela jogou as roupas na cabea dele.
Por insistncia de ryan, levaram uma garrafa de vinho para o penhasco e sentaram-se sob o sol morno da primavera.
- Voc tem razo - ele disse. - Aqui  lindo na primavera.
A gua ia de um azul-claro no horizonte a um matiz mais profundo onde os barcos se amontoavam na superfcie, depois a um tom ainda mais escuro, um verde suntuoso,
perto da margem onde as ondas explodiam de encontro s pedras.
O vento estava suave, uma carcia em lugar de um tapa.
Os pinheiros que margeavam a propriedade mostravam vio novo nas folhas que renasciam. Os troncos exibiam os sinais das folhas por vir.
Ningum passeava na nesga de praia abaixo, nem perturbava as conchas quebradas, lanadas  areia na ltima tempestade. Ele estava feliz com isso, feliz porque os
barcos pareciam brinquedos a distncia, e as boias faziam silncio.
Estavam ss.
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Se olhasse para trs, em direo  casa, veria somente o contorno do jardim. A parte pior, do mato amarelecido, dos galhos secos, havia sido limpa. A terra parecia
recentemente remexida e tratada. Ele j conseguia ver os sinais de montinhos verdes. Ela disse que cuidaria do jardim, ele lembrou, e era mulher de cumprir promessas.
Gostaria de v-la fazendo jardinagem, percebeu. Adoraria v-la de joelhos ali, concentrada em trazer de volta  vida o velho jardim, transformando aqueles desenhos
que fizera em realidade.
Gostaria de ver o que ela faria brotar ali.
- A gente devia estar no escritrio, trabalhando - ela disse quando a culpa comeou a intrometer-se no prazer da tarde.
- Vamos chamar isso de trabalho de campo.
- Voc precisa ver a planta final da exposio.
- Miranda, se eu no confiasse completamente em voc pra isso, no emprestaria minhas peas. - Tomou um gole do vinho, relutantemente voltando seu pensamento
para o trabalho. - De qualquer forma, voc enviou relatrios dirios pro meu escritrio. Eu imagino que j tenha uma idia.
- Trabalhar nisso me deu mais tempo pra colocar outras coisas em perspectiva. Eu no sei o que a gente vai conseguir com isso, alm dos benefcios bvios
pra sua empresa, pra minha e das contribuies pro fundo. A outra parte...
- A outra parte t progredindo.
- Ryan, a gente devia dar todas as informaes que puder pra polcia. Eu tenho pensado nisso. Era o que a gente devia ter feito desde o comeo. Eu me deixei
levar... pelo ego, com certeza, e pelo que eu sinto por voc...
- Voc no me falou o que sente. Vai me falar?
Ela desviou o olhar, observou as boias altas de ferro balanarem suavemente e sem rudo. - Nunca senti o que sinto por voc por ningum. Eu no sei o que , ou o
que fazer com isso. A minha famlia no sabe lidar com relaes pessoais.
- E o que  que a sua famlia tem a ver com isso?
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- A maldio dos Jones. - Ela deu um suspiro rpido, porque no precisou olhar para trs para saber que ele sorrira. - Sempre estragamos tudo. Negligncia,
apatia, a gente se d muita importncia. Eu no sei o que , mas a gente simplesmente no sabe estar com outra pessoa.
- Ento, voc  um produto dos seus genes, e no uma mulher independente.
Ela girou rapidamente a cabea, fazendo-o rir do insulto instantneo que apareceu em seus olhos. Depois, controlou-se e inclinou a cabea. - Essa foi boa. Mas o
fato continua sendo que estou perto dos trinta e nunca tive um relacionamento longo. No sei se sou capaz disso.
- Primeiro, voc tem que querer descobrir.
- . - Ela comeou a passar a mo, nervosa, sobre a cala, mas ele a segurou.
- Ento, a gente comea agora. Eu t to fora do meu habitual quanto voc.
- Voc nunca t fora do seu habitual - ela murmurou. - Voc tem muitas caras.
Ele riu e apertou a mo dela. - Por que a gente no se comporta como um casal normal e eu te conto sobre a minha ida a San Francisco?
- Voc encontrou seu irmo.
- Isso, meu irmo e a famlia dele vm pra festa de abertura. O resto da famlia vem de Nova York.
- Todo mundo? Toda a sua famlia vem?
- Claro.  um evento importante. De qualquer forma, eu vou te avisar, voc vai ser observada de cabo a rabo.
- Maravilhoso. Mais uma coisa pra me deixar nervosa.
- Sua me vem. E seu pai, o que  um pequeno dilema, j que ele pensa que eu sou outra pessoa.
- Ai, meu Deus! Eu tinha me esquecido! O que  que a gente vai fazer?
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- A gente no vai fazer a menor idia do que ele t falando. - Ryan simplesmente riu quando ela olhou para ele boquiaberta. - O Rodney  ingls, eu no sou.
E ele no  nem de longe to bonito quanto eu.
- Voc realmente acha que o meu pai vai cair numa histria dessas?
- Claro que vai, porque essa  a nossa histria e a gente vai ser fiel a ela. - Ele cruzou as pernas, inspirou o ar fresco e levemente mido. E percebeu que
no relaxava to completamente havia dias. - Por que no mundo eu me apresentaria a ele como outra pessoa, principalmente se eu estava em Nova York quando ele veio
te ver? Ele vai ficar confuso, mas dificilmente vai insistir e chamar Ryan Boldari de mentiroso.
Ela deixou essa idia assentar por uns instantes. - No sei que alternativa a gente tem, e, tambm, meu pai no presta ateno nas pessoas, mas...
- Basta seguir as minhas instrues, e sorrir muito. Agora, quando eu estava em San Francisco, fui procurar o Harry Mathers.
- Encontrou?
- Encontrei o apartamento dele. Ele no estava l. Mas passei uma meia hora muito interessante com uma vizinha dele, uma prostituta. Ela me disse que ele
sumiu j fazia uns dias e que...
- Um segundo. - Ela puxou a mo, que ele segurava, e levantou o indicador. - D pra repetir isso?
- Que ele sumiu j fazia uns dias?
- No, a parte que voc passou algum tempo com uma prostituta.
- Valeu os cinqenta que eu paguei, quer dizer, cem, na verdade. Eu dei mais cinqenta pra ela quando a gente terminou.
- Ah, sei, tipo gorjeta?
- Isso. - Ele abriu um sorriso. - Cime, darling.
-  pra ter cime?
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- Um pouquinho de cime faz bem.
- Ento, tudo bem. - Ela cerrou o punho livre e socou o estmago dele.
Ele ficou sem ar, sentou-se com cuidado, caso ela decidisse atac-lo novamente. - Preciso me corrigir. Cime definitivamente no faz bem. Eu paguei pra ela conversar
comigo.
- Se eu tivesse imaginado outra coisa, voc estaria a caminho das pedras l embaixo. - Foi a vez de ela sorrir, enquanto ele a olhava com suspeita. - O que
foi que ela te contou?
- Voc sabe que esse seu lado ianque pode ser um pouquinho assustador, dra. Jones? Ela me disse que eu era o segundo homem que aparecia naquele dia procurando
por ele. Ficou com uma arma enorme apontada pra mim o tempo todo.
- Uma arma? Ela tinha uma arma?
- Ela no gostou da aparncia do outro cara. Mulheres desse meio geralmente sabem avaliar um homem numa olhada. Pela descrio dela, eu diria que tava certa
sobre ele, d pra ver de cara. Acho que foi o mesmo cara que atacou voc.
A mo dela subiu rapidamente at a garganta. - O homem que veio aqui, que roubou a minha bolsa? Ele tava em San Francisco?
- Procurando pelo seu jovem Harry; e meu palpite : seu ex-aluno teve sorte de no estar em casa. Ele t envolvido, Miranda. A pessoa pra quem ele fez aquele
bronze, a pessoa pra quem ele o vendeu ou deu, no quer mais ver o cara andando por a.
- Se acharem o Harry...
- Eu coloquei uma pessoa de olho nele. A gente tem que encontrar esse cara antes.
- Talvez ele tenha fugido. Talvez soubesse que tinha gente atrs dele.
- No. Eu entrei no apartamento. Ele deixou todas as ferramentas, um pouco de maconha. - Ryan apoiou o corpo nos cotovelos novamente e observou as nuvens
vaporosas no cu. - No fiquei com a impresso de que ele saiu com pressa. A vantagem 
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que sabemos que tem algum atrs dele. Por enquanto, ningum sabe quem a gente . Do jeito que esse garoto anda vivendo, ou ele no conseguiu uma grana muito boa
pela cpia ou queimou tudo e no explorou o mundo encantado da chantagem.
- Ser que eles ameaaram o Harry primeiro?
- Pra qu? Eles no queriam que o cara fugisse. Querem eliminar o sujeito, rpido e em silncio. - Mas havia algo nos olhos dela. - Por qu?
- Eu ando recebendo uns... comunicados. - A palavra escolhida era direta, profissional, deixava-a menos inquieta.
- Comunicados?
- Fax, na maioria das vezes. J faz um tempo. Eles tm chegado diariamente, desde que voc viajou. Vrios fax, um e-mail, aqui e no escritrio.
Ele se sentou novamente. Agora seus olhos estavam estreitos e frios. - Ameaas?
- No exatamente, ou no exatamente ameaas at recentemente.
- Por que voc no me contou?
- Eu t te contando.
- Por que voc no me deixou saber que isso tava acontecendo esse tempo todo? - O olhar que ela lhe dirigiu fez com que ele se levantasse rapidamente e largasse
o copo de qualquer maneira, fazendo-o rolar sobre as pedras. - Nunca te ocorreu, ocorreu? Me contar que voc tava com medo - ele soltou, antes que ela pudesse responder.
- Eu posso ver isso na sua cara.
Ele viu demais, ela pensou, com muita facilidade. - O que  que voc poderia ter feito?
Ele a encarou, os olhos ardentes, depois enfiou as mos nos bolsos. - O que  que eles dizem?
- Vrias coisas. Alguns so bem calmos, breves e sutilmente ameaadores. Outros so mais confusos, meio aos pedaos. So mais pessoais, falam de coisas que
j aconteceram, de fatos da minha vida.
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Uma sensao de pavor percorreu-lhe a espinha e ela se levantou. - Um chegou depois do Giovanni... depois do Giovanni - ela repetiu. - Dizia que o sangue dele estava
nas minhas mos.
Ele no teve escolha seno deixar de lado seu prprio ressentimento e sua dor. Surpreendeu-o o quanto sofria por ela no ter confiado nele. No ter contado com ele.
Mas virou-se, olhando-a diretamente nos olhos.
- Se voc acreditar nisso, se deixar um desgraado sem nome te fazer acreditar nisso, voc  uma tola, e vai dar pra eles exatamente o que querem.
- Eu sei disso, Ryan. Eu entendo isso perfeitamente. - Ela pensou que podia falar calmamente, mas sua voz ficou embargada. - Eu sei que  algum que me conhece
bem o suficiente pra usar o que mais pode me ferir.
Ele foi at ela, envolveu-a carinhosamente nos braos. - Me abraa. Vai, me abraa. - Quando os braos dela finalmente o envolveram, ele passou o rosto no cabelo
dela. - Voc no t sozinha, Miranda.
Mas ela estivera, por tanto tempo. Um homem como ele nunca saberia o que era estar num ambiente cheio de gente e sentir-se to s. To estrangeiro. To indesejado.
- O Giovanni... ele era uma das poucas pessoas que faziam com que eu me sentisse... normal. Eu sei que o assassino  quem t mandando essas mensagens. Eu
sei disso racionalmente, Ryan. Mas, no meu ntimo, sempre vou me culpar. E eles sabem disso.
- Ento, no deixa que usem isso, ou a ele, dessa maneira.
Ela fechara os olhos, soterrada pelo conforto que ele lhe oferecia.
Agora os abria, olhava em direo ao mar enquanto as palavras dele comeavam a fazer sentido. - Usando o Giovanni - ela murmurou. - Voc t certo. Eu venho deixando
que eles usem o Giovanni pra me ferir. Quem quer que seja essa pessoa, ela me odeia, e garantiu que eu soubesse disso no fax que chegou hoje.
- Voc tem cpia de todos?
- Tenho.
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- Eu quero ver. - Quando ela tentou se afastar, ele a segurou. Acariciou seu cabelo. Ser que ela no percebeu que tremia, ele se perguntou. - O e-mail. Voc
rastreou?
- No tive muita sorte. O nome usado no aparece no servidor,  o mesmo servidor que a gente usa aqui e na Standjo.
- Voc guardou o e-mail no computador?
- Guardei.
- Ento a gente vai rastrear. - Ou Patrick o faria, ele pensou.
- Que pena que eu no estava aqui. - Ele se afastou, encarou-a.
- Mas estou aqui agora, Miranda, e ningum vai te machucar enquanto eu estiver. - Ela no respondeu, e ele a segurou com mais fora, olhou cuidadosamente
o rosto dela. - Eu no fao qualquer promessa porque no quebro as promessas que fao. Eu vou com voc at o fim. E no vou deixar nada te acontecer.
Ele fez uma pausa, depois deu um passo em direo ao que considerava um limite desagradvel. - Voc ainda quer falar com o Cook?
Ela tivera tanta certeza de que era a coisa certa. Tanta certeza at ele olhar para ela e prometer. At lev-la a acreditar, ao fazer isso, contra tudo o que era
razovel, que podia confiar nele.
- A gente vai at o fim, Ryan. Acho que nenhum dos dois consegue engolir menos que isso.
- Coloca essa base em cima da marca. - miranda obser-vava os dois homens parrudos da manuteno puxarem a enorme coluna de mrmore at o centro da sala.
Ela sabia que era o centro exato porque medira pessoalmente o lugar trs vezes. - Isso, perfeito. timo.
-  o ltimo, dra. Jones?
- Aqui, . Obrigada.
Ela estreitou os olhos, imaginando o bronze da Vnus se banhando, de Donatello, sobre a coluna.
Aquela galeria dedicava-se aos trabalhos do comeo da Renascena. Um desenho premiado de Brunelleschi estava impren-
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sado entre vidros e dois quadros de Masaccio, j pendurados, levavam uma moldura suntuosa, juntamente com um Botticelli de trs metros que exibia a majestosa ascenso
da Me de Deus. Havia tambm um Bellini que j enfeitara a parede de uma villa veneziana.
Tendo o Donatello como ponto central, a exposio apresentava a primeira grande exploso da inovao artstica que fora no s a fundao para o brilhantismo do
sculo dezesseis, como um perodo de arte maior.
Verdade, ela considerava o estilo do perodo menos emocional, menos apaixonado. A representao figurativa, at mesmo no trabalho de Masaccio, era de alguma forma
esttica, sendo as emoes humanas mais estilizadas que reais.
Mas o milagre era que tais coisas existiam e podiam ser estudadas, analisadas centenas de anos depois de sua execuo.
Batendo com os dedos nos lbios, analisou o resto da sala. Mandara fazer cortinas em tecido azul-marinho, com detalhes em dourado. Mesas de tamanhos variados tambm
estavam revestidas com o mesmo pano, e, sobre elas, as ferramentas dos artistas da poca. Os cinzis, as palhetas, os compassos e os pincis. Ela escolhera cada
um pessoalmente nas vitrines do museu.
Era uma pena que tivessem que ficar trancados sob proteo de vidro, mas mesmo com um pblico sofisticado e rico, dedos podiam ser pegajosos.
Numa grande vitrine de madeira com incrustaes, uma grande Bblia exibia, em impresso esmerada, pginas escritas por monges. Outras mesas ainda ostentavam jias
usadas tanto por homens quanto por mulheres da poca. Havia chinelos bordados, uma escova, uma caixa feminina de marfim para artigos de toucador, cada pea cuidadosamente
escolhida para cada lugar. Grandes candelabros de ferro margeavam o corredor.
- Impressionante. - Ryan se postou entre eles.
- Quase perfeito. Arte e suas bases religiosas, polticas, econmicas e sociais. Meados de 1400. O nascimento de Lorenzo,
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o Magnfico, a Paz de Lodi, e o equilbrio, apesar de precrio, do chefe dos Estados italianos.
Ela apontou para um grande mapa na parede, datado de 1454.
- Florena, Milo, Npoles, Veneza e,  claro, o papado. E o nascimento de uma nova escola de pensamento sobre a arte, o humanismo. Questionamento racional,
essa foi a chave.
- A arte nunca  racional.
- Claro que .
Ele simplesmente balanou a cabea. - Voc se ocupa demais com o trabalho pra enxergar. A beleza - ele disse, apontando para o rosto sereno da Madonna -  a coisa
mais irracional que existe. Voc t nervosa - ele acrescentou quando pegou a mo dela e sentiu que suava frio.
- Ansiosa - ela corrigiu. - Voc viu as outras salas?
- Achei que voc ia me mostrar.
- Tudo bem, mas eu no tenho muito tempo. A minha me deve estar aqui, no mximo, em uma hora. Quero tudo no lugar quando ela chegar.
Ela cruzou a sala com ele. - Deixei indicaes de percurso pro pblico, e coloquei esculturas, com o bronze de Donatello na posio central, dispostas de uma maneira
que as pessoas tenham uma viso circular. Todo mundo pode andar por a, depois as pessoas voltam pra rota e entram na prxima galeria, a maior, a da Alta Renascena.
Ela continuou andando: - A gente segue com o tema aqui, pra mostrar no s a arte, mas todo o entorno, as bases, as camadas, as fontes de inspirao. Usei mais dourado
aqui, e vermelho. Pra dar uma idia da fora do poder, da Igreja, da realeza.
Os saltos de seus sapatos tilintavam sobre o piso de mrmore enquanto ela andava, analisava detalhes, buscava algum ajuste, ainda que mnimo, mas necessrio. - Essa
era foi mais rica e mais dramtica. Como havia energia. No podia durar, mas, mesmo
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sendo um perodo curto, produziu trabalhos mais importantes em comparao com qualquer poca antes ou depois.
- Santos e pecadores?
- Desculpe, no entendi.
- Os modelos mais populares da arte, os santos e os pecadores. A sexualidade e o egosmo crus, mas elegantes, dos deuses e das deusas, contrapondo a brutalidade
da guerra, lado a lado com o sofrimento do mrtir.
Ele havia estudado religiosidade a partir de expresses faciais de So Sebastio, o corpo flechado, um semblante confuso. - Eu nunca fui atrs de mrtires. E...
sobre o que falvamos mesmo?
- A f pode ser uma resposta bvia.
- Ningum pode roubar a sua f, mas pode tirar a sua vida, e de maneiras perversas, criativas. - Ele enfiou os dedos nos bolsos. - Flechas pro mais popular,
So Sebastio, queimado vivo pra So Loureno. Crucificaes, partes do corpo arrancadas com deleite e abandono. Lees, tigres e ursos. Meu Deus.
Ela riu, sem perceber. -  por isso que so mrtires.
- Exatamente. - Ele deu as costas para So Sebastio e sorriu para ela. - Ento, voc t diante da horda pag e dos seus primitivos e terrivelmente eficientes
mtodos de tortura. Por que no dizer: "Claro, no tem problema, meninos e meninas. Que deus voc prefere adorar hoje?" A resposta no muda o que voc pensa nem
as suas crenas, mas pode certamente mudar o modo como voc vive.
Ele apontou para o quadro. - Basta perguntar pro pobre So Sebastio.
- J vi que voc se deu bem nas perseguies.
- Com certeza.
- E palavras como coragem, convico, integridade?
- Por que morrer por uma causa? Melhor viver por ela. Enquanto ela ponderava a filosofia dele, procurando falhas, ele
foi at uma mesa muito bem decorada com artigos religiosos. Crucifixos de prata, clices, relquias.
- Voc fez um trabalho excelente aqui, dra. Jones.
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- Eu acho que funciona bem. Ticiano vai ser o foco principal, junto com Rafael.  uma pea maravilhosa, Ryan.
- , eu gosto bastante. Quer comprar? - Ele se virou e sorriu para ela. -A beleza do meu negcio, dra. Jones,  que tudo tem um preo. Se voc paga,  seu.
- Se voc t falando srio sobre vender esse Rafael, eu vou fazer uma proposta. Mas as nossas peas, na maioria, so doaes ou emprstimos permanentes.
- Nem pra voc, darling.
Ela encolheu os ombros. No esperava uma resposta diferente.
- Eu colocaria A Senhora Sombria ali - ela disse de repente. - Toda vez que eu imaginava esta sala, trabalhava nas perspectivas, na cadncia, no tema, eu
via o bronze numa coluna branca, coberta de vinhas at embaixo. Bem aqui. - Deu um passo  frente. - Aqui, bem embaixo da luz. Onde todo mundo pudesse ver. Onde
eu pudesse ver.
- A gente vai pegar a Senhora de volta, Miranda.
Ela no disse nada, irritada consigo mesma por sonhar acordada. - Voc quer ver a prxima sala? Os seus Vasari esto l.
- Mais tarde. - Ele se aproximou dela. Sua inteno havia sido contar imediatamente, mas no fora capaz de trazer aquela expresso assustada de volta aos
olhos dela. - Miranda, meu irmo me ligou de San Francisco. O Michael. Um corpo foi jogado na baa ontem  noite. Era Harry Mathers.
Ela simplesmente o encarou por um longo momento de silncio antes de fechar os olhos e virar-se. - No foi um acidente. No foi por acaso.
- Os noticirios que o meu irmo ouviu no deram muitos detalhes. S diziam que ele foi assassinado antes de ser jogado na gua.
A garganta dele fora cortada, Ryan pensou, mas no havia razo alguma para acrescentar esse detalhe. Ela j sabia quem e por qu. Que bem faria saber como?
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- Trs pessoas, agora. Trs pessoas mortas. E por qu? - Ainda de costas para ele, ela encarou o rosto da gloriosa Madonna. - Por dinheiro, pela arte, pelo
ego? Talvez pelos trs.
- Ou talvez por nenhum dos trs. Talvez por voc.
A pontada que sentiu no corao fez com que comeasse a tremer antes de se virar. Ele viu medo nos olhos dela, e sabia que o medo no era para ela. - Por mim? Por
minha causa? Algum pode me odiar tanto assim? Por qu? No consigo pensar em ningum pra quem eu tenha tanta importncia, ningum que eu tenha ferido to profundamente
que mataria pra proteger uma mentira que destri a minha reputao profissional. Pelo amor de Deus, Ryan, o Harry era um garoto.
Sua voz era sombria, spera pela fria que corria por trs do medo. - Um garoto - ela repetiu -, e ele foi aniquilado como uma ponta solta. Sem cuidado algum. Pra
quem eu posso ter tanta importncia a ponto de algum matar um garoto desse jeito? Eu nunca fui importante pra ningum.
Isso, ele pensou, era a coisa mais triste que j ouvira algum dizer. Ainda mais triste era o fato de ela acreditar. - Voc causa mais impacto do que imagina, Miranda.
Voc  forte,  bem-sucedida.  focada no que quer e no lugar aonde quer chegar. E voc chega l.
- Eu no passei por cima de ningum no caminho.
- Talvez voc no tenha percebido. Patrick t tentando rastrear o e-mail que voc recebeu.
- T. - Passou a mo no cabelo. No percebi?, perguntou-se. Ser que ela era to autocentrada, to inatingvel, to fria assim? - Ele conseguiu? J tem mais
de uma semana. Achei que ele tinha desistido.
- Ele nunca desiste quando se envolve num mistrio do mundo virtual.
- O que ? O que  que voc t tentando no me dizer?
- O nome do usurio estava anexado a uma conta. Criada e desativada. Soterrada por um monte de jarges da informtica.
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Ela sentiu uma bola de gelo se formar em seu estmago. Era algo ruim, ela sabia. Muito ruim. - Qual era a conta?
Ele apoiou as mos nos ombros dela. - Era da sua me.
- No  possvel.
- A mensagem saiu de Florena, com aquele cdigo de rea, veio de uma conta registrada no nome de Elizabeth Standford-Jones, e tinha a senha dela. Desculpe.
- No pode ser. - Ela se afastou. - No importa o quanto, o pouco, no importa o qu - conseguiu dizer. - Ela no faria isso. Ela no pode me odiar tanto
assim.
- Ela teve acesso aos bronzes. Ningum questionaria a sua me. Ela te chamou, depois te demitiu e te mandou pra casa. Te afastou do instituto. Desculpe. -
Ele passou a mo no rosto dela. - Mas voc vai ter que considerar esses fatos.
Era ilgico. Era monstruoso. Ela fechou os olhos e deixou que os braos dele a envolvessem.
- Desculpe.
Ela deu um pulo nos braos dele, como se fossem tiros e no palavras que ouvia atrs de si. Muito lentamente, ela se virou e respirou profundamente para preparar-se.
- Oi, me.
Elizabeth no parecia ter passado as ltimas horas sobrevoando o oceano e lidando com os pequenos aborrecimentos de viagens internacionais. Seu cabelo estava perfeitamente
penteado, o terno azul metlico no apresentava uma ruga sequer.
Miranda se sentiu como sempre na presena da perfeio inabalvel da me - desarrumada, esquisita, perdedora. Agora a suspeita se adicionara ao pacote. Poderia aquela
mulher que pregara integridade a vida inteira ter trado a prpria filha?
- Desculpe se interrompi o seu... trabalho.
Acostumada demais  desaprovao dos pais para reagir,
Miranda mal acenou com a cabea. - Elizabeth Standford-Jones, Ryan Boldari.
- Sr. Boldari. - Elizabeth avaliou a situao e concluiu que o dono da galeria pedira a participao de Miranda no projeto por mais razes que as qualificaes
da filha. Como o resultado benefi-
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ciava o instituto, sorriu calorosamente. - Que prazer conhecer voc, finalmente!
- O prazer  meu. - Ele cruzou a sala para apertar-lhe a mo, percebendo que me e filha nem mesmo se deram o trabalho daqueles beijos jogados ao vento que
as mulheres freqentemente trocam.
- Espero que seu voo tenha sido tranqilo.
- Foi, sim, obrigada. - Um rosto bonito, ela pensou, e boas maneiras. As fotografias que vira dele em revistas de arte ao longo dos anos no haviam sido capazes
de captar o poder da combinao.
- Desculpe por no ter conseguido chegar antes, como eu planejei. Espero que o projeto esteja em progresso, como fora previsto, sr. Boldari.
- Me chama de Ryan, por favor. E ainda excedeu as minhas expectativas. A sua filha  tudo o que eu poderia desejar.
- Voc tem andado ocupada - ela disse para Miranda.
- Muito. A gente fechou a ala do andar pro pblico, nos ltimos dias, a equipe est trabalhando muitas horas, mas est valendo a pena.
- , d pra ver. - Ela passou os olhos pela sala, impressionada e satisfeita, mas disse somente: - Voc ainda tem trabalho a fazer, claro. Vai confraternizar
com os talentos da Standjo, agora. Vrios membros do staff viajaram hoje, e alguns vo chegar amanh. Eles sabem que esto  sua disposio. Elise e Richard j esto
aqui, com Vincente e a mulher.
- O Andrew sabe que a Elise t aqui?
Elizabeth ergueu as sobrancelhas. - Se no sabe, vai saber logo.
- E o aviso no tom de sua voz era claro. Nenhum assunto de famlia seria discutido ou teria interferncia. - Seu pai deve chegar  noite. Ele vai ser uma
ajuda enorme na seleo final dos artefatos.
- Eu j fiz a seleo final - Miranda disse, de maneira direta.
-  raro que um projeto desse porte no se beneficie de um olhar de fora.
- Voc tem planos de me tirar deste projeto tambm?
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Houve um momento em que pareceu que Elizabeth responderia. Seus lbios se abriram, mas depois voltaram a fechar-se, e ela se voltou para Ryan: - Eu adoraria ver
os seus Vasari.
- Isso, Ryan, mostra os Vasari pra ela. Eles esto na prxima ala. Vocs dois vo me dar licena, mas eu tenho uma reunio.
- Me sinto obrigado a dizer a voc, Elizabeth - Ryan comeou a dizer quando Miranda saiu -, que esta exposio impressionante no teria sido possvel sem
a sua filha. Ela concebeu tudo, planejou e colocou em prtica.
- Eu conheo os talentos da Miranda.
- Conhece mesmo? - ele disse com suavidade, e uma ligeira e jocosa arqueada de sobrancelha. - Ento, eu estou obviamente enganado. Achei que, como voc no
comentou nada sobre o resultado de quatro semanas de trabalho intenso dela, achava que no estava completo de alguma maneira.
Algo brilhou nos olhos de Elizabeth, talvez constrangimento. Ele esperava que fosse. - De maneira nenhuma. Eu tenho plena confiana na capacidade da Miranda. E se
ela tem um defeito,  excesso de entusiasmo, e a tendncia a se envolver demais pessoalmente.
- Muita gente consideraria isso uma coisa boa, e no uma falha.
Ele a estava testando, mas ela no podia saber a razo. - Nos negcios, objetividade  essencial. Tenho certeza de que voc concorda com isso.
- Eu prefiro paixo em todas as coisas.  mais arriscado, mas os efeitos so muito mais compensadores. Miranda tem paixo, mas tende a reprimir isso. Esperando,
imagino eu, pela sua aprovao. Voc alguma vez fez isso?
A raiva apareceu friamente nela, um gelo no olhar, na voz.
- O meu relacionamento com Miranda no  da sua conta, sr. Boldari, assim como a sua relao com ela no me diz respeito.
- Estranho. Diria que o oposto  verdadeiro, j que eu e sua filha somos amantes.
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Os dedos dela apertaram ligeiramente a ala da pasta de couro que carregava. - Miranda  adulta. Eu no interfiro nos relacionamentos pessoais dela.
- S nos profissionais, ento. Me fala um pouco da Senhora Sombria.
- Como? No entendi.
- A Senhora Sombria. - Ele manteve os olhos nos dela. - Onde ela est?
- O Bronze Fiesole - Elizabeth disse, finalmente - foi roubado de um depsito no Bargello, vrias semanas atrs. Nem eu nem as autoridades temos nenhuma idia
de onde ele se encontra agora.
- Eu no estava me referindo  cpia, mas ao verdadeiro.
- Verdadeiro? - O rosto dela permaneceu sem expresso. Mas ele viu algo escondido. Conhecimento, choque, considerao, era difcil ter certeza, sendo ela
uma mulher to rigidamente controlada.
- Elizabeth? - Um grupo de pessoas se aproximou, Elise  frente. Ryan viu uma mulher pequena, bem constituda, com cabelo de duende e olhos grandes, brilhantes.
Logo atrs, um homem a caminho da calvcie, plido, que ele imaginou ser Richard Hawthorne; depois uma mulher vistosa, com ares de Sophia Loren, de braos dados
com um homem robusto, de pele cor de oliva e cabelos brancos. Os Morelli, concluiu. Pairando entre eles, sorrindo amplamente, estava John Carter.
- Desculpe. - Elise juntou as mos bonitas. - Eu no sabia que voc estava ocupada.
Mais agradecida pela interrupo do que jamais se permitiria demonstrar, Elizabeth fez as apresentaes.
-  um prazer conhecer voc - Elise disse a Ryan. - Eu estive na sua galeria em Nova York no ano passado.  um tesouro. E isto - seus olhos brilharam enquanto
fazia um crculo para apreciar a sala -  glorioso. Richard, tira o nariz do mapa e d uma olhada nos quadros.
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Ele se virou, um sorriso encabulado no rosto. - Eu no consigo resistir a um mapa.  uma exposio maravilhosa.
- Vocs devem ter trabalhado como escravos. - Vincente deu um tapa pesado nas costas de Carter.
- Eu esperei ser chamado pra lavar o cho a qualquer momento. Miranda fez a gente suar a camisa. - Carter sorriu, mais uma vez encabulado. - A restaurao
do Bronzino s terminou ontem. Soube que todo mundo tremia quando ela chegava. Todos os chefes de departamento vm tomando remdio pra lcera nas duas ltimas semanas.
Miranda nem parece se incomodar. A mulher tem nervos de ao.
- Ela fez um trabalho brilhante. - Elise olhou em volta novamente. - Cad ela?
- Tinha uma reunio - Elizabeth disse.
- Eu coloco as coisas em dia com Miranda mais tarde. Espero que ela bote a gente pra trabalhar.
- Ela sabe que vocs esto  disposio.
- timo. Eu, hum, eu pensei em ver se o Andrew est livre um minuto. - Ela sorriu melancolicamente para Elizabeth, desculpando-se. - Queria ver como ele
anda. Se voc no precisar de mim agora.
- No, pode ir. - Ela olhou com ligeiro divertimento quando Gina Morelli deu um grito diante da vitrine de jias. - Richard, eu sei que voc anda louco pra
visitar a biblioteca.
- Eu sou previsvel.
- Divirta-se.
- Todo mundo sabe onde encontrar o Richard - Vincente comentou. - Enterrado nos livros. Eu vou esperar a Gina analisar e cobiar cada quinquilharia. Depois,
ela vai me arrastar pras compras. - Sacudiu a cabea. - Ela tambm  previsvel.
- Duas horas - Elizabeth anunciou, com tom de diretora. - Depois nos encontramos aqui novamente e fazemos o que precisa ser feito.
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Elise hesitou por um momento, ainda do lado de fora da sala de Andrew. A assistente dele no estava em sua mesa, e ela ficou aliviada. A srta. Purdue era devotada
a Andrew e no aprovaria a visita no agendada da ex-mulher. Ouviu a voz dele atravs da porta entreaberta. Era uma voz forte e lhe trazia de volta uma sensao
nostlgica.
Ela sempre gostara da voz dele. O tom claro, o sotaque aristocrtico, com certo charme dos Kennedy, pensou. Imaginou t-lo visto como uma espcie de descendente
de uma tpica famlia poderosa e bem-sucedida da Nova Inglaterra.
Havia potencial no casamento deles, pensou. Ela tivera esperanas. Mas, no final, no havia mais nada a ser feito, alm do divrcio. Pelo que sabia, dera continuidade
 prpria vida melhor do que Andrew.
Apesar de ter conscincia do remorso em seu olhar, estampou um sorriso e bateu de leve  porta.
- A gente espera uns quinhentos convidados - ele disse ao telefone, depois levantou os olhos e ficou paralisado.
A memria do passado lhe voltou em pequenas gotas. A primeira vez que a vira, quando ela aceitara o emprego de assistente de chefia do laboratrio, por recomendao
do seu pai. De jaleco e culos de cientista. A maneira como empurrara os culos para o topo da cabea quando Miranda os apresentara.
A maneira como rira e dissera que j no era sem tempo, quando ele finalmente tomara coragem e a convidara para sair.
A primeira vez em que fizeram amor.
Sua fisionomia no dia do casamento, radiante, delicada. Sua expresso no dia em que lhe dissera que estava tudo acabado, to fria e distante. E todos os estados
entre os dois momentos, a esperana e a felicidade que se transformaram em insatisfao, desapontamento e, depois, falta de interesse.
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A voz do outro lado da linha era um zumbido em seu ouvido. Sua mo se cerrou sob a mesa. Ele desejou com todas as foras que houvesse uma bebida ali.
- Eu vou ter que te ligar depois, mas todos os detalhes esto no press release. Tenho certeza de que a gente pode coordenar uma entrevista rpida amanh 
noite durante o evento... De nada.
- Desculpe, Drew - ela comeou a dizer quando ele desligou. - A srta. Purdue no tava na mesa, eu arrisquei pra ver se voc tava na sala.
- Tudo bem. - As palavras tolas arranhavam sua garganta. - Era s mais um jornalista.
- O evento t trazendo bastante publicidade positiva.
- A gente precisa.
- Os dois ltimos meses tm sido difceis. - Ele no se levantou, como ela imaginou que devia; portanto, entrou na sala e encarou-o, tendo a mesa como uma
barreira entre eles. - Achei que seria melhor, mais fcil pra ns dois se conversssemos um minuto. Eu no queria vir, mas a Elizabeth insistiu. E eu tenho que admitir
que detestaria perder isso tudo.
Ele no conseguia tirar os olhos dela, por mais que isso o machucasse. - A gente queria todas as pessoas importantes da equipe aqui.
- Voc ainda tem muita raiva de mim.
- Eu no sei o que eu sinto.
- Voc parece cansado.
- Colocar esse troo de p no tem me deixado muito tempo pra descansar.
- Eu sei que  estranho. - Ela estendeu a mo, depois recolheu-a, como se percebesse que no seria bem-vinda. - A ltima vez que a gente se viu foi...
- No escritrio do advogado - ele completou.
- . - Ela baixou os olhos. - Eu queria que tivesse sido diferente. Ns dois estvamos com tanta raiva, to feridos, Drew. Eu esperava que agora a gente pudesse
ser pelo menos...
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- Amigos? - Ele deixou escapar uma risada amarga no to ferina quanto a palavra incua que a permeava.
- No, no amigos. - Aqueles olhos encantadores dela estavam suaves e midos de emoo. - S no queria que a gente fosse inimigo.
No era o que ela esperava, aquele olhar duro, cnico. Esperava pesar, remorso, infelicidade, at mesmo raiva. Preparara-se para qualquer uma dessas coisas. Mas
no para aquele escudo que barrava todos os seus esforos.
Ele a amara. Ela sabia que ele a amara, e se apegara a isso mesmo enquanto assinavam os papis do divrcio.
- A gente no precisa ser inimigo, Elise. A gente no precisa ser mais nada.
- Tudo bem, eu me enganei. - Ela piscou uma vez, duas, e as lgrimas fugiram. - Eu no queria que nada estragasse o sucesso, amanh. Se voc ficasse mal e
comeasse a beber...
- Eu parei de beber.
- Jura? - A voz dela estava fria novamente, e a diverso sombria em seu tom era impiedosa. Um talento do qual havia se esquecido. - Ser que eu j no ouvi
isso antes?
- A diferena  que agora no tem nada a ver com voc, e tudo a ver comigo. Eu esvaziei muitas garrafas por sua causa, Elise, e isso acabou. Talvez voc esteja
chateada por eu no estar rastejando, devastado de te ver na minha frente. Voc no  mais o centro da minha vida.
- Eu nunca fui. - Seu controle fraquejou o suficiente para que as palavras lhe sassem apressadas. - Se eu tivesse sido, voc ainda me teria.
Ela se virou e saiu apressada. Quando chegou ao elevador, as lgrimas ardiam-lhe nos olhos. Apertou o boto com o punho cerrado.
Esperou at que o som das passadas rpidas de Elise ficasse distante e baixou a cabea sobre a mesa. Seu estmago estava revirado,
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clamava por um drinque, s um para colocar tudo no lugar outra vez.
Ela era to linda. Como ele podia ter esquecido o quanto era linda? J fora sua e ele falhara em segur-la, em manter seu casamento, em ser o homem de que ela precisava.
Perdera-a porque no soubera dar o suficiente, amar o suficiente, ser o suficiente.
Precisava sair. Tomar ar. Precisava caminhar, correr, tirar o perfume dela de sua lembrana. Usou a escada, evitando a ala onde todos trabalhavam arduamente, e escapou
passando pelos visitantes at chegar do lado de fora.
Seu carro estava no estacionamento, portanto andou, andou at que a ardncia em seu estmago cedesse. Andou at que no mais precisasse concentrar-se em inspirar
e expirar equilibradamente. Disse a si mesmo que pensava com clareza, perfeita clareza.
E quando parou em frente a uma loja de bebidas, quando olhou para as garrafas e seu alvio promissor, na felicidade, no escape, disse a si mesmo que poderia dar
conta de umas poucas doses.
No apenas podia dar conta, como merecia. Conquistara esse direito por ter sobrevivido ao cara a cara com a mulher que prometera amar, honrar e respeitar. Mulher
que lhe prometera o mesmo. At a morte.
Entrou, olhou para as paredes e suas garrafas nas prateleiras. Doses, goles, canecas esperando, implorando para serem escolhidas.
Experimente-me e voc se sentir melhor. Ficar bem novamente. Maravilhoso. Fantstico.
Garrafas brilhantes, rtulos coloridos. Garrafas lisas com nomes msculos.
Wild Turkey, Jim Beam, Jameson.
Pegou uma garrafa de Jack Daniels, passou o dedo sobre o rtulo preto e familiar. E o suor comeou a acumular-se na base da sua coluna.
O bom e velho Jack. O Jack Black em que se pode confiar.
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Podia sentir o gosto em sua lngua, sentir o calor descer pela sua garganta e aninhar-se, bem-vindo, em seu estmago.
Levou a garrafa ao caixa e seus dedos lhe pareceram inchados quando pegou a carteira.
- S isso? - O atendente suspendeu a garrafa.
- S - Andrew disse bruscamente. - S isso pra mim.
Carregou a bebida num saco de papel. Enquanto andava, sentia-
lhe o peso, a forma.
Um gole e seus problemas desapareceriam. A dor terrvel em suas entranhas seria esquecida.
Foi at o parque sob o sol que se encaminhava para o ocaso e o ar que esfriava.
Os narcisos amarelos estavam em esplendor, um pequeno oceano de alegria suportado por ainda mais elegantes tulipas vermelhas. As primeiras folhas se desenrolavam
nos carvalhos e maples que ofereceriam sombra quando o calor do vero assolasse o Maine em seu curto perodo. A fonte gotejava, uma dana bonita no meio do parque.
A esquerda, os balanos e escorregas estavam vazios. As crianas estavam em casa, sendo banhadas para o jantar, ele pensou. Quisera ter filhos, no quisera? Imaginara-se
constituindo famlia, uma famlia de verdade, na qual todos eram capazes de amar, tocar uns aos outros. Gargalhadas, histrias na hora de dormir, refeies barulhentas.
Tambm no conseguira.
Sentou-se num banco, encarando os balanos vazios, escutando o som da fonte, passando a mo pela garrafa dentro do saco de papel.
S uma dose, pensou. Bastava um gole da garrafa. Depois, nada daquilo teria a menor importncia.
Dois goles, e se perguntaria por que alguma vez tivera.
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Annie preparou dois drinques enquanto o processa-dor ao seu lado batia os ingredientes para margueritas. O happy hour era bastante popular s sextas-feiras. Os freqentadores
eram, em geral, homens de negcios, mas ela tinha algumas mesas ocupadas por universitrios aproveitando o desconto nos preos e os petiscos grtis enquanto falavam
mal dos professores.
Esticou as costas, tentando aliviar a dor na base da coluna enquanto passava os olhos pelo salo e certificava-se de que os clientes estavam satisfeitos com o atendimento.
Decorou os copos com sal e limo.
Um de seus clientes assduos contava uma piada que envolvia um homem e um sapo danarino. Ela completou seu copo com vodca e riu na hora certa.
A TV no alto exibia um jogo de beisebol.
Viu Andrew entrar, viu o que tinha nas mos. Sentiu uma presso na boca do estmago, mas continuou trabalhando. Trocou os cinzeiros sujos por limpos, limpou as manchas
de copo da bancada. Viu-o caminhar em sua direo, sentar-se num banco vazio e apoiar a garrafa no bar.
Seus olhares se encontraram sobre o saco de papel. Os olhos dela cuidadosamente inexpressivos.
- Eu no abri a garrafa.
- Que bom. Isso  bom.
- Eu quis abrir. Ainda quero.
Annie fez sinal para o chefe dos garons, depois tirou seu avental. - D uma olhada nas coisas pra mim. Vamos dar uma volta, Andrew.
Ele concordou, mas levou a garrafa junto quando a seguiu at o lado de fora. - Eu entrei numa loja de bebidas. E me senti bem l dentro.
As luzes da rua estavam acesas, brilhando, pequenas ilhas de claridade na escurido. O trfego de final de semana era intenso.
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Msicas variadas, vindas de diferentes estaes de rdio, brigavam atravs das janelas abertas dos carros.
- Eu fui at o parque e sentei num banco perto da fonte. -Andrew passava a garrafa de uma mo para outra, como se para mant-la flexvel. - No havia ningum
em volta. Eu achei que podia dar s uns goles. S o suficiente pra me acalmar.
- Mas voc no fez isso.
- No.
-  difcil. O que voc t fazendo  difcil. E hoje voc fez a escolha certa. Seja o que for, voc no pode acrescentar a bebida ao que est ruim
- Eu vi a Elise.
- Ah.
- Ela veio pra exposio. Eu sabia que ela estava vindo. Mas quando eu vi que ela tava na minha sala, isso me derrubou. Ela tava tentando melhorar as coisas,
mas eu no deixei.
Annie curvou os ombros, enfiou as mos nos bolsos e disse a si mesma que era louca de achar que Andrew tinha alguma chance. Que ela tinha alguma chance. - Voc tem
que fazer o que achar que  certo, nesse caso.
- Eu no sei o que  certo. S sei o que  errado.
Ele voltou ao parque, sentou-se no mesmo banco, a garrafa ao seu lado.
- Eu no posso te dizer o que fazer, Andrew, mas acho que, se no resolver deixar essa histria no passado, ela vai continuar te machucando.
- Eu sei.
- Ela s vai ficar aqui uns dias. Se voc conseguir fazer as pazes com o passado de vocs, e com ela, enquanto ela t aqui, vai ser melhor pra voc. Eu nunca
fiz as pazes com o Buster. Aquele desgraado.
Ela sorriu, esperando que ele fizesse o mesmo, mas Andrew continuou a encar-la com os olhos parados, srios. - Ah, Andrew. -Ela suspirou, desviou o olhar. - O que
eu quis dizer foi que eu nunca
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fiz um esforo pra ser civilizada, e isso ainda me perturba um bocado. Ele no valia o meu sofrimento, Deus sabe, mas ainda me fere. Ele me machucou de muitas maneiras,
e tudo o que eu queria no final era machucar de volta. Mas queria que fosse pior. Claro que isso nunca aconteceu, porque ele no tava nem a.
- Por que voc ficou com ele, Annie?
Ela passou a mo no cabelo. - Porque disse que ficaria. Casar no cartrio na hora do almoo  a mesma coisa que fazer isso numa igreja enorme, vestida de noiva.
- . - Ele apertou a mo dela, que agora segurava a sua. - Eu sei disso. Pode acreditar, eu quis manter os meus. Eu quis provar que podia. Falhar nisso era
o mesmo que dizer que eu no era diferente do meu pai, do pai dele, de qualquer um deles.
- Voc  voc, Andrew.
- Esse  um pensamento assustador.
Como ele precisasse, e ela tambm, Annie se inclinou, encostou seus lbios nos dele. Abriu-os quando ele a abraou. Deixou-o entrar.
Deus a ajude!
Ela podia sentir o desespero, mas ele foi cuidadoso. Ela conhecia muitos homens que no eram cuidadosos. Passou a mo no rosto dele e sentiu a barba por fazer, depois
a suavidade da pele do pescoo.
As necessidades dentro dela eram imensas, e ela tinha medo de que no ajudassem a nenhum dos dois.
- Voc no  como eles. - Ela colou o rosto ao dele antes que o beijo a fragilizasse demais.
- Pelo menos, no hoje. - Ele pegou a garrafa, entregou-a a ela. - Toma. Cem por cento de lucro pra voc.
Sentiu certo alvio ao fazer isso, ele percebeu. Do tipo que um homem sente quando puxa o volante do carro antes de cair num penhasco. - Vou a uma reunio antes
de ir pra casa. - Respirou fundo. - Annie, sobre amanh  noite, se voc mudar de idia e resolver ir, vai ser muito importante pra mim.
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- Andrew, voc sabe que eu no me encaixo com essa gente sofisticada do mundo da arte.
- Voc se encaixa comigo. Sempre se encaixou.
- As noites de sbado sempre tm muito movimento. - Desculpas, pensou. Covarde. - Eu vou pensar. Tenho que ir.
- Eu te trago de volta. - Ele se levantou, pegou a mo dela novamente. - Vem comigo amanh, Annie.
- Vou pensar - ela repetiu, sem nenhuma inteno de faz-lo. A ltima coisa do mundo que queria fazer era competir com Elise.
Captulo Vinte E Sete
Voc precisa sair daqui.
Miranda olhou sobre a mesa, onde estava enterrada num mar de papis, e viu Ryan observando-a da porta. - Neste momento, eu praticamente moro aqui.
- Por que voc acha que tem que fazer tudo sozinha?
Ela girou o lpis entre os dedos. - Tem alguma coisa errada na maneira como as coisas esto sendo feitas?
- No foi isso que eu disse. - Ele foi at ela, apoiou as mos na mesa e inclinou o corpo em sua direo. - Voc no tem que provar nada pra ela.
- Isso no tem nada a ver com a minha me. Eu s quero ter certeza de que a noite de amanh vai ser um sucesso. Tem uma poro de detalhes que preciso organizar.
Ele tomou a dianteira, tirou o lpis da mo dela e partiu-o em dois.
Ela piscou, espantada com a maturidade e a certeza nos olhos dele. - Isso, sim, foi um gesto maduro.
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- Melhor do que fazer a mesma coisa com o seu pescoo.
Se ela tivesse um escudo e o colocasse entre os dois, ele no pareceria uma parede mais intocvel do que a expresso fechada que tinha no rosto.
- No me expulsa. No fica a sentada brincando com uma das suas mil listas como se no existisse nada mais importante pra voc do que o prximo item que
pode ser marcado como resolvido. Eu no sou uma porcaria de item, de tarefa, e sei exatamente o que t se passando dentro de voc.
- No fala grosso comigo.
Ele se virou e encaminhou-se para a porta. Ela esperou que ele sasse de uma vez, que fosse embora, como outros haviam feito. Em vez disso, ele bateu a porta, trancou-a.
Ela tremeu da cabea aos ps.
- Eu no entendo por que voc t com tanta raiva.
- No? Acha que eu no vi a sua cara quando te disse de onde vinha o e-mail? Voc realmente pensa que tem o controle de tudo, dra. Jones, que no d pra ver
o seu estado de devastao?
Isso o estava matando. As complexidades e complicaes dela acabavam com ele. No as queria, pensou com violncia. No queria flagrar-se constantemente lutando para
abrir caminho at ela.
- Mas eu no perdi o controle e tentei matar o mensageiro da m notcia - ela comeou a dizer.
- No usa esse tom de professora primria comigo, no funciona. Eu vi a sua cara quando a sua me chegou. Vi como tudo dentro de voc entrou em compasso de
espera. Espera fria.
Isso foi direto, e doeu. Brutalmente. - Voc me pediu pra aceitar a possibilidade de a minha me ter me usado, me trado, me aterrorizado. De ela estar envolvida
num roubo que j resultou em trs mortes. Voc me pede pra aceitar isso, depois critica a minha maneira de lidar com a informao.
- Eu preferia ter visto voc derrubando a sua me no cho e pedindo uma explicao.
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- Isso pode funcionar na sua famlia. A gente no  to explosivo assim.
- , a sua famlia prefere uma lmina afiada e gelada, do tipo que machuca sem deixar escorrer sangue. Eu vou te dizer, Miranda, uma exploso  mais limpa
no final, e muito mais humana.
- O que  que voc esperava que eu fizesse? Caramba, o qu? Que eu gritasse com ela, jogasse acusaes na cara dela? - Bateu na mesa, fazendo com que papis
cuidadosamente organizados e lpis meticulosamente apontados voassem. - Eu, obrigar a minha me a contar a verdade? A confessar ou negar? Se ela me odeia o suficiente
pra ter feito uma coisa dessas, me odeia o suficiente pra mentir na minha cara.
Ela empurrou a cadeira, que se chocou contra a parede. - Ela nunca me amou. Nunca me fez um gesto gratuito de afeio. Nenhum deles, nem pra mim, nem pro Andrew,
nem um pro outro. Durante minha vida inteira, nenhum deles disse que me amava, nem se deu ao trabalho de fingir, pra eu poder ter essa iluso. Voc no sabe como
 viver sem nunca ter tido colo, ningum dando conselho, mesmo morrendo de vontade de ter isso tudo.
Ela levou as mos  boca do estmago como se sentisse uma dor insuportvel. - Nem sentir uma dor to grande e to profunda, ter que parar de querer pra no morrer.
- No, eu no sei como  - ele disse baixinho. - Me diz.
-  como crescer dentro de uma porcaria de laboratrio, tudo estril, tudo em ordem, documentado, calculado, mas sem a graa da descoberta. Regras, s isso.
Regras de linguagem, conduta, educao. Faz isso assim, e no assado, porque  inaceitvel. No existe outra maneira certa. Quantas dessas regras ela descumpriu,
se tiver feito isso?
Ela arfava, seus olhos brilhavam, os punhos cerrados. Ele observou, escutou e no se moveu nem ergueu a voz. O nico som do ambiente agora era a respirao irregular
dela enquanto olhava para a destruio que causara na sala.
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Assustada, afastou o cabelo do rosto, passou a mo sobre o corao acelerado. Pela primeira vez se deu conta de que lgrimas escorriam sobre seu rosto, to quentes
que poderiam queimar-lhe a pele.
- Era isso que voc queria que eu fizesse?
- Eu queria que voc colocasse pra fora.
- Acho que eu acabei de fazer isso. - Pressionou a testa com os dedos. - Esse tipo de surto me deixa com dor de cabea.
- Isso no foi um surto.
Ela deixou escapar uma gargalhada frgil. - E que nome voc daria?
- Honestidade. - Ele sorriu levemente. - Mesmo no meu campo de trabalho eu tenho uma vaga familiaridade com o conceito. Voc no  fria, Miranda - ele disse
com suavidade. - Voc s tem medo. Voc no  impossvel de amar, s  mal apreciada.
Ela sentiu as lgrimas descerem e ficou quieta enquanto elas inundavam seu rosto. - Eu no quero que a minha me tenha feito isso, Ryan.
Ele foi at Miranda, afastou os dedos dela do rosto e trocou-os pelos seus. - Tem muita chance de a gente conseguir as respostas nos prximos dias. Isso vai acabar.
- Mas eu vou ter que conviver com as respostas.
Ele a levou para casa e convenceu-a a tomar um comprimido para dormir, ir cedo para a cama. O fato de que ele no precisara se esforar para que ela aceitasse somente 
confirmava que ela j deveria estar dormindo
com os anjos quela altura.
Quando teve certeza de que dormia profundamente, e que Andrew se fechara em sua prpria ala da casa, Ryan vestiu a suter escura e o jeans preferidos para suas
invases noturnas.
Enfiou suas ferramentas no bolso, escolheu uma pasta com ala, para o caso de encontrar algo que precisasse transportar na volta.
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Encontrou as chaves de Miranda eficientemente guardadas no bolso lateral de sua bolsa. Saiu rapidamente da casa, entrou no carro dela e ajustou a altura do banco
antes de colocar o automvel em ponto morto e soltar o freio de mo. O veculo desceu lentamente a colina, com os faris desligados.
Ele poderia ter dito que estava sem sono, que pegara o carro para dar uma volta, caso ela ou Andrew ouvissem o barulho do motor. Mas por que mentir sem necessidade?
Esperou at ter passado de um quarto do caminho de descida e ligou a ignio, os faris.
Tocava Puccini no rdio, e, apesar de ele compartilhar a paixo de Miranda pela pera, a msica no se encaixava com seu humor momentneo. Registrou o dial, depois
apertou o boto de busca. Quando ouviu George Thorogood gritando os versos de "Bad to the Bone", sorriu para si mesmo e deixou tocar.
O trfego se avolumava um pouco nas proximidades da cidade. Pessoas indo a festas, ele imaginou, a encontros de final de semana ou para casa, caso o programa no
fosse muito interessante. Ainda no era meia-noite.
Muito diferente da cidade que nunca dorme, pensou.
Dormem cedo, acordam cedo esses ianques, concluiu. Uma gente to admirvel. Parou no estacionamento do hotel, bem longe da entrada. Estava quase certo de que o mesmo
hbito se aplicaria aos visitantes de Florena. As sete horas de diferena podiam ser bastante exaustivas nos primeiros dias.
Ficara no mesmo hotel em sua primeira viagem e conhecia perfeitamente as instalaes. Tambm se preocupara em pegar o nmero dos quartos que pretendia visitar naquela
noite.
Ningum notou sua presena ao cruzar o lobby e caminhar diretamente para os elevadores como se fosse um homem apressado para ir para a cama.
Elizabeth e Elise dividiam um apartamento com dois quartos, na cobertura. Era preciso de chave para liberar a porta do elevador.
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E, como era um homem de viso - e como era um hbito antigo -, guardara uma quando se hospedara ali da outra vez.
No viu nenhuma luz acesa sob as trs portas da sute, no ouviu o som de vozes nem de televiso vindo de dentro.
Entrou no gabinete em apenas dois minutos. Ficou parado, quieto no escuro, escutando, prestando ateno, deixando que seus olhos se ajustassem. Como precauo, destrancou
as portas da varanda, criando uma sada alternativa caso precisasse escapar.
Depois, mos  obra. Deu uma busca no gabinete primeiro, apesar de duvidar que qualquer uma das mulheres pudesse deixar algo vital ou incriminador ali.
No primeiro quarto, foi forado a utilizar uma lanterna discreta, mas manteve-a distante da cama, de onde era capaz de ouvir a respirao suave e regular de uma
mulher. Pegou a pasta e a bolsa, voltou ao gabinete para vasculhar.
Era Elizabeth na cama, percebeu ao remexer a carteira. Tirou tudo das bolsas, revistou cada recibo, cada pedao de papel, leu todas as anotaes da agenda. Encontrou
uma chave exatamente no mesmo lugar em que a filha guardava a sua - dentro do bolso lateral. Uma chave de cofre, percebeu, e guardou-a no prprio bolso.
Checou o passaporte, vendo que os carimbos coincidiam com as datas que seu primo lhe dera. Era a primeira viagem de Elizabeth para os Estados Unidos em mais de um
ano, mas ela fora rapidamente  Frana e  Inglaterra nos ltimos seis meses.
Colocou tudo de volta onde encontrara, menos a chave, e repetiu o processo com a bagagem; depois, revistou o armrio, as gavetas, o ncessaire no banheiro.
Precisou de uma hora at que ficasse satisfeito e se encaminhasse ao outro quarto.
Ele conhecia muito bem a ex-mulher de Andrew quando terminou a busca. Ela gostava de roupas de baixo de seda, e seu perfume era Opium. Apesar de as roupas terem
um estilo conservador, ela
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preferia os designers sofisticados. Gosto requintado requer dinheiro. Ele anotou para checar sua renda.
Ela trouxera trabalho para a viagem, se  que o laptop na sua mesa era uma indicao. O que fazia dela, em sua opinio, uma mulher dedicada ou obsessiva. O contedo
da bolsa e da pasta estava organizado, no havia pedaos de papel nem de embalagens espalhados. A pequena caixa de jias de couro que encontrou continha algumas
boas peas de ouro italiano, algumas pedras bem escolhidas e um medalho antigo que exibia o retrato de um homem de frente para o de uma mulher. Eram em preto e
branco, envelhecidas, e, pelo estilo, imaginou que tivessem sido tiradas por volta dos anos quarenta.
Os avs, sups, e concluiu que Elise tinha uma personalidade emotiva.
Deixou as duas mulheres dormindo e desceu o corredor em direo ao quarto de Richard Hawthorne. Ele tambm dormia profundamente.
Ryan precisou de dez minutos para encontrar o recibo de um guarda-volumes em Florena - o qual guardou no bolso.
Foram necessrios treze minutos para que encontrasse o revlver calibre 38. Neste, ele no mexeu.
Em vinte, localizara uma pequena caderneta de anotaes escondida dentro de uma meia preta. Passando os olhos pelo que estava escrito, com a ajuda da pequena lanterna,
Ryan leu rapidamente trechos a esmo. Seus lbios se contraram num sorriso sombrio.
Guardou a caderneta no bolso e deixou Richard dormir. Seu despertar, pensou ao sair, seria abrupto.
- Espera A, voc t me dizendo que invadiu o quarto da minha me ontem  noite?
- Eu no quebrei nada - ele garantiu a ela. Sentia-se como se estivesse perseguindo Miranda por horas, tentando roubar uma meia hora para que ficassem a ss.
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- O quarto dela?
- Entrei pelo gabinete, se isso te deixa mais confortvel. No fazia o menor sentido ter conseguido colocar todo mundo no mesmo lugar se eu no fosse fazer
alguma coisa com isso. Peguei uma chave de cofre na bolsa dela. Achei estranho ela carregar uma chave dessas numa viagem desse tipo. Mas  de um banco americano.
Um banco no Maine, com agncia em Jones Point.
Miranda sentou-se  escrivaninha, a primeira vez em que no estava de p desde as seis horas daquela manh. Agora era meio-dia e Ryan finalmente conseguira segur-la
durante seu encontro com o florista e oferecer-lhe as opes de ir andando at sua sala ou ser carregada por ele.
- Eu no entendo, Ryan. Por que uma chave de cofre de banco seria importante?
- As pessoas normalmente guardam nesse tipo de lugar as coisas que acham importantes ou valiosas pra elas, e quando no querem que outras pessoas tenham acesso.
De qualquer maneira, vou dar uma checada.
Ele esperou que Miranda abrisse a boca e a fechasse novamente, sem dizer uma palavra. - No achei nada no quarto de Elise, a no ser o laptop dela. Achei estranho
ela trazer o computador numa viagem de quatro dias, se ela vai passar a maior parte do tempo aqui. Vou voltar l e ver se consigo dar uma olhada nele quando ela
no estiver no quarto.
- Ah, isso ia ser bem melhor - ela disse, com um leve aceno de mo.
- Exatamente. Encontrei jias suficientes pra quebrar o pescoo de um elefante no quarto dos Morelli. Aquela mulher tem um vcio srio com tudo que brilha,
e se eu conseguir acesso  conta do Vincente, a gente vai ver o tamanho do buraco que ele precisou abrir pra sustentar esse vcio. Agora, o seu pai...
- Meu pai? Ele s ia chegar depois da meia-noite.
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- Agora que voc t me dizendo isso? Eu quase tropecei nele no hall quando estava indo pro quarto da sua me. Foi bom o pessoal do hotel colocar todo mundo
no mesmo andar.
- A gente reservou os quartos assim - ela murmurou.
- De qualquer maneira, como eu vasculhei os outros quartos antes, deu tempo pra ele se acomodar. Apagou em um segundo. Voc sabia que seu pai esteve nas ilhas
Cayman trs vezes no ano passado?
- Nas ilhas Cayman? - Ela se perguntou se sua cabea no cairia no cho e sairia rolando, de tanto que girava.
-  um lugar muito freqentado. Bom pra mergulhar, pra tomar sol e pra lavar dinheiro. Agora, tudo isso  especulao. Mas eu encontrei ouro no quarto do
Hawthorne.
- Voc teve uma noite bem cheia enquanto eu dormia.
- Voc precisava descansar. Encontrei isto. - Ele pegou um recibo de guarda-volumes no bolso, desdobrou-o. - Ele alugou um espao um dia depois que o bronze
foi levado pra Standjo. Um dia antes de a sua me ligar e chamar voc pra ir pra l. O que foi mesmo que o Andrew disse sobre coincidncias? Que elas no existem?
- As pessoas alugam espaos em guarda-volumes por muitas razes.
- Mas, geralmente, elas no alugam uma garagem pequena fora da cidade se no tm carro. Eu chequei, e ele no tem. E, depois, tem a arma.
- Arma?
- Uma pistola, no me pergunta o modelo. Eu tento evitar armas, mas ela me pareceu bem eficiente.
Preguiosamente, ele tirou a jarra de caf da cafeteira e ficou satisfeito ao ver que o que restava ainda estava fresco. - Acho que tem algo na legislao pra transportar
armas em avies - ele acrescentou enquanto se servia de uma xcara. - Duvido que ele tenha feito tudo direitinho pra trazer essa pistola pra c. E por que um pesquisador
tranqilo, legal, iria precisar de um revlver numa exposio?
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- Eu no sei. O Richard tem uma arma. Isso no faz sentido.
- Eu acho que talvez faa, depois de voc ler isto. - Ele tirou a caderneta de anotaes do bolso. - Eu sei que voc vai querer ler, mas vou te dar os destaques.
Descreve um bronze, noventa centmetros, vinte e quatro quilos e sessenta e oito gramas. Uma mulher nua. D os resultados dos testes feitos no bronze, a data, de
final do sculo quinze, o estilo de Michelangelo.
Ele viu o rosto dela empalidecer, os olhos embaarem e entregou a xcara de caf, que foi imediatamente agarrada pelas duas mos dela. - O primeiro teste foi concludo
s sete horas da noite do dia em que A Senhora Sombria, foi aceita na Standjo. Imagino que o laboratrio feche s oito na maioria dos dias.
- Ele fez os testes por conta prpria.
- Tem uma lista dos testes, com as horas e os resultados. Duas noites de trabalho. E com vrias anotaes de pesquisa. A documentao. Ele achou uma coisa
que voc no descobriu, e no te falou nada. Uma certido antiga de batismo, do Convento de Nossa Senhora da Misericrdia, assinada pela abadessa, de um beb, do
sexo masculino. O nome da me t registrado como Giulietta Buonadoni.
- Ela teve um filho. Eu li que tinha uma criana, possivelmente filho ilegtimo de um dos Mdici. Ela mandou o beb pra longe, provavelmente pra proteo
da prpria criana, j que era uma poca de muita tenso poltica.
- O beb foi batizado com o nome de Michelangelo. - Ele viu quando a idia fez sentido para ela. - Algum pode especular... uma homenagem ao pai.
- Michelangelo nunca teve um filho. Ele era, pelo que se sabe, homossexual.
- Isso no faz com que ele seja incapaz de ter um filho. - Ele encolheu os ombros. - Tambm no significa que a criana era dele, mas apoia a teoria de que
 muito possvel que eles tenham tido um relacionamento ntimo, e se eles tiveram...
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- Isso aumenta a possibilidade de ele ter usado a amante como modelo.
- Exatamente. Hawthorne achou isso importante o suficiente pra registrar na caderneta, e pra esconder de voc. Se eles foram amantes, mesmo que s por um
dia, ou se tiveram um relacionamento platnico e ntimo o suficiente pra ela ter dado o nome dele ao prprio filho, isso favorece a concluso de que ele fez uma
esttua dela.
- No seria uma prova, mas  verdade,  um dado a mais. Fica ainda menos provvel a idia de que ela no tenha posado pra ele, e a gente no tem nenhum documento
de nenhuma outra escultura ou pintura do Michelangelo usando Giulietta como modelo. Ah, isso  bom - ela murmurou, fechando os olhos. - No mnimo como um trampolim,
um sinal pra gente continuar procurando.
- Ele no queria que voc procurasse.
- No, e eu andei bem na linha. Deixei quase toda a pesquisa nas mos dele. Tudo que eu fiz foi a partir das fontes que ele me deu. Ele reconheceu a esttua,
exatamente como eu. Provavelmente logo que colocou os olhos nela.
- Eu diria que essa  uma concluso bastante apurada, dra. Jones.
Ela conseguia ver o sentido agora, a lgica e os passos. - O Richard roubou o bronze e fez a cpia. E o Davi... ele deve ter roubado o Davi tambm. - Sua mo cerrada
pressionou o peito. - Ele matou o Giovanni.
- No seria uma prova - Ryan disse, colocando a caderneta na mesa dela -, mas  um dado a mais.
- A gente precisa levar isso pra polcia.
- Ainda no. - Ele colocou a mo sobre a caderneta, antes que ela pudesse peg-la. - Eu teria mais... confiana no resultado se a gente estivesse com os bronzes
na mo antes de falar com a polcia. Eu vou pra Florena amanh, vou dar uma olhada nessa garagem.
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Se eles no estiverem l, vo estar no apartamento dele, ou o registro de onde eles esto vai estar l.
- Ele tem que pagar pelo que fez com o Giovanni.
- Ele vai. Vai pagar por tudo. Eu preciso de quarenta e oito horas, Miranda. A gente j chegou at aqui.
Ela comprimiu os lbios. - Eu no perdi de vista o que isso pode fazer com a minha carreira, nem o que pode significar para o mundo da arte. E eu sei que a gente
fez um trato. Mas estou te pedindo agora pra concordar, pra prometer, que a justia pelo que aconteceu com o Giovanni venha em primeiro lugar.
- Se o Hawthorne for o responsvel pela morte do Giovanni, ele vai pagar. Eu te prometo isso.
- Tudo bem. A gente espera at voc voltar de Florena pra ir  polcia. Mas, hoje  noite, como a gente vai conseguir suportar hoje  noite? Ele vai estar
l. Ele t aqui.
- Hoje  noite vai ser tudo como combinado. Voc vai receber centenas de pessoas - ele continuou, antes que ela pudesse protestar. - T tudo organizado. Voc
s precisa ir com a corrente. O instituto e as minhas galerias esto muito envolvidos pra gente recuar. Voc t completamente envolvida. E a gente no sabe se ele
agiu sozinho.
Ela passou as mos pelos braos. - Ainda pode ser a minha me. Qualquer um deles.
No havia nada que ele pudesse fazer quanto ao olhar assustado no rosto dela. - Voc tem que agentar firme, Miranda.
- Eu pretendo fazer isso. - Ela deixou as mos carem. - Eu vou fazer isso.
- O Hawthorne cometeu um erro. Agora, a gente vai ver se ele, ou algum mais, comete outro. Quando eu tiver os bronzes, a gente entrega o Richard pra polcia.
Eu tenho a impresso de que ele no vai querer se enforcar sozinho.
Ela deu um pulo. - Enforcar?
-  uma expresso.
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- Mas... cadeia ou alguma coisa pior.  isso que vai acontecer. Anos, talvez a vida inteira na priso, ou... Se for algum da minha famlia, se for um deles,
Ryan, eu no vou conseguir. No, no vou conseguir fazer isso. Eu me enganei.
- Miranda... - Ele buscou as mos dela, mas Miranda as puxou, em pnico.
- No, no, desculpe. No, isso no t certo, eu sei que no  certo. O Giovanni, e aquele pobre homem com mulher e filhos, mas... se a gente descobrir que
 um deles, eu no sei se sou capaz de viver sabendo que ajudei a colocar algum da minha famlia atrs das grades.
- S um segundo, caramba. - Ele a segurou antes que ela pudesse escapulir, surpreendendo-os com a exploso rpida e eficiente. - O responsvel por isso tudo
colocou a sua vida em risco. Eu quero que eles paguem por isso, tambm.
- No, a minha vida, no. A minha reputao, um momento importante da minha carreira.
- Quem contratou o desgraado que te aterrorizou com uma faca? Quem anda mandando os fax pra te assustar, te machucar?
- Deve ter sido o Richard. - O sofrimento fazia com que seus olhos lacrimejassem. - E se no foi ele, eu no posso ser responsvel por mandar algum da minha
famlia pra cadeia.
- Qual  a alternativa? Eles sarem ilesos? Deixar A Senhora Sombria onde ela t, destruir essa caderneta, esquecer o que aconteceu?
- Eu no sei. Mas eu tambm preciso de tempo. Voc me pediu quarenta e oito horas. Estou te pedindo a mesma coisa. Tem que existir um meio-termo. Em algum
lugar.
- Eu acho que no existe. - Ele pegou a caderneta, colocou-a na palma da mo como se quisesse sopes-la. Depois estendeu a mo. - Toma. Voc fica com ela.
Ela olhou para a caderneta, pegando-a com cautela, como se a capa de couro pudesse queim-la. - Como  que eu vou agentar o resto do dia? At amanh?
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- Com essa sua firmeza ianque? Voc vai ficar bem. Eu vou estar do seu lado. Ns dois estamos nisso juntos.
Ela concordou, colocou a caderneta numa gaveta e trancou-a. Quarenta e oito horas, pensou. Era todo o tempo que tinha para decidir se tornava o contedo daquela
caderneta pblico ou se a queimava.
VAI SER PERFEITO. EU SEI EXATAMENTE COMO TUDO VAI FUN-cionar, agora. Est tudo em ordem. Miranda colocou tudo em ordem para mim. Todas aquelas pessoas vo estar
l, admirando a grande arte, bebendo champanhe, enfiando todos aqueles canaps sofisticados na boca. Ela vai estar entre eles, graciosa e tranqila. A brilhante
dra. Jones. A perfeita dra. Jones.
A condenada dra. Jones.
Ela vai ser o prprio centro das atenes, vai receber todos os cumprimentos. Uma exposio brilhante, Dra. Jones. Um evento glorioso. Ah, sim, eles vo dizer isso,
vo pensar isso, e os erros que ela cometeu, o constrangimento que causou vai sumir. Como se todo o meu trabalho no valesse nada.
A estrela dela est subindo novamente.
Mas, hoje  noite, ela cai.
Eu planejei a minha prpria exposio pra esta noite, e a minha vai ofuscar a dela. Eu a intitulei de Morte de uma Traidora.
Acho que as crticas vo ser bastante significativas.
Captulo Vinte E Oito
Ningum sabia que o estmago dela dava voltas, provocando calafrios que pareciam pontadas geladas. Suas mos estavam frias e firmes, seu sorriso, fcil. Por dentro,
tremia a cada passo, claudicava em qualquer conversa. Mas o escudo estava levantado, a inabalvel dra. Jones, impassvel.
Escolhera vestir um longo azul-marinho de gola alta e mangas compridas de punhos estreitos. Estava grata pelo quanto de seu corpo a roupa cobria, porque sentia frio,
muito frio. No sentira um s vestgio de calor desde que Ryan lhe entregara a caderneta.
Observou a me, elegante como uma imperatriz em seu vestido de gala rosa-claro, comunicando-se com o pblico - um toque num brao aqui, uma mo estendida ou face
oferecida ali. Sempre sabendo a coisa certa a dizer na hora certa  pessoa certa.
O marido estava ao seu lado, claro, esplndido em seu smoking, o aventureiro viajado com ares interessantes de intelectual. Como eram bonitos juntos, como pareciam
perfeitos, os Jones de Jones
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Point. Nenhuma mancha escurecendo o polimento. E nenhuma mcula por trs do brilho.
Como trabalhavam bem em equipe quando queriam faz-lo, ela pensou. Fariam escolhas em nome do instituto, da arte, da reputao dos Jones, como jamais haviam feito
em nome da famlia.
Ela queria odi-los por isso, mas pensou na caderneta e tudo que sentiu foi medo.
Afastou-se deles e cruzou o corredor.
- Voc devia estar num desses quadros ali atrs. - Ryan pegou a mo dela e girou-a minutos antes que se aproximasse de outro pequeno grupo. - Voc t absolutamente
linda.
- Estou absolutamente apavorada. - Depois riu ligeiramente, dando-se conta de que poucos meses antes no teria sido capaz de dizer a ningum o que sentia.
- Eu sempre fico quando tem muita gente.
- Ento vamos fingir que somos s voc e eu. Mas falta uma coisa. Voc precisa de champanhe.
- Vou ficar s na gua hoje.
- Uma taa, um brinde. - Ele entregou uma das taas que pegara na bandeja de um garom a ela. - Aos resultados altamente positivos do nosso trabalho, dra.
Jones.
- T difcil aproveitar.
- Se deixa levar pelo momento - ele lembrou a ela. - Este  um bom momento. - Encostou levemente os lbios nos dela .- Acho a sua timidez um charme - murmurou
no ouvido dela, causando mais que um simples arquear de sobrancelhas. - E a sua habilidade em mascarar essa timidez  admirvel.
As nuvens em seus olhos se dissiparam. - Voc nasceu com esse talento ou foi desenvolvendo aos poucos?
- Qual deles? Eu tenho tantos.
- O talento de saber exatamente o que dizer na hora certa.
- Talvez eu saiba o que voc precisa ouvir. Tem uma pista de dana no salo principal. Voc nunca danou comigo.
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- Eu sou pssima danarina.
- Talvez voc nunca tenha sido conduzida da maneira apropriada. - O comentrio fez com que ela levantasse as sobrancelhas, com ligeiro desdm. - Vamos descobrir
agora.
Ele manteve a mo nas costas dela enquanto passavam pelos grupos de pessoas. Tambm sabia como lidar com o pblico, ela percebeu. Como encantar com poucas palavras
e seguir adiante. Ela pde ouvir os acordes distantes de uma valsa - piano e violino -, o murmrio das conversas, a excitao ocasional de uma gargalhada.
O salo principal estava decorado com vinhas e vasos de plantas, todos enfeitados com pequenas lmpadas que pareciam estrelas. Lrios brancos, perfumados, e rosas
despontavam em vasos envoltos por laos dourados. Cada gota do lustre antigo fora limpa a mo em vinagre para brilhar com sua chuva de cristais.
Casais circulavam ou bebiam vinho aqui e ali, belas figuras em seus trajes de festa. Outros se juntavam de p pela escadaria ou sentavam-se nas cadeiras que ela
revestira em tons de damasco.
Foi parada e cumprimentada pelo menos uma dzia de vezes. Se houve algum murmrio ocasional a respeito do Bronze Fiesole, as pessoas foram em geral discretas o suficiente
para esperar que ela estivesse fora do alcance de suas vozes.
- Olha ali a sra. Collingsforth. - Miranda sinalizou na direo de uma mulher de incrveis cabelos brancos, vestida de gala em veludo marrom.
- Da Portland Collingsforths?
- . Quero garantir que ela fique absolutamente confortvel e seja bem servida. E quero que vocs se conheam. Ela  f de homens jovens e atraentes.
Miranda andou no ritmo da msica at o local onde a viva estava sentada. - Sra. Collingsforth, espero que a senhora esteja se divertindo.
- A msica est tima - ela disse, e sua voz soou como o grito de um corvo. - Boa iluminao. J era tempo de voc dar uma
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energizada aqui. Lugares onde se guarda arte no precisam ser sem vida. A arte  viva. No devia ser armazenada como um cadver. E quem  ele?
- Ryan Boldari. - Ele inclinou o corpo para pegar-lhe a mo e beijar-lhe as juntas dos dedos. - Pedi a Miranda que nos apresentasse, sra. Collingsforth. Queria
agradecer pessoalmente a generosidade de emprestar ao instituto tantas peas maravilhosas da sua coleo pessoal. A senhora fez a exposio.
- Se essa moa desse mais festas, em vez de se enterrar num laboratrio, eu as teria emprestado antes.
- No posso estar mais de acordo. - Ele sorriu para a sra. Collingsforth, fazendo com que Miranda se sentisse suprflua. -A arte precisa ser celebrada, e
no simplesmente estudada.
- Ela vive grudada num microscpio.
- Onde muitas vezes se perde a perspectiva.
A sra. Collingsforth estreitou os olhos, contraiu os lbios.
- Gostei de voc.
- Obrigado. E pergunto se poderia convid-la para uma dana.
- Bem - seus olhos brilharam -, eu gostaria disso, sr. Boldari.
- Por favor, me chame de Ryan - ele pediu enquanto a ajudava a se levantar. Lanou um sorriso maroto a Miranda por cima do ombro e guiou a sra. Collingsforth
em direo  msica.
- Quanta polidez - Andrew murmurou, na altura do pescoo da irm.
- Um tampo de mesa encerado. No sei como ele no escorrega e quebra o prprio nariz. - Como ainda tinha uma taa de champanhe na mo, deu um gole. - Voc
conheceu a famlia dele?
- T brincando? Acho que todo mundo aqui  parente dele. A me me imprensou querendo saber se a gente nunca tinha pensado em dar aulas de arte pra crianas
aqui, e por que no, e perguntou se a gente no gostava de criana. E, antes de eu conseguir abrir a boca, ela me apresentou a uma psicloga infantil, solteira -
Andrew acrescentou. - Ela  tima.
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- A psicloga?
- No... Bem, ela me pareceu legal e ficou quase to confusa quanto eu fiquei. A me do Ryan. Ela  tima. - Suas mos entravam e saam dos bolsos, seguravam
o corrimo da escada, ajeitavam a gravata.
Miranda segurou uma delas e a apertou. - Eu sei que isso  difcil pra voc. Toda essa gente... a Elise.
-  uma espcie de teste de fogo. Elise, nossos pais, eu e garrafas de bebida de graa em toda parte. - Ele olhou novamente para a entrada. Annie no viera.
- Voc tem que ficar ocupado. Quer danar?
- Eu e voc? - Ele olhou para ela, surpreso, depois se derreteu numa gargalhada franca e fcil. - A gente ia acabar parando numa emergncia de hospital com
os dedos do p quebrados.
- Eu corro o risco, se voc quiser.
A gargalhada de Andrew tornou-se um sorriso meigo.
- Miranda, voc sempre foi um ponto alto na minha vida. Eu t bem. Vamos ficar aqui mesmo, observando as pessoas que sabem o que esto fazendo.
Depois, seu sorriso endureceu. Miranda no precisou desviar o olhar para saber que ele vira Elise.
Ela foi at eles, uma fadinha suave e insinuante num branco transparente. Mesmo que Miranda se ressentisse, viu o nervosismo nos olhos de Elise.
- Eu s queria dar os parabns, aos dois, pelo sucesso desta exposio maravilhosa. Todo mundo est encantado. Vocs fizeram um trabalho fabuloso para o instituto
e pra toda a organizao.
- A gente teve muita ajuda - Miranda disse. - A equipe trabalhou muitas horas pra colocar isso de p.
- No podia ter ficado mais perfeito, Andrew. - Ela parecia respirar com dificuldade. - Eu queria me desculpar por dificultar as coisas. Sei que o fato de
eu estar aqui  estranho pra voc. No vou ficar muito tempo, hoje, e resolvi voltar pra Florena amanh.
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- Voc no precisa mudar seus planos por minha causa.
-  por mim, tambm. - Ela olhou para Miranda e esforou-se para sorrir. - Eu no queria ir embora sem dizer o quanto admiro o que vocs fizeram aqui. Seus
pais devem estar extremamente orgulhosos.
Miranda arregalou os olhos, antes que pudesse se controlar.
- Meus pais?
- , a Elizabeth acabou de dizer que...
- Annie. - Andrew disse o nome dela quase como uma orao, e Elise parou de falar para olhar para ele. - Licena.
Ele se afastou, caminhou em direo a ela. Annie parecia perdida num mar de gente, ele pensou. E to adorvel, com seu cabelo lustroso. O vestido vermelho brilhava
como uma labareda, dava vida e calor a todo aquele preto sbrio e conservador.
- Estou to feliz que voc veio.
- Eu no sei por que eu vim. J t me sentindo ridcula. - O vestido era curto demais, ela pensou. Vermelho demais. Tudo demais. Seus brincos de loja de departamentos
pareciam lustres baratos, e que dinheiro tinha para comprar sapatos com presilhas de rinoceronte? Ela devia estar parecendo uma vagabunda de beira de estrada.
- Estou to feliz que voc t aqui - ele repetiu, e, ignorando as sobrancelhas arqueadas, beijou-a.
- Acho que eu simplesmente devia pegar uma bandeja e sair servindo drinques. Eu me encaixaria muito melhor no cenrio.
- Voc se encaixa perfeitamente. Vem comigo falar com a Miranda. - Mas, quando ele se virou, seu olhar encontrou o de Elise. Ela permanecia exatamente onde
a deixara. Viu Miranda tocar-lhe o brao, murmurar algo, mas Elise simplesmente balanou a cabea e afastou-se apressada.
- Parece que a sua mulher ficou chateada - Annie comentou, deixando escapar a acidez que sentia na boca do estmago.
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- Ex-mulher - Andrew lembrou a ela, grato por ver que Miranda vinha na direo deles.
- Annie, to bom ver voc aqui. Agora entendi quem o Andrew tava procurando a noite toda.
- Eu no vinha.
- Que bom que voc mudou de idia. - Era raro Miranda seguir um impulso, mas o fazia agora ao inclinar o corpo e beijar o rosto de Annie. - Ele precisa de
voc - ela sussurrou, depois aprumou-se com um sorriso. - T vendo umas pessoas que voc vai gostar de conhecer. Andrew, por que voc no apresenta a Annie pros
pais do Ryan?
Ele seguiu a direo do gesto indicativo da irm e sorriu. - Boa idia, obrigado. Vem, Annie, voc vai amar esse pessoal.
Sossegou o corao de Miranda ver aquele brilho nos olhos de Andrew. Levantou seu astral, tanto que permitiu que Ryan a tirasse para danar.
Quando viu Richard, o nariz grudado num quadro da Sagrada Famlia, os olhos intensos por trs dos culos, ela simplesmente deu as costas.
Aceitaria o conselho de Ryan - desta vez - e viveria o momento.
Pensava em tomar mais uma taa de champanhe e aceitar mais uma dana quando Elizabeth a encontrou. - Miranda, voc est negligenciando suas obrigaes. Falei com
vrias pessoas que me disseram no ter conseguido trocar duas palavras com voc. A exposio no  tudo, voc tem que ir at o fim.
- Claro, voc tem razo. - Entregou o champanhe para a me, sem dar um gole sequer, e seus olhares se encontraram por um longo momento. - Vou fazer a minha
obrigao. O que tem que .ser feito pelo instituto. - Deu um passo para trs.
No, deu-se conta, tambm faria o que precisava ser feito por si mesma. - Voc deveria ter dito pra mim, bastava dizer uma vez,
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hoje  noite, que eu fiz um bom trabalho. Mas acho que as palavras teriam ficado presas na sua garganta.
Ela se virou e subiu a escada para juntar-se aos convidados no segundo andar.
- Algum problema, Elizabeth?
Ela olhou rapidamente para o marido, que chegava ao seu lado, depois voltou a olhar para Miranda. - Eu no sei. Mas acho que vou ter que descobrir.
- O senador Lamb queria ver voc. Ele  um grande patrocinador do fundo.
- Eu sei quem ele  - disse num tom um tanto cido. Deli-beradamente, suavizou a voz: - Vou ter o maior prazer em falar com o senador.
Depois, pensou, lidaria com Miranda.
Ela perdeu Ryan de vista e imaginou que Andrew estivesse
dando conforto a Annie junto aos Boldari. Por uma hora, Miranda concentrou-se em seu papel de anfitri. Quando finalmente escapuliu at o banheiro feminino,
ficou feliz em ver que estava vazio.
Gente demais, ela pensou, apoiando-se por um momento na bancada da pia. Ela simplesmente no era boa com tanta gente. Conversas, bate-papos, piadas sem graa. Seu
rosto estava rijo de tanto sustentar sorrisos.
Depois, recomps-se. No tinha do que reclamar. Tudo estava perfeito. A exposio, a festa, a imprensa, a resposta. Tudo em seu devido lugar para reconstituir as
fissuras em sua reputao.
Ela deveria estar grata por isso. Deveria estar grata por isso se soubesse o que fazer depois.
Decises ficariam para amanh, lembrou a si mesma. Amanh, depois de confrontar a me. Essa era a nica resposta, decidiu. A nica atitude lgica. Era hora de as
duas ficarem cara a cara.
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E se a me fosse culpada? Se fizesse parte da conspirao de roubo e assassinato?
Sacudiu a cabea. Amanh, pensou novamente, e levou a mo  bolsa em busca do batom.
O barulho de uma exploso fez com que sua mo escorregasse. O tubinho dourado do batom caiu sobre a bancada. Seus olhos, fixos nos seus gmeos de espelho, arregalaram-se,
em choque.
Tiros? Impossvel.
Mesmo que a negao percorresse seu ser, ouvira o grito alto e assustador de uma mulher.
Correu para a porta, puxando a bolsa da bancada e espalhando seu contedo.
Do lado de fora, pessoas gritavam, algumas corriam. Ela abriu caminho, usando as mos e os cotovelos. Livrou-se e correu para a escada exatamente no momento em que
Ryan chegava do primeiro piso.
- Veio... veio l de cima.
- Fica a.
Ele deveria ter poupado o esforo. Ela suspendeu a saia e foi atrs dele. Ryan arrancou a corda de veludo que bloqueava o terceiro andar, o dos escritrios, separando-o
da rea da festa.
- Voc olha daquele lado. Eu vou...
- Mas no vai mesmo. Se voc no quer ficar quieta a, melhor vir comigo. - Ele segurou a mo dela com firmeza, fazendo o possvel para proteg-la com o prprio
corpo enquanto cruzavam o corredor.
Outros passos soaram na escada atrs deles. Andrew pulou os trs ltimos degraus. - Foi um tiro. Miranda, desce. Annie, vai com ela.
- No.
Como nenhuma das mulheres parecia querer escutar, Ryan gesticulou  sua esquerda. - Vocs olham daquele lado. A gente vai por aqui. Quem quer que tenha atirado j
deve estar bem longe -
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ele disse enquanto abria cuidadosamente a porta. - Mas voc fica atrs de mim.
- Por qu? Voc   prova de bala? - Ela tateou a parede debaixo do brao dele e acendeu a luz. Ele a empurrou para trs e entrou na sala para dar uma olhada
rapidamente. Estava vazia, e ele, satisfeito, deixou-a entrar.
- Fica aqui. Tranca a porta e chama a polcia.
- Eu vou chamar a polcia quando souber o que dizer. - Empurrou-o com o cotovelo e cruzou o corredor at a prxima sala.
Ele puxou o brao dela com fora. - Tenta ser um alvo menos fcil, dra. Jones.
Caminharam at que ele visse uma luz branda vindo de baixo da porta da sala dela. - Voc trocou de roupa pra festa aqui. Lembra se deixou as luzes acesas?
- No, no deixei. E a porta devia estar trancada. E no t nem totalmente fechada.
- Tira os sapatos.
- No entendi.
- Tira os sapatos - ele repetiu. - Eu quero que voc possa correr se precisar, sem quebrar o tornozelo com esse salto.
Sem dizer nada, ela se apoiou nele para tirar os sapatos. Devia ser uma viso engraada, ela pensou, ele segurando um dos ps do sapato como se fosse uma arma enquanto
se aproximavam da porta.
Mas sua mo estava suada dentro da dele, e ela no conseguiu enxergar o humor.
Ele se encaminhou para a lateral da porta, cutucou-a. A porta se abriu dois centmetros e encontrou um obstculo. Mais uma vez, Miranda acendeu a luz sob o brao
de Ryan.
- Meu Deus!
Ela reconheceu a parte inferior do vestido branco, o brilho suave dos sapatos prateados. Ajoelhou-se e empurrou a porta com o cotovelo, at que pudesse espremer-se
para entrar.
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Elise estava cada, conto rei da, de barriga para baixo. Um rastro de sangue escorria de um ferimento na base de sua cabea, descia pela face plida. - Ela t viva
- Miranda disse rapidamente ao pressionar com os dedos o pescoo de Elise e sentir-lhe a pulsao frgil. - Ela t viva. Chama uma ambulncia. Rpido.
- Toma. - Ele enfiou um leno na mo dela. - Pressiona o ferimento. V se voc consegue parar o sangramento.
- Anda rpido. - Ela dobrou o leno, tentando fazer com que ficasse mais grosso, e pressionou o pescoo de Elise. Seu olhar percorreu a sala e pousou sobre
o bronze da Vnus que mantinha no escritrio. Uma cpia do Donatello que Ryan cobiava.
Outro bronze, pensou com pesar. Mais uma cpia. Mais uma vtima.
- Miranda, o que... - Andrew empurrou a porta, depois parou bruscamente. - Jesus. Meu Jesus, Elise. - Ele se ajoelhou, tateando o ferimento, o rosto dela.
- Ela est morta? Meu Deus do cu!
- No, ela t viva. O Ryan foi chamar uma ambulncia. Me d o seu leno. Eu acho que no  um ferimento profundo, mas preciso estancar o sangramento.
- Ela precisa de uma coberta. Voc tem uma manta? Toalha? - Annie se manifestou. - Ela precisa ficar aquecida, se estiver em choque.
- Na minha sala. L tem uma manta. Basta seguir o corredor.
Annie passou rapidamente por cima de Andrew.
- Eu acho que a gente tem que virar ela pra cima. - Miranda pressionava o leno com firmeza. - Pra ter certeza de que no tem outro ferimento. Voc consegue
fazer isso, Andrew?
- Consigo. - Sua mente congelara. Ele estendeu os braos cuidadosamente e segurou o pescoo de Elise enquanto a girava. Os olhos dela reviraram. - Acho que
ela t voltando a si. Eu no t vendo sangue em nenhum outro lugar, fora o ferimento na cabea.
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- Ele passou gentilmente o dedo sobre um hematoma que se formava na testa dela. - Ela deve ter batido a cabea ali quando caiu.
- Miranda. - Annie entrou na sala. Seus olhos estavam sombrios, a voz fraca. - Ryan t te chamando. Eu e o Andrew tomamos conta dela.
- Ok. Tenta faz-la ficar calma, se acordar. - Levantou-se e parou quando Annie deu um aperto em seu brao.
- Se prepara - ela murmurou, depois moveu-se para cobrir Elise com a manta. - Ela vai ficar bem, Andrew. A ambulncia j t a caminho.
Miranda entrou em sua sala. Uma ambulncia no seria suficiente, pensou, zonza. Dois lenos no estancariam todo o sangue.
Ele estava empoado em sua mesa, pingando e ensopando seu tapete. Gotas manchavam o vidro da janela como uma chuva vermelha e pegajosa.
Em sua mesa, deitado de costas, o vermelho se espalhando pela camisa branca, estava Richard Hawthorne.
A segurana mantinha a imprensa e os curiosos longe do terceiro andar. Quando a equipe de homicdios chegou, o lugar j fora isolado, e Elise j estava a caminho 
do
hospital.
Miranda deps vrias vezes, refazendo cada passo. E mentindo. Mentir, pensou, vulnervel, estava se tornando uma segunda natureza.
No, ela no fazia a menor idia do motivo para Richard ou Elise terem estado em sua sala. No, ela no sabia por que algum o mataria. Quando finalmente lhe disseram
que podia ir embora, desceu as escadas, as pernas parecendo-lhe frgeis como vidro.
Annie estava sentada no primeiro degrau, abraando os cotovelos.
- Eles no vo deixar voc ir embora, Annie?
- Vo. Disseram que terminaram comigo, por enquanto.
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Miranda olhou em direo aos guardas protegendo os corredores, os policiais espalhados pelo hall. E sentou-se ao lado de Annie.
- Tambm no sei o que fazer. Acho que eles ainda esto falando com o Ryan. No vi o Andrew.
- Eles deixaram o Andrew ir com a Elise pro hospital.
- Ah. Ele deve ter achado que era a coisa mais certa.
- Ele ainda ama a ex-mulher.
- Eu acho que no.
- Ele ainda t preso a ela, Miranda. Por que no estaria? - Depois, pressionou com as mos as laterais da cabea. - E eu t louca, com vergonha, com raiva
de estar me preocupando com isso quando um homem levou um tiro e a Elise t ferida.
- Voc no pode controlar seus sentimentos o tempo todo. Eu no acreditava nisso, mas agora sei que  verdade.
- E eu estava acostumada a gerenciar bem os meus. - Ela fungou, esfregou o rosto com as mos, depois se levantou. - Melhor eu ir pra casa.
- Espera o Ryan, Annie. A gente te leva.
- Est tudo bem. O meu calhambeque est a fora. Eu t bem. Fala pro Andrew que eu espero que a Elise fique boa, e... que a gente se fala.
- Annie, eu realmente acredito no que disse mais cedo. Ele precisa de voc.
Annie tirou os brincos, esfregou as orelhas. - Ele precisa contar consigo mesmo. Precisa saber quem ele  e o que quer. Eu no posso ajudar nisso, Miranda, nem voc.
Ela no parecia ajudar ningum, Miranda pensou quando ficou s, encarando as prprias mos. Nada que tocara, nada que fizera nos ltimos meses resultara em algo
que no fosse um desastre.
Olhou por cima do ombro ao ouvir passos na escada. Ryan desceu, passou por ela, depois, sem dizer nada, ajudou-a a se levantar e abraou-a.
- Meu Deus, meu Deus, Ryan. Quantos mais?
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- Shh. - Ele acariciou as costas dela. - Era a arma dele mesmo - murmurou no ouvido dela. - A mesma que eu encontrei no quarto. Algum atirou no desgraado
com a arma dele. No tem nada que voc pudesse ter feito.
- Nada que eu pudesse ter feito. - Ela disse isso exausta, mas afastou-se para ficar de p sozinha. - Eu quero ir at o hospital, saber da Elise. O Andrew
t l. No  bom ele ficar s.
Ele no estava s. Miranda se surpreendeu ao ver a me
na sala de espera, olhando pela janela, um copo de caf na mo.
Andrew parou de andar de um lado para outro quando ela chegou, depois balanou a cabea e voltou a andar.
- J deram alguma notcia?
- Eles conseguiram estabilizar o quadro dela na emergncia. Fizeram radiografias, exames, mas ainda no vieram falar dos resultados. O mdico encarregado
pensou em concusso, mas eles querem fazer uma tomografia pra descartar a possibilidade de algum dano cerebral. Ela ficou desacordada por muito tempo. Perdeu muito
sangue.
Parte do sangue, ele pensou, manchava o vestido de Miranda.
- Voc devia ir pra casa - Andrew disse. - Ryan, leva ela pra casa.
- Eu vou ficar com voc, assim como voc ficaria comigo.
- Tudo bem, tudo bem. - Ele apoiou sua testa na dela. Ficaram juntos enquanto Elizabeth os estudava. Quando ela percebeu que Ryan a observava, suas faces
ruborizaram levemente.
- Tem caf. No est fresco nem bom, mas est bem quente.
- No. - Miranda se afastou de Andrew, deu um passo  frente. - Cad o papai?
- Eu... no sei. Acho que ele voltou pro hotel. No tinha nada que ele pudesse fazer aqui.
- Mas voc t aqui. A gente precisa conversar.
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- Com licena. Dra. Jones?
Os trs Jones se viraram, fazendo com que Cook contorcesse os lbios. - Acho que isso  um bocado confuso.
- Detetive Cook. - Miranda sentiu imediatamente um frio na boca do estmago. - Espero que voc no esteja doente.
- Doente? Ah, no, no... hospital, doente... No. Eu vim pra falar com a dra. Warfield quando os mdicos liberarem.
- Com a Elise? - Confuso, Andrew balanou a cabea. - Achei que o seu departamento cuidava de roubos. Ningum foi roubado.
-s vezes essas coisas esto ligadas. Os rapazes do departamento de homicdios vo falar com ela. Vai ser uma noite longa. Talvez voc possa me dizer alguma coisa,
me dar uma idia mais clara antes de eu falar com a dra. Warfield.
- Detetive... Cook,  isso? - Elizabeth se adiantou. -  realmente necessrio fazer um interrogatrio numa sala de espera de hospital enquanto a gente aguarda
os resultados dos exames, com toda essa tenso?
- Desculpe pelo seu estresse, madame. Dra. Jones.
- Standford-Jones.
- Exato. Elizabeth Standford-Jones. A senhora  a patroa da vtima.
- Isso. Tanto Richard quanto Elise trabalham comigo em Florena. Trabalhavam comigo - ela emendou, com uma ligeira mudana de cor. - Richard trabalhava pra
mim.
- O que ele fazia?
- Basicamente pesquisa. O Richard era um historiador da arte brilhante. Era uma fonte de informao e de dados; mais ainda, ele entendia o esprito do trabalho
que estava pesquisando. Era inestimvel.
- E a dra. Warfield?
- Ela  diretora do meu laboratrio em Florena.  capaz, eficiente e uma cientista confivel.
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- Ela j foi sua nora.
O olhar de Elizabeth no se alterou, nem mesmo se desviou
na direo ao filho. - Isso. E ns mantivemos um bom relacionamento.
- Que bom! Na maioria das vezes, as ex-sogras tendem a culpar as esposas dos filhos pelos problemas. No h muitas que conseguem trabalhar juntas por a...
mantendo uma boa relao.
- Ns duas somos profissionais, detetive. E eu no permito que dificuldades familiares interfiram no meu trabalho, ou na minha opinio sobre um indivduo.
Eu gosto bastante da Elise.
- No havia nada entre ela e o Hawthorne?
- Entre? - Isso foi dito com uma frieza to desagradvel que a temperatura pareceu despencar. - O que o senhor est sugerindo  degradante, aviltante e inapropriado!
- Eu tenho informao de que os dois eram adultos e solteiros. No tenho a inteno de insultar ningum perguntando se eles estavam envolvidos. Os dois estavam
juntos no terceiro andar. A festa era l embaixo.
- Eu no fao a menor idia do que eles faziam no escritrio da Miranda, mas obviamente no estavam sozinhos. - Ela passou por ele quando um mdico de avental
verde transps a porta. - Elise?
- Ela est bem - ele lhes informou. - Uma concusso sria, um pouco de desorientao, mas pela tomografia est tudo bem, ela se encontra estvel.
Elizabeth fechou os olhos, a respirao irregular. - Gostaria de v-la.
- Eu deixei a polcia entrar. Eles queriam fazer perguntas, assim que fosse possvel, e ela concordou. Ficou um pouco agitada quando sugeri que esperasse
at amanh. Me pareceu que ela ficaria mais tranqila se falasse com eles ainda hoje.
- Eu vou querer um tempinho com ela. - Cook mostrou o distintivo, depois fez um sinal de anuncia para Elizabeth e Andrew. - Eu espero. Tenho bastante tempo.
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Esperou mais de uma hora, e no a teria visto se ela, mais uma vez, no insistisse em dar seu depoimento.
Cook deparou com uma mulher frgil, ferida levemente na tmpora direita, um forte hematoma que se espalhava na direo do olho.
Mas as falhas contribuam para aumentar-lhe a beleza. O cabelo escuro estava escondido por bandagens. Ele sabia que a pancada fora na parte de trs da cabea, e
que sangrara profusamente. Imaginou que lhe haviam raspado parte do cabelo brilhante para dar os pontos. Era uma pena.
- O senhor  o detetive... Desculpe, no consigo lembrar do nome que me deram.
- Cook. Agradeo por voc aceitar falar comigo.
- Eu quero ajudar. - Ela gemeu ao mudar de posio, fazendo com que uma dor irradiasse pela sua cabea. - Eles vo me drogar daqui a pouco. No vou conseguir
pensar com clareza depois disso.
- Vou tentar ser rpido. Se importa se eu sentar aqui?
- No, por favor. - Ela olhou para o teto como se buscando concentrar-se em algo que no fosse a dor. - Toda vez que eu comeo a falar, acho que  um pesadelo.
Que no aconteceu de verdade.
- Voc consegue me dizer o que aconteceu? Tudo que voc lembra?
- Richard. Ele atirou no Richard.
- Eu nem sei dizer, no com certeza. Eu no vi. Eu vi o Richard. - Seus olhos encheram-se de lgrimas, que transbordaram e rolaram-lhe pelo rosto. - Ele morreu.
Me disseram que ele morreu. Pensei que, talvez... no sei, mas disseram que ele morreu. Pobre Richard.
- O que  que voc estava fazendo l em cima com ele?
- Eu no estava com ele. Eu estava procurando por ele. - Ela levantou a mo livre para secar as lgrimas. - Ele disse que voltaria
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pro hotel na hora que eu quisesse ir embora. O Richard no  muito de festa. A gente ia rachar um txi. Eu queria ir embora.
- A festa estava chata?
- No. - Ela sorriu levemente. - Foi uma exposio maravilhosa, lindamente inaugurada. Mas eu... com certeza, voc j sabe o histrico, a esta altura. Eu
e o Andrew ramos casados, e  uma situao esquisita. Ele estava com uma namorada.
- Desculpe, sra. Warfield, mas eu tenho a informao de que vocs so divorciados.
- Isso, a gente se divorciou j faz mais de um ano, mas isso no te impede de sentir... de sentir. - Ela finalizou a frase. - Foi estranho, deprimente pra
mim. Me senti obrigada a ficar pelo menos duas horas. A Elizabeth  muito boa pra mim, e essa exposio era importante pra ela. Eu e a Miranda continuamos mais ou
menos amigas, e eu no queria ir embora e dar a impresso de que o trabalho dela no tinha a menor importncia. Mas eu queria ir e achei que ningum ia reparar,
quela altura.
- Ento a senhora foi procurar o Hawthorne.
- Fui. Ele s conhecia algumas pessoas na festa, e no era um homem muito socivel. A gente concordou em ir embora por volta das dez e meia, ento fui atrs
dele. Imaginei que ele ia estar encolhido num canto ou com o nariz enfiado em algum mapa. Depois achei que ele poderia ter subido, ido pra biblioteca. Mas ele no
estava l. Ah... desculpe, eu acabo perdendo a linha do raciocnio.
Ela fechou os olhos. - Eu fiquei andando  toa por um tempo, e vi a luz acesa na sala da Miranda. Comecei a me encaminhar pra l, mas ento ouvi a voz dele. Ouvi
quando ele gritou alguma coisa, tipo "chega, no vou tolerar mais nada".
Seus dedos comearam a puxar o lenol em movimentos rpidos e agitados. - Eu fui at l. Ouvi vozes. Mas no consegui ouvir o que estavam dizendo.
- Eram vozes de homem ou de mulher?
- Eu no sei. - Frgil, ela passou a mo na testa. - Simplesmente no sei. Eles falavam muito baixo, na verdade era mais um
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murmrio. Fiquei ali parada um minuto, sem saber o que fazer. Acho que eu pensei que ele e Miranda tinham subido pra discutir alguma coisa, e eu no queria interromper.
- Miranda?
- Era a sala dela, eu imaginei que fosse ela. Pensei em voltar sozinha, e a... ouvi os tiros. To alto, to de repente. Fiquei to chocada que no pensei
em nada. Corri pra sala. Acho que gritei, chamei algum. Eu... eu no me lembro direito.
- Tudo bem. Basta contar o que voc lembra.
- Eu vi o Richard cado em cima da mesa. Havia sangue por todos os lados. Tambm senti cheiro de sangue e acho que de plvora. Cheiro de algo queimado. Deve
ter sido nessa hora que gritei. Devo ter gritado, depois voltei, queria fugir dali. Tenho tanta vergonha, eu ia sair correndo e deixar o Richard l. Algum, alguma
coisa me atingiu.
Cuidadosamente, ela passou a mo na bandagem na base da cabea. - Eu s lembro de um facho de luz dentro da minha cabea, depois mais nada. Nada at eu acordar dentro
da ambulncia.
- Voc se lembra de quanto tempo passou procurando por ele?
- Dez ou quinze minutos, talvez. No sei exatamente.
- Quando voc entrou na sala, no viu ningum?
- S o Richard. - Ela fechou os olhos e as lgrimas atravessaram seus clios. - S o Richard, e agora ele est morto.
Captulo Vinte e Nove
Amanhecia quando Annie abriu a porta e encontrou Andrew no corredor. Ele estava plido como cera, os olhos pesados e sombrios. Ainda de smoking, a gravata frouxa
em volta do pescoo, sem o alfinete. A camisa branca estava amarrotada e manchada de sangue.
- Elise?
- Vai ficar tudo bem. Ela vai ficar em observao, mas teve sorte. Uma concusso, alguns pontos. No tem nenhum sinal de hemorragia cerebral.
- Entra, Andrew. Senta um pouco.
- Eu precisava vir te contar.
- Eu sei. Entra. Eu j fiz caf.
Ela estava enrolada num robe e tirara a maquiagem, mas ele viu como seus olhos estavam cansados. - Voc dormiu?
- Eu tentei, mas no consegui. Vou fazer alguma coisa pra gente comer.
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Ele fechou a porta, observou-a cruzar a curta distncia at a cozinha e abrir a geladeira pequena. Pegou ovos, bacon, uma frigi-deira. Serviu caf em duas xcaras
azuis grandes.
A luz da manh entrava pelas janelas estreitas, criava desenhos no cho. O ambiente cheirava a caf e cravo.
Ela estava descala.
Colocou o bacon na frigideira de teflon e logo a cozinha estava preenchida por seu cheiro e seu som. Uma perfeita manh de domingo, ele pensou. Cheiros simples da
vida caseira.
- Annie.
- Senta, Andrew. Voc t dormindo em p.
- Annie. - Ele a puxou pelos ombros, virou-a. - Eu precisava ficar com a Elise, hoje  noite.
- Claro que precisava.
- No me interrompe. Eu precisava ir l pra ter certeza de que ela tava bem. Ela j foi minha mulher, eu devia isso a ela. Eu no administrei bem o casamento,
e foi pior ainda com o divrcio. Pensei em tudo isso enquanto esperava o mdico aparecer e dizer como ela tava. Pensei nisso e no que eu poderia ter feito de diferente
pra que as coisas dessem certo. A resposta foi: nada.
Ele deixou escapar uma rpida risada, passou as mos pelos braos. - Nada. Normalmente, essa certeza me fazia achar que eu era um fracasso. Agora eu entendi que
foi s o meu casamento que no deu certo. No eu, no ela. O casamento.
Quase involuntariamente, ele inclinou o corpo e beijou a testa de Annie. - Eu esperei at ter certeza de que ela ia ficar bem pra vir aqui, porque eu tinha que te
contar.
- Eu sei disso, Andrew. - Para apoi-lo, levemente impaciente, ela deu um tapinha no brao dele.
- Eu no terminei de te contar. Alis, nem comecei.
- Me contar o qu?
- Meu nome  Andrew e eu sou alcolatra. - Ele pareceu tremer um pouco, depois firmou-se. - T sbrio h trinta dias. Vou
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ficar sbrio trinta e um dias. Passei a noite no hospital e pensei sobre a bebida. Ela simplesmente no  a resposta. Depois eu pensei em voc. Voc  a resposta.
Eu te amo.
Os olhos dela umedeceram, mas ela balanou a cabea. - Eu no sou a sua resposta, Andrew. No posso ser. - Ela se afastou, comeou a virar o bacon, mas ele foi at
ela e desligou o fogo.
- Eu amo voc. - Ele envolveu o rosto dela com as mos, mantendo-a parada. - Parte de mim sempre te amou. O resto de mim precisava crescer pra enxergar isso.
Eu sei o que eu sinto e sei o que quero. Se voc no sente a mesma coisa por mim, e no quer a mesma coisa que eu, me diz. Me diz de uma vez. Isso no vai me fazer
sair daqui atrs de bebida. Mas eu preciso saber.
- O que voc quer que eu diga? - Ela bateu a mo cerrada contra o peito dele. - Voc  um doutor. Eu s tenho o ensino mdio. Voc  Andrew Jones, da famlia
Jones do Maine, e eu sou Annie McLean, de lugar nenhum. - Ela pousou as mos sobre as dele, mas no foi capaz de afast-las do seu rosto. - Eu tenho um bar, voc
tem o instituto. Se toca, Andrew.
- Eu no t interessado em nobreza no momento.
- Nobreza? - Sua voz falhou. - Pelo amor de Deus...
- Voc no me respondeu. - Ele a segurou at que ela ficasse na ponta dos ps. - O que  que voc sente por mim? O que  que voc quer?
- Eu amo voc, e eu quero um milagre.
O sorriso se ampliou lentamente no rosto dele, as covinhas se aprofundando em suas faces. Ela tremia sob suas mos, e o mundo dele acabara de se tornar firme como
uma rocha. - Eu no sei se isso pode ser chamado de milagre. Mas eu vou fazer o possvel. - Ele a pegou no colo.
- O que  que voc t fazendo?
- Levando voc pra cama.
O pnico tomou conta dela. - Eu no disse que iria pra cama com voc.
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- Voc no disse que no iria. Eu t arriscando.
Ela segurou a porta, agarrando-a com desespero. - Jura? Verdade?
- Verdade pura. Pode ser que voc no goste desta vez. Se no gostar, provavelmente vai me dizer no quando eu perguntar se voc quer se casar comigo.
Os dedos dela afrouxaram de uma vez e escorregaram como se a madeira da porta estivesse coberta de cera. - Voc... voc podia perguntar agora e acabar com o suspense.
- No. - Olhos fixos nos dela, ele a deitou na cama. - Depois. Depois, Annie - murmurou e mergulhou sobre ela.
Era como voltar para casa, como encontrar um tesouro. Simples e extraordinrio.
No eram mais inocentes, no eram crianas, ansiosas e curiosas. E todos aqueles anos at agora deram ao que existia entre eles tempo para amadurecer.
Agora, era como decantar vinho de uma boa safra.
Os braos dela o envolveram. Ele era to delicado, to cuidadoso, to gloriosamente completo. Suas mos grandes eram suaves sobre a pele dela, desenhavam seu pescoo,
os ombros, abrindo caminho at os lbios.
Ele sussurrava palavras sedutoras enquanto ela tirava seu palet, deixando-a ajud-lo a tirar a camisa. Depois, a pele deles se encontrou e os dois suspiraram.
O amanhecer ostentava a luz rosada que anunciava as tempestades. Mas ali, naquela cama estreita, reinavam a paz e a pacincia. Cada toque, cada sabor era sorvido
com alegria silenciosa.
Mesmo quando ela estremeceu, quando a necessidade se transformou em urgncia, ela sorriu e trouxe novamente para junto dos seus os lbios de Andrew.
Ele no tinha pressa, queria acariciar o corpo dela para sempre, em ritmo prprio. E quando ela arqueou o corpo, com um gemido de prazer, eles rolaram em busca de
mais e mais.
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Ele percorreu as costas dela com beijos, depois a virou para acariciar-lhe os seios. As mos dela passeavam pelo corpo dele, explorando-o, testando-o, excitando-o.
Quando as respiraes se tornaram um arfar, e o sol tomou conta do cu, ele deslizou para dentro dela.
Danaram em ritmo lento e constante, saboreando, prolongando o prazer. Pertencendo um ao outro. Ela subia e descia com ele, escalavam-se, unidos quando chegaram
ao clmax, apertando-se quando estremeceram juntos. Ir at o fim com ele era como mergulhar nas nuvens.
Depois, ele a deitou ao seu lado, enterrou o rosto no cabelo dela.
- Eu ainda gosto do seu estilo, Andrew. - Ela suspirou sobre o ombro dele. - Realmente gosto.
Ele se sentia inteiro novamente, curado. - Eu gosto da sua tatuagem, Annie. Realmente gosto.
Ela gemeu. - Caramba, eu tinha esquecido.
- Eu nunca mais vou conseguir olhar pra uma borboleta da mesma maneira. - Quando ela riu e levantou o rosto, ele continuou sorrindo. - Levei muito tempo pra
me dar conta do que eu precisava, do que me faz feliz. Me d uma chance de te fazer feliz. Eu quero construir uma vida e uma famlia com voc.
- A gente esculhambou tudo da primeira vez.
- A gente no estava pronto.
- No. - Ela tocou no rosto dele. - Parece que agora a gente est.
- Eu quero que voc seja minha. - Ele beijou a palma da mo dela. - Me deixa ser seu. Voc deixa, Annie?
- Deixo. - Ela deitou a mo sobre o corao dele. - Deixo, Andrew. Eu deixo.
Ryan estava de p na sala de miranda tentando imagi-nar a cena. Ah, ele ainda conseguia visualizar claramente a situao
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da noite anterior. Essas coisas se fixam na mente e raramente desaparecem sem grande esforo.
Havia uma mancha terrvel no tapete, as janelas estavam sujas e o p utilizado pela equipe de investigao da polcia cobria cada pedao de cho.
Quo longe a bala teria jogado o corpo de Richard?, perguntava-se. Quo perto um do outro ele e o assassino teriam estado? O suficiente, pensou, para que as balas
tivessem deixado plvora na camisa dele. Perto o suficiente para que Hawthorne tivesse olhado o assassino nos olhos e visto a morte neles.
Ryan tinha certeza disso.
Deu um passo atrs, foi at a porta, passou os olhos pela sala.
Mesa, cadeiras, janela, o abajur que fora aceso. A bancada, os arquivos. Ele conseguia ver tudo.
- Voc no devia estar aqui, sr. Boldari.
- Eles retiraram a fita de proteo - Ryan disse sem se virar. - Parece que os investigadores j pegaram tudo o que queriam aqui.
- Melhor a sala ficar fechada, por enquanto. - Cook esperou que Ryan sasse, depois fechou a porta. - A dra. Jones no precisa ver tudo isso de novo, precisa?
- No, no precisa.
- Mas voc queria ver outra vez.
- Eu queria ver se conseguia imaginar a cena.
- E conseguiu?
- No completamente. No parece ter nenhum sinal de luta, parece, detetive?
- No. Tudo em ordem, fora a mesa.
- A vtima e o assassino devem ter ficado to prximos quanto ns dois agora. Voc no acha?
- Com uma diferena de poucos centmetros. , ele conhecia quem apertou o gatilho, Boldari. Voc conheceu a vtima, no?
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- Rapidamente, quando ele chegou, na sexta, e eu estive com ele outra vez na noite em que morreu.
- Nunca se encontraram antes disso?
- No, nunca.
- Eu fiquei me perguntando isso, j que voc trabalha com arte, e ele tambm.
- Tem muita gente em muitas reas desse negcio que eu no conheo.
- , mas voc sabe,  um mundo pequeno.
- , mas voc transita por a com muita facilidade.
- Voc tambm - Ryan murmurou. - Voc acha que eu subi aqui ontem  noite e dei dois tiros no Richard Hawthorne?
- No, no acho. Vrias testemunhas disseram que voc estava l embaixo quando os tiros foram dados.
Ryan encostou-se na parede. Sentia a pele pegajosa, como se o horror daquela sala tivesse grudado nele. - Sorte a minha por ser um cara socivel.
- ... claro que algumas dessas pessoas tm alguma relao com voc, mas outras no. Ento eu acho que voc est limpo. Parece que ningum consegue dizer
onde a dra. Jones, a dra. Miranda Jones, estava na hora.
Ryan desencostou rapidamente da parede, quase com violncia, antes que pudesse controlar-se. Mas o movimento fez com que os olhos de Cook brilhassem. - Vocs dois
ficaram bem amigos.
- O suficiente pra eu saber que a Miranda  a ltima pessoa no mundo capaz de matar algum.
Displicentemente, Cook pegou um chiclete, ofereceu outro a Ryan, depois desembrulhou-o enquanto o outro continuava a encar-lo. -  engraado pensar no que as pessoas
podem fazer com a motivao certa.
- E a dela seria?
- Pensei muito a esse respeito. Tem o bronze, o daqui, o que foi roubado de maneira bem escorregadia, bem profissional. Rastreei o
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nmero de roubos com o mesmo padro. Algum sabe o que est fazendo, algum muito bom no que faz, e com muitas conexes.
- Ento, agora a Miranda  uma ladra, uma expert em roubo de obras de arte?
- Ou ento ela conhece um - ele acrescentou com um ligeiro sorriso. - Engraado como a documentao da pea sumiu tambm. Ainda mais engraado  que eu fiz
uma busca na fundio que eles usam aqui, e descobri que algum mais andou passando por l. Algum que se disse estudante do instituto, inventou uma histria sobre
estar procurando informaes sobre uma estatueta de bronze que havia sido fundida l h mais ou menos trs anos.
- E o que  que isso tem a ver com o que aconteceu, exatamente?
- O nome que ele deu na fundio no bate com os registros daqui. E o bronze em que ele estava to interessado era a esttua do Davi com o estilingue. Parece
at que ele tinha um desenho.
- Ento isso deve ter alguma coisa a ver com o seu roubo. - Ryan inclinou a cabea. - Fico feliz de saber que voc t fazendo progressos.
- Ah, eu sempre fao. Parece que a dra. Jones, Miranda Jones, deu um curso sobre bronzes renascentistas.
- Como ela  especialista no assunto, eu imagino que j tenha dado vrios, pelo menos que tivessem a ver com o assunto.
- Um dos alunos usou a fundio pra fazer um Davi, um tempo depois que a estatueta desaparecida chegou pra ser testada por ela.
- Nossa, fascinante.
Cook ignorou o sarcasmo no tom de Ryan. - , isso significa que tem uma poro de pontas soltas esperando pra serem amarradas. O aluno saiu do curso logo depois
que o bronze ficou pronto. E parece que algum procurou a me dele, disse que era daqui, querendo entrar em contato com ele. O garoto se mudou para San Francisco.
Algumas noites atrs, resgataram o corpo dele na baa.
-  uma pena saber disso.
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- Voc tem famlia em San Francisco.
Desta vez, os olhos de Ryan se estreitaram, flamejaram.
- Cuidado, detetive.
- S fiz um comentrio. O garoto era um artista, voc tem uma galeria l. Pensei que pudesse conhec-lo. O nome dele era Mathers, Harrison Mathers.
- No, eu no conheci um Harrison Mathers, mas posso descobrir com facilidade se a gente tem algum trabalho dele.
- Talvez no seja uma m idia.
- Esse Mathers  o que voc chamaria de mais uma ponta solta?
- Ah, sim, uma dessas coisas que deixam a gente com a pulga atrs da orelha. Depois eu comecei a pensar naquela histria do bronze incrvel de Florena, o
que acabou sendo descoberto como nem to incrvel assim. Acho que a dra. Jones deve ter ficado extremamente chateada com aquilo, e tambm com o fato de a me ter
dispensado os servios dela. Descobri que algum roubou a estatueta, foi direto pra reserva do Museu Nacional l e pegou a pea, num timo. Agora, por que algum
ia querer uma coisa, se arriscar nesse tipo de roubo, se era um troo que no valia nada, alm do preo do metal?
- A arte  um mistrio subjetivo, detetive. Talvez algum tenha se apegado a ela.
- Pode ser, mas quem fez isso  profissional, no um ladrozi-nho qualquer. Profissionais no perdem tempo, a menos que tenham um bom motivo. Voc concordaria
comigo, no concordaria, sr. Boldari? Sendo voc um profissional?
- Com certeza. - Ah, se ele no gostasse desse detetive, Ryan se divertiu. - Detesto perder tempo.
- Exato. Isso faz com que eu me pergunte que valor esse bronze tem pra algum.
- Se eu vir a estatueta, fao uma avaliao e te aviso. Mas posso dizer que se esse bronze fosse verdadeiro, se valesse milhes, a
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Miranda no mataria por ele. E eu acho que voc concorda comigo - Ryan acrescentou. - Sendo voc um profissional.
Cook riu. Havia alguma coisa errada com aquele cara, pensou. Mas era algum de quem era fcil gostar. - No, eu no acho que ela tenha matado ningum, e no consigo
imagin-la pegando esttuas pelo mundo afora. A mulher tem a integridade estampada no rosto.  por isso que eu sei que, no fundo, ela est escondendo alguma coisa.
Ela sabe mais do que est dizendo. E se voc  amigo dela o suficiente, Boldari, vai convenc-la a me contar antes que algum resolva que ela  dispensvel.
Ela se perguntou o quanto poderia revelar, que risco corria se contasse. Na Galeria Sul, rodeada por mestres da arte, sentou-se e encobriu o rosto com as mos. Sofria.
Sabia que Cook estava no andar de cima. Vira-o entrar e, como uma criana evitando uma bronca, escapulira pelo corredor, esperando que ele passasse.
Quando sua me entrou, ela deixou as mos carem sobre o colo.
- Achei que ia encontrar voc aqui.
- Ah, claro. - Miranda se levantou e pegou uma taa de champanhe de outras amontoadas sobre a mesa. - Revivendo as glrias do passado. Onde mais eu estaria?
Para onde mais eu iria?
- No consegui encontrar o seu irmo.
- Espero que ele esteja dormindo. Foi uma noite difcil. - No acrescentou que ele no estava dormindo, pelo menos no na prpria cama, quando ela sara de
casa pela manh.
- , pra todos ns. Eu vou ao hospital. Seu pai vai me encontrar l. Espero que Elise esteja com nimo pra uma visita, e ela tinha a expectativa de ser liberada
hoje  tarde.
- Manda um beijo meu pra ela. Vou tentar passar l mais tarde, ou no hospital ou no hotel, se ela j tiver tido alta. Por favor, diz pra ela que, se preferir,
pode ficar l em casa o tempo que quiser.
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- Seria esquisito.
- Eu sei, mas vou fazer a oferta mesmo assim.
- Generoso da sua parte. Ela... foi sorte ela no ter se ferido mais gravemente. Poderia ter sido... Ela podia ter sido encontrada como o Richard.
- Eu sei que voc  f dela. - Miranda colocou a taa exatamente onde estava antes. Foi cuidadosa para certificar-se de que o p se encaixaria exatamente
na marca deixada na toalha. - Mais, eu acho, do que voc sempre foi dos prprios filhos.
- No  hora de pieguice, Miranda.
Ela levantou o olhar. - Voc me odeia?
- Que coisa ridcula, e que hora mais inapropriada de dizer uma coisa dessas.
- Quando  apropriado perguntar pra minha me se me odeia?
- Se isso tem a ver com o que aconteceu em Florena...
- Ah, vem de muito mais longe,  muito mais profundo do que o que aconteceu em Florena, mas esse episdio serve, por enquanto. Voc no me defendeu. Nunca
me defendeu. Eu esperei por isso a vida inteira, pelo momento em que finalmente ia poder contar com voc. Por que voc nunca esteve nem a pra mim?
- Eu me recuso a sustentar esse seu comportamento. - Com o olhar gelado, Elizabeth se virou e afastou-se.
Miranda nunca saberia o que a fez ignorar uma vida inteira de treinamento, mas cruzou o salo, segurou o brao de Elizabeth e virou-a com uma violncia que deixou
as duas estarrecidas. - Voc no vai fugir de mim at me responder. T de saco cheio de ver voc fugindo de mim, literal e metaforicamente. Por que voc nunca conseguiu
ser uma me pra mim?
- Porque voc no  minha filha. - Elizabeth deixou escapar, os olhos azuis em chamas. - Voc nunca foi minha. - Ela libertou o brao com um puxo, a respirao
ofegante, j que o controle lhe faltava. - No se atreva a me encostar contra a parede depois de
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tudo que eu sacrifiquei, de tudo que eu suportei porque seu pai resolveu fazer a filha bastarda passar como se fosse minha.
- Bastarda? - Seu mundo, j ameaado, caiu diante de seus ps. - Eu no sou sua filha?
- No, voc no . Dei minha palavra que nunca te contaria. - Enfurecida por ter permitido que o cansao e a raiva minassem seu autocontrole, Elizabeth foi
at a janela, olhou para o lado de fora. - Bem, voc  adulta, e tem o direito de saber.
- Eu... - Miranda levou a mo ao corao, porque no tinha certeza de que ele continuava a bater. A nica coisa que conseguia fazer era encarar as costas
rgidas da mulher que to repentinamente se tornara uma estranha. - Quem  a minha me? Onde ela t?
- Ela morreu h muitos anos. No era ningum - Elizabeth acrescentou, virando-se. O sol no era generoso com mulheres de certa idade. Sob seu reflexo, Miranda
pde ver que Elizabeth parecia cansada, quase doente. Depois, uma nuvem encobriu o sol e o momento se esvaiu. - Um dos... interesses de curta durao do seu pai.
- Ele teve um caso.
- O sobrenome dele  Jones, no ? - Elizabeth disse com amargura, depois fez um gesto com a mo, como se estivesse aborrecida. - De qualquer maneira, ele
foi imprevidente, e a mulher engravidou. Ela no era, aparentemente, to facilmente descartvel como as outras. Charles no tinha nenhuma inteno de casar com ela
e, quando ela se deu conta disso, insistiu que ele resolvesse o problema. Foi uma situao difcil.
Uma pontada de dor interrompeu-lhe o choque. - Ela tambm no me queria.
Com um ligeiro dar de ombros, Elizabeth voltou e sentou-se.
- No fao idia do que aquela mulher queria. Mas o que ela escolheu foi obrigar o Charles a criar voc. Ela me procurou, explicou a situao. As minhas opes
eram: me divorciar e conviver com
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o escndalo, perder o que tinha comeado a construir aqui no instituto e desistir dos meus planos pro meu prprio negcio. Ou...
- Voc ficou com ele. - Alm do choque, da dor profunda, havia uma raiva latente. - Depois de uma traio como essa, voc ficou com ele.
- Eu tive que escolher. Escolhi o que era melhor pra mim. No sem sacrifcio. Tive que me recolher, perder meses enquanto esperava voc nascer. - A lembrana
ainda lhe vinha  tona como um cido. - Quando voc nasceu, tive que te apresentar como minha filha. A sua existncia me magoa, Miranda - ela disse, dura. - Pode
ser injusto, mas  a realidade.
- Isso, vamos ser prticas. - Incapaz de suportar, ela desviou o olhar. - Vamos nos ater aos fatos.
- Eu no sou uma mulher maternal, nem pretendi ser. - Elizabeth gesticulou novamente, com alguma impacincia na voz. - Depois que o Andrew nasceu, eu no
tinha nenhuma inteno de ter outro filho. Nunca. Depois, por circunstncias que no foram criadas por mim, eu tive que assumir a responsabilidade de criar a filha
do meu marido como se fosse minha. Voc era uma lembrana da falta de cuidado dele comigo, da falta de integridade no meu casamento. Pro Charles, voc era uma lembrana
de um mau passo, de um clculo malfeito.
- Clculo malfeito - Miranda disse baixinho. - , acho que isso  exato tambm. Agora no  nenhum mistrio o porqu de vocs dois nunca terem sido capazes
de me amar, nunca terem sido capazes de amor nenhum, na verdade. No t dentro de vocs.
- Voc foi muito bem cuidada, teve uma boa casa e uma educao excelente.
- E nenhum momento de afeio verdadeira - Miranda finalizou, virando-se novamente. O que viu foi uma mulher rgida, de ambio desmedida, algum que trocara
emoo por conquista de objetivos. - Passei a minha vida inteira me esforando pra merecer a afeio de vocs. Eu tava perdendo meu tempo.
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Elizabeth suspirou, levantou-se. - Eu no sou um monstro. Voc nunca foi prejudicada, nem negligenciada.
- No precisou.
- Eu fiz o melhor por voc, te dei todas as oportunidades pra voc crescer na sua rea. Inclusive em relao ao Bronze Fiesole. - Ela hesitou, depois abriu
uma das garrafas de gua que o pessoal da limpeza ainda no retirara.
- Eu peguei os seus relatrios, as radiografias, levei tudo pra casa. Depois de me acalmar, depois que o constrangimento diminuiu, eu no achava que voc
pudesse ter cometido um erro to absoluto, ou que falsificaria os resultados dos testes. Nunca duvidei da sua honestidade.
- Ah, muito obrigada - Miranda disse secamente.
- Os relatrios, os documentos foram roubados do cofre da minha casa. Eu podia no saber ainda, mas queria pegar alguma coisa antes de vir pra c. E descobri
que haviam sido roubados.
Ela serviu um copo d'gua, depois deu um gole. - Eu quis pegar as prolas da sua av pra trazer e guardar num cofre de banco que tenho aqui. Ia dar o colar pra voc
antes de ir embora.
- Por qu?
- Talvez porque, apesar de voc nunca ter sido minha, sempre foi dela. - Ela colocou o copo na mesa. - No vou pedir desculpas pelo que fiz, nem pelas minhas
escolhas. No vou pedir que voc me entenda, assim como nunca consegui entender voc.
- Ento, eu vou ter que viver com isso? - Miranda perguntou, e Elizabeth levantou uma sobrancelha.
- Eu vivi com isso. E vou pedir que o que foi dito aqui seja guardado em segredo. Voc  uma Jones, e, como tal, tem a responsabilidade de manter a honra
do nome.
- Ah, claro, e que nome! - Ela balanou a cabea. - Eu conheo as minhas obrigaes.
- Eu tenho certeza disso. Tenho que ir encontrar o seu pai. - Ela pegou a bolsa. - A gente discute isso com ele em outra oportunidade.
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- Pra qu? - Subitamente, Miranda ficou cansada, cansada demais para se preocupar, para considerar, para tomar cuidado. - Nada mudou,  isso?
- No.
Depois que Elizabeth se foi, Miranda deixou escapar uma gargalhada e foi at a janela. A tempestade que ameaara o dia todo estava se avolumando no cu.
- Voc t bem?
Ela deixou o corpo cair para trs quando Ryan apoiou as mos em seus ombros. - Quanto voc ouviu?
- Quase tudo.
- Ouvindo escondido de novo - ela murmurou -, se esgueirando feito um gato. No sei o que sentir.
- Seja l o que for, t certo. Voc t por sua conta, Miranda. Sempre esteve.
- Acho que tem que ser assim.
- Voc vai falar com o seu pai sobre isso?
- Qual seria a vantagem? Ele nunca me viu, nunca me ouviu. E agora eu sei o motivo. - Ela fechou os olhos, virou o rosto na mo dele. - Que tipo de gente
 essa, Ryan, de onde  que eu venho? Meu pai, a Elizabeth, a mulher que me deu pra eles.
- Eu no conheo essa gente. - Ele a virou gentilmente, at que ficassem cara a cara. - Mas conheo voc.
- Eu sinto... - Respirou profundamente e deixou que o sentimento viesse. - Alvio. Desde que eu me lembro, sempre morri de medo de ser como ela, de no ter
escolha, na verdade. Mas eu no sou. No sou.
Com um estremecimento, encostou a cabea no ombro dele.
- Nunca mais vou precisar me preocupar com isso.
- Eu sinto pena por ela - ele murmurou. - Por ter se fechado pra voc. Por ter se fechado pro amor.
Miranda sabia o que era amar, agora, conhecia o terror e a emoo que o amor provocava. Acontecesse o que acontecesse, era grata
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por aquela parte dela ter sido aberta. Mesmo que a fechadura tivesse sido arrombada por um ladro.
- Eu tambm. - Ela permaneceu ali mais um momento, depois ficou de p por conta prpria. - Vou levar a caderneta do Richard pro Cook.
- Me d um tempo para ir a Florena. Eu no queria ir embora hoje, no depois de voc ter tudo isso pra processar. Vou amanh  noite, se conseguir, ou logo
de manh. A gente diminui o tempo pra trinta e seis horas. Deve dar.
- Eu no posso te dar mais que isso. Preciso que isso acabe.
- Vai acabar.
Ela sorriu, achou mais fcil do que imaginava. - E nada de invadir quartos, nem remexer em cofres, nem caixas.
- De jeito nenhum. Assim que eu encerrar com os Carter.
- Ah, pelo amor de Deus!
- Eu no vou roubar nada. No resisti s prolas da sua av? E ao ouro italiano da Elise? At mesmo aquele camafeu lindo, que eu poderia ter dado pra uma
das minhas sobrinhas? Eu tive que ser um heri.
- As suas sobrinhas esto muito novas pra medalhes. - Ela deixou escapar um suspiro e encostou a cabea no ombro dele novamente. - Eu no ganhei o meu at
fazer dezesseis anos. Minha av me deu um lindo, com formato de corao, que ela ganhou da me.
- E voc colocou uma mecha do cabelo do namorado dentro.
- Difcil. Eu no tinha namorados. Ela sempre colocava a foto dela, de qualquer jeito, e a do meu av. Pra me lembrar das minhas razes.
- Funcionou?
- Claro. Uma boa cria da Nova Inglaterra sempre se lembra das suas razes. Eu sou uma Jones - disse baixinho. - E Elizabeth tava certa. Eu posso nunca ter
sido dela, mas sempre fui da minha av.
- Vai ter as prolas dela, agora.
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- , e vou cuidar delas como um tesouro. Eu perdi o medalho alguns anos atrs. Isso partiu o meu corao. - Sentindo-se melhor, aprumou-se. - Preciso chamar
a manuteno. A gente tem que colocar as coisas no lugar de novo. Eu quero abrir a exposio pro pblico amanh.
- Faz isso - ele murmurou. - Te encontro em casa mais tarde. Fica quietinha aqui, por favor, seno eu vou ter que ir atrs de voc.
- Pra onde mais eu iria?
Captulo Trinta
Andrew assobiava ao entrar em casa. Sabia que um sorriso estava plantado em seu rosto. Estivera ali o dia todo. No era s o sexo - bem, ele pensou, saltando os 
degraus
da escada, o sexo no havia feito nenhum mal. Fora uma longa seca para o bom e velho Andrew Jones.
Mas ele estava apaixonado. E Annie tambm o amava. Passar o dia com ela fora a experincia mais excitante, mais tranqila, mais incrvel que j tivera. Quase espiritual,
concluiu com um risinho.
Haviam preparado o caf da manh juntos e comido na cama. Conversaram at ficar roucos. Tantas palavras, tantos sentimentos e pensamentos clamando para sair. Ele
nunca fora capaz de falar com algum da maneira como falava com Annie.
A exceo era Miranda. Mal podia esperar para contar para a irm.
Eles se casariam em junho.
No seria uma festa grande, formal, nada como o que ele e Elise haviam feito. Mas algo simples e romntico, era isso que Annie
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queria. No jardim de casa, com os amigos e msica. Convidaria Miranda para ser madrinha. Ela adoraria.
Entrou no quarto. Queria tirar aquele smoking amarrotado. Levaria Annie para jantar e, amanh, compraria um anel para dar a ela. Ela disse que no precisava de um,
mas aquele era um desejo que ignoraria.
Queria ver esse anel no dedo dela.
Tirou o palet, jogou-o para o lado. Desejou estar fora daquele quarto ainda naquela semana. Ele e Annie no se mudariam para. ali depois do casamento. A casa seria
de Miranda. O sr. e a sra. Jones iriam procurar uma casa assim que voltassem da lua de mel.
Ele a levaria para Veneza.
Ainda sorria ao tentar livrar-se das abotoaduras. Com o canto dos olhos, viu um ligeiro movimento. Uma dor explodiu em sua cabea, uma exploso, vermelha, dentro
de seus olhos. Seus joelhos fraquejaram quando ele tentou se virar para revidar. A segunda pancada fez com que ele se chocasse contra uma mesa e apagasse.
A tempestade irrompeu. miranda ainda estava a um quilmetro de casa quando a chuva se derramou sobre o para-brisa. Relmpagos rugiram to prximo que seus companheiros,
os troves, chacoalhavam o carro.
A neblina insinuava-se, cobrindo o cho, escondendo a lateral da estrada. Para concentrar-se, Miranda desligou o rdio e sentou-se bem na beira do banco.
Mas sua mente reprisava os acontecimentos.
A ligao de Florena, depois o roubo, John Carter saindo da cidade enquanto ela se atrasava. O bronze no cofre do escritrio da me. Quem tinha acesso a ele? Somente
Elizabeth.
Mas, se sua associao com Ryan lhe ensinara alguma coisa, fora que trancas podiam ser arrombadas.
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Richard fizera os testes; portanto, ganhara acesso ao bronze. Quem trabalhara com ele? Quem trouxera a arma para o instituto e a usara?
John? Ela tentou imaginar a cena, mas continuava vendo-o como algum acolhedor, preocupado. Vincente? O escandaloso, amigvel, familiar Vincente? Poderia um deles
ter dado dois tiros em Richard, ter atacado Elise?
E por que no seu escritrio, por que durante um evento onde centenas de pessoas circulavam no andar de baixo? Por que correr tanto risco?
Porque teria impacto, Miranda deu-se conta. Porque isso colocaria seu nome mais uma vez nos jornais, associado a um escndalo. Porque arruinaria a abertura da exposio
e ofuscaria todo o seu esforo.
Era pessoal, s podia ser. Mas o que ela fizera para criar esse tipo de animosidade e obsesso? Quem ela ferira? John, pensou. Se fosse derrubada, se fosse forada
a pedir demisso do instituto, ele seria a substituio lgica. Significaria promoo, um salrio maior, mais poder e prestgio.
Poderia ser to simples assim?
Ou Vincente. Era quem a conhecia havia mais tempo, o mais prximo. Ela fizera algo que pudesse ter-lhe causado inveja, ressentimento? Seria uma questo de dinheiro
para comprar as jias, as roupas, pagar as viagens incrveis que faziam sua jovem esposa feliz?
Quem mais? Giovanni e Richard estavam mortos, Elise, no hospital. Elizabeth...
Ser que uma vida de ressentimento teria dado espao para tamanho dio?
Melhor deixar que a polcia descobrisse, disse para si mesma, e espantou a tenso de seus ombros ao estacionar o carro na frente de casa. Em menos de trinta e seis
horas, ela passaria o caso prfido para Cook.
O que significaria usar a noite revendo tudo o que poderia dizer a ele. E o que no poderia.
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Pegou sua pasta. A caderneta de Richard estava ali dentro e ela pretendia l-la de cabo a rabo naquela noite. Talvez tivesse deixado passar alguma informao ao
folhe-la rapidamente.
O fato de seu guarda-chuva estar no porta-malas, em vez de estar no banco de trs do carro, s comprovava que seu pensamento estava longe das medidas lgicas e prticas.
Usou a pasta como proteo sobre a cabea e correu at a varanda.
Ficou encharcada, de qualquer maneira.
Dentro de casa, passou a mo pelo cabelo para tirar o excesso da chuva, e chamou por Andrew. No o via desde que deixara o hospital na noite anterior, mas o carro
dele estava parado no lugar de sempre. J era hora de os dois tambm terem uma conversa.
Era hora de contar tudo, confiava nele o suficiente para fazer isso.
Chamou novamente, enquanto subia a escada. Droga, queria tirar aquela roupa molhada, tomar um banho quente. Por que ele no respondia, pelo menos?
Provavelmente estava dormindo, pensou. O homem dormia como um morto. Bem, ele teria que ser um pouco como Lzaro, porque ela queria contar tudo o que podia antes
que a me deles chegasse.
- Andrew? - A porta do quarto no estava completamente fechada, e ela bateu antes de empurr-la. O quarto estava um breu e, apesar de ela achar que ele a
xingaria peremptoriamente, procurou o interruptor para acender o abajur. Disse um palavro quando a luz no acendeu.
Mas no estavam sem energia. Droga, ele esquecera de trocar a lmpada de novo. Seguiu adiante com a inteno de sacudi-lo e tropeou nele.
- Andrew, pelo amor de Deus! - Com o brilho de um relmpago, ela o viu a seus ps, ainda vestindo o smoking da noite anterior.
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No era a primeira vez que cruzava com ele desmaiado, esparramado no cho e fedendo a lcool.
Primeiro sentiu raiva, um sentimento violento que a fez dar as costas e sair do quarto, deixando-o onde estava. Depois, veio o desapontamento, e o pesar a invadiu.
- Como voc pde fazer isso de novo? - murmurou. Agachou, na esperana de que ele no estivesse to fora de si que fosse incapaz de se levantar e ir para
a cama.
Surpreendeu-se repentinamente por no sentir cheiro de usque, nem do suor azedo que era caracterstico. Estendeu o brao, sacudiu-o, depois, suspirando, deitou
a mo sobre a cabea dele.
E sentiu o calor. O sangue.
- Meu Deus, Andrew! No, no, por favor. - Seus dedos manchados e trmulos buscaram o pulso do irmo. E ao seu lado uma luz foi acesa.
- Ele no morreu. Ainda. - A voz era suave, uma leve risada encerrava as palavras. - Voc gostaria que ele continuasse vivo, Miranda?
Normalmente, ryan detestava repetir-se, mas entrou na sute de Elizabeth exatamente como fizera antes. No era hora para sofisticao. O quarto estava silencioso
e vazio, mas isso no importava para ele.
Encontraria uma maneira de passar por qualquer ocupante.
No quarto de dormir, pegou a caixa de jias exatamente como fizera duas noites antes. E removeu a tranca.
Era apenas uma suspeita, uma pedra de gelo em suas entranhas, mas aprendera a seguir seus instintos. Analisou as fotografias antigas, no viu qualquer semelhana
peculiar. Depois, pensou, talvez algo na regio dos olhos. Talvez houvesse algo em volta dos olhos daquela mulher.
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Usando uma pequena ferramenta, tirou o contedo da elegante pea oval. Ela fizera uma inscrio debaixo da sua foto, no na do marido. Ele imaginara que faria isso.
E seu sangue congelou no momento em que leu: Miranda, pelo seu dcimo sexto aniversrio. Nunca se esquea de onde voc veio nem de onde deseja chegar. Vov.
- Peguei voc! - Ele disse e enfiou o medalho no bolso. Pegou o celular ao mesmo tempo que cruzava s pressas o corredor.
- Elise - Miranda forou-se a falar calmamente,
mantendo os olhos no rosto de Elise, no na arma que estava apontada para o centro do seu peito. - Ele t muito ferido. Eu preciso chamar uma ambulncia.
- Ele agenta um pouco. - Com a mo livre, ajeitou a banda-gem limpa na base da prpria cabea. - Eu agentei.  incrvel como voc perde o equilbrio rpido
com uma boa pancada na cabea. Voc pensou que ele estava bbado, no foi? - Os olhos dela brilharam de deleite diante da idia. -  realmente perfeito. Se eu tivesse
pensado nisso, e se tivesse tido tempo, teria esvaziado uma garrafa em cima dele. S pra montar a cena. Mas no precisa se preocupar, eu s dei duas pancadas, nem
tantas vezes nem com tanta fora quanto usei com o Giovanni. Mas o Andrew no me viu. O Giovanni sim.
Com medo de que Andrew sangrasse at morrer, enquanto ela no fazia nada, Miranda pegou uma camiseta no cho, enrolou-a e apertou-a contra a ferida.
- O Giovanni era seu amigo. Como voc teve coragem?
- Eu no teria precisado mat-lo se voc o tivesse deixado fora dessa histria. O sangue dele est nas suas mos, exatamente como o do Andrew, agora.
Miranda fechou as mos, pressionando as prprias palmas com as unhas. - E o Richard?
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- Ah, o Richard! Ele se matou. - Uma pequena ruga de irritao se formou em sua testa. - Ele comeou a despedaar logo depois do Giovanni. Pedacinho por pedacinho.
Chorava como uma criana, ficava dizendo que isso tinha que acabar. No era pra ningum ter morrido, ele dizia. Bem - ela balanou os ombros -, mudana de planos.
Ele morreu na hora em que te mandou aquele e-mail ridculo.
- Mas voc mandou os outros, os fax.
- Ah, foi. - Com a mo livre, Elise segurou o delicado colar de ouro em volta do pescoo. - Eles te assustaram, Miranda? Te confundiram? Te encheram de dvidas?
- Isso. - Mantendo os movimentos lentos, puxou um lenol ao p da cama e cobriu o irmo. - Voc tambm matou o Rinaldi.
- Aquele homem vivia me perturbando. Ficava insistindo que o bronze era verdadeiro, como se um encanador pudesse saber alguma coisa. Inclusive, ele invadiu
a sala da Elizabeth, falando, reclamando. E isso fez a sua me comear a pensar. Dava pra ver.
- Voc tem o bronze, mas nunca vai conseguir vender.
- Vender? Por que eu ia querer vender? Voc acha que isso tem a ver com dinheiro? - Levou a mo ao peito e riu. - Nunca teve a ver com dinheiro. Tem a ver
com voc. Com voc e comigo, Miranda. Como sempre.
Um relmpago iluminou os vidros da janela atrs de Elise, suas pontas iradas rasgando o cu. - Eu nunca te fiz nada.
- Voc nasceu! Voc nasceu com tudo na mo. A filha premiada. A eminente dra. Jones, cria dos Jones do Maine e seus pais altamente respeitveis, essa porcaria
de ascendncia, seus empregados, sua av enxerida na casa enorme da colina.
Ela fez gestos amplos, e Miranda sentiu o estmago revirar de medo ao ver a arma sendo apontada em todas as direes. - Voc sabe onde eu nasci? Num hospital pblico.
Vivi num apartamento nojento de dois cmodos, porque o meu pai no me reconheceu,
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no assumiu a responsabilidade. Eu merecia tudo que voc tem, e consegui. Mas tive que trabalhar pra isso, tive que implorar pra ter bolsas de estudo. Eu garanti
minha ida para as mesmas escolas que voc foi. Eu te observei, Miranda. Voc nunca se deu conta da minha presena.
- No. - Miranda removeu o pano da cabea de Andrew. Achou que o sangramento estava diminuindo. Rezou para que no fosse simplesmente um pensamento positivo.
- E voc nem se dava ao trabalho de socializar, n?  incrvel como toda essa grana fez voc ser to chata. E eu tendo que contar moedas enquanto voc morava
numa casa boa, era servida, coberta de glria.
- Me deixa chamar uma ambulncia pro Andrew.
- Cala a boca! Cala essa porcaria dessa boca. Eu no terminei. - Ela se adiantou, sacudindo a arma. - Voc cala a boca e escuta, seno eu atiro nesse filho
da me aqui e agora.
- No faz isso! - Instintivamente, Miranda colocou-se entre a arma e Andrew. - No machuca o meu irmo, Elise. Eu vou te ouvir.
- Fica calada! Jesus, eu detesto essa sua boca. Voc fala e todo mundo escuta. Como se voc cuspisse moedas antigas de ouro. - Ela chutou um sapato que estava
no cho e ele bateu na parede. - Devia ter sido eu, sempre, e teria sido, se o desgraado que engravidou a minha me, que prometeu tudo pra ela, no fosse casado
com a sua av.
- Minha av? - Miranda balanou a cabea ao tempo que seus dedos deslizavam para sentir o pulso de Andrew. - Voc t tentando me dizer que o meu av era seu
pai?
- O velho desgraado no conseguia ficar com a braguilha fechada, nem quando tinha mais de sessenta anos. A minha me era jovem e idiota, achou que ele ia
largar a mulherzinha gelada dele pra casar com ela. Estpida, estpida, estpida!
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Para registrar seus sentimentos, ela pegou um peso de papel de gata na mesa e jogou por cima da cabea de Miranda. O objeto chocou-se contra a parede como uma bala
de canho.
- Ela se deixou usar. Deixou o desgraado cair fora sem pagar, nunca fez nada pra obrig-lo a pagar, ento a gente viveu sem um tosto. - Seus olhos brilhavam,
enfurecidos, e ela virou a mesa com fora.
Mais uma Jones, Miranda pensou, frentica, mais uma ligao descuidada e uma gravidez inconveniente. Girou nos calcanhares, preparou-se. Mas a arma a acompanhou,
apontada na direo do centro do seu corpo. E Elise sorriu.
- Eu te observei. Sempre te observei. Planejei durante anos. Voc  a minha meta desde que eu me entendo por gente. Entrei pra mesma rea. Era to boa quanto
voc. Melhor. Fui trabalhar pra voc. Casei com o seu irmo intil. Fiz a sua me no viver sem mim. Sou uma filha pra ela, coisa que voc nunca foi.
- Ah,  verdade - Miranda disse, com absoluta sinceridade. - Voc  sim. Pode acreditar, eu no significo nada pra ela.
- Voc  o centro de tudo. Eu teria a sua posio, mais cedo ou mais tarde. Voc devia ser quem corre atrs de migalhas. Lembra do Davi? Aquilo foi um golpe
e tanto pra voc, no foi?
- Ento foi voc que o roubou, mandou o Harry fazer uma cpia.
- O Harry era muito entusiasmado.  ridculo como  fcil manipular os homens. Olham pra mim e pensam: ela  to delicada, to adorvel! E tudo que eles querem
fazer  transar e nos proteger.
Ela riu novamente, desviando o olhar para Andrew. - Isso, eu posso dizer pelo seu irmo. Ele era bom de cama. Era um bom efeito colateral, mas partir o corao dele
foi melhor. Ver o cara se agarrar ao lcool sem saber o que ele tinha feito pra me perder. Pobre, pobre Andrew!
Ento, a expresso dela mudou novamente, to caprichosa e voltil quanto a tempestade l fora. - Eu ia acabar colocando-o nos
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eixos novamente, depois que tivesse acabado com tudo. Acabado com voc. Que bela ironia seria! Ainda vai ser - ela acrescentou, sorrindo outra vez. - Essa figurinha
de quinta que ele arrumou agora no vai ser nem uma lembrana quando eu voltar pro Maine. Quer dizer, se eu deix-lo viver.
- No tem necessidade de machucar o Andrew. No  culpa dele, Elise. Me deixa chamar uma ambulncia. Voc pode continuar apontando a arma pra mim. Eu no
vou tentar fugir. Mas me deixa chamar uma ambulncia pra ele.
- No t acostumada a implorar, no ? Mas voc at que faz isso bem. Voc faz tudo bem, Miranda. Eu vou pensar no seu caso. - Ela inclinou a cabea, como
um aviso, quando Miranda se levantou. - Cuidado. Eu no mataria voc, no de primeira, mas podia deix-la aleijada.
- O que  que voc quer? - Miranda exigiu uma resposta. - O que  que voc quer, afinal?
- Eu quero que voc escute! - ela gritou, sacudindo a arma de maneira que oscilasse entre a cabea e o corao de Miranda. - Eu quero que voc fique parada
a e escute o que eu tenho a dizer, que faa o que eu mandar, quero voc de joelhos quando eu terminar. Eu quero tudo!
- Tudo bem. - Quanto tempo teria?, Miranda pensou freneticamente. Quanto tempo teria at que Elise perdesse o controle, disparasse a arma? - Eu t ouvindo,
o Davi foi s pra ganhar prtica, no foi?
- Ah, voc  inteligente. Sempre to inteligente. Era um plano B. Eu sabia que podia manchar a sua reputao com ele. Mas eu sou paciente. Tinha que ter alguma
coisa maior, do jeito que a sua estrela andava subindo. Tinha que ser uma coisa mais importante. A apareceu A Senhora Sombria. Eu tive certeza, na hora em que a
Elizabeth mandou te chamar, que l vinha um troo importante, eu sabia que era a hora. Ela confiava em mim. Eu fiz por onde. Bajulando e venerando todos os caprichos
dela durante anos.
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"A Standjo tambm vai ser minha - ela acrescentou com segurana. - Eu vou estar na cadeira da diretoria quando chegar aos quarenta."
Miranda desviou o olhar para o lado, em busca de uma arma.
- Olha pra mim! Olha pra mim enquanto eu t falando com voc!
- Eu t olhando pra voc, Elise. T ouvindo. Era A Senhora Sombria.
- Voc j viu pea mais linda? Alguma coisa to poderosa?
- No. - A chuva que caa l fora atingia a janela como se fosse o rufar de tambores anunciando uma guerra. - No, nunca. Voc queria o bronze. No posso
te culpar por isso. Mas voc no poderia fazer tudo sozinha. A voc chamou o Richard.
- O Richard estava apaixonado por mim. Eu era louca por ele. - Ela disse quase carinhosamente. - Eu poderia ter casado com ele. Por um tempo, pelo menos.
Ele era til, teria continuado sendo bastante til. A gente fez os testes  noite. Eu tinha a combinao do cofre da Elizabeth. Foi ridiculamente fcil. Tudo que
eu tive que fazer foi dar um jeito de te atrasar. Eu disse que no era pra machucar seriamente. Queria voc saudvel pra poder te destruir.
- O Richard fez a cpia.
- Como eu disse, ele era muito til. Eu fiz uma parte do trabalho. A gente queria passar dos testes bsicos e enganar algumas das pessoas mais envolvidas.
Voc foi perfeita, Miranda. Voc soube na hora que viu, exatamente como eu. Era impossvel se enganar. Voc sentiu, no sentiu? O poder daquela pea, a glria.
- , eu senti. - Ela pensou ter ouvido Andrew se mexer, mas no podia ter certeza. - Voc vazou as informaes pra imprensa.
- A Elizabeth  to rigorosa com essas coisas. Regras e regulamentos, canais apropriados, integridade. Ela reagiu exatamente como eu esperava, no importa
eu ter dado um empurrozinho enquanto dizia que eu tinha certeza de que no havia sido a sua inteno. Voc s tinha se deixado levar. Entusiasmo. Eu te defendi,
Miranda. Eu fui brilhante.
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O telefone tocou enquanto as duas se encaravam. E Elise abriu lentamente um sorriso. - A gente vai deixar a secretria atender, pode ser? A gente ainda tem muito
pra conversar.
Por que diabos ela no atendia? ryan abria caminho na tempestade, os pneus deslizando no asfalto molhado enquanto acelerava. Ela sara do instituto para ir para 
casa.
No estava atendendo o celular nem o telefone de casa. Segurando o volante com uma das mos, pressionou a tecla de busca e encontrou o nmero do hospital.
- Elise Warfield - disse. - Ela  uma paciente.
- A dra. Warfield teve alta esta noite.
Um frio gelado percorreu suas entranhas novamente. Pisou no acelerador, fazendo com que o carro derrapasse violentamente. Indo contra um hbito da vida inteira,
ligou para a polcia.
- Quero falar com o detetive Cook.
- Eu vou precisar das cpias, miranda. onde elas esto?
- No esto comigo.
- Voc sabe que isso  mentira, e voc mente mal. Eu realmente preciso das cpias. - Elise deu um passo  frente. - A gente quer que fique tudo direitinho
no final, no quer?
- Por que eu te daria as cpias? Voc vai me matar de qualquer maneira.
- Claro que vou.  a nica coisa lgica a fazer, no ? Mas... - Ela mudou a posio da arma e o corao de Miranda quase parou.
- Eu no precisaria matar o Andrew.
- No. - Rapidamente, Miranda levantou as mos, num gesto de rendio. - Por favor.
- Me d as cpias e eu no fao isso.
- Elas esto escondidas no farol. - Longe de Andrew, pensou.
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- Ah, perfeito. Ser que voc adivinha onde eu fui concebida? - Elise riu at que lgrimas brotassem em seus olhos. - Minha me me contou que foi levada por
ele pra l, pra ele pintar um quadro dela. Depois, chegou a hora da seduo. Que bom que tudo vai terminar onde comeou! - Elise gesticulou com a arma. - Eu vou
atrs de voc, boa e doce Miranda.
Depois de um ltimo olhar para o irmo, ela se virou. Sabia que a arma estava apontada para as suas costas. Para a sua coluna, imaginava. Num lugar maior, ela teria
alguma chance. Se pudesse, distrairia Elise por um instante apenas, poderia tentar. Era maior, mais forte e era s.
- A polcia t chegando perto - disse para Elise, mantendo o olhar  frente. - O Cook t decidido a fechar o caso. Ele no vai desistir.
- Depois de hoje  noite, o caso vai ser encerrado. Continua andando. Voc sempre anda com tanta pose, Miranda, melhor manter a consistncia.
- Se voc atirar em mim, o que  que voc vai dizer?
- Eu espero que no seja necessrio. Mas, se for, vou colocar a arma na mo do Andrew, o dedo dele no gatilho, e atirar de novo. Vai ser confuso, mas, no
final, a concluso lgica vai ser que vocs discutiram por causa de negcios. Voc atacou o seu irmo, ele atirou em voc. A arma  sua, no final das contas.
- , eu sei. No deve ter sido fcil pra voc dar uma pancada na prpria cabea, depois de matar o Richard.
- Um galo, alguns pontos. Obtive muita simpatia depois disso, e foi muito bom pra me deixar com a ficha limpa. Como  que uma criaturinha frgil como eu teria
coragem de fazer um ataque daquele?
Ela encostou a arma na base da espinha de Miranda. - Mas voc e eu sabemos que eu posso fazer muito mais.
- , a gente sabe. Vamos precisar de uma lanterna.
- Pega uma. Voc ainda guarda a sua na segunda gaveta da esquerda, eu imagino. Uma criatura bem metdica...
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Miranda pegou a lanterna e ligou-a ao mesmo tempo em que testava seu peso. Poderia servir como arma. Tudo de que precisava era uma oportunidade.
Abriu a porta dos fundos e saiu ao encontro da chuva. Pensou em correr, em aproveitar a neblina. Mas a arma ainda estava pressionada s suas costas. Estaria morta
antes de dar o primeiro passo.
- Parece que a gente vai se molhar  bea.
O corpo curvado devido  chuva e ao vento, ela caminhou firmemente at o ponto. A distncia se fazia imperativa agora. Ouvia as ondas se quebrando violentamente,
provocadas pela tempestade. Cada rasgo de relmpago no cu iluminava rapidamente o abismo.
- O seu plano no vai funcionar aqui, Elise.
- Continua andando, continua andando.
- No vai funcionar. Se voc usar essa arma contra mim, agora, eles vo saber que tinha mais algum aqui. Vo saber que no poderia ter sido o Andrew. E vo
te descobrir.
- Cala a boca. Que  que isso te importa? Voc vai estar morta mesmo.
- Voc nunca vai ter tudo que eu tenho.  isso que voc realmente quer, no ? O nome, a origem familiar, a posio. Isso nunca vai ser seu.
- Voc t enganada. Eu vou ter tudo. E voc, em vez de simplesmente arruinada, vai estar morta.
- O Richard tinha uma caderneta. - Ela usou a luz circular da torre do farol para gui-la, mudando a direo da lanterna. - Ele escreveu tudo. Tudo o que
ele fez.
- Mentirosa!
- Tudo, Elise. T tudo documentado. Eles vo saber que eu tava certa. Morta ou viva, eu ainda vou levar a glria. Tudo o que voc fez vai ter sido pra nada.
- Cachorra! Sua cachorra mentirosa!
- Mas eu minto mal. - Dentes cerrados, ela fez um movimento brusco com o corpo. A fora da pancada alcanou Elise no brao
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e a fez cair no cho. Miranda pulou para cima dela, tentando pegar a arma.
Ela estivera errada, percebeu. A sanidade no era uma vantagem. Elise lutava como um animal, com unhas e dentes. Ela sentiu uma dor aguda, seguida de um calor no
pescoo, um jorro de sangue ao rolar com a outra pelo cho pedregoso em direo  beira do penhasco.
Ryan gritou o nome dela ao entrar correndo em casa, gritou e gritou enquanto subia as escadas. Quando encontrou Andrew, o terror comprimiu seu corao.
Ouviu o rugido do trovo, depois o eco de tiros. Com o medo encharcando-lhe a pele, atravessou s pressas as portas da varanda.
Ali, recortado pela luz dos relmpagos, ele viu duas figuras enroscadas no penhasco. Rezando pela primeira vez na vida ao pular a cerca, viu quando elas despencaram.
ESsTAVA sem ar, a garganta ardendo. HAVIA dor em todo lugar, cheiro de sangue e de medo. Ela agarrou a ponta escorregadia da arma, tentou apont-la para longe. O
revlver girou em sua mo, uma, duas vezes, e a fria do som fez com que seus ouvidos doessem.
Algum gritava, gritava, gritava. Ela tentou cravar seus saltos para equilibrar-se e percebeu que suas pernas balanavam no espao. Nos espasmos de luz dos relmpagos,
pde ver o rosto de Elise sobre o seu, contorcido, a boca escancarada, os dentes  mostra, os olhos cegos de loucura. Neles, por um apavorante segundo, conseguiu
ver a si mesma.
Ouvia seu nome vindo de algum lugar, em gritos desesperados. Como se respondesse, revirava-se, contorcia-se violentamente. Como Elise estava agarrada a ela, as duas
rolaram pelo abismo.
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Pde ouvir a gargalhada de uma mulher, ou talvez fosse um choro enquanto tentava se agarrar s pedras e  terra com os dedos, ao sentir-se sendo arrastada para baixo.
Milhares de oraes povoavam a sua cabea, milhares de imagens misturadas. As pedras arranhavam sua pele, e seu corpo lutava para segurar-se  parede do penhasco.
Resfolegando, desesperada de pavor, olhou por sobre o ombro e viu o rosto branco de Elise, os olhos sombrios, viu-a soltar a mo da pedra para apontar a arma - e
depois, a viu cair.
Tremendo, soluando, Miranda encostou o rosto na face fria do penhasco. Seus msculos latejavam, seus dedos ardiam. Logo abaixo, o mar que sempre amara sacudia-se
impaciente enquanto esperava por ela.
Sentiu um tremor na boca do estmago, uma nusea subindo-lhe pela garganta. Lutando contra essa sensao, levantou o rosto de encontro  chuva, viu a beirada logo
acima de sua cabea e observou o rasgo de luz que cruzava a escurido, vindo da torre do farol, como se para gui-la.
No morreria daquela maneira. No perderia daquela maneira. Manteve o foco do olhar e lutou para encontrar uma reentrncia onde pudesse apoiar os ps. Conseguiu
escalar um centmetro, depois mais um e seu p escorregou.
Estava pendurada pela ponta dos dedos quando Ryan apareceu na beira do penhasco.
- Jesus! Meu Jesus, Miranda, agenta firme! Olha pra mim. Miranda, olha pra mim, pega a minha mo.
- Eu t escorregando!
- Pega a minha mo. Voc tem que esticar o brao, s um pouquinho. - Ele se segurou nas pedras escorregadias e estendeu as duas mos para ela.
- Eu no posso soltar. Os meus dedos esto congelados, no posso soltar. Eu vou cair!
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- No, voc no vai. - O suor escorria-lhe pelo rosto, juntamente com a chuva. - Pega a minha mo, Miranda. - Apesar de apavorado sorria para ela. - Anda,
dra. Jones. Confia em mim.
Ela deixou o ar escapar num soluo selvagem, irregular. Retirou seus dedos dormentes da rocha e estendeu-os para ele. Por um brevssimo instante, sentiu-se pendurada,
muito perto da morte. Depois, a mo dele agarrou a sua com firmeza.
- Agora a outra. Eu preciso das suas duas mos.
- Meu Deus, Ryan! - Cega, ela cedeu.
Quando o peso dela dominou seus braos, ele pensou que os dois cairiam. Andou para trs, culpando a chuva, que fazia com que as mos dela escorregassem, que parecia
transformar as pedras em vidro. Mas ela o estava ajudando, empurrando o prprio corpo com os ps, a respirao um silvo, devido ao esforo.
Ela usou os cotovelos na beirada, fazendo presso para baixo, arranhando-os ao arrastar-se pelos ltimos centmetros at o topo.
Quando caiu por cima dele, Ryan a envolveu nos braos, colocou-a no colo e ninou-a sob a chuva.
- Eu vi voc cair. Achei que estava morta.
- Era pra eu estar. - Enterrou o rosto no peito dele, onde o corao batia desgovernado. A distncia, ouviram os gritos de sirenes. - Se voc no viesse,
eu no teria agentado muito tempo.
- Voc teria agentado. - Ele afastou a cabea dela, olhou-a nos olhos. Havia sangue em seu rosto. - Voc teria agentado - repetiu. - Agora voc pode se
amparar em mim. - Ele a pegou no colo, para lev-la para casa.
- No me deixa por um tempo.
- Eu no vou deixar.

Eplogo

Mas ele a deixou. Ela deveria ter sabido que ele o faria. O ladro filho da me.
Confie em mim, ele disse. Ela confiou. Ele salvara sua vida, simplesmente para deix-la, desprotegida, em pedaos.
Ah, ele esperara, Miranda pensava enquanto andava de um lado a outro no quarto. Ficara com ela at que suas feridas cicatrizassem. Ficara ao seu lado at terem certeza
de que Andrew estava fora de perigo.
Seus braos a envolveram protetoramente quando ela relatou o pesadelo que vivera com Elise.
Ele at mesmo segurara sua mo enquanto davam a Cook a verso dos eventos ligeiramente alterada por Ryan. E ela deixara. Corroborara tudo o que ele dissera, adicionando
detalhes pertinentes para mant-lo longe das grades.
Ele salvara-lhe a vida, afinal de contas. O verme.
Depois, desaparecera sem uma palavra, sem um aviso. Fizera as malas e se fora.
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Ela sabia exatamente para onde ele tinha ido. Ele era a nica pessoa, fora ela, que sabia da existncia do guarda-volumes. Ele fora atrs da Senhora Sombria. No
duvidava disso agora, fora atrs dela e do Davi. Provavelmente j os teria passado a um dos clientes por uma gorda soma e estaria se divertindo numa praia tropical,
tomando rum enquanto passava bronzeador no bumbum de alguma loira.
Se nunca mais o visse... mas  claro que no o veria. Os negcios que tinham em comum - a parte legal dos negcios - estavam sendo administrados pelo gerente de
sua galeria. A exposio era sucesso absoluto. Ele se beneficiara disso e do seu envolvimento na soluo de vrios assassinatos.
Miranda tinha sua reputao de volta. A imprensa internacional era s elogios a ela. A brava e brilhante dra. Jones.
Elise quisera destru-la, e, no final, acabara coroando-a.
Mas ela no tinha os bronzes, e ela no tinha Ryan.
Precisou aceitar que nunca teria nenhum deles.
Agora, estava s numa casa grande e vazia, Andrew enfiado na casa da noiva enquanto se recuperava. Ele estava feliz e se curando, e ela era grata por isso. E miseravelmente
invejosa dele.
Tinha sua reputao, tudo bem, pensou. Tinha o instituto e, talvez, finalmente, a certeza do respeito dos pais, se no do seu amor.
Ela no tinha vida alguma.
Portanto, criaria uma nova. Passou a mo, impaciente, pelo cabelo. Aceitaria o conselho das pessoas e tiraria longas e merecidas frias. Compraria um biquni, se
bronzearia e teria um caso.
Ah, sim, isso iria acontecer, pensou com desdm, e abriu as portas da varanda para respirar o ar morno da noite primaveril.
As flores que plantara em grandes jardineiras de pedra enchiam o ar com seu perfume. A doura dos botes, a graa dos cravos, o charme das verbenas. Sim, ela estava
aprendendo coisas adorveis e simples, usando o tempo para aprender. Para apreciar.
Para se dedicar ao momento.
Branca e cheia, a lua elevava-se acima do mar, navegava no cu com as estrelas e dava  paisagem ocenica que ela amava uma aura
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mstica e ntima. O mar entoava sua cano rude, com uma arrogncia que a fazia ansiar.
Ele fora embora havia duas semanas. Ela sabia que no voltaria. Ela tiraria suas frias, mas ficaria ali mesmo. Era ali que precisava estar. Em casa. Construindo
o lar que nunca lhe fora dado. Ela terminaria o jardim, mandaria pintar as paredes. Compraria novas cortinas.
E, apesar de no pretender confiar em homem nenhum pelo resto da vida, pelo menos sabia que podia confiar em si mesma.
- O momento seria mais mgico se voc estivesse vestindo um robe comprido e esvoaante.
Ela no se virou de uma vez. Ainda tinha controle suficiente para isso. Girou lentamente.
Ele sorria para ela. Vestido em seus trajes negros de ladro, de p, Ryan sorria para ela no quarto.
- Jeans e camiseta - ele continuou. - Apesar de voc ficar muito bem assim, essa roupa peca pela falta de romantismo de um robe de seda esvoaando ao sabor
da brisa. - Ele foi at a varanda. - Oi, dra. Jones.
Ela o encarou, sentiu os dedos dele tocando-lhe o rosto, onde um hematoma ainda no havia desaparecido por completo. - Seu filho da me - ela disse, dando-lhe um
soco.
O gesto fez com que ele desse vrios passos para trs, turvou sua viso. Mas tinha bom equilbrio. Mexeu o maxilar cuidadosamente, secou o sangue no canto da boca.
- Bem, essa  uma maneira e tanto de dizer oi. Com certeza voc no ficou muito feliz de me ver.
- A nica maneira de eu ficar feliz seria te ver atrs das grades, seu canalha. Voc me usou, mentiu pra mim. Confia em mim, voc falou, e o tempo todo estava
era atrs dos bronzes.
Ele passou a lngua sobre os dentes e a gengiva, sentiu gosto de sangue. Caramba, a mulher tinha um soco eficiente. - Isso no  inteiramente correto.
Ela cerrou o punho, pronta para us-lo novamente. - Voc foi pra Florena, no foi? Voc saiu daqui, entrou num avio e foi pra Florena atrs das esttuas.
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- Claro. Eu te disse que faria isso.
- Ladro miservel.
- Eu sou um excelente ladro. At o Cook acha isso, embora nunca tenha conseguido provar. - Sorriu outra vez, passou os dedos pelo cabelo cheio e escuro que
a brisa desarrumara de maneira sexy. - Agora eu sou um ladro aposentado.
Ela cruzou os braos. Seu ombro esquerdo ainda estava dolorido da noite no penhasco, e a dor era menor quando o segurava.
- Imagino que voc possa viver muito bem com o que conseguiu pelos bronzes.
- Um homem no precisaria trabalhar nunca mais, em muitas vidas, pelo que vale o Michelangelo. - Apesar de ela cerrar os punhos, ele a observava atentamente
enquanto pegava um charuto.
- Ela  a coisa mais extica e linda que eu j vi. A cpia era boa, dava vazo ao poder dela. Mas no era capaz de captar aquele corao, aquele esprito,
aquela essncia. Fico bobo como algum que tenha visto as duas possa ter confundido uma com a outra. A Senhora Sombria canta, Miranda. Ela  incomparvel.
- Ela pertence ao povo italiano. Pertence a um museu, a um lugar onde possa ser vista e estudada.
-  a primeira vez que voc se refere a ela assim. Antes, voc sempre dizia a esttua, o bronze, nunca "ela .
Ela se virou para o gramado, viu o jardim - o seu jardim, agora
brilhando sob o luar.
- Eu no vou discutir pronomes com voc.
-  mais que isso, e voc sabe. Voc aprendeu uma coisa que deixou passar esses anos todos, na sua busca por conhecimento. A arte  viva.
Ele deixou escapar a fumaa de uma tragada. - Como t o Andrew?
- Agora voc quer falar sobre a minha famlia. timo. Ele t muito bem. A Elizabeth e o Charles tambm. - Era assim que pensava neles, agora. - Eles voltaram
para as suas vidas separadas, e,
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apesar da Elizabeth sofrer pela perda da Senhora Sombria, vai muito bem, obrigada. Ela sofreu mais pela Elise. Pela quebra de confiana e de afeio. - Virou-se.
- Eu sei como ela se sente. Eu sei exatamente como  ser usada e descartada desse jeito.
Ele comeou a se encaminhar para ela, depois mudou de idia e recostou-se na parede. Seduo, desculpas, palavras melosas no seriam a melhor estratgia com Miranda
naquele estado de esprito.
- A gente usou um ao outro - ele a corrigiu. - E fez um bom trabalho, diga-se de passagem.
- E agora acabou - ela disse friamente. - O que  que voc quer aqui?
- Eu vim pra te oferecer um acordo.
- Jura? Por que eu faria um acordo com voc?
- Muitas razes me vm  cabea. Responde primeiro: por que voc no me entregou pra polcia?
- Porque eu mantive a minha palavra.
- S isso? - Como ela no respondeu, ele encolheu os ombros, mas se sentiu incomodado. - Tudo bem, ento, direto aos negcios. Eu trouxe uma coisa que voc
vai gostar de ver.
Depois de jogar o charuto por cima da grade, ele voltou para o quarto. Pegou sua bolsa, tirou o contedo cuidadosamente embalado. Antes mesmo que ele abrisse o embrulho,
ela soube, chocada demais para falar.
- Linda, no ? - Ele levantou a estatua como um homem segura a amante, com cuidado e posse. - Foi amor  primeira vista pra mim. Ela  uma mulher que deixa
os homens de joelhos, e sabe disso. Nem sempre  gentil, mas fascina. No  de admirar que assassinatos tenham sido cometidos por ela.
Olhou para Miranda, analisou sua aparncia, a luz do luar sobre seus cabelos e seus ombros. - Voc sabia que, quando eu encontrei o bronze, guardado numa caixa de
metal, trancado numa cmoda naquela garagem imunda, onde o carro da Elise tava escondido, alis, quando tirei a esttua dali e a segurei assim pela primeira vez,
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juro que ouvi o som de harpas. Voc acredita nesse tipo de coisa, dra. Jones?
Ela mesma quase podia ouvir, como nos prprios sonhos.
- Por que voc trouxe A Senhora Sombria pra c?
- Imaginei que voc ia gostar de v-la de novo. De ter certeza de que eu estava com ela.
- Eu sabia que voc estava com ela. - Ela no conseguia evitar. Aproximou-se e passou os dedos sobre o rosto sorridente. - Soube disso durante duas semanas.
Assim que me dei conta de que voc tinha ido embora. Eu tive certeza. - Ela levantou o olhar do bronze para o rosto dele. Aquele rosto bonito e traioeiro. - No
esperava que voc voltasse.
- Na verdade, pra ser sincero, nem eu. - Ele colocou o bronze na mesa de pedra. - Ns dois conseguimos o que queramos. Voc, a sua reputao. Quase se tornou
uma celebridade. Ganhou sua defesa. Mais que isso, foi laureada. Imagino que tenham aparecido ofertas de editoras e de Hollywood pra contar a sua histria.
Era verdade, e isso continuava a constrang-la. - Voc no respondeu  minha pergunta.
- Vou chegar l - ele murmurou. - Eu mantive o acordo. Nunca concordei em devolver o Davi e, quanto a ela, nunca combinei nada alm de descobrir onde ela
estava. Descobri, e agora ela  minha; ento, tem um novo acordo na mesa. Quanto voc quer por essa esttua?
Ela precisou de muita fora de vontade para no deixar o maxilar cair. - Voc t falando em vender pra mim? Voc quer que eu compre uma propriedade roubada?
- Na verdade, eu estava pensando numa troca.
- Uma troca? - Ela pensou no Cellini que ele cobiava. E no Donatello. Suas mos comearam a coar. - O que  que voc quer por ela?
- Voc.
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Seus pensamentos, rpidos, pararam subitamente. - Como? Eu no entendi.
- Uma dama por uma dama. Parece justo.
Ela foi at o final da varanda, depois voltou. Ah, ele era pior do que um verme, ela concluiu. - Voc espera transar comigo em troca de um Michelangelo?
- Deixa de ser boba. Voc  gostosa, mas ningum  to gostosa assim. Eu quero o pacote completo. Ela  minha, Miranda. Eu posso at reivindicar privilgios
por ter encontrado o bronze, embora no tenha certeza de que vai dar certo. Mas ela t comigo, no com voc. Nos ltimos dias me ocorreu, no sem desconforto, que
eu te quero mais do que a esttua.
- Eu no estou acompanhando.
- T, sim. Voc  inteligente demais pra no entender. Ela pode ser sua. Pode colocar em cima da lareira ou mandar de volta pra Florena. Pode usar como peso
de porta, eu no t nem a. Mas voc vai ter que me dar o que eu quero por ela. Eu gosto da idia de morar aqui.
Ela sentia uma presso terrvel no peito. - Voc quer morar aqui?
Ele estreitou os olhos. - Sabe, dra. Jones, acho que voc no t fingindo que  boba. Voc s no t entendendo. , eu quero morar aqui.  um bom lugar pra criar
os filhos. Olha s, voc ficou plida como um fantasma. Meu Deus, isso  uma das coisas que eu amo em voc. Sempre to chocada quando algum interrompe a sua lgica.
E eu te amo, Miranda, alm da razo, alm da lgica.
Ela emitiu algum som, nada que se identificasse com palavras, ao passo que seu corao claudicava dentro do seu peito. Tropeava. Caa.
Ele foi at ela, mais divertido que assustado. Ela no moveu um s msculo. - Eu realmente vou insistir na questo dos filhos, Miranda. Sou irlands e italiano.
Que mais voc poderia esperar?
- Voc t me pedindo em casamento?
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- Estou trabalhando pra chegar l. Voc pode ficar surpresa com o fato de que isso no  mais fcil pra mim do que pra voc. Eu disse que te amo.
- Eu ouvi.
- Caramba, como voc  teimosa... - Ele parou de falar, inspirou fundo. - Voc quer o bronze, no quer? - Antes que ela pudesse responder, ele segurou seu
queixo. - Voc t apaixonada por mim. - Quando as sobrancelhas dela se juntaram, ele sorriu.
- Nem precisa se dar ao trabalho de negar. Se voc no estivesse, teria me entregado pra polcia assim que descobriu que eu tinha ido atrs dela.
- Eu teria superado.
- Mentirosa. - Baixou a boca, encostou seus lbios nos dela.
- Aceita o acordo, Miranda. Voc no vai se arrepender.
- Voc  um ladro.
- Aposentado. - Ele moldou o quadril dela com uma das mos, enfiou a outra no bolso. - Toma, vamos oficializar essa histria.
Ela se esforou para desvencilhar-se do beijo e puxou a mo quando ele comeou a deslizar o anel em seu dedo. O anel, ela percebeu com surpresa e prazer, que ele
lhe dera antes.
- Deixa de ser cabea-dura. - Ele pegou a mo dela, esticou seus dedos e colocou o anel no lugar. - Aceita.
Agora ela reconhecia a presso em seu peito. Era seu corao batendo forte novamente. - Voc pagou pelo anel?
- Jesus! Paguei, paguei pelo anel.
Ela considerou a situao por um instante, observou o brilho da joia. Ele que sofra um pouco, pensou. Desejou. - Vou devolver a esttua pra Itlia. As explicaes
de como ela veio parar nas minhas mos vo ser esquisitas.
- A gente vai pensar em alguma coisa. Aceita o acordo, caramba!
- Quantos filhos?
O sorriso dele se ampliou lentamente. - Cinco.
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Ela deixou escapar uma gargalhada. - Por favor! Dois!
- Trs, com uma opo.
- Trs e ponto final.
- Feito. - Ele comeou a baixar a cabea, mas ela bateu com a mo em seu peito. - Eu no acabei.
- Voc teria acabado, darling, se eu tivesse te beijado - ele disse, com arrogncia suficiente para faz-la lutar contra um sorriso.
- Nenhum servio por fora - disse prontamente. - Por nenhum motivo.
Ele gemeu. - Nenhum motivo?
- Nenhum motivo.
- Eu estou aposentado - ele murmurou, mas precisou afagar a dor no peito. - Nenhum servio por fora.
- Voc vai me entregar todas as identidades falsas acumuladas durante a sua carreira brilhante.
- Todas? Mas... - Ele se interrompeu. - Tudo bem. - Sempre poderia conseguir outras, caso as circunstncias o empurrassem para isso. - Prximo item?
- T bom, j chega. - Ela acariciou a face dele, depois emoldurou-lhe o rosto. - Eu te amo alm da razo, alm da lgica - ela murmurou, cuidando das palavras
que devolvia a ele. - Eu aceito o acordo. Aceito voc, mas isso significa que voc me aceita. Aceita a maldio dos Jones. Eu no dou sorte.
- Dra. Jones. - Ele levou os lbios s mos dela. - Sua sorte est prestes a mudar. Confia em mim.
